Crise

Crise
Crise Brasileira

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Terra de Gilmar

Gostemos ou não, é pela genialidade de seus jogadores de futebol, porém, que o país tornou-se, e (infelizmente) mantém-se, mundialmente afamado.

        Ivan Salomão

País abençoado que é, o Brasil sempre ostentou a fartura com que foi agraciado nas mais diferentes esferas. Da natureza opulenta à cordialidade buarquiana de seu povo. Gostemos ou não, é pela genialidade de seus jogadores de futebol, porém, que o país tornou-se, e (infelizmente) mantém-se, mundialmente afamado.

No universo futebolístico, pouco destaque se dá àqueles cuja função é inescapavelmente ingrata: os defensores e, mais especificamente, os goleiros. Dentre estes, urge congratular um subgrupo muito peculiar: os guarda-metas de nome Gilmar.

Nos anos 1950, o paulista Gylmar dos Santos Neves – ou simplesmente, Gilmar – deslumbrou o mundo da bola ao desafiar o impossível: sob o travessão, Gilmar operava milagres. Bi-campeão mundial pela seleção, é considerado o melhor goleiro da história do Corinthians e um dos melhores, se não o maior arqueiro brasileiro de todos os tempos.

Verdugo dos atacantes desavisados, Gilmar transmitia segurança indefectível aos seus. A qualquer deslize da zaga, lá estava Gilmar para realizar intervenções jamais vistas. Quando se tinha plena certeza de que nada, absolutamente nada poderia impedir o tento da equipe adversária, lá aparecia Gilmar para defender o indefensável. Havia até quem duvidasse da possibilidade real de aquilo de fato ocorrer, pois Gilmar punha à prova a mecânica quântica: definitivamente, ele ocupava mais de um espaço ao mesmo tempo. Mas não, não se tratava de miragem; eram cenas reais, executadas publicamente e à luz do dia.

Menos aclamado, mas igualmente elástico, o gaúcho Gilmar Rinaldi também engrandeceu a posição na década de 1980. Líder inconteste dentro das quatro linhas, sagrou-se inúmeras vezes campeão por todos os clubes pelos quais atuou – Internacional, São Paulo, Guarani e pelo saudoso Flamengo do início dos 90. No fim da carreira, foi merecidamente convocado para compor a seleção tetracampeã de 1994.

Para o regozijo de alguns, as defesas dos Gilmar brasileiros não se restringem aos gramados. Recentemente, sonhei ter assistido à atuação igualmente inacreditável de um desses homônimos encapados. Sob qualquer aspecto, a proteção mágica por ele oferecida era tão inarrável que nem o mais engenhoso dos ilusionistas poderia conceber tamanha maestria. Se a ele cotejados, seus xarás supracitados não passariam de debutantes pré-púberes na arte de naturalizar o absurdo sem sequer enrubescer-se.

Ratos do Brasil hodierno, não se amofinem. Emirjam do subterrâneo, pois não há o que temer: vocês jamais serão desamparados. Gilmar, lépido e intrépido, moverá o universo para salvaguardar-lhes a pele.

Ivan Salomão, professor de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Créditos da foto: Agência Estado

Nenhum comentário:

Postar um comentário