Mudança que vem anunciada pelo governo de Geraldo
Alckmin nas escolas é criticada por docentes e pela Apeoesp.
Redação - Revista Samuel / www.cartamaior.com.br
“A política
educacional é perversa demais nesse Estado. (…) E no final a grande lição é:
passa todo mundo para não ter problemas”. A conclusão é de uma professora de
biologia da Rede Estadual de Educação de São Paulo que, em seu Facebook, postou
um desabafo a respeito da política educacional do governo Geraldo Alckmin.
A indignação da professora, que atua na rede há
dois anos, tem como ponto de partida a reorganização que está sendo realizada
pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, cujo objetivo é ampliar, a
partir do primeiro semestre de 2016, o número de escolas exclusivas para cada
um dos três ciclos de educação: o primeiro reúne os alunos do 1º ao 5º ano do
ensino fundamental; o segundo, dos alunos do 6º ao 9º ano do fundamental, e o
terceiro reúne os três anos do ensino médio.
Segundo o governo, em escolas com ciclo único os
alunos têm rendimento 10% superior às unidades com três ciclos de ensino. Mas,
pais e professores veem a medida como mais um obstáculo a ser enfrentado.
No caso dos docentes, aqueles que possuem sua carga
horária de aulas somente em uma escola com turmas do ensino fundamental e
médio, terão que se deslocar para poder completar a jornada, aumentando seus
gastos e desgaste.
Em entrevista ao site G1, a presidente da Apeoesp
(Sindicato dos Professores) declarou que o sindicato não vê vantagens
pedagógicas na nova proposta: “Se você tem um aluno que estudou numa escola e
criou raízes ali dificilmente ele vai se ver identificado em outra escola que
ele não escolheu para estudar, mas que ele foi obrigado a ir porque a
secretaria organizou e não discutiu isso com o conselho de escola, com pais,
com os alunos”.
Apesar da mobilização, poucas reivindicações dos
professores foram atendidas pelo governo estadual
Mas, não é só esse o problema enfrentado
diuturnamente nas salas de aula. Leia a íntegra do relato:
"A política educacional é perversa demais
nesse Estado. Não tem merenda, não tem material, não tem janela, e eu tenho que
ser um ser de luz, passar por cima de todos os problemas e inspirar pessoas.
Mas que professor que para sobreviver dá aulas manhã, tarde e noite e chega
íntegro dentro de uma sala? Que consegue dar atenção especial para cada um dos
seus 50 alunos? Isso sem contar os alunos de inclusão que foram jogados nas
salas de aula.
Bom, fiquei pensando, falo, não falo, mas a
angústia é grande, não cabe no peito. Dia de Conselho na escola:
1. Direção garante que não devemos nos preocupar
com as mudanças para 2016. Professores alegremente acatam. E eu indignada!
2. Estou com problemas em dois primeiros anos [do
Ensino Médio]. Uma professora me avisa que um colega disse para essas salas que
não posso reprovar ninguém porque fiz greve. Os alunos entendem então que não
precisam fazer nada na minha matéria – e não o fazem, inclusive riem da minha
cara. Tenho vontade de chorar toda vez que tenho de entrar nessas salas.
3. A SEE [Secretaria Estadual de Educação] está
pressionando as escolas com muita retenção/evasão. Da gama de problemas
sociais, psicológicos e materiais que temos, depois de uma longa manhã de
broncas, pudemos concluir que o problema é o professor e somente ele. Não vamos
atrás de CADA aluno para saber o que aflige seus coraçõezinhos e não mudamos a
dinâmica pessoal para cada aluno. Ou seja, numa sala de 50 alunos onde tenho
duas aulas semanais, tenho que saber o porquê de cada um não ir bem na matéria,
o porquê de ele não se interessar, etc, etc (não é só na minha disciplina, isso
é geral). Além disso, tenho que dar conta da matéria e garantir que cada um
aprenda com suas dificuldades pregressas.
Enfim, repenso a minha aula todo dia, e acho graça
do negócio todo. Os alunos estão afundando em notas vermelhas em 12 matérias,
mas eles não têm culpa em momento algum e os outros fatores da balança não são
levados em conta. A culpa é do professor que não é didático, psicólogo, gestor,
pai e mãe, policial, assistente social.
E no final a grande lição é: PASSA TODO MUNDO PARA
NÃO TER PROBLEMAS.
Acho triste. E a defesa de alguns [professores]
para permanecer no ensino público – de que salário ‘pinga, mas não falta’ – me
mata todo dia”.
Créditos da foto: Flickr/Romerito Pontes
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