CARLOS HEITOR CONY
COLUNISTA DA FOLHA
Folha de S. Paulo
Papa no Brasil Thomas Mann, após receber o prêmio Nobel pelo
lançamento de "A Montanha Mágica", e ser considerado o maior escritor
alemão depois de Goethe, visitou o papa Pio 12 e foi recebido como um chefe de
Estado.
Estranhamente, ao se aproximar do ex-cardeal Pacelli, que
fora núncio apostólico em Berlim durante a ascensão do nazismo, o escritor se
ajoelhou diante da magra e hierática figura daquele que tem o seu pontificado
discutido e até amaldiçoado por muitos.
Evidente que a mídia da época não o perdoou. A foto do
escritor consagrado (e até amado), de joelhos diante do papa polêmico,
escandalizou a inteligência da época e até hoje parece esquisita, ou pelo menos
estranha. Criticado pela sua atitude dentro e fora da Alemanha, ele se
explicou: " Ajoelhei-me diante do ícone branco do Ocidente".
Bem ou mal, a história da igreja é a própria história
ocidental no que ela tem de bom ou reprovável. E foi diante desse símbolo que
transcende a contingência de um indivíduo e da sua época que Thomas Mann adotou
não a postura de um crente, mas a de um humanista que pressentia a barbaridade
que o mundo em breve atravessaria.
Bem verdade que o mundo moderno desbastou em parte a figura
de ícone, de rei dos reis e soberano em seus pronunciamentos e decisões.
Muitos papas se tornaram notáveis como políticos e
diplomatas, dirimiram questões delicadas no cenário mundial, aliviaram tensões
através de gestões muitas vezes sigilosas (basta lembrar a importância de João
Paulo 2º e do presidente Ronald Reagan no esfacelamento da antiga União
Soviética).
Mas esse papel político-diplomático foi perdendo importância,
esvaziando-se mais e mais.
Afinal, como disse Stálin, o papa não tem divisões de
infantaria e artilharia, nem dispõe de um arsenal atômico. Mas, como acentuou
Andrew M. Greeley, "paradoxalmente, foi o fato de perder o seu tradicional
papel político e diplomático que acabou valorizando o papa perante os donos
temporais da Terra: a liderança religiosa, pura e simples, acabou por ter
enorme impacto político."
Pulando do plano da grande história para os dias recentes,
temos agora um papa entre nós, recebendo homenagens e até veneração para
desespero daqueles que, alegando o fato de ser o Brasil um estado laico, não se
devia dar tanto espaço e dinheiro para receber o chefe supremo de uma religião
que não representa a fé e o modo de outras religiões praticadas por grande
parcela do povo brasileiro.
Curiosamente, quando Fidel Castro recebeu a visita de João
Paulo 2º, fez tudo o que outros países costumam fazer: não só recebeu o
visitante oficialmente, dentro e fora dos protocolos habituais, mas participou,
de corpo presente, à missa rezada pelo papa, ao lado de um amigo que não era
cubano nem católico, o escritor Gabriel García Márquez. O mesmo aconteceu nas
visitas de Bento 16 a países laicos e não laicos.
Questiúnculas à parte, o que sobra é o futuro que, de certa
forma, pode ser melhorado ou piorado pela liderança espiritual de um homem que
dá os primeiros passos no cenário mundial.
Esperar do papa Francisco uma ruptura com o dogma e a moral
do cristianismo em sua versão católica é mais que um despropósito: é uma
burrice. Ele está comprometido pela fé e pelo seu estado sacerdotal com um
corpo de doutrinas que atravessou mais de 2.000 anos e pelo qual foi eleito não
democraticamente, mas legitimamente pelos representantes da comunidade católica
universal.
Em 1980, acompanhei a primeira visita de João Paulo 2º ao
Brasil. Por interferência de dom Eugênio Sales, fiz parte da comitiva papal e
guardei profissionalmente, como jornalista, as impressões de sua passagem por
13 cidades brasileiras.
O que me ficou não teve nada com a visita em si. Ao voltar
para Roma, após um passeio pelo rio Amazonas que o deslumbrou, a um grupo
pequeno de jornalistas que o rodeavam em sua cabine no avião da Alitalia o papa
em certo momento desabafou: "Depois de tudo o que vi e ouvi, nem sei ao
certo o que devo fazer em Roma".

Comentários
Postar um comentário
12