Palestina: a fragmentação como efeito do colonialismo


A academia ocidental tende a isolar "questão de Gaza", "questão da Cisjordânia", "questão dos refugiados", raramente as articulando como sistema único de fragmentação. 


Por Rima Awada e Tiago Guilherme Faria

A fragmentação, no contexto da Palestina, não é um desvio ocasional de uma suposta unidade original nem simples expressão de divergências internas. Trata-se do efeito contínuo de uma engenharia colonial que atua simultaneamente sobre o território, as instituições e os regimes de verdade que definem o que pode ser dito, visto e legitimado como político. Como demonstra Edward Said em Orientalismo, não está em jogo apenas a dominação material, mas a própria inteligibilidade do mundo: quem pode aparecer como sujeito político e quem é reduzido à condição de problema.

Nesse cenário, a fragmentação se consolida também como construção narrativa. A repetição da ideia de que o campo palestino é intrinsecamente dividido ou incapaz de unidade desloca o olhar das condições históricas que produziram essas fissuras. Aquilo que surge como falha interna muitas vezes encobre uma longa trajetória de intervenções, cercos e limitações sistemáticas do possível. Ainda assim, atribuí-la exclusivamente a fatores externos simplifica o problema. No interior da sociedade palestina — e entre seus apoiadores — há disputas intensas que organizam o campo político: quem representa a causa, quais estratégias são consideradas legítimas, que alianças podem ser sustentadas. São essas disputas que desenham os contornos da ação política.

No entanto, como alerta Nahla Abdo, a exigência de unidade palestina frequentemente silencia vozes internas: mulheres, refugiados, trabalhadores precarizados, sob o lema da ‘causa única’. A fragmentação produz sofrimento, mas sua simples superação sem democracia interna produz novas exclusões.

A fragmentação imposta pelo colonizador não anula a existência de projetos políticos divergentes (classe, geração, geografia, ideologia). O erro seria tomar essas divergências como prova de incapacidade; mas o erro oposto seria romantizá-las como se fossem imunes à engenharia colonial.

Elas tampouco emergem no vazio. São atravessadas por décadas de ocupação, deslocamento forçado, vigilância e violência, que comprimem o espaço político e tornam cada escolha carregada de consequências existenciais. Quando os horizontes de ação são sistematicamente reduzidos, a divergência passa a operar como disputa por sobrevivência política. Como observa Frantz Fanon em Os condenados da Terra, o colonialismo estreita radicalmente o campo do possível, intensificando conflitos internos que, em outras condições, poderiam assumir outras formas.

A isso se soma a regulação externa da legitimidade. Não são apenas os atores locais que disputam representação: instâncias internacionais, jurídicas e midiáticas definem quais sujeitos e estratégias são reconhecidos como aceitáveis. Judith Butler contribui para essa análise ao mostrar que nem todas as vidas — nem todas as formas de luta — são reconhecidas como legítimas ou dignas de luto. Esse enquadramento diferencial produz um campo em que os próprios atores precisam disputar não apenas seus objetivos, mas o direito de existir politicamente.

Essa regulação da legitimidade produz um efeito prático: quando ocorre violência contra palestinos, o luto público é temporizado, condicionado ou silenciado; quando ocorre contra israelenses, o luto é imediato e incondicional. A fragmentação, aqui, não separa apenas territórios, mas hierarquiza dores.

A fragmentação atinge também a própria produção de saber: o palestino é estudado por “especialistas em conflito”, “analistas de segurança”, “observadores humanitários”; raramente é visto como teórico de sua própria condição. A academia ocidental tende a isolar “questão de Gaza”, “questão da Cisjordânia”, “questão dos refugiados”, raramente as articulando como sistema único de fragmentação.

A fragmentação não é falha; é efeito de formas específicas de governar. A partir de Michel Foucault, é possível compreendê-la como resultado de uma governamentalidade que opera pela gestão diferencial das populações: administra-se a diferença, distribuem-se privilégios e restrições, produzem-se assimetrias internas. A divisão, nesse sentido, não é acidente — é um método.

Nesses termos, a questão central se desloca: a quem interessa a fragmentação? Ela dificulta a emergência de um ator político unificado, capaz de sustentar posições consistentes de negociação ou enfrentamento; legítima intervenções externas ao reforçar a imagem de um campo caótico ou incapaz de autogoverno, como já foi indicado por Said; e, sobretudo, desloca a responsabilidade pela violência estrutural, obscurecida por conflitos internos aparentes.

É nesse contexto que o fratricídio precisa ser relido. O próprio termo “fratricídio” é delicado: a imprensa ocidental o usou para descrever conflitos entre Fatah e Hamas, sem jamais mencionar cercos, assassinatos seletivos ou colonatos. Por isso, quando o empregamos, é para imediatamente deslocá-lo. Longe de constituir apenas falha moral ou desvio individual, ele pode ser entendido como sintoma político de um campo radicalmente restringido.

Achille Mbembe, ao desenvolver o conceito de necropolítica, mostra como certos regimes organizam a vida a partir da gestão da morte e da precariedade. Quando a existência política é reduzida à sobrevivência, alianças tornam-se instáveis, a competição se intensifica e o outro próximo pode emergir como obstáculo.

Assim, a fragmentação divide; reorganiza vínculos, desestabiliza alianças e reconfigura o próprio campo do possível. A unidade, longe de ser um dado natural ou uma exigência moral abstrata, é uma construção política frágil, dependente de condições que, nesses contextos, são sistematicamente corroídas. Perguntar “por que não há unidade?” reforça o enquadramento que produz a divisão. A questão mais incisiva é outra: sob quais condições a unidade se torna insustentável — e a quem interessa que ela permaneça assim.

Se para Fanon, especialmente em Os condenados da Terra, a violência aparece como elemento constitutivo da situação colonial — não apenas como instrumento de dominação, mas como força que reorganiza o campo social e subjetivo —, é em Samah Jabr que essa intuição ganha espessura clínica e cotidiana. Fanon já indicava que, quando os canais de ação política são bloqueados, a violência tende a circular no interior da própria comunidade colonizada, podendo voltar-se contra aqueles que compartilham a mesma condição. No entanto, sua formulação permanece, em certa medida, no plano político-existencial.

Jabr radicaliza essa leitura ao mostrar que essa circulação da violência não é apenas um fenômeno social, mas uma dinâmica psíquica incorporada. Sob condições prolongadas de ocupação, a humilhação crônica, a impotência e a restrição da agência não apenas produzem revolta, mas desorganizam os modos de simbolização. Quando a violência não encontra vias de elaboração ou endereçamento, ela se desloca, infiltra-se nos vínculos e emerge nos espaços mais íntimos. O que Fanon descreve como reversão possível da violência para dentro, Jabr evidencia como experiência clínica: conflitos entre próximos, tensões familiares, agressividade difusa. Nesse cruzamento, o fratricídio passa a ser compreendido como efeito de uma economia psíquica saturada.

É nesse ponto que a contribuição de Mbembe introduz uma inflexão decisiva. Vai além do governo da vida e implica estruturar a morte, a exposição à morte e a precariedade como condições constitutivas da existência. Em contextos como o palestino, a vida política é progressivamente reduzida à sobrevivência, e o campo do possível é delimitado por regimes que distribuem desigualmente quem pode viver, como pode viver e sob quais condições pode morrer.

Quando essas três perspectivas se articulam, a fragmentação já não aparece como falha — interna ou externa —, sendo compreendida como resultado de um campo saturado por violência estrutural, restrição política e precarização da vida. Com Fanon, entendemos que o colonialismo comprime o espaço político e intensifica conflitos internos. Com Jabr, vemos como essa compressão se inscreve na subjetividade, produzindo deslocamentos da violência e desorganização dos vínculos. Com Mbembe, reconhecemos que tudo isso ocorre em um regime em que a própria vida é governada pela exposição à morte, tornando a sobrevivência o horizonte dominante.

Nesse entrelaçamento, o fratricídio surge como expressão-limite de um campo em que a disputa pela existência ocorre sob condições radicalmente desiguais e restritas. O “irmão” emerge também como concorrente em um espaço onde reconhecimento, legitimidade e sobrevivência se tornam escassos e permanentemente disputados.

Essa leitura muda o foco do problema: em vez de perguntar por que há divisão ou por que a violência se volta para dentro, importa compreender como certos regimes políticos, coloniais e necropolíticos produzem condições em que a unidade se torna quase inviável — e em que a própria possibilidade de existência em comum vai sendo, pouco a pouco, corroída.

E para nós, leitores situados fora da Palestina (acadêmicos, ativistas, observadores), a fragmentação também nos interpela. Não perguntar ‘por que eles não se unem?’ é apenas o primeiro passo. O segundo é perguntar: como nossas próprias formas de solidariedade, financiamento, produção de conhecimento e advocacy, muitas vezes sem querer, reproduzem essa fragmentação ao hierarquizar causas, ao buscar um “interlocutor legítimo único”, ao exigir coerência onde o que existe é sobrevivência em cacos?

Referências

ABDO, Nahla. Captive Revolution: Palestinian Women’s Anti-Colonial Struggle within the Israeli Prison System. Londres: Pluto Press, 2014.

ABDO, Nahla; MASALHA, Nur (org.). An Oral History of the Palestinian Nakba. Londres: Zed Books, 2018.

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Tradução de Sergio Tadeu de Niemeyer Lamarão e Arnaldo Marques da Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

BUTLER, Judith. Vida precária: os poderes do luto e da violência. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

FANON, Frantz. Os condenados da Terra. Tradução de Enilce Albergaria Rocha e Lucy Magalhães. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.

FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população: curso dado no Collège de France (1977–1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978–1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

JABR, Samah. Sumud em tempos de genocídio. Organização e tradução de Rima Awada Zahra. 1. ed. Rio de Janeiro: Tabla, 2024.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SAID, Edward W. A questão da Palestina. São Paulo: Editora Unesp, 2012.SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

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Rima Awada é libanesa brasileira, psicóloga, escritora, e coordenadora da pós-graduação do curso de Psicologia e Migração da PUC MG.

Tiago Guilherme Faria é advogado de Direitos Humanos e pesquisador em Psicologia Social pela UFMG, com atuação em liberdade de expressão, Direito Internacional e defesa da causa palestina.

"A leitura ilumina o espírito".

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