Filho de manifestantes, Julian Assange teve infância longe do pai; hoje, John Shipton, ajuda o filho em sua cruzada contra o governo dos Estados Unidos
Liz Lacerda
No início dos anos 1970,
inspirados pelos movimentos pacifistas que borbulhavam ao redor do mundo, dois
jovens ativistas australianos foram às ruas participar de uma manifestação
contra a guerra do Vietnã. Christine tinha 19 anos e John, 26, quando se encontraram
em um protesto em Sydney. De um rápido romance, nasceu Julian. O garoto teve
uma infância complicada: cresceu sem pai, se mudou trinta vezes antes dos 14
anos de idade e frequentou 37 escolas diferentes – segundo suas próprias contas
– porque a mãe fugia de um divórcio conturbado.
John Shipton não acompanhou o
crescimento do filho, mas se esforça para compensar a ausência de mais de duas
décadas. Hoje, ele luta pela liberdade de Julian Assange, o hacker mais famoso
do mundo, que vive há um ano no prédio da Embaixada do Equador em Londres.
Assange concorre a senador nas próximas eleições australianas, inicialmente
marcadas para setembro. Secretário e tesoureiro do Partido do WikiLeaks,
Shipton falou com exclusividade ao Terra.
Infância e afastamento
A lembrança do passado é dolorosa
para John Shipton, que reluta em comentar as circunstâncias que o afastaram da
namorada e do filho. Sozinha e grávida de dois meses, Christine acabou voltando
para a casa da família no Estado de Queensland. Lá, conheceria Richard Brett
Assange, o diretor de teatro que Julian chamaria de pai. “O passado é outro
território. Sempre parece que poderíamos ter feito as coisas de uma maneira
melhor, com um pouco mais de reflexão, mas temos que continuar a caminhada”,
avalia Shipton.
A separação do jovem casal teria
sido amigável, mas a completa ausência do pai marcou a vida de Julian, que
tinha apenas um ano de idade quando a mãe se casou com Assange. Sete anos
depois, em 1979, Christine casaria novamente com Leif Hamilton. Eles tiveram um
filho, mas o relacionamento terminou três anos depois. Por causa da briga pela
custódia do irmão, Julian passou parte da adolescência fugindo, vivendo
escondido por quase cinco anos.
Nesse período, John Shipton se
estabelecia profissionalmente e criava sua própria família (ele tem outro
filho, Gabriel, 29 anos). No exílio forçado, Assange se dedicava a desvendar os
mistérios da computação. Logo depois de completar 16 anos, em 1987, o hacker
criou “Mendax”, seu codinome para invadir sistemas de informática de empresas,
governos e organizações, incluindo o Pentágono.
Fisicamente, Julian é bastante
parecido com o pai, mas as habilidades em informática não são herança paterna.
“Eu posso escrever alguns poemas, mas não sou bom com computadores”, diz,
sorrindo, o ex-professor de yoga que faz às vezes de arquiteto. Shipton largou
a faculdade, mas dedicou sua carreira à construção civil. Idealizada por ele
próprio, a casa onde mora foi o local do primeiro encontro com o filho adulto,
em meados dos anos 90.
Vida adulta e reaproximação
Na época, Julian tinha 25 anos.
“Fiquei muito feliz quando nos encontramos. Foi extraordinário! Diante de sua
forma de pensar, parecia que eu estava olhando em um espelho”, comenta, sem
mais detalhes. “Qualquer outra coisa que eu fale pode ferir alguém; então, é melhor
não dizer mais nada”, explicou. Na biografia “não-autorizada”, Assange conta
que encontrou na biblioteca do pai os mesmos livros de Dostoiévski, Kafka,
Arthur Koestler, entre outros, que costumava ler. Desde então, os vínculos se
estreitaram.
Na visita ao filho em Londres, no
ano passado, Shipton conheceu suas acomodações. “O quarto é pequeno, algo como
4m x 3,5m, tem uma porta e uma janela, com uma cama e um armário, uma mesinha e
algumas cadeiras”, relata. O pai também acompanhou a rotina de Assange. “Ele
tem um personal trainer, um amigo pessoal, que lhe ensina boxe. Como não vê a
luz do sol, ele está usando lâmpadas infravermelho e ultravioleta. A embaixada
permite visitantes; então, ele está recebendo amigos e admiradores. Ele está
sendo bem cuidado pelos funcionários”, diz.
Assange ganhou asilo político no
Equador, mas não consegue percorrer o caminho entre a Embaixada e o aeroporto
porque corre o risco de extradição para a Suécia, onde enfrenta acusações de
estupro. O australiano também é considerado inimigo dos Estados Unidos, porque
divulgou informações secretas do governo no site do WikiLeaks, criado em 2006.
“Julian é um ícone do movimento mundial pela ‘transparência’. Ele está
concorrendo ao Senado e sua eleição vai pressionar os governos da Austrália, da
Inglaterra e da Suécia a agirem com responsabilidade”, analisa.
Shipton também aproveita a
oportunidade para pedir apoio do governo brasileiro. “O Brasil está entre as
dez maiores economias do mundo e faz parte do BRIC (Brasil, Russia, India e
China). Assim como outras administrações na América do Sul, é um exemplo para
todos nós”, ressalta. Em campanha pela eleição de Assange, Shipton conclui:
“Estamos fazendo tudo que está a nosso alcance para garantir a segurança de
Julian, para que sua situação melhore. Tenho muito orgulho do meu filho”.
Especial para Terra
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