Na semana que finda, o ex-delegado da Polícia Civil Cláudio Guerra
delatou o comparsa de atrocidades durante a ditadura militar, o fundador do
jornal Folha de São Paulo, Octavio Frias de Oliveira (1912-2007). Revelou que
ele visitava “frequentemente” o Dops (Departamento de Ordem Política e Social),
que, como se sabe, era um centro de torturas.
A denúncia foi feita ao vereador Gilberto Natalini, presidente da
Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo. Além dessa denúncia,
também revelou que a Folha emprestou carros e ajudou a financiar os órgãos da
repressão na época – denúncia que não é nova e que figura no livro Cães de Guarda, da doutora em História
Social Beatriz Kushnir.
Palavras do denunciante: “O Frias visitava o Dops constantemente. Isso
está registrado.”
Sim, está registrado. Recentemente, a Comissão da Verdade de São Paulo
recebeu o livro de visitas do DOPS, onde empresários como Frias parece que
davam expediente, sendo “inexplicável” a razão para comparecerem a um centro de
torturas e morte seguidas vezes.
Segundo a própria Folha de São Paulo, em matéria publicada na
quinta-feira, “Guerra disse também que o publisher da Folha era ‘amigo pessoal’
do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais ativos agentes da repressão”.
O depoimento do congênere de Frias durante a ditadura foi apresentado em
vídeo na terça-feira em audiência da Comissão da Verdade na Câmara Municipal de
São Paulo.
Verdade seja dita, a Folha publicou as denúncias contra si em sua edição
de quinta-feira. A coragem do jornal, porém, contrasta com a covardia do
ministro da Educação, Aloizio Mercadante, que enviou carta ao Painel do Leitor
da publicação a fim de bajulá-la. Fazendo isso, Mercadante envergonhou o PT e
esbofeteou as vítimas da ditadura.
Leia, abaixo, o texto patético de alguém que é fundador do PT e ministro
da educação do governo Dilma e que foi publicado na edição da Folha desta
sexta-feira.
—–
A Folha publicou notícia de que o empresário Octavio Frias de Oliveira
visitou frequentemente o Dops e era amigo pessoal do delegado Sérgio Paranhos
Fleury, um dos mais ativos agentes da repressão.
A denúncia partiu do ex-agente da repressão, Cláudio Guerra. Recebi a
informação perplexo e incrédulo. Especialmente porque militei contra a ditadura
militar na dura década de 70 e tive a oportunidade de testemunhar o papel
desempenhado pelo jornal, sob o comando de “seu Frias”, na luta pelas
liberdades democráticas.
A coluna de Perseu Abramo sempre foi referência da luta estudantil nos
dias difíceis de repressão. A página de “Opinião” abriu espaço para o debate
democrático e pluralista. A Folha contribuiu decisivamente para a campanha das
Diretas Já.
Ao longo desses 40 anos de militância política, mesmo com opiniões
muitas vezes opostas às da Folha, testemunho que o jornal sempre garantiu o
debate e a pluralidade de ideias, que ajudaram a construir o Brasil democrático
de hoje.
E “seu Frias” merece, por isso, meu reconhecimento. Acredito que falo
por muitos da minha geração.
Aloizio Mercadante, ministro de Estado da Educação (Brasília, DF)
—–
Quem escreveu esse texto vergonhoso não foi um general de pijama nem um
dos barões da mídia, foi um dos fundadores do PT em 1980, vice-presidente do
partido entre 1991 e 1999, senador pelo estado de São Paulo entre 2003 e 2010,
ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil de 2011 a 2012 e que se
tornou ministro da Educação no ano passado.
Apesar de Mercadante ser filho de general do Exército, não parece que
seja essa a sua motivação para se fazer de desinformado e, assim, dar à Folha o
que ela precisava, um depoimento em defesa de Frias pai por parte de alguém
que, por ser petista, seria insuspeito de estar mentindo a favor dele – a Folha
parece reconhecer que está publicando o depoimento de um adversário político.
Mercadante apenas bajula a Folha como tantos outros petistas que acham
que podem ser menos pisoteados pelo jornal se rastejarem diante dele e se
ajoelharem em seu altar de mentiras. Mas caso o ministro da educação seja
apenas um idiota que chegou aonde chegou sem conhecer a história de seu país,
aí vão alguns esclarecimentos a ele.
O homem fardado e a declaração na foto que encima este texto
correspondem a Otávio Frias de Oliveira, o falecido fundador do jornal Folha de
São Paulo. Imagem e palavras pertencem a momentos distintos de sua vida.
Todavia, unidas, explicam quem foi ele.
Frias de Oliveira lutou na Revolução Constitucionalista de 1932, que
tentou dar um golpe de Estado contra Getúlio Vargas. Coerente com seu apreço
pelo militarismo e pela derrubada de governos dos quais não gostava, apoiou o
golpe militar de 1964.
Nesse período, a Folha de São Paulo serviu de voz e pernas para os
ditadores que se sucederiam no poder ao exaltá-los e ao transportar para eles
seus presos políticos até os centros de tortura do regime.
No dia 21 de setembro de 1971, a Ação Libertadora Nacional (ALN)
incendiou camionetes da Folha que eram utilizadas para entregar jornais. Os responsáveis
acusavam o dono do jornal de emprestar os veículos para transporte de presos
políticos. Frias de Oliveira respondeu ao atentado publicando um editorial na
primeira página no dia seguinte, sob o título “Banditismo”.
Eis um trecho do texto:
—–
Os ataques do terrorismo não alterarão a nossa linha de conduta. Como o
pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no
Brasil não há lugar para ele. Nunca houve. E de maneira especial não há hoje,
quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio
popular está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com
justiça social-realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo
todo reconhece e proclama. [...] Um país, enfim, de onde a subversão -que se
alimenta do ódio e cultiva a violência – está sendo definitivamente erradicada,
com o decidido apoio do povo e da imprensa, que reflete os sentimentos deste.
Essa mesma imprensa que os remanescentes do terror querem golpear.”
(Editorial: Banditismo – publicado em 22 de setembro de 1971; Octavio
Frias de Oliveira).
—–
O presidente da República de então era Emílio Garrastazu Médici. Nomeado
presidente pelos militares, comandou o período mais duro da ditadura militar.
Foi a época do auge das prisões, torturas e assassinatos de militantes
políticos de esquerda pelo regime.
Apesar dos elogios de Frias de Oliveira à ditadura, segundo a Fundação
Getúlio Vargas foi no governo Médici que a miséria e a concentração de renda
ganharam impulso. O Brasil teve o 9º Produto Nacional Bruto do mundo no
período, mas em desnutrição perdia apenas para Índia, Indonésia, Bangladesh,
Paquistão e Filipinas.
O que Aloizio Mercadante fez, não tem nome. Nem covardia e oportunismo
definem seu ato. O petista, porém, engana-se sobre a Folha. Se for
candidato a governador, ano que vem, terá oposição feroz do jornal. Sua
bajulação foi inútil.
Concluo este texto, portanto, com uma promessa: enquanto eu viver, esse
político nunca mais receberá um voto meu. Além disso, exorto quem me lê e
concorda com o que aqui foi dito a fazer o mesmo, pois quem age como o ministro
Aloizio Mercandante agiu não só não merece confiança, mas merece muita
desconfiança.

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