Mulheres da Índia reivindicam severidade contra ataques com ácido

A Campanha e Luta contra os Ataques com Ácido às Mulheres registrou uma lista de 65 incidentes só no estado sulista de Karnataka entre 1999 e 2008. O oriental estado de Bengala Ocidental concentra 12,7% dos casos, enquanto sua capital, Kolkata, é a terceira cidade da Índia mais perigosa para as mulheres, depois de Nova Déli e Bangalore. Por Ranjita Biswas, da IPS

Ranjita Biswas – IPS
Carta Maior

Kolkata, Índia – Preeti Rathi tinha 25 anos quando morreu em um hospital da cidade indiana de Mumbai, exatamente um mês depois de um homem lhe jogar ácido quando estava na plataforma de uma estação de trem.
Rathi, que faleceu em 2 de junho, havia ido de Nova Délhi a Mumbai para trabalhar como enfermeira em um hospital naval no sul da cidade.
O agressor não foi capturado, apesar de haver um sistema de televisão de circuito fechado que o teria identificado e dos protestos de sua família e de ativistas que se uniram à causa.

Não se trata de um caso isolado. De fato, nos últimos anos, centenas de mulheres e adolescentes de diferentes cidades da Índia têm sofrido terríveis experiências similares.
Aquelas que sucumbem às feridas sofrem uma morte dolorosa. O ácido corrói a pele deixando feridas que infeccionam rapidamente e causam septicemia, ou outros problemas muito graves.
As que sobrevivem ficam marcadas por toda a vida com terríveis cicatrizes. A maioria vive ocultando seus rostos e corpos “deformados” – palavra utilizada em muitos dos relatos que obtivemos — dos olhares horrorizados.
Faltam dados oficiais, mas estudos realizados por pesquisadores independentes e organizações de direitos humanos mostram que os ataques com ácido são um crime de gênero, que tem as mulheres jovens como principal alvo.
A maioria das vezes, os agressores são homens cujas relações amorosas não terminaram como eles esperavam.
Na Índia, uma sociedade ainda muito patriarcal e em transição entre o conservadorismo e a modernidade, as aspirações das jovens e das mulheres em educar-se e trabalhar contam com o apoio de políticas de Estado.
Mas centenas de homens se sentem depreciados por essa recente independência feminina. Sem aptidão para tolerar o que percebem como um insulto a sua masculinidade, muitos deles buscam vingança penalizando fisicamente as mulheres, em uma tentativa desesperada de recuperar a autoridade perdida.
Até agora, os ataques com ácido incidiram simplesmente entre os crimes contra as mulheres, que ascenderam a 244.270 em 2012, e incluem práticas tão atrozes como violação, morte por dote (quando a família política de uma mulher a mata ou a leva ao suicídio como forma de chantagem para obter um dote maior) e tráfico com fins de exploração sexual, segundo o Escritório Nacional de Registro de Delitos.
O oriental estado de Bengala Ocidental concentra 12,7% dos casos, enquanto sua capital, Kolkata, é a terceira cidade da Índia mais perigosa para as mulheres, depois de Nova Déli e Bangalore.
Subhas Chakraborty, da Fundação de Sobreviventes de Ácido da Índia, sediada em Kolkata, disse à IPS que a organização solicitou ao governo de Bengala Ocidental que empregasse o direito à informação para obter índices reais de ataques contra as mulheres naquele estado.
“Entre 2006 e 2011 se registraram apenas 56 casos e 77 vítimas”, observou Chakraborty. Provavelmente a quantidade real de incidentes seja muito maior, estimou.
O Centro Global Avon para a Mulher e a Justiça, da estadunidense Faculdade de Direito de Cornell, registrou 153 ataques com ácido denunciados na imprensa, entre janeiro de 2002 e outubro de 2010.
A Campanha e Luta contra os Ataques com Ácido às Mulheres registrou uma lista de 65 incidentes no estado sulista de Karnataka entre 1999 e 2008.
A organização interveio no famoso caso de Hasina Hussaim, ajudando-a a recorrer à justiça no ano de 1999, quando foi queimada com ácido por seu ex-empregador Joseph Rodrigues, que, ressentido por a jovem, então com 19 anos, recusar-lhe uma proposta de casamento, lhe jogou dois litros de ácido.
Ainda com a ajuda desta organização não governamental, a Corte Superior de Kolkata demorou sete anos para condenar Rodrigues à prisão perpétua.
Ativistas reivindicam medidas
C J Pragya, da sulista cidade de Bangalore, já não estremece quando pensa em mostrar seu rosto, outrora belo e agora coberto de cicatrizes. Longe de esconder-se, criou a organização stopacidattacks.org e lança campanhas contra esses ataques.
Embora muitos reconheçam o valor desses esforços individuais, ainda assim sustentam que sem medidas de escala nacional as agressões com ácido não serão detidas.
Há anos as ativistas reivindicam leis mais duras e a atenção devida das instituições do Estado.
Segundo Chakraborty, há sete anos, a Corte Suprema de Justiça recomendou ao governo que promovesse uma lei “completa e integral” para dar resposta a essa ameaça.
Mas foi necessário a brutal violação de uma estudante de medicina em um ônibus em Nova Déli, em 16 de dezembro de 2012, e da conseguinte mobilização popular de protesto, para que o governo acelerasse a aprovação da Lei de Reforma do Código Penal, em abril deste ano.
A reforma introduziu mudanças legais objetivadas à proteção das mulheres ante a violência e estabeleceu duras sanções contra aqueles que violarem seus direitos.
Agora, a pena para uma agressão com ácido pode ir de 10 anos de prisão até a prisão perpétua, além de uma multa que pode alcançar 16.600 dólares, de acordo o texto emendado há alguns meses.
O montante dessa multa se destinará a custear as complexas intervenções cirúrgicas necessárias para a reconstrução facial.
Como exemplo, Sonali Mukherjee, uma jovem do estado de Dhanbad que precisou de submeter-se a 22 operações após um ataque no ano de 2003, relatou Chakraborty.
Mas o dinheiro não basta para reparar às famílias nem à vítima de um ataque com ácido. A reabilitação continua sendo um dos grandes problemas para as sobreviventes. Muitos lares pobres carecem dos necessários para um tratamento complexo, que inclui atenção psicológica.
A Corte Superior de Punyab instruiu há pouco o governo estadual para que configure uma política que assegure tratamento gratuito, incluindo atenção psicológica.
Ácido de fácil acesso
As ativistas aplaudem as mudanças legais, mas questionam a falta de restrições à venta da arma agressora: o ácido.
Uma garrafa de ácido sulfúrico, clorídrico ou nítrico pode ser adquirida por apenas 30 rupias (50 centavos de dólar) praticamente em qualquer esquina.
O advogado na Corte Suprema, Kamlesh Jaim, disse à IPS que a reforma penal não trará mudanças enquanto essa questão essencial não for enfrentada.
A advogada de direitos humanos Aparna Bhat apresentou, em 2006, um litigio de interesse público em um tribunal federal pedindo a proibição da venda de ácidos em balcão.
Então Bhat representava Laxmi, que ficou marcada por toda a vida quando um namorado despeitado jogou ácido em seu rosto.
A advogada alegou que a falta de mecanismos normativos permite que a substância corrosiva seja de fácil acesso para o agressor, com o que concordam ativistas que denunciam que a arma está ao alcance da mão.
No dia 9 deste mês, a Corte Suprema advertiu que proibirá a venda de ácido se os governos central e estaduais não a regulam imediatamente.
Anexo:
Lições de Bangladesh
As ativistas costumam mencionar o exemplo do vizinho Bangladesh, onde os ataques com ácido, que somaram 2.500 entre 1999 e 2009, se reduziram drasticamente após a regulamentação da venda.
Segundo um relatório de 2011 do Centro Global Avon para a Mulher e a Justiça, essas agressões caíram quase 20% ao ano desde que foi promulgada a Lei para o Controle de Ácido e a Lei para a Prevenção de Delitos com Ácido em 2002, restringindo a importação e a venda livre destas substâncias.
As medidas preventivas incluem o fechamento de comércios e a suspensão de licenças para a venda de ácido ao público. Os culpados de infringir essas normas deverão pagar uma multa de 1.200 dólares ou, nos casos mais graves, haverão de enfrentar a pena de morte.
Porém, inclusive em Bangladesh, as medidas de controle não são eficientes.
“As condenações não chegam a 10% dos casos, pois os responsáveis costumam ser mais poderosos que as vítimas ou sobreviventes”, advertiu Sultana Kamal, diretora da organização de direitos humanos bangladeshiana Ain o Salish Kendra.


Tradução: Liborio Júnior

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