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Crise Brasileira

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mauro Santayana - OS BEAGLES E OS LOBOS

Desde que a vida surgiu, há mais de três bilhões de anos, com as primeiras cadeias de aminoácidos, espécies usam espécies para sobreviver. No início, extraía-se a energia necessária à vida da água, do calor e da luz do sol. Depois – à medida que a evolução avançou – micróbios, peixes, dinossauros, felinos e mamíferos passaram a extrair a energia que necessitavam diretamente de outros seres vivos, vegetais e animais.

Quer se goste ou não, o homem é um fenômeno recentíssimo nessa longa cadeia, e só surgiu e chegou até onde está agora, porque – assim como outros predadores – não se deteve ou ficou constrangido na hora de matar para se alimentar.

Por mais que afete aos que defendem e se preocupam com a natureza, só podemos nos dar ao luxo, hoje, de sermos ecologistas, porque conquistamos e domamos a Terra na disputa com outras espécies, e colocamos os recursos do planeta a serviço da humanidade.


Da mesma forma que um bosquímano caça um lagarto no deserto australiano, para sugar suas proteínas, um engenheiro represa um rio para gerar a energia que vai salvar a vida de um paciente que precisa de um coração artificial, a milhares de quilômetros dali, em uma cirurgia.

Há poucos dias, “ativistas” invadiram um laboratório e “libertaram” – para depois abandonar alguns no meio da rua – dezenas de cães da raça Beagle, que estavam sendo usados em uma pesquisa de cosméticos. E uma aula de medicina da PUC de Campinas foi invadida e interrompida devido ao uso de porcos – anestesiados – em um ensaio de traqueostomia.

Sem a pesquisa com o uso de animais não teríamos a transfusão de sangue, os antibióticos, a diálise, o transplante de órgãos, as cirurgias cardíacas, a quimioterapia e a maioria das grandes descobertas e avanços na área médica dos últimos cem anos.

O homem é o lobo do homem. Não nos preocupa o que se faz com os animais – para salvar uma vida – mas o que se faz com outros homens. É preferível que cientistas pratiquem com ratos e coelhos do que – como fazia Mengele – com outros seres humanos.

Enquanto houver uma velhinha morrendo na rua, ou uma criança chorando de dor por falta de remédio, há muito a fazer antes de libertar cachorros.

Colocar um animal, qualquer que seja ele, no mesmo patamar de um ser humano é o primeiro passo para colocá-lo acima de um ser humano. 

Estou com aqueles que matariam – sem infringir dor, se possível, e se não houvesse outra saída – o último cachorro para alimentar uma criança com fome. Qualquer que fosse ela, o lugar em que veio ao mundo, seu credo ou a cor de sua pele.

Os nazistas amavam seus cães, e faziam exatamente o contrário. Deixavam que eles atacassem, estraçalhassem e devorassem  crianças, de três, quatro anos, que, apavoradas, se desgarravam de seus pais, nos campos de extermínio, nas filas a caminho das câmaras de gás.

O primeiro compromisso de todo ser humano tem que ser com a própria espécie, a humanidade.

Para praticá-lo não é preciso hora, lugar, nem idade. Ele anda meio esquecido. E se chama solidariedade.

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