A capacidade de
investimento do Estado, neste mesmo movimento em que se priva a sociedade de
obras e serviços essenciais para seu funcionamento, está sendo destruída pela
burocracia de controles centralizados, a pretexto de evitar a corrupção.
J. Carlos de Assis
Carta Maior
A burocracia de controles centralizados está
destruindo, a pretexto de evitar a corrupção, a capacidade de investimento do
Estado no mesmo movimento em que priva a sociedade de obras e serviços
essenciais para seu funcionamento. É uma batalha ganha com mão de gato pelos
neoliberais: se o papel do Estado não pode ser reduzido por mecanismos
institucionais em face de uma possível reação retórica dos progressistas, que
seja reduzido pelo excesso e redundância de controles burocráticos e uma
exagerada centralização que não houve sequer no tempo da ditadura.
Já mencionei aqui a virtual destruição da capacidade de investimento do Estado
nos últimos dois anos na área de infraestrutura de transportes, a única que
vinha funcionando relativamente bem desde os dois últimos anos do Governo Lula.
Sua agenda anual de investimentos caiu de uma faixa de R$ 15 bilhões para menos
de R$ 5 bilhões neste ano. A Rede Globo fez uma extensa série de reportagens
sobre a situação de nossas rodovias e portos, assinalando um verdadeiro
colapso. Não mencionou a causa essencial desse descalabro: a paralisia pelos
controles, que está matando, por exemplo, a transposição do São Francisco.
Tenho certeza de que o general colocado pela presidenta Dilma no comando do
Ministério dos Transportes deve ser um dos homens mais probos do Brasil.
Incorruptível. Acontece que ele não consegue levar a bom termo nenhuma
licitação. As que tentou ficaram desertas. Por outro lado, ele deve estar um
tanto desorientado pela mudança institucional que a presidenta, inspirada por
alguns grandes empresários, teima em levar adiante no setor mediante as tais
PPP (Parcerias Público Privadas). Isso não vai funcionar nunca para obras
novas. A não ser que se faça como no Maracanã e em outras obras da Copa, ou
seja, o Estado constrói e paga tudo, e depois repassa ao setor privado para ele
explorar sob forma de concessão.
A Presidenta quer que o setor privado construa a obra com financiamento do
BNDES e depois pague por ela com a receita, no caso de rodovias, de pedágios. É
uma ilusão. O setor privado, mesmo que receba financiamento em condições
generosas, como é o caso, não está a fim de assumir obrigações dele resultantes
ao longo de décadas. Ademais, em se tratando de infraestrutura nova de
transportes, ou se corre o risco de não ter taxa de retorno suficiente para
justificar o investimento, ou se inviabilizarão os transportes brasileiros por
conta dos altos pedágios.
Esse, contudo, é um caso em especial, o mais aberrante. O excesso de burocracia
está em rigorosamente todos os setores da administração. A centralização
excessiva é uma praga que se instalou no Brasil sobretudo depois da crise da
dívida externa nos anos 80. E não parou mais. A crise da dívida e a ortodoxia
financeira que se seguiu impuseram um processo de centralização financeira em
caixa única que se estendeu aos Estados. A razão fundamental era: a caixa única
possibilita pagar os juros da dívida pública, a partir de receitas reais, à
custa de estreitamento das outras despesas do Estado, inclusive as sociais e de
infraestrutura.
Aí, de novo, surge o monstro neoliberal dando suas cartas, e os progressistas
apenas engolindo em seco, na mais das vezes nem entendendo o que está
acontecendo. Os governos militares possibilitaram algum grau de
descentralização com a criação das fundações públicas com capacidade de geração
de recursos próprios. Pois bem, os governos “democráticos”, notadamente os de
Fernando Henrique e de Lula/Dilma, estão matando as fundações e lhes tirando
flexibilidade administrativa, tudo em nome da prevenção à corrupção. É uma
paranoia apoiada na ideia vulgarizada de que todos agentes públicos são ladrões
até que se prove o contrário.
Um caso paradigmático está ocorrendo na UFRJ. A Coppe e Coppetec, instituições
do mais alto nível acadêmico e científico-tecnológico no Brasil, ligadas à
Universidade, financiam a maioria do seus projetos a partir de receitas
próprias. Esse modelo está sendo questionado pela Fazenda e pela CGU em nome do
princípio da caixa única: é para a caixa única do Tesouro que deve ir toda a
receita de projetos que a Coppetec faz. Assim como as dezenas de outras
fundações públicas espalhadas pelo Pais. O Tesouro, então, redistribui essa
receita a seu bel prazer– se quiser, tirando uma ponta para o superávit
primário. Obviamente, esse sistema retira das fundações qualquer incentivo a
buscar projetos junto ao setor privado. Em termos de interesse público, é um
contra-senso, uma aberração.
Soube que o principal dirigente da Coppe/UFRJ, Luís Pinguelli Rosa, esteve em
Brasília na semana passada para tratar desse e de outros assuntos com o
ministro Aloísio Mercadante. Quando estava dentro do gabinete com o ministro,
uma terceira pessoa entrou sem avisar. Pinguelli perguntou quem era. O ministro
explicou que se tratava de um funcionário da CGU que iria acompanhar a reunião.
Pinguelli dirigiu-se ao próprio e ele confirmou. Levantando-se da cadeira,
Pinguelli convidou-o a retirar-se imediatamente, com impublicável veemência,
caso não quisesse sair dali aos tapas e pontapés. (Infelizmente, não consegui
neste fim de semana confirmar essa história com Pinguelli. No entanto, como
dizem os italianos, si non é vero é bene trovatto!)
J. Carlos de Assis é economista, professor de
economia internacional da UEPB e autor, entre outros livros, de “A Razão de
Deus” (ed. Civilização Brasileira).

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