Placas solares não reembolsariam a energia gasta na sua
fabricação, as baterias para estocar seus watts seriam nocivas e a
generalização de lâmpadas de baixo consumo anunciaria um desastre ecológico?
Assim vejamos...
por Phillipe Bovet
http://www.diplomatique.org.br/
Em seu estudo sobre “dois séculos de retórica reacionária”,
o economista norte-americano Albert Hirschman ressalta que, ao longo dos
debates sobre a Declaração dos Direitos do Homem, a proibição do trabalho
infantil, a jornada de oito horas ou ainda a previdência social, as forças
conservadoras se uniram em torno de três tipos de argumento: a inutilidade (a
mudança proposta não vai resolver o problema), o risco (ela aniquilará os
benefícios ligados aos sistemas precedentes) e o efeito perverso (“a ação pretendida
terá consequências desastrosas” e até mesmo inversas ao resultado desejado).1
Ao reverter a intenção progressista em seu contrário, esta última figura se
revela particularmente destrutiva e desmobilizadora: se agir leva a regredir,
melhor não fazer nada.
Essa tese do efeito perverso está tendo um retorno
inesperado no que diz respeito à economia de energia e às energias renováveis.
Assim, as placas de energia solar fotovoltaicas não reembolsariam a energia
necessária para sua fabricação e não seriam recicláveis; as baterias que
deveriam estocar seus watts “verdes” seriam muito nocivas; a generalização das
lâmpadas fluorescentes compactas (LFCs), de baixo consumo, anunciaria um
desastre ecológico. Em suma, a ecologia polui. “Quando se faz referência a esses
efeitos perversos”, ressalta Hirschman, “é frequentemente por razões que não
têm muito a ver com a realidade dos fatos.” Mas em geral um rumor impregna-se a
uma verdade até que ela se torne mentira.
Em seu blog, o astrofísico e político francês Jacques Boulesteix
publicou um artigo intitulado: “Lâmpadas fluorescentes compactas: entre o
roubo, o perigo e a aberração tecnológica”.2 Essas lâmpadas de baixo consumo
contêm, de fato, de 1 a 2 miligramas de mercúrio sob a forma gasosa, assim como
os bons e velhos tubos de neon. Ninguém contesta o alto nível tóxico desse
metal. Mas, “em matéria de economia de energia, uma LFC consome de quatro a
cinco vezes menos eletricidade do que uma lâmpada incandescente”, explica
Édouard Toulouse, consultor independente especializado no ecoconceito dos
produtos. “Essa economia se traduz por uma diminuição das emissões nefastas do
setor de eletricidade, sejam dejetos nucleares, gases de efeito estufa ou
outros tipos de poluição atmosférica, como a das chaminés das centrais térmicas,
principalmente as alimentadas por carvão. Este último contém uma pequena
quantidade de matérias tóxicas e principalmente mercúrio”.
Nos Estados Unidos, um cálculo mostrou que o balanço de
mercúrio de uma LFC era positivo: a economia de eletricidade gerada provocava
uma redução das emissões atmosféricas do metal mais importante do que a
quantidade desse elemento que está contida na lâmpada.3
A eletricidade de origem fotovoltaica recebe muitas
críticas: diz-se que uma placa solar consome em sua fabricação mais energia do
que jamais produzirá. Em abril de 2011, no programa Complément d’enquête, do
canal France 2, Nathalie Kosciusko-Morizet, então ministra da Ecologia, do
Desenvolvimento Sustentável, dos Transportes e da Habitação, acumulou
inverdades e retomou esse argumento errôneo. No entanto, um estudo de 2006 da
Agência Internacional da Energia mostrou claramente que “o tempo de retorno
energético dos sistemas fotovoltaicos é muito bom, já que varia entre 1,36 e
4,7 anos segundo o país em que a instalação fotovoltaica está situada e o tipo
de integração utilizada (no telhado/terraço ou na fachada)”.4 Sabendo que as
placas solares têm garantia de ao menos vinte ou 25 anos de seus fabricantes e
uma duração bem superior, o estudo conclui que “o tempo de retorno energético
médio para a França é de três anos: o sistema vai, então, reembolsar dez vezes
sua dívida energética”.5
Outro mito sobre as placas solares – argumento retomado por
Nathalie: não seriam recicláveis. Dessa vez, o argumento é descabido. Um produto
se torna reciclável quando se investe em um segmento de reciclagem. Levando em
conta as durações de utilização mencionadas, a questão trata principalmente das
placas quebradas. Na França, a primeira instalação fotovoltaica foi ligada à
rede em junho de 1992. Daqui até 2015, data em que devem começar as primeiras
substituições maciças de placas, o programa europeu de coleta batizado de PV
Cycle,6 criado em 2007, terá concluído a construção de uma central de reciclagem
eficiente e automatizada.
Poderíamos, por outro lado, discutir sobre a placa chamada
“camada fina”, fabricada com telureto de cádmio (CdTe), um subproduto tóxico da
indústria do zinco, do qual existem estoques consideráveis com os quais ninguém
sabe o que fazer. A empresa norte-americana First Solar o utiliza para fabricar
módulos, vendo nisso um procedimento interessante para estocar esse dejeto, que
se encontra então escondido na placa. Em 2011, as placas de telureto de cádmio
representariam 5,3% da produção mundial.7 Descartar um dejeto perigoso por meio
de sua utilização e venda em vez de estocá-lo ou neutralizá-lo: isso é
aceitável? A crítica, que teria encontrado aqui um bom assunto, ignora esse
problema.
Fontes intermitentes
Uma evidência vem se acrescentar a um caso claramente montado
por encomenda: o sistema fotovoltaico só produz durante o dia e a produção
eólica só é possível quando o vento sopra. Em outros termos, as exigências de
nossa modernidade seriam incompatíveis com essas energias intermitentes. As
renováveis são com certeza variáveis, mas nunca imprevisíveis.8 A previsão de
sua produção faz, inclusive, parte do cotidiano dos mercados a curto prazo da
energia, como o Powernext, com sede em Paris, e o EEX, de Leipzig. Conhecem-se
diversos dias antes, depois de modo cada vez mais detalhado, os megawatts
engendrados pelas fontes limpas.9 Esse planejamento otimiza a utilização das
renováveis ao combiná-las com energias flexíveis como a hidráulica, o gás ou o
biogás.
No dia 3 de outubro de 2013, os sistemas fotovoltaico e eólico
forneceram juntos, antes do meio dia, 59,1% da produção elétrica alemã, e 36,4%
nas 24 horas.10 Números semelhantes foram obtidos em junho. Os rumores não
falam muito a respeito desses desempenhos cada vez mais frequentes. “Mais
condenada do que as outras renováveis, a energia fotovoltaica suscita uma
resistência do sistema, pois essa tecnologia é a que mais questiona os esquemas
monopolísticos clássicos: ela é descentralizada e apropriável por todos”,
analisa Marc Jedliczka, diretor da associação Hespul, especializada em energias
renováveis. “Na origem desses rumores, encontramos frequentemente pessoas
ligadas aos eletricistas históricos, eles mesmos ligados às energias fósseis e
nucleares.” Contra essa energia vinda ao mesmo tempo do sol e da alta tecnologia,
que produz eletricidade sem movimentar uma única peça, as forças conservadoras
só poderiam retomar seu velho reflexo: o efeito perverso! Para que nada mude,
não mudemos nada...
Phillipe Bovet é jornalista e coordenador do Atlas do
meio ambiente de Le Monde Diplomatique.
1 Albert O.
Hirschman, Deux siècles de rhétorique réactionnaire [Dois séculos de retórica
reacionária], Fayard, Paris, 1991.
2 Jacques
Boulesteix, “Ampoules fluocompactes: entre racket, danger et aberration
technologique”, Marselha, 2 jul. 2009. Disponível em: .
3 “The facts
about light bulbs and mercury” [Os fatos sobre lâmpadas e mercúrio], Natural
Resources Defense Council, Nova York. Disponível em: .
4 “Temps de
retour énergétique” [Tempo de retorno energético], ago. 2012. Disponível em: .
5 Bruno Gaiddon
e Cécile Miquel, “Systèmes photovoltaïques: fabrication et impact
environnemental” [Sistemas fotovoltaicos: fabricação e impacto ambiental], Hespul,
Villeurbanne, jul. 2009.
6 “Recycling von
Photovoltaik-Modulen”, fev. 2010. Disponível em: .
7 Fonte: Photon
International.
8 Ler Aurélien
Bernier, “Renovar as fontes de energia é suficiente?”,Le Monde Diplomatique
Brasil, jul. 2013.
9 Neue Energie,
Berlim, set. 2013.
10 “German solar PV, wind peak at 59,1% of
electricity production on October 3rd, 2013” [Energia solar e eólica alemã tem
pico de 59,1% da produção de energia em 3 de outubro de 2013], 7 out. 2013.
Disponível em: .

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