por Christine Delphy
A bandeira norte-americana tremula sobre nossa embaixada em
Cabul. [...] E hoje as mulheres do Afeganistão estão livres”, martelava George
W. Bush durante o discurso sobre o Estado da União [State of the Union
address], em 29 de janeiro de 2002. A “coalizão contra o terrorismo” teria
então feito a guerra para libertar as afegãs. Depois dos bombardeios e da
entrada das tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em
Cabul, os jornais publicaram fotografias de sorrisos femininos que dariam ao
conflito sua razão de ser.
Curiosa justificativa, já que os mujahedins reinstalados no
poder pelos aliados não se comportam melhor do que os talibãs. Entre 1992 e
1996, as tropas da Aliança do Norte (ou “Frente Unida”) tinham perpetrado
massacres e matanças gratuitas de prisioneiros, e ferido, aterrorizado e
abusado dos civis. Atualmente, isso se reproduz, quase identicamente, num
Afeganistão novamente dividido em feudos.
Os Estados Unidos não estão nem aí para o direito das
mulheres, muito menos no Afeganistão, no Kuwait, na Arábia Saudita ou em
qualquer outro lugar. Pelo contrário, eles consciente e voluntariamente
sacrificaram as afegãs a seus interesses. De onde vêm, de fato, os mujahedins?
Desde 1978, antes mesmo de o Exército soviético invadir o país, os chefes de
tribo e as autoridades religiosas declararam guerra santa contra o governo
marxista de Mohammad Taraki, que forçava as meninas a ir para a escola, proibia
o casamento levirato1 e a venda de mulheres. Nunca houve tantas mulheres
médicas, professoras e advogadas quanto entre 1978 e 1992.
Aos olhos dos mujahedins, os direitos das mulheres bem que
valiam uma guerra... contra. A invasão soviética veio trazer uma dimensão
patriótica a esse combate − com o apoio dos Estados Unidos, que consideram
amigos os inimigos de seus inimigos. Claro, eles sabiam que os mujahedins
queriam colocar suas mulheres na linha. Mas estes últimos frustraram Moscou,
era o que importava.
Depois da saída dos soviéticos, a guerra continuou,
principalmente contra os civis. Os soldados da Aliança do Norte pilharam as
casas e estupraram as mulheres. Os chefes locais cobravam taxas dos caminhões a
cada 50 quilômetros, e a corrupção e a desordem impediam a aplicação da charia.
O terreno estava dessa forma preparado para a chegada dos talibãs, filhos
espirituais desses mujahedins, tão anticomunistas quanto os pais, mas ainda
mais fundamentalistas: bons candidatos à ajuda dos Estados Unidos, que doaram
dólares para as madrasas (escolas corânicas) paquistanesas, via Arábia Saudita.
Então os Estados Unidos sempre lutaram pelos direitos das
mulheres? Não. Nunca lutaram a favor? Não. Ao contrário, eles os desprezaram.
Com as mulheres afegãs sendo defendidas por um governo marxista aliado de um
inimigo dos Estados Unidos, foi necessário sacrificá-las. Não podemos deixar os
direitos humanos dificultarem a busca pela hegemonia mundial. Tanto os direitos
das mulheres quanto os das crianças iraquianas: sua morte é o preço do poder
norte-americano. Como todas as feministas do mundo, faço votos pelos direitos
das mulheres no Afeganistão. Um estatuto melhor poderia ser um dos resultados
não previstos dessa guerra: um benefício colateral, de certa forma.
Na sequência das negociações de Bonn, duas mulheres entraram
no governo provisório que se seguiu ao início da guerra; duas exiladas, uma do
partido Hezb-e-Wahdat e outra do partido Parchami. Ambos são acusados de
“partidos mercenários e assassinos” pela Rawa, a Associação Revolucionária das
Mulheres do Afeganistão, criada em 1977, que trabalha com mulheres refugiadas,
em particular pela educação das meninas. Inimiga dos talibãs, a Rawa não
protestou menos contra os bombardeios. Junto com outras organizações, ela pede
que uma força internacional proteja o povo afegão contra os “criminosos da
Aliança do Norte”.2
O Jamiat-e-Islami, pressionado pelas instâncias
internacionais, fez algumas concessões. Que se julgue. Uma semana depois da
tomada de Cabul, um dos porta-vozes desse partido declarava na BBC Mundo que as
“restrições” com relação às mulheres seriam suprimidas – sem maiores detalhes –
e que “a burca não seria mais obrigatória: o hijab3seria suficiente”. O
hijab(no Irã ele é chamado xador) será suficiente. Parece brincadeira.4
Mesmo se as liberdades fossem ampliadas, a guerra se
tornaria, por causa disso, legítima? Quando se trata de direitos humanos, a
questão é sempre a mesma: o que há de pior do que a guerra para uma população?
A que momento ela se torna preferível? Dizer que a guerra é benéfica para as
mulheres afegãs é o mesmo que decidir que é melhor para elas morrer sob as
bombas, morrer de fome ou de frio do que viver sob os talibãs. A morte é melhor
que a servidão: foi o que decidiu a opinião ocidental... para as mulheres
afegãs. Uma decisão que poderia ter sido heroica se os ocidentais colocassem
sua vida na balança, e não a das afegãs.
A maneira irresponsável com que se trata o álibi da
“libertação das mulheres afegãs” ilustra a arrogância do Ocidente, que se
atribui o direito de dispor a seu bel-prazer da vida dos outros. Isso impregna
toda sua atitude com relação às afegãs, e mais amplamente a atitude de
dominantes com relação aos dominados.
Propomos uma nova regra simples de moral internacional
válida também para os indivíduos: ninguém tem o direito de tomar decisões,
principalmente heroicas, quando são outros que devem pagar o preço. Somente a
população que suporta a guerra pode dizer que ela vale a pena. O que acontece,
de fato, é que quem decide a guerra não a sofre, e quem sofre a guerra não
decide por ela. Por enquanto, as mulheres afegãs se encontram nas estradas, nas
barracas, nos acampamentos, aos milhões: 1 milhão de refugiadas a mais do que
antes da guerra fora das fronteiras, e 1 milhão de pessoas deslocadas dentro do
próprio país.5 Sem nenhuma garantia de que esse “sacrifício” servirá para obter
direitos suplementares. Deve-se falar de sacrifício, já que elas não o
escolheram?
A mínima decência exigiria que os aliados parassem de clamar
que elas estão passando por esses sofrimentos para seu próprio bem. Que eles se
abstenham de fingir que é em nome da liberdade que tiraram delas o direito de
escolher sua própria sorte, até mesmo o de viver. Pode-se temer, por outro
lado, que esse refrão se transforme em hit; a lista é longa dos países aos
quais a coalizão dos aliados contra o mal prometeu levar o bem à força. E,
claro, qualquer semelhança com eventos históricos passados, tão passados que
evocá-los parece fora de moda, ou então com as guerras coloniais é pura
coincidência.
Uma guerra cujos objetivos são o controle e a exploração
nunca fará avançar os direitos humanos. Pois esses bombardeios em nome da
civilização também mandaram para a masmorra inúmeros princípios reclamados por
essa civilização. As convenções de Genebra foram declaradas inválidas pelos
aliados, primeiros cúmplices dos crimes do açougueiro de Mazar e de outros.6Os
Estados Unidos inventam novas categorias pseudojurídicas, os “combatentes
ilegais” de Guantánamo, que nenhum direito, nem nacional, nem internacional,
nem comum, nem de guerra, cobriria! As liberdades públicas, orgulho de nossas
democracias, anuladas; o direito internacional, ferido de morte – o grande
corpo agonizante da ONU está aí para dar testemunho. Só uma cooperação
verdadeira e pacífica entre as nações fará os direitos humanos progredirem. Ela
não está em pauta. Cabe a nós colocá-la.
Christine Delphy
Autora de , entre outros livors, L'ennemi principal:penser le genre {O
principal inimigo: pensar o gênero}, Syllepse, Paris, 2001.
Ilustração: Louafi Larbi / Reuters
1 Obrigação para uma
viúva sem filhos de se casar com o irmão de seu falecido marido.
2 Ver
, 10 dez. 2001.
3 Manto que cobre
todo o corpo e a cabeça, incluindo o rosto, e não um simples lenço.
4 Ver os
documentários Sorties de ténèbres? [Saídas das trevas?], de Saira Shah, e
Femmes de Kaboul [Mulheres de Cabul], de Antonia Rados.
5 Ver
e .
6 Robert Fisk, “We
are the war criminals now” [Somos os criminosos de guerra agora], The
Independent, Londres, 29 nov. 2000. Consultar também o site da Human Rights
Watch (www.hrw.org) e o da Anistia Internacional (www.amnesty.org).
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