Uma
das páginas mais vergonhosas da história jurídica brasileira foi escrita ontem
pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel.
Gurgel
pediu ao Supremo Tribunal Federal o arquivamento do processo movido em Brasília
em outubro de 2010 por Marco Paulo dos Santos contra o juiz Ari Pargendler,
então presidente do STJ.
Marco
era estagiário do STJ. No dia 19 de outubro de 2010, ele esperava para sacar
dinheiro num dos caixas eletrônicos localizados no STJ.
Pargendler
fazia uma operação no mesmo local. O estagiário contou que estava atrás da
faixa pintada no chão, que estabelecia a distância entre um usuário e outro.
O
relato foi confirmado por duas testemunhas.
Segundo
Marco, que é evangélico, Pargendler lhe disse: ”Quer sair daqui que eu
estou fazendo uma transação pessoal?” Marco afirma ter respondido: “Senhor, eu
estou atrás da faixa de espera”.
Sempre
segundo Marco, o ministro disse para ele se dirigir a outro caixa. Mas somente
naquele caixa ele podia fazer a operação desejada.
Aí
veio a pior parte.
“Eu
sou Ari Pargendler, presidente do STJ, e você está demitido”, disse o
magistrado. O estagiário contou que Pargendler perguntou o nome dele e arrancou
o crachá que estava em seu pescoço.
Essa
história ficou associada inapelavelmente à biografia de Pargendler. Você põe
seu nome no Google e lá vem o caso.
Mas,
juridicamente, não deu em nada. Evangélico, Marco comentou a interminável
demora com que o processo se moveu da seguinte forma: “Isso está nas mãos de
Deus.”
Houve
racismo? Você deduz. Marco é negro.
Logo depois o caso foi encaminhado à Procuradoria
Geral, e entraria em cena Gurgel.
De acordo com seu parecer, Pargendler puxou o
crachá apenas para ver o nome do estagiário.
“Pelo que se extrai das declarações do noticiante
(o estagiário), a conduta do magistrado de puxar o crachá em seu pescoço não
teve por objetivo feri-lo ou humilhá-lo, mas apenas o de conhecer a sua
identificação”, afirmou Gurgel num
parecer encaminhado ao Supremo nesta quinta-feira.
Para Gurgel, Pargendler não ofendeu o estagiário.
“No caso, do próprio relato feito pelo noticiante não se extrai da conduta do
magistrado a intenção de ofendê-lo de qualquer modo, tendo agido movido pelo
sentimento de que o noticiante encontrava-se excessivamente próximo, não mantendo
a distância necessária à preservação do sigilo da operação bancária que
realizava”, escreveu Gurgel. Para ele, o fato de Pargendler ter demitido o
estagiário em razão do episódio “não alcança relevância penal”.
O processo estava com Gurgel desde dezembro de 2010
sem que ele fizesse nada. Havia câmeras de segurança próximas ao caixa, que
poderiam ajudar a esclarecer o incidente, mas as imagens não foram
requisitadas.
Pargendler não desrespeitou apenas o estagiário.
Insultou o Código de Ética
dos Magistrados.
Veja o que dizem os artigos 15 e 16 do código: “A
integridade de conduta do magistrado fora do âmbito estrito da atividade
jurisdicional contribui para uma fundada confiança dos cidadãos na judicatura.”
“O magistrado deve comportar-se na vida privada de
modo a dignificar a função, cônscio de que o exercício da atividade
jurisdicional impõe restrições e exigências pessoais distintas das acometidas
aos cidadãos em geral.”
Dignificar a função.
Bem, pausa para riso.
O processo ainda será examinado pelo STF, mas o
arquivamento é dado como certo.
Pargendler se aposentou em agosto de 2012.
Ao presidir pela última vez uma sessão da Corte
Especial do Superior Tribunal de Justiça, ele foi homenageado.
O decano da corte, ministro Cesar Asfor Rocha,
falou em nome dos demais ministros.
“Vossa excelência, ao seu modo e do seu jeito, com
os recursos da sua inventividade e do seu talento, criou e manteve entre nós o
clima que nos propiciou o desenvolvimento equilibrado dos trabalhos da Corte”,
disse ele.
O advogado Gerardo Grossi também cumprimentou, da
tribuna, o ministro. “Vossa Excelência deixará sua marca perene neste tribunal.
Um magistrado sempre cordial, alerta e cioso”, disse.
Este é o nosso Judiciário.


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