Na atual situação em
que existem cerca de 8-10-12 protagonistas de poder geopolítico significativo,
os BRICS são definitivamente parte da nova estrutura geopolítica multipolar.
Mas são tantas incertezas sobre a crise estrutural do sistema-mundo que, tal
como o próprio conceito da globalização, os BRICS podem se revelar como um
fenômeno passageiro.
Immanuel Wallerstein
Carta Maior
Em 2001, Jim O'Neill, então presidente de gestão de
ativos do Goldman Sachs, escreveu um artigo aos seus assinantes intitulado “O
Mundo precisa de melhores BRICs econômicos”. O'Neill inventou o acrônimo para
descrever as chamadas economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia e China, e
para recomendá-las aos investidores como o “futuro” econômico da
economia-mundo.
O termo pegou, e os BRICs tornaram-se, na verdade, um grupo que se reúne
regularmente e mais tarde incluiu a África do Sul, mudando o “s” minúsculo para
maiúsculo. Desde 2001, os BRICS floresceram economicamente, pelo menos em
relação a outros Estados no sistema-mundo. Tornaram-se também um assunto muito
controverso. Há os que veem os BRICS como a vanguarda da luta
anti-imperialista. Há os que, muito pelo contrário, consideram os BRICS agentes
sub-imperialistas do verdadeiro Norte (América do Norte, Europa ocidental, e
Japão). E há os que acham que são ambas as coisas.
Na sequência do declínio pós-hegemônico do poder, do prestígio e da autoridade
dos Estados Unidos, o mundo parece ter estabelecido uma estrutura geopolítica
multipolar. Na atual situação em que existem cerca de 8-10-12 protagonistas de
poder geopolítico significativo, os BRICS são definitivamente parte deste novo
quadro. Pelos seus esforços de forjar novas estruturas no cenário mundial, tais
como a estrutura interbancária que procuram criar para substituir o Fundo
Monetário Internacional (FMI), estão certamente a enfraquecer ainda mais o
poder dos Estados Unidos e de outros segmentos do velho Norte a favor do Sul,
ou pelo menos dos próprios BRICS. Se a nossa definição de anti-imperialismo é
reduzir o poder dos Estados Unidos, então os BRICS certamente representam uma
força anti-imperialista.
A geopolítica, contudo, não é a única coisa que conta. Também queremos saber
algo sobre a luta de classes no interior dos países BRICS, as relações desses
países uns com os outros, e as relações dos países BRICS com os países
não-BRICS no Sul. Nestes três aspetos, o registo dos BRICS é, no mínimo,
sombrio.
Como podemos avaliar a luta de classes no interior dos países BRICS? Uma forma
comum é observar o grau de polarização, tal como indica o índice GINI que mede
a desigualdade. Outra forma é ver quanto dinheiro estatal é utilizado para
reduzir o grau de pobreza entre os estratos mais pobres. Dos cinco países
BRICS, apenas o Brasil melhorou significativamente os seus índices no que diz
respeito a esta questão. Em aalguns casos, apesar de haver um aumento do PNB,
as estatísticas são piores que, digamos, há 20 anos.
Se olharmos para as relações econômicas entre os próprios países BRICS, a China
ofusca os outros em crescimento do PNB e em acumulação de ativos. A Índia e a
Rússia parecem sentir a necessidade de proteger-se contra a força da China. O
Brasil e a África do Sul parecem sofrer com o atual e potencial investimento da
China em arenas chave.
Se olharmos para as relações dos BRICS com outros países do Sul, ouvimos
queixas crescentes em relação à forma como estes países se relacionam com os
seus vizinhos imediatos (e não tão próximos), que se parece demasiado com as
relações que os Estados Unidos e o velho Norte mantinham com eles. São acusados
por vezes não de serem “sub-imperiais”, mas sim simplesmente “imperiais”.
O que faz os BRICS parecerem tão importantes hoje são os seus altos índices de
crescimento desde por volta de 2000, índices esses que foram significativamente
mais altos que os do velho Norte. Mas será que isto vai continuar? As suas
taxas de crescimento já começaram a escorregar. Alguns outros países do Sul –
México, Indonésia, Coreia (do Sul), Turquia – parecem alcançar o crescimento
deles.
Porém, dada a depressão mundial na qual continuamos a viver, e a baixa
probabilidade de haver uma recuperação significativa na próxima década, a possibilidade
de, em dez anos, um futuro analista do Goldman Sachs continuar a projetar os
BRICS como o futuro (econômico) é bastante duvidosa. Na verdade, a
probabilidade de os BRICS continuarem a ser um grupo que se reúne regularmente,
com políticas presumivelmente comuns, parece remota.
A crise estrutural do sistema-mundo está evoluindo muito rapidamente e com
várias incertezas para assumir uma estabilidade relativa suficiente que permita
que os BRICS, como tais, continuem a desempenhar um papel especial, tanto
geopolítica quanto economicamente. Tal como o próprio conceito da globalização,
os BRICS podem se revelar como um fenômeno passageiro.
* Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
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