Eleito prefeito de São Paulo,
Fernando Haddad estendeu a mão para o governador Geraldo Alckmin. A perspectiva
do petista era distensionar as relações com os tucanos, construindo uma clima
de “convivência pacífica” em torno de políticas públicas para a cidade.
O sentido geral da postura do
prefeito era que, dentro do sistema republicano, não teria sentido duas esferas
da federação permanecerem em conflito. De fato, não tem sentido, mas… Um dos
objetivos concretos de Haddad era ter Alckmin como um parceiro na implementação
do Bilhete Único Mensal, uma das promessas da campanha vitoriosa de 2012.
O primeiro capítulo dessa
história aconteceu em junho. Diante das mobilizações crescentes de rua pela
revogação do aumento das passagens do transporte público, Haddad não soube
lidar. O PT apoiou as lutas do Movimento Passe Livre durante a gestão de
Gilberto Kassab. Frente aos protestos dos jovens, o prefeito titubeou.
Não tirou os olhos das
“planilhas”, enquanto os protestos cresciam. Mesmo quando não havia dúvidas de
que seria necessário baixar as tarifas, Haddad insistiu. Naquele momento, ele
parecia estar amarrado a Alckmin. Não queria desrespeitar o acordo que fizera
com o governador para a integração ônibus-metrô-trem do Bilhete Único Mensal.
Com isso, ele perdeu uma
oportunidade dupla: atender a reivindicação da juventude em luta e dar um xeque
mate em Alckmin. Se Haddad tivesse baixado a tarifa do ônibus, a tendência era
que o movimento se voltasse contra o governador pela revogação do aumento do
metrô e trem.
O desfecho foi o pior possível
para o prefeito: Alckmin anunciou a redução das passagens em toda a rede de
transporte, ao lado de um Haddad que demonstrava que sofrera uma derrota.
Essa história vive mais um
capítulo em torno da Cracolândia.
A Polícia Civil realizou uma
operação de guerra na cracolândia, na tarde desta quinta-feira, que terminou em
violência contra usuários de crack. Esse tipo de ação tem um sentido inverso da
Operação Braços Abertos, lançada pela prefeitura no começo deste ano.
A intervenção de um braço do
governo do estado atropelou o programa da prefeitura, que pretende dar
dignidade aos dependentes, viabilizando hospedagem, alimentação e emprego para
criar condições para que o tratamento clínico dê certo.
Os dependentes de drogas formam
um segmento social vulnerável que tem como viga mestra de sustentação o próprio
vício. É difícil que saiam da dependência sem ter outras formas de se
sustentar. Ou seja, moradia, alimentação e emprego ampliam as condições para o
tratamento para sair do vício alcance melhores resultados.
A ação da Polícia Civil prejudica
e coloca em risco a Operação Braços Abertos, que foi lançada depois de um
trabalho de seis meses na Cracolândia.
O que Haddad fará depois de
sofrer um atropelo de um departamento do governo do estado? O prefeito anunciou
que “rompeu um diálogo muito produtivo e profícuo que o município tinha com o
governo”.
No entanto, o governo do estado
não recuou. A Secretaria da Segurança Pública classificou a ação do Denarc
(Departamento de Narcóticos) na Cracolândia como “legítima”.
Alckmin não controla a ação de
cada um dos policiais que atuam nas ruas, mas indicou o secretário de
Segurança, sendo responsável político por seus pronunciamentos e medidas.
Haddad tem duas opções: cobrar um
posicionamento firme do governador contra a intervenção do Denarc ou lamentar
pelas dificuldades de governar, vendo sua autoridade derreter e sua margem de
ação ficar cada vez menor.
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