Manifestação contra a privatização dos correios
britânicos. Conheço o meu carteiro há mais de 20 anos. Consciencioso e
bem-humorado, ele é a encarnação do serviço público no seu melhor aspecto.
Noutro dia, perguntei-lhe: "Por que é que você se posta frente a cada
porta como um soldado numa parada?"
"Novo sistema", respondeu. "Já não
me pedem para simplesmente postar as cartas através da porta. Tenho de abordar
cada porta de um certo modo e enfiar as cartas através dela de um certo
modo".
"Por que?"
"Pergunte-lhes".
Do outro lado da rua estava um jovem solene, com
prancheta na mão, cujo trabalho era seguir carteiros e ver se eles cumprem as
novas regras, sem dúvida como preparativo para a privatização. Eu disse ao
seguidor de carteiros que o meu era admirável. A sua cara permaneceu imutável,
excepto por um momentâneo piscar confuso.
Em "Admirável mundo novo revisitado",
Aldous Huxley descreve uma nova classe condicionada à normalidade que não é
normal "porque eles estão tão bem ajustados ao nosso modo de existência,
porque sua voz humana foi silenciada tão prematuramente nas suas vidas, que nem
mesmo lutam ou sofrem ou desenvolvem sintomas como acontece com o
neurótico".
A vigilância é normal na Era da Regressão – como
revelou Edward Snowden. Câmaras por toda a parte são normais. Liberdades
subvertidas são normais. A discordância pública efectiva é agora controlada
pela polícia, cuja intimidação é normal.
A corrupção de nobres palavras como
"democracia", "reforma", "bem-estar" e
"serviço público" é normal. Primeiros-ministros que mentiram
abertamente acerca de lobbystas e objectivos de guerra são normais. A exportação
de armas britânicas no valor de 4 mil milhões de libras [€ ], incluindo
munições para controle de multidão, para o estado medieval da Arábia Saudita,
onde a apostasía é um crime capital, é normal.
A destruição deliberada de instituições públicas
eficientes e populares, como a Royal Mail, é normal. Um carteiro já não é mais
um carteiro, a fazer o seu trabalho decente; ele é um autómato a ser observado,
um ítem de formulário a ser assinalado. Huxley descreveu esta regressão como
insana e o nosso "perfeito ajustamento àquela sociedade anormal" como
sinal de loucura.
Estaremos nós "perfeitamente ajustados" a
isto? Não, ainda não. O povo defende hospitais do encerramento, o Reino Unido
íntegro força agências bancárias a fecharem e seis corajosas mulheres escalam o
mais alto edifício da Europa para mostrar a devastação provocada no Árctico
pelas companhias de petróleo. Aqui, a lista começa a desvanecer-se.
No festival de Manchester deste ano, a épica peça
"A máscara da anarquia", de Percy Bysshe Shelley – com todos os 91
versos escritos em cólera após o massacre de Lancashire, em 1819, do povo que
protestava contra a pobreza – é uma peça teatral aplaudida e absolutamente
divorciada do mundo externo. Em Janeiro último, a Comissão da Pobreza da Grande
Manchester revelou que 600 mil habitantes de Manchester estavam a viver em
"extrema pobreza" e que 1,6 milhão, ou aproximadamente a metade da
população da cidade, estavam "a deslizar para pobreza mais profunda".
A pobreza foi aburguesada (gentrified). O Parkhill
Estate, em Sheffield, era outrora um edifício de habitação pública – pouco
apreciado por muita gente devido ao seu brutalismo Le Corbusier, à fraca
manutenção e falta de instalações. Com o programa Heritage Grade II, ele foi
renovado e privatizado. Dois terços das velhas habitações renasceram como
apartamentos modernos vendidos a "profissionais", incluindo
designers, arquitectos e um historiador social. No gabinete de vendas podem-se
comprar canecas e almofadas de designer. Esta fachada não apresenta nem um
indício de que, devastada pelos cortes de "austeridade" do governo,
Sheffield tem uma lista de espera para habitação social de 60 mil pessoas.
Parkhil é um símbolo dos dois terços da sociedade
que é a Grã-Bretanha de hoje. O terço aburguesado vai bem, alguns deles
extremamente bem, um terço luta para sobreviver a crédito e o resto desliza
para a pobreza.
Embora a maioria dos britânicos seja da classe
trabalhadora – que se considere desse modo ou não – uma minoria aburguesada
domina o parlamento, a administração superior e os media. David Cameron, Nick e
Ed Milliband são os seus autênticos representantes, com apenas diferenças
técnicas menores entre os seus partidos. Eles estabelecem os limites da vida e
do debate político, ajudados pelo jornalismo aburguesado e da indústria da
"identidade". A maior transferência de sempre da riqueza, para cima,
é um dado. A justiça social foi substituída pela "justeza"
("fairness") sem significado.
Enquanto promove esta normalidade, a BBC concede um
prémio de quase um milhão de libras a um funcionário superior. Embora se
considere como o equivalente nos media à Igreja da Inglaterra, a corporação
agora tem uma ética comparável àquela das companhias de "segurança"
G4S e Serco as quais, diz o governo, cobraram a mais por serviços públicos
dezenas de milhões de livros. Em outros países isto se chama corrupção.
Tal como a liquidação das companhias de água, gás,
água e das ferrovias, a venda do Royal Mail está a ser obtida com subornos e a
colaboração da liderança sindical, pouco importando o seu protesto vocal. Ao
abrir a sua série de documentários de 1983, "Questions of
Leadership", Ken Loach mostra líderes sindicais a exortarem as massas. Os
mesmo homens são mostrados a seguir, mais velhos e enfeitados, adornados com
arminho na Casa dos Lordes. Na recente homenagem pelo Aniversário da Rainha, o
secretário-geral da [central sindical] TUC, Brendan Barber, recebeu o seu
título de nobreza.
Por quanto tempo os britânicos podem assistir aos
levantamentos por todo o mundo e pouco mais fazer do que chorar o defunto Partido
Trabalhista? As revelações de Edward Snowden mostram a infraestrutura de uma
polícia de estado a emergir na Europa, especialmente na Grã-Bretanha. Contudo,
o povo está mais consciente do que nunca; e os governos temem a resistência
popular – razão pela qual os que dizem a verdade são isolados, caluniados e
perseguidos.
Mudanças grandiosas quase sempre começam com a
coragem de pessoas que põem em causa suas próprias vidas contra todas as
adversidades. Não há outra saída agora. Acção directa. Desobediência civil.
Infalível. Leiam Percy Shelley – "Vocês são muitos; eles são poucos".
E tenham êxito.
25/Julho/2013
O original encontra-se no New Statesman e em
johnpilger.com/...
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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