Lula encerrou sua
recente visita à Argentina com uma reunião na Embaixada do Brasil. O jornalista
Martín Granovsky, do Página 12, foi um dos 40 convidados e conta agora como e
por que o ex-presidente se comprometeu a impulsionar a integração
sul-americana.
Martín Granovsky – Página 12
Carta Maior
Um presidente nunca diz que se angustia. Senão, o
que sobra para os governados? Um ex-presidente sim pode dar-se esse luxo. O
resultado é apaixonante se o ex se chama Luiz Inácio Lula da Silva e tem uma
capacidade única de transmissão intelectual e emotiva.
Exemplo 1: “Ou crescemos juntos ou ficaremos pobres todos juntos”.
Exemplo 2: “Quando entreguei o mandato a Dilma, disse a ela que ia necessitar
muitos dobermanns. Disse que, em cada decisão importante que ela tomasse, tinha
que botar um cão atrás, porque, se não, não haveria nenhum resultado”.
Lula falou na embaixada do Brasil na Argentina, que organizou um encontro com
40 intelectuais, políticos, economistas e empresários junto com o Conselho
Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso) e o Instituto Lula. Foi na
sexta-feira (17) à tarde e os presentes fizeram chegar ao embaixador Enio
Cordeiro: “Presidente, neste grupo ninguém pensa como o outro”. Antes, o
presidente que governou o Brasil durante oito anos, recebeu oito doutorados
honoris causa. “Para o Guinness”, brincou o senador e ex-ministro de Educação
argentino Daniel Filmus, coordenador dos doutorados junto com Pablo Gentili, o
secretário executivo do Clacso.
O ex-presidente brasileiro estava acompanhado por Luiz Dulci, ex-secretário
geral da Presidência durante seu governo e membro do Instituto Lula. Dulci, que
acaba de publicar um livro sobre os dez anos de governo encabeçado pelo PT, “Um
salto para o futuro”, disse que o instituto está firmando acordos com
organismos multilaterais e que trabalhará cada vez mais em uma doutrina da
integração. “Não se trata de substituir os Estados, mas às vezes é difícil para
os Estados avançarem em determinados temas.”
Lula explicou que o instituto antes se chamava Instituto da Cidadania. “O
programa Fome Zero foi desenhado ali”, contou, sobre o trabalho prévio às
eleições vitoriosas de 2002. Disse que alguns contatos excediam o marco do PT e
que, por isso, recebia gente no instituto. Ou seja, uma preparação completa
para o governo que viria. Sobre o futuro, Lula reforçou a promessa de Dulci e a
ampliou para a África.
“Durante meu governo visitei sete países do Oriente Médio, todos os países da
América Latina e do Caribe e 33 países africanos em 39 viagens”. Lula não tocou
no tema, mas além da América do Sul, a grande base de votos para que o
brasileiro Ricardo Azevedo ganhasse a direção da Organização Mundial de
Comércio foi a África.
De terno escuro e gravata listrada com as cores do Brasil e da Argentina, Lula
passou mais de três horas debatendo, um pouco sentado, um pouco em pé. Antes de
abrir o espaço para comentários e perguntas, fez algumas a si próprio. “Tem que
criar uma doutrina da integração. O que é a integração? É comercial? É
comercial e social? Envolve as universidades? Ainda não está tudo claro para
nós. Cada vez que Hugo Chávez falava da espada de Bolívar, eu dizia para ele:
‘Chávez, não necessitamos mais a espada de Bolívar, mas um banco de
desenvolvimento, estradas, pontes...'”.
Lula mencionou Chávez muitas vezes, com carinho e com picardia. Um morto não
pode se queixar pela revelação de segredos que, de outra forma, servem para
entender que tipo de dificuldades um presidente enfrenta, inclusive quando tem
legalidade, legitimidade e popularidade. Como o ex-chanceler Jorge Taiana
estava presente, Lula o pegou de comparsa.
“Talvez, um dia, Taiana, Enio e eu possamos contar como são as reuniões
presidenciais e as sequências das decisões. Firmamos um acordo, um protocolo de
intenções, e quando termina o mandato de quatro ou cinco anos, não se fez nada.
Porque quando esta reunião terminou, vem outra reunião e outro protocolo, e, às
vezes, além disso, não tem muita gente interessada em fazer o seguimento das
decisões. Taiana sabe bem como se queixava o pobre Chávez. Quase todas as
reuniões terminavam com Chávez brigando com o pobre Maduro. ‘Não vou assinar o
documento porque não o li .’ E olhava a câmera da Telesur. ‘Por que os
burocratas não me deram o documento antes? ’ Então eu me levantava e lhe
contava minha angústia.” E aí foi que contou sua ideia dos dobermanns.
Na verdade, ainda que não tenha aparecido na reunião da embaixada brasileira,
quem se aproximou de um sistema de dobermann foi o presidente chileno Ricardo
Lagos. Seu chefe de assessoria, Ernesto Ottone, enviava a cada reunião de Lagos
um funcionário que depois se encarregaria do seguimento. Em outro estilo, para
algumas decisões, Kirchner telefonava no ato para toda a cadeia de funcionários
que se faria responsável pelo cumprimento de uma decisão sua.
“Uma vez eu e o Chávez estivemos a ponto de despedir juntos os presidentes da
Petrobras e da PDVSA porque não haviam levado à prática um acordo que havíamos
chegado”, disse. “O mesmo aconteceu com a Argentina e o mesmo com outros
países. Quando os presidentes estão dispostos e convencidos, as coisas devem
ser feitas diante deles e não depois da reunião. Não se pode trabalhar na
integração se a gente cede às pressões de um grupo.”
A falta de resultados tem um problema que Lula tocou. “Quando você chega ao
governo e não consegue fazer as coisas que se esperam de você, as pessoas se
afastam. Mas muitos, ao contrário, quando algo não acontece, perseveram.”
Pensamento próprio
E as reuniões como a de sexta-feira, servem para algo? “Há uma carência
motivacional”, disse Lula. “Aparecem bons diagnósticos e boas propostas, mas
depois devem ser assumidas pelos políticos.”
O ex-presidente aproveitou esse momento para levantar um livro no ar. É de capa
vermelha e o título é: ‘Dez anos de governos pós-neoliberais no Brasil – Lula e
Dilma’. É uma coletânea de 21 trabalhos realizada por Emir Sader, ex-secretário
do Clacso, antes de Gentili, que foi quem escreveu o capítulo educativo porque,
como disse Lula, “é um argentino importado pelo Brasil”. Para que não restem
dúvidas da margem que Lula quer para decisões que não são de governo, mas de
análise feita por gente com pensamento próprio, disse: “A única coisa minha
neste livro é o nome no título, porque os autores trabalharam com toda a
liberdade”.
Lula parece se preocupar com o beco sem saída que se produz quando os
funcionários e os políticos não se acostumam a viver dentro da contradição. “Se
as divergências fossem um problema, o PT não existiria. Não tem nada que tenha
mais divergências que o PT.” Também se vê preocupado com as profecias autocumpridas
segundo as quais nada diferente será possível.
“Nasci em uma região onde muitas crianças morrem antes dos cinco anos e eu não
morri. Quando entrei no sindicato, me disseram que não poderia fazer nada
porque a estrutura sindical do Brasil era uma cópia fiel da ‘Carta del Lavoro’
de Benito Mussolini. Sem que a lei se modificasse sequer uma linha, em apenas
três anos mudamos a vida sindical. Depois nos disseram que não havia espaço
para um partido político. Em três anos criamos o PT, que nasceu em 1980. Que um
operário metalúrgico chegasse à presidência era impensável. Conseguimos.
Portanto, podemos produzir uma doutrina para que nossos presidentes pensem
estrategicamente. É o compromisso que assumo. Não sei se o cumprirei, mas vou
tentar.”
Como avançar
Lula alertou contra “as brigas entre nós”. Citou o caso da Rodada de Doha, que
terminou em 2008 sem resultados. Foi discreto: omitiu afirmar que as diferenças
essenciais no final se produziram entre o Brasil e a Argentina. “Ali não
avançamos, mas não acontecerá mais. Se não construirmos um pensamento
estratégico, vamos perder inclusive o que já construímos. E não é questão de
defeitos. Todos os temos. Tivemos os presidentes daquele momento: Néstor
Kirchner, Hugo Chávez, Ricardo Lagos, Tabaré Vázquez, eu... Mas se analisarmos
nossas relações tal como estavam em 2000 e como são agora, vamos ver que
avançamos extraordinariamente.”
Lula costuma fazer um contraponto permanente entre o resgate do bom, porque é
um obsessivo da autoestima coletiva, e a sugestão de desafios, porque se mostra
otimista, mas não tem a noção fanática de que as coisas, as más, mas também as
boas, são inexoráveis. “Se não consolidarmos os avanços como política de
Estado, criando parlamentos e instituições multilaterais, qualquer governante
de direita pode terminar com tudo. Sobretudo no Brasil. Estejam seguros de que
esse presidente brasileiro dará as costas à América do Sul, porque sua cabeça
está colonizada pela Europa e pelos Estados Unidos.” E continuou Lula, em pé,
microfone na mão e olhando para os lados, movendo as mãos como o orador
sindical que foi ou que é, confessando que hoje vê coisas que não via quando
era presidente. “Coisas nas quais poderíamos ter avançado e não avançamos. Por
que não avançamos na ONU? O Egito e a Nigéria queriam ser membros permanentes
do Conselho de Segurança, mas não disseram. A Argentina, o Brasil e o México
também. Não discutimos o essencial: seja quem for, quando for, não pode
investir numa representação individual, mas coletiva, do continente. Mas nunca
aprofundamos essa discussão. E são 10 anos meus e de Dilma, 12 de Chávez, 10 de
Néstor e Cristina. Meia geração cresceu sem que discutíssemos o tema. Com o
comércio, a mesma coisa. É importante porque gera desenvolvimento, lucro,
empregos.”
Gripe ou pneumonia
Em sua intervenção, o tabuleiro do mundo sempre esteve presente. Para ele, na
Europa “uma gripe se transformou em uma pneumonia”. Segundo Lula, “é ridículo
que a Europa culpe a Grécia ou o Chipre enquanto nenhum banqueiro está preso”.
A indústria também. “Temos que aproveitar o tipo de pessoas que hoje estão nos
diferentes governos para fazer o que temos que fazer. Não é ruim exportar
commodities quando o preço está bom. É ruim quando o preço está baixo. Mas em
nível internacional devemos discutir o valor dos produtos. Por que a comida
vale tão pouco e um chip vale tão caro? Na década de 70, os Estados Unidos
decidiram levar o corpo das indústrias para a China e ficar com a cabeça, com
os serviços. Agora, com esta crise, se deram conta de que a cabeça sem o corpo
não é um ser humano, é um busto. Assim, agora discutem como reindustrializar os
Estados Unidos.”
O animador
Um fantasma, às vezes, é o papel do Brasil, o gigante da região. Inclusive é um
fantasma quando já ninguém repete disparates sobre hipóteses de conflito
bélico. Como Lula queria desmontá-lo, abordou o ponto. “O Brasil não pode
crescer sozinho. E o Brasil tem mais responsabilidade que o resto. Na crise de
2008, chamei o presidente do Banco Central e o ministro da Fazenda e disse que
destinassem dinheiro para o Uruguai e para a Argentina. Não o fizeram. A China
fez. Mas o Brasil não necessita 400 bilhões de dólares de reservas. Hoje
poderíamos usar esse dinheiro para financiar a integração aqui e no continente
africano. Pensemos, imaginemos. Às vezes me dá a impressão de que os
intelectuais da América Latina deixaram de pensar depois da queda do Muro de
Berlim. Há menos canções, menos livros... Me lembro de uma conversa com Fidel.
Um dia ele me disse que tinha ensinado ao seu povo a história equivocada. Era a
história russa, com seus bons que de repente se convertiam em maus, e seus maus
que de um dia para o outro se transformavam em bons. ‘Sabe, Lula’, me disse
Fidel. ‘Estou arrependido de não ter ensinado ao meu povo a história da América
Latina’. Eu digo: façamos isso. Tentarei ser o animador e o provocador para que
pensemos de novo em nós.”
Os comentários
Antes da última intervenção de Lula no seminário, vários participantes
perguntaram ou fizeram comentários.
Taiana disse que há um ponto delicado: “Alcançamos certo patamar na integração,
estamos entrando em uma meseta, quando há dificuldades a reação natural é se
retrair diante do medo e o que não avançarmos significará que vamos
retroceder”.
O consultor Rosendo Fraga disse que o Mercosul e a Unasul demonstraram “grande
eficácia frente aos imprevistos como os que se produziram na Venezuela, na
Colômbia e no Equador, mas certa ineficácia para enfrentar os conflitos
históricos”. Citou que o Chile e o Peru tenham recorrido à corte de Haya, e o
mesmo aconteceu com Bolívia e Chile. Lula agregaria que tampouco o conflito das
papeleiras entre o Uruguai e a Argentina se resolveu no marco sul-americano.
Fraga se queixou de que na Argentina “não se pode ver um canal brasileiro por
TV a cabo e não temos uma rádio que transmita em português”.
Félix Peña, ex-subsecretário de Guido Di Tella (que foi ministro de relações
exteriores da Argentina no governo Menem – N do T) e hoje está na Universidade
de Tres de Febrero, pediu um “Relatório Lula” sobre como trabalhar na América
do Sul.
Sergio Berenztein, da consultoria Poliarquía, sugeriu para o Mercosul um avanço
por passos. “Incremental, minimalista”, disse.
O reitor da Universidade de Cuyo, Arturo Somoza, insistiu na necessidade do
intercâmbio cultural e no peso das decisões políticas.
O ex-chanceler Adalberto Rodríguez Giavarini, que foi ministro de Fernando de
la Rúa, disse que a integração e os direitos humanos “são políticas de Estado
nos últimos 30 anos”. Recomendou “fortalecer o diálogo Pacífico-Atlântico para
entrarmos na dinâmica da negociação global, porque vamos enfrentar tensões e já
as estamos enfrentando, e o Brasil terá dois guarda-chuvas”.
Rafael Follonier, colaborador de Néstor e Cristina Kirchner com grau de
secretário de Estado e agora a cargo de investigar os crimes contra seguidores
do chavismo na última campanha eleitoral na Venezuela, disse que “o
posicionamento do Brasil como ator global se deu no marco da última etapa do
processo de integração sul-americana”. Pediu “um fortíssimo relançamento da
Unasul” e afirmou: “Seria bom que o Lula nos ajudasse a resolver a próxima
etapa do organismo que criou com os outros presidentes”.
O ex-presidente da União Industrial Argentina, e ex-ministro de Eduardo
Duhalde, José Ignacio de Mendigurem, conclamou a “não deixar passar o tempo e
nos deixar tentar com o canto da sereia da primarização da economia, porque,
apesar do enorme período de crescimento, a participação industrial no PIB dos
dois países diminuiu”.
O reitor da Untref Aníbal Jozami pediu que fosse formado “um grupo de
delirantes que discuta uma união com o Brasil”.
Alberto Ferrari Etcheberry, ex-subsecretário de Assuntos Latino-americanos de
Raúl Alfonsín e um dos negociadores de então para chegar à integração com o
Brasil, além de ser quem convidou Lula para sua primeira visita à Argentina em
1999, lembrou o que é a cidadania entre os vizinhos. “Com a Constituição de
1988 e com a presença decisiva do PT, essencial para a queda de Fernando Collor
de Mello, surgiu a democracia de massas pela primeira vez.” E acrescentou: “Com
Lula terminaria a história dos Bragança no Brasil. Lula foi o primeiro Silva. E
depois veio Dilma, que também se chama Silva”. Para Ferrari, entre os dois
países “não se avançou o suficiente em conhecer-se e, sobretudo, em conhecer as
diferenças”.
O uruguaio Gerardo Caetano disse que “para esta nova etapa, mais do mesmo não
basta”.
Pino Solanas lamentou que “em dez anos não resolvemos nem o Banco do Sul” e
disse que “a América Latina não pode ser o paradigma de um consenso sobre as
commodities”.
O deputado da Unidade Popular Víctor de Gennaro advertiu que “o genocídio
deixou a ideia de que, por medo, se tem que evitar o pior e ser sobreviventes”
e opinou que “temos direito de viver felizes”.
Pablo Gentilli, como organizador, expressou seu compromisso de continuar
ajudando a coordenação de centros de estudo, políticos e investigadores.
Filmus, outro dos organizadores da visita de Lula e membro do Conselho
Acadêmico da recém-inaugurada Universidade Metropolitana para a Educação e o
Trabalho, autocriticou “o escasso esforço legislativo para trabalhar em forma
conjunta, o déficit de diplomacia parlamentar e o avanço lento no ensino de
português e espanhol, a ponto de que cientistas argentinos e brasileiros se
comunicam em inglês”.
Tradução: Liborio Júnior

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