A última pesquisa IBOPE traz duas informações relevantes –
que precisam ser analisadas em conjunto para a pesquisa ser melhor
compreendida. O resultado que interessa aos jornais mostra de dezembro para cá
a queda na aprovação do governo Dilma Rousseff – de 43% para 39%. O resultado
que não interessa é que o percentual de aprovação de Dilma Rousseff é de 55%,
contra 56% em dezembro – estatisticamente o mesmo.
Significa que está mantida a mesma tendência das últimas
pesquisas: o eleitor quer mudanças, mas com Dilma Rousseff.
Daí volto à questão do fim do ciclo.
No último artigo que escrevi sobre o tema, alguns de vocês
julgaram que afirmei que esgotaram-se as políticas de inclusão social. Longe
disso. O que procurei mostrar é que essas políticas são irreversíveis,
transitaram em julgado, jogaram o país em um novo patamar de cidadania. Mas
mudaram radicalmente a cara do país. Depois da inclusão o país é outro, exigindo
novas políticas.
Na etapa anterior havia multidões de desassistidos cuja
única demanda era a de recursos para comer e, garantida a subsistência,
tornar-se um consumidor. Podia-se olhá-los de cima.
O novo cidadão que emerge não tem nenhuma semelhança com o
anterior. Descobriu o consumo, a cidadania, a reivindicação, a possibilidade de
crescer. Tem que ser olhado de frente.
O cidadão pré-inclusão era passivo, recebia a benesse e
tornava-se grato; depois da inclusão, é cobrador de direitos.
Na etapa de inclusão, houve ferramentas eficientes e um
conjunto de políticas sociais articuladas criadas sob o signo do
assistencialismo: Bolsa Família, a coordenação dos diversos ministérios em
torno do Ministério do Desenvolvimento Social, as políticas integradas de
melhoria do salário mínimo e dos benefícios de prestação continuada, as
políticas compensatórias para minorias sociais de todos os níveis.
Foram esboçadas, também, organizações destinadas a
aprofundar a participação geral nas políticas públicas, do CDES (Conselho de
Desenvolvimento Econômico e Social), às diversas secretarias de inclusão social
e ao esboço de conselhos de participação empresarial além da nova dimensão
conferia às Conferências Nacionais. Estavam dadas, aí, as sementes para a nova
etapa, que exigiria o aprofundamento de várias dessas formas de participação.
O governo Dilma significou um retrocesso quando abriu mão
desses instrumentos de participação. Foi desoladora a maneira como
desconsiderou as conclusões das Conferências de Educação para satisfazer as
pretensões paroquias de sua Ministra-Chefe da Casa Civil, Gleise Hoffmann, e da
Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário. E também o esvaziamento do
CDES e dos conselhos empresariais.
Esse fenômeno ocorre no mesmo momento em que o mundo é
sacudido pelos ventos da cidadania e da participação através das redes sociais
e em que ocorre um esgarçamento rápido da autoridade – entendido aí
presidências da República, poder judiciário, poder legislativo, mídia,
sindicatos etc.
As pernas do novo ciclo
O novo ciclo tem duas pernas umbilicalmente ligadas. No
plano social, a cobrança cada vez maior de melhoria dos serviços públicos,
reivindicação crescente de participação nas decisões públicas. A segunda perna
é da definição de um modelo de desenvolvimento que permita compatibilizar as
políticas distributivistas com o desenvolvimento econômico.
O governo Dilma tem problemas de implementação de programas,
sim; e tem problemas sérios decorrentes da completa despolitização, do uso
exclusivo da bandeira do gerencialismo de gabinete - que atropela até os
conceitos da boa gerência.
Mas tem visão de futuro muito mais apurada que os seus
competidores.
A ênfase na infraestrutura, nas parcerias público-privadas,
na inovação, nas políticas setoriais, o uso do pré-sal para políticas públicas,
o aprofundamento da inclusão, atacando os últimos bolsões de miséria absoluta,
a criação de um ambiente econômico civilizado, nas pernas de juros e câmbio,
são princípios definidores da nova etapa.
E a oposição?
Ontem, Eduardo Campos e Aécio Neves bateram na tecla do fim
de ciclo e início de novos tempos. Mas o que propõem? Seu discurso é
pré-inclusão e suas propostas não avançam além do gerencialismo puro e simples,
da visão estática de um PIB (Produto Interno Bruto) descolada da condição dos
cidadãos ou do próprio ambiente econômico, de um fiscalismo despregado da visão
estratégica de país. No campo econômico, não conseguiram se libertar de um
neoliberalismo que já morreu com a crise de 2008 e apenas não foi enterrado.
Mais do que tudo, é o que explica essa sensação de mudança
com Dilma.
Esta semana tive oportunidade de conferir esse sentimento em
uma palestra para os revendedores de uma empresa de maquinário de limpeza.
O público era fundamentalmente conservador e anti-petista.
Depois da palestra, seguiu-se um debate aceso sobre as
condições do país, a segurança, saúde, educação, corrupção etc. O sentimento
anti-petista é nítido, assim como o sentimento pessimista em relação ao país –
revelando dois pontos em que a campanha midiática é eficiente.
Mas a campanha do anti não chegou a Dilma. Consideram o PT
como o grande obstáculo à Dilma. O discurso de ameaça às instituições não pega
mais, o da corrupção sim. No caso, de Dilma, o pecado menor da teimosia. Mas há
a sensação – muito mais nítida do que em outros tempos – que a corrupção é um
problema inerente ao modelo político brasileiro.
Para aquele público, a oposição é inexistente. O discurso de
Eduardo Campos e Aécio Neves passa a léguas de distância daquele que deveria
ser seu público preferencial.
Dilma chega às eleições dependendo apenas dos seus pontos
para vencer o campeonato. Basta entender que o país não precisa de um
presidente gerente, mas de um presidente político que saiba articular os
diversos setores do país, disponha de tempo para compreender o novo e tenha,
debaixo de si, gerentes eficientes, que transformem as propostas em planos
factíveis.
A chegada de Aloizio Mercadante à Casa Civil, acompanhado de
um grupo de economistas de boa formação, é um alento, um sopro de
racionalidade. Participar de um campeonato nacional tendo Guido Mantega como
centro-avante seria definitivamente o cúmulo da teimosia.
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