Sociedade de delatores

                  
Nonato Menezes 

Delatar é uma palavra feia. Delatar alguém é uma atitude vil. Para a História os delatores tiveram sempre um lugar reservado: o cesto de lixo. Parece não existir um herói, cuja obra tenha sido a delação. A História nunca perdoou os delatores.

Há delatores famosos. Joaquim Silvério dos Reis é o nosso delator de maior expressão. É aquele que fez com que um dos nossos heróis fosse brutalmente esquartejado e contribuiu para abortar um dos processos de nossa independência. Joaquim José da Silva virou herói; Silvério dos Reis, um pesadelo histórico. Por mais famoso que fique o delator, ele não serve de exemplo. Delatar deve ser a mais ignóbil atitude da vida humana.

Uma sociedade diligente com seus valores evita repetir erros históricos, sobretudo aqueles mais grosseiros. A nossa, com exemplo tão grosseiro, deveria saber que a delação, sob qualquer justificativa, desagrega, amplia a suspeita, porque não é vista como ato moral. Por quaisquer que sejam os motivos, uma sociedade que se pretenda democrática não deve ter em seus valores a prática da delação. Só os regimes totalitários se beneficiaram e se beneficiarão do ato covarde de delatar.

Não diria que é a sociedade brasileira que fez essa opção, mas ela não está isenta de responsabilidade por aceitar em silêncio uma campanha infame criada e incentivada desde os anos oitenta com forte apelo à denúncia anônima.

A campanha talvez tenha surgido como proposta de governo, mas aceita de bom grado pela mídia. Com o silêncio de seus cronistas, a campanha da denúncia anônima tomou corpo e ganhou ares de serviço de utilidade pública. As redes de televisão, públicas e privadas, assim como os jornais de norte a sul do país, confiaram e ainda confiam seus espaços, nobres inclusive, a essa abjeta campanha.

Seu berço foi a política do Estado Mínimo, adotada no final da década de oitenta, no momento em que os setores públicos essenciais passaram a ser tratados como os responsáveis por todos os males brasileiros.

No vazio criado por essa política, algo precisou ser feito para atender necessidades imediatas dos “de baixo”. Parte do Estado ficou aos frangalhos. Então, o jeito foi recorrer ao apoio popular. Como nossos dirigentes, regra geral, em defesa de seus interesses, jogam às favas os escrúpulos, a denúncia anônima passou a ser vista e defendida como um necessário e eficaz mecanismo de segurança pública.

Subtraída em seus quadros de pessoal, dilapidada em sua estrutura material e administrativa, a segurança pública passou a atuar, em boa parte, como recepcionista de mensagens anônimas vindas da população. A mensagem anônima, com garantias de sigilo absoluto ao delator, passou a ser o mais importante elemento de que a polícia precisa.

Assim, um terminal telefônico e alguns veículos seriam suficientes para garantir atendimento à população, que fez o setor de segurança perder boa parte de sua inteligência, da sua capacidade investigativa, da sua dinâmica de alcance à proteção e prevenção aos mais carentes de segurança pública, adquirindo, assim, mais incentivo à acomodação.

Enquanto campanha, o mote ainda tem um apelo fortíssimo: O “denuncie, ajude a fazer justiça!” Apelo que esconde um jeito leviano de depreciar a inteligência das pessoas. Mais que isso, aqui a delação passou a ser vista como um valor, sobretudo àqueles mais necessitados de proteção dos setores públicos.

É de duvidar se os ricos, os homens do poder político ou de outras esferas sociais utilizaram ou ainda utilizam esse instrumento dito como de “justiça” social. Inimaginável um pastor ou um prefeito usarem desse expediente em denúncia aos seus pares por desvio de dinheiro público ou por apropriação indébita.

Claro que essa estratégia tem sido destinada apenas aos mais necessitados, àqueles que habitam a fronteira do medo e da insegurança, daí porque, mais razoável “oferecer” essa oportunidade que lhes “garanta” proteção, mesmo ao custo de alimentar a suspeita de seus vizinhos, de seus colegas, até de seus familiares.

Mesmo com proteção oficial, delatar é uma atitude covarde, ainda que seja perpetrada por um inocente. Sob qualquer feitio, a delação não se justifica, porque estará sempre inserida numa lógica de declínio dos valores humanos mais consagrados como a liberdade e a justiça.

É uma lógica esperta, de ligeireza descabida e de inspiração fascista. A delação, qualquer que seja seu motivo ou resultado, é intolerante. Porque seu álibi se sustenta na insegurança e medo dos que estão à mercê das carências que só ao poder público cabe cuidar.

A denúncia anônima de vizinhos, de familiares ou de estranhos não passa de uma boa contribuição para a barbárie, atitude que alimenta o inacreditável desatino nacional.

Cabe aqui perguntar: um grande empresário denunciaria outro por sonegação de imposto? Um ocupante do poder anuncia à polícia a falcatrua de um colega de poder e de instituição? Esperemos para ver!

A História nos mostra que a delação tem sido uma das características mais marcantes dos regimes totalitários, aqueles que se sustentam nas armas, que criam um Estado de mútua suspeita e transformam a sociedade civil numa rede de informantes de polícia secreta.

Logo, para uma sociedade que aspira construir-se sob valores democráticos, a denúncia anônima institucionalizada, historicamente conhecida como delação, desfaz essa pretensão, por ser uma injusta e traiçoeira estratégia política. É uma via com laivos de cultura que corrói o tecido social. Corroída em seus valores dignos, a sociedade precisará de gerações para se recompor. A não ser que milagres existam.

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