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“Todas as coisas se dissipam onde tiveram a sua gênese, conforme a necessidade; pois pagam umas às outras castigo e expiação pela injustiça, conforme a determinação do tempo” (Anaximandro de Mileto).
1.
A afirmação que epigrafa este artigo, pensado e escrito a duas mentes e quatro pés (porque devemos também pensar com os pés), nos vem de um fragmento de Anaximandro, escrito há mais de dois milênios e meio, e considerado por Martin Heidegger a mais antiga sentença filosófica do pensamento ocidental. Enigmática, a sentença ilumina as sombras e dissipa a fumaça que a classe dominante, de forma serial e ostensiva, lança sobre o mundo político brasileiro.
Se de Hegel temos a lição de que a verdade é o todo, também é necessário admitir como parte do todo as dissimulações produzidas para impedir sua compreensão. Com justa razão, e para introduzir dúvida na certeza hegeliana, Theodor Adorno, munido das armas de sua dialética negativa, escreve de modo reverso que o todo é o falso.
Não temos medida segura, nem sociológica, nem filosófica (ou tudo junto) para objetivar o coeficiente de falsidade que de verdade move as estruturas da proclamada e nunca materializada República Federativa do Brasil. Se por democracia entendemos poder do povo, como chamar de democrático um Estado em que o povo, mais do que um conceito vazio, porque efetivamente expropriado de poder, é um artifício de que faz uso a classe dominante para envenenar aquela parte do povo sem consciência de classe com a mentira de que ele governa quando vota.
Se algo nos conforta nesse jogo rasteiro, e tão bem controlado pelo poder corporativo dos jornalões (não gratuitamente denominado de Partido da Imprensa Golpista, que inclui rádio, TVs e redes ditas sociais) é o princípio irrevogável da precedência ontológica do real sobre as sombras produzidas para ocultá-lo. Cabe sempre à determinação do tempo, para aqui voltar à sentença de Anaximandro, a palavra final e definitiva.
A recente notícia plantada no jardim da dissimulação midiática pelo jornalista Lauro Jardim, dando conta de que as cinebiografias de Michel Temer e Lula também teriam recebido financiamento de Daniel Vorcaro, outro fim não teve senão o de semear confusão. A notícia não foi checada e tinha o inconfessado propósito de alimentar e aplanar o terreno para que as bases ensandecidas da extrema direita encontrassem livre passagem junto a seus (possíveis) críticos.
Esse é o velho exercício de “tornar” a terra política plana, bem realizado por boa parte dos “jornalistas” que se presumem neutros ou isentos. O que não falta aos jornalões é senso de oportunidade. Largar (por força da irresistível força ontológica do real) o candidato ungido dentro de quatro paredes a partir da inominável paternidade e fabricar uma saída eleitoralmente viável e devidamente afinada aos interesses da direita e da extrema direita. No Brasil de 2026 é a extrema direita, inteiramente desinibida, que formata a política.
2.
É dentro das quatro linhas definidas pela extrema direita que a “grande” imprensa e alguns de seus pequenos jornalistas (ainda que com oportuna e limitada efusividade) farão o esforço hercúleo de: (a) inventar um candidato direitista capaz de concorrer eleitoralmente com Lula e (b) com essa justificativa, a cada qualidade negativa de seu candidato criar uma (ou quantas forem necessárias) para atribuir a Lula. Essa é a lógica da “neutralidade” que orienta o jornalismo-empresarial brasileiro. É a neutralidade sectária, uma alternativa à objetividade incômoda ao relativismo absoluto dos interesses abrigados sob o nome fantasia “direita” ou “extrema direita”.
Estadão e Folha de S. Paulo abraçaram a extrema direita, mas a querem mais adestrada do que era o Dark Horse. É preciso alguém capaz de sentar à mesa de jantar, sabendo usar os talheres e copos certos para as comidas e bebidas servidas. Na ausência de ética a etiqueta é um eficiente sucedâneo. Não são necessários muitos e bons neurônios, mas a ausência completa de inteligência é um embaraço, pois exige mais esforço jornalístico para neutralizar os absurdos.
As elites nacionais e transnacionais fizeram do Brasil um grande laboratório para experimentos de políticas neoliberais. A sociedade é o hospedeiro no qual se introduziu o vírus. Primeiro, Collor de Mello. Um desconhecido aventureiro tornado presidente de uma República em busca de rejuvenescimento. Em dois anos o experimento foi abortado, pois o vetor tendia a matar seu hospedeiro. O segundo, FHC, o vetor ideal, manejável, adaptável, habilidoso, capaz de iludir e dissuadir, no dengo ou na porrada. Percebeu-se, porém, que o domínio de várias línguas e conhecimento não são suficientes para conter os efeitos autodestrutivos do vírus neoliberal.
Veio, então, o que parecia ser a fórmula perfeita, e foi! Lula conseguiu a proeza de, diferentemente de seu antecessor, sair da presidência com aprovação popular excepcional, além de ter eleito para seu lugar Dilma Rousseff, a primeira presidente mulher do Brasil, que concorreu pela primeira vez a um cargo eletivo! Lula parecia ser a forma perfeita de manutenção do vírus neoliberal, pois mantendo um mesmo tipo de política, preservou o hospedeiro e o fez até esquecer da doença.
Mas o desenvolvimento da doença não depende apenas das qualidades do vetor. O ambiente do laboratório é decisivo e, sob vários aspectos, incontrolável. E Dilma Rousseff, mesmo que se esforçando ao máximo, não pode manter-se íntegra em relação às exigências de equilíbrio interno do hospedeiro e externo do laboratório. O experimento foi novamente abortado e optou-se por outro vetor da mesma cepa de Dilma Rousseff, afinal, seu vice, Michel Temer.
3.
Este se revelou o espécime perfeito! A forma autoritária de apear Dilma Rousseff do poder, um golpe parlamentar, e a posse com um “programa de governo” que rompia, definitivamente, com todas as formas de atenuar a barbárie neoliberal, o projeto Uma Ponte para o Futuro, restauraram e agudizaram as políticas implantadas com o Projeto de Reconstrução Nacional, de Fernando Collor e com o Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado, de FHC.
Não se tratava mais nem apenas de privatizar, desregulamentar e liberalizar a economia nacional, pois isso já havia avançado bastante; nem tampouco de manter o “tripé da política econômica”, isto é, o superávit primário, o câmbio flutuante e as metas de inflação, santíssima trindade preservada, inclusive pelos governos de Lula e Dilma Rousseff. Tratava-se agora de congelar o gasto e o investimento público por 20 anos!
E assim foi! E sempre mais, robustecido e livre, o capital seguiu seu exitoso curso.
A crise econômica e social se aguçou no país, servindo de estufa para a reorganização de segmentos que, órfãos da direita e desiludidos com a esquerda, adernaram à extrema direita. Jair Messias Bolsonaro é parido pela grande imprensa e pelos algoritmos das Big Techs como a face do desencanto ideológico convertido em encantamento político-publicitário.
Se o golpe em Dilma Rousseff teve como agente principal o Parlamento, nesse caso o golpe foi dado antes das eleições pelo Poder Judiciário. A Justiça Federal, o Ministério Público Federal e o Supremo Tribunal Federal, irmanados na Operação Lava-Jato, prenderam Lula e evitaram que se candidatasse para enfrentar o Messias escolhido para representar as elites nacionais no pleito presidencial de 2018.
O vírus do neoliberalismo mostrou, então, sua letalidade! Se FHC havia se proposto a “liquidar a Era Vargas”, Jair Bolsonaro empenhou-se em fazer do Brasil uma colônia administrada por feitores de farda, uns, paletó-e-gravata, outros, de chapéus de boiadeiros, ainda outros. Todos armados até os dentes! Bala, Bíblia e Boi se aliançaram numa nova trindade: segurança, fé e progresso. Nunca a classe dominante brasileira sentiu-se tão confortável.
4.
A brutalidade com que governou Jair Bolsonaro foi potencializada pela eclosão de uma pandemia oriunda de um vírus biológico, o SarsCov19. Mais de 700.000 pessoas morreram no Brasil, muitas das quais pela omissão governamental. Todas as áreas de ação do Estado foram sabotadas pelo próprio governo, e os já tênues laços entre Estado e sociedade se afrouxaram ainda mais.
Essa ruptura ganhou forma mais aberta ainda com o plano de golpe civil-militar engendrado desde o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro.
Perdidas as eleições de 2022 e frustradas as várias tentativas de desestabilização que as precederam, o golpe foi intentado por uma multidão em transe. Fracassado, o golpe levou à prisão seus líderes e restituiu alguma estabilidade institucional ao país. A extrema direita, que tinha uma liderança acéfala, passou a não ter mais liderança. Emergiram as disputas internas e as tentativas de, mais uma vez, retirar Lula do páreo. Agora, contudo, sem Lava-Jato, sem nada, restava apelar ao etarismo, ao “bom senso”, à “humildade” que abririam caminho para a ambição dos que se veem incapazes de fazer frente à sua liderança – goste-se ou não dela.
Para agravar o quadro, o moralismo ensandecido da extrema direita, dia após dia, derrete sob o calor dos fatos. A sucessão dinástica pretendida pelos Bolsonaro se revela improvável. Se a nulidade política do pai, burilada pelo marketing político e agenciada pelas Big Techs, transformou-se em liderança messiânica, parece mais difícil transformar as muitas realizações de Flávio, o 01, em algo além de denúncias. Seus vínculos com as milícias, suas práticas de extorsão e assédio e, agora, sua associação a um escroque acusado de dar um dos maiores golpes financeiros do século nos servidores públicos, tornam difícil as maquiagens.
Está posto o desafio para as elites nacionais. Em pouco tempo terão que minar a candidatura de Lula e inventar alguém que possa fazer frente a ele. Qual será a estratégia? Lula não dá sinais de desistir da candidatura, tampouco de que está doente ou incapaz de exercer um novo mandato. Vivemos num país em que facadas elegem nulidades e em que o pudor das elites acaba quando seus interesses não são assegurados. Quando o pêndulo da política se define pela força regressiva da extrema direita, até o centro, no qual tenta se mover a candidatura de Lula, passa a se apresentar como único e viável freio para o retrocesso ao qual novamente se inclina o rasteiro e fraudulento tabuleiro político modulado pelas classes dominantes nacionais.
Sob o poder do atraso, nos resta recorrer à sociologia (e à filosofia) da história lenta, para aqui concluir com José de Souza Martins, porque os próximos meses serão os mais longos de nossa história.
*Marcelo Seráfico é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
*José Alcimar é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
"A leitura ilumina o espírito".
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