Leituras pertinentes - I

“Deus: Sonho ou Pesadelo?”

Ovídio Zanini - Pergunte e responderemos, nº 335


                   “Na prática, para grande parte da população, Deus morreu. E os jovens, que são vulcões de desejos em constante erupção, em que irão se agarrar? Agarram-se desesperadamente a ídolos, criados em estúdios, manipulados como bonecos de consumo social, com o único objetivo de tirar o pouco ou o muito do dinheiro dos vazios de Deus.
Quem não lembra das cenas de loucura e histeria coletiva na passagem dos Menudos, dos requebrados e vozes sensuais de Elvis Presley, do inferno sonoro do Rock in Rio, do fascínio de Madona, dos gritos e sussurros dos Beattles? Como explicar o fascínio que exerce sobre a juventude um Che Guevara, um Sandino, um Eden Pastora? Acredito que esses ídolos representam os sonhos mais ardentes de libertação. Libertação de quê? Libertação de toda opressão, libertação de toda hipocrisia, de toda caricatura de Deus, de toda injustiça, de toda forma piramidal e sufocante de autoritarismo. Há formas de religião que são indiscutivelmente autênticas opressões. Obrigar nossa atual juventude a uma forma de religião própria de nossos bisavós constitui provavelmente uma opressão insuportável. Eles querem um Deus que liberte, que abre o coração da gente, que desperta confiança filial adulta, que não oprime nem reprime, que não censura e não proíbe e não castra e não ameaça, que não é tipo de chefe da Gestapo, nem da KGB, nem da CIA, nem do DOPS, que é pai, e não padrasto, que não é bicho-papão, que deixa a gente viver como acha melhor - numa boa! -, que não gera escrúpulos como fungos, que não amesquinha a gente, que valoriza tudo o que fazemos de bom, que não sufoca a gente com proibições e castigos, que é jovem e voltado para o futuro, que acompanha e gosta de evolução, que não é parado e imóvel, um Deus que faz parte de nossas festinhas e passeios, que viaja ao nosso lado nos ônibus e aviões e automóveis, que adora correr conosco em nossas motocas livres como cabritas nos pampas, que é feliz por dançar conosco a primeira valsa dos 15 anos e de formatura e de casamento, um Deus que aparece quando as meninas abrem o rosto num sorriso franco, que se mostra nos olhos límpidos das pessoas transparentes e puras, que nos diz coisas admiráveis nas liturgias calmas e vibrantes dos nossos domingos, que está conosco nos dias dramáticos de sofrimento, que faz florir de juventude eterna a nossa velhice, que é onicontinente mais do que onipresente, que não fica espiando nossas ações para descarregar bordoadas, que é pai e mãe, amigo e aliado dos momentos sérios e alegres, que participa dos nossos ideais e aventuras, que está ao nosso lado especialmente quando caímos e precisamos dele, que não precisa de incensações e glorificações, porque somos nós que precisamos fazer isso para ser felizes, que faz da religião um caminho de ternura dele conosco para que nós descubramos a alegria de conviver com ele, um Deus que propõe aliança e jamais mendicância, um tipo de anti-Pinochet, anti-Somoza, anti-Duvalier, anti-Idi Amin, anti-Hitler, anti-Franco, antigenerais e coronéis da repressão argentina e brasileira e uruguaia, enfim eles querem de volta o Deus que Jesus viveu e anunciou, não um deus-pesadelo, mas um Deus-sonho, que é Máxima Verdade” (pp. 122s).

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