por Michael Roberts [*]
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O principal objectivo da minha
comunicação era argumentar que, seguindo Marx, devemos olhar por trás dos
acontecimentos superficiais de uma recessão (slump) ou de um crash financeiro
como aquele dos grandes contratos futuros de tulipas, de 1636 em Amsterdam, ou
a bolha da propriedade, do esmagamento do crédito e do colapso financeiro
global da Grande Recessão de 2008-9 em direcção às causas mais profundas que
podem explicar a recorrência de crises sob o capitalismo. Cada crise, crash ou
recessão pode ter uma causa particular visível, mas qualquer análise científica
correcta dos acontecimentos deve revelar causas mais profundas que expliquem
melhor estas recorrências e mesmo prevejam futuras.
A comunicação olha rapidamente
para as explicações de crises e recessões apresentadas pela teoria económica
dominante. A teoria neoclássica do equilíbrio ou nega que haja crise, ou
ignora-as, ou explica-as como choques aleatórios e exógenos ao harmonioso
crescimento dos mercados. A teoria económica keynesiana, tanto nas suas versões
mais ortodoxas como heterodoxas, reconhece que o capitalismo tem falhas
intrínsecas. Mas estas têm de ser localizadas no sector financeiro, não nos
sectores de produção do capitalismo. E o "mau funcionamento técnico"
no sector financeiro pode ser tratado utilizando as políticas macro correctas.
Através da gestão macro, o sistema capitalista pode evitar crises sistémicas
graves e a longo prazo progredir finalmente para uma sociedade rica e baseada
no laser.
A comunicação descarta estas
explicações e suas variantes mais recentes, nomeadamente a de que a Grande
Recessão foi uma consequência da queda do rendimento salarial e do consumo dos
trabalhadores levando a uma falta de procura efectiva, ou de que a crescente
desigualdade de rendimento e riqueza no período neoliberal levou a poder de
compra insuficiente e/ou endividamento excessivo, criando bolhas de crédito que
finalmente estouraram. Estas explicações alternativas não são consistentes
teoricamente na explicação de crises recorrentes e não são confirmadas pela
evidência empírica.
A comunicação argumenta que a
própria teoria das crises sob o capitalismo, de Marx, entranhada na sua lei da
tendência à queda da taxa de lucro (a qual ele considerou como a mais
importante lei da economia política), proporciona a mais convincente explicação
de crises recorrentes. A comunicação apresenta evidência empírica dos EUA,
Europa e mesmo do mundo para justificar o argumento de que a pressão tendencial
descendente sobre a taxa de lucro é a causa subjacente de crises. Afinal de
contas, o modo capitalista de produção é a produção para lucro privado, não
para necessidades sociais. Esta é a contradição básica subjacente às crises.
Corporações capitalistas produzem coisas ou serviços para fazer dinheiro; elas
são máquinas de fazer dinheiro, do começo ao fim. A chave para crises
recorrentes é a recorrente incapacidade de companhias capitalistas extraírem
valor suficiente e valor excedente do trabalho a fim de sustentar novo
investimento e fazer dinheiro. E a lei da lucratividade de Marx explica porque
isto acontece.
Assim, o lucro, ou a falta dele,
está no cerne de uma explicação das crises capitalistas. A comunicação
apresenta um diagrama do ciclo do lucro capitalista que revela a recorrência
das crises, como se vê abaixo:
A lei de Marx proporciona uma
explicação das causas finais de crises. A lei situa-se ao nível de abstracção
mais profundo, do capital em geral. A um nível mais raso, do capital em
competição com outros capitais, o que depende de para onde os capitalistas
estão a dirigir o valor excedente de que se apropriaram, os disparadores de uma
nova crise podem ser muito diferentes. Em 1636, em Amsterdam, houve contratos
futuros de tulipas; em 2008, foi a banca sombra, derivativos de hipotecas e uma
bolha da propriedade. Em 1638, a crise afectou apenas partes da Europa; em
2008, o mundo entrou em crash.
Uma outra característica da Grande
Recessão de 2008-9 foi a enorme expansão anterior do capital fictício (crédito
ou débito), particularmente no sector financeiro, que tornou o crash ainda mais
profundo do que outros. A comunicação discute a dimensão daquela dívida, tanto
pública como privada, nas economias principais e a tarefa de Sísifo de
desalavancá-la antes de o capitalismo poder restaurar um nível de lucratividade
que torne possível ao capital retomar pelo menos uma taxa de crescimento. Isso
ainda não aconteceu e, assim, as economias principais estão realmente numa
Longa Depressão semelhante àquela das décadas de 1880 e 1890, ou a Grande
Depressão da década de 1930.
A comunicação termina com uma
breve discussão das ondas longas ou dos ciclos no capitalismo (uma descrição
completa disto pode ser encontrada na minha comunicação Cycles in capitalism).
Muitos descartam a ideia de ciclos longos porque a evidência empírica é dúbia e
há poucos dados a serem trabalhados estatisticamente. Argumento que há mérito
no conceito de ciclos longos. Utilizando o ciclo do lucro como a base é
possível desenvolver uma análise que incorpora tanto os ciclos muito curtos do
"capital de giro" ("working capital") (Kitchin) como as
ondas muito longas de inovação e produção associadas primitivamente ao
economista de esquerda russo Kondratiev, na década de 1920 – como o grafo
abaixo tenta mostrar.
Se esta hipótese estiver correcta,
argumento então que as principais economias capitalistas estão actualmente numa
Longa Depressão porque estão numa fase de "Inverno" do ciclo
Kondratiev o qual apresenta tanto preços de produção deprimidos ou em queda
como uma fase de lucratividade cadente. Alguns marxistas que aceitam a
existência de ondas longas ou ciclos, como o finado Ernest Mandel, consideram
que esta fase baixa é endógena ao capitalismo, mas que não pode haver
recuperação a menos que haja um evento exógeno como uma guerra mundial ou uma
revolução numa economia importante. Não vejo porque isto deveria acontecer. A
Longa Depressão da década de 1880 finalmente chegou ao fim sem guerra mundial
ou revolução. Será que a Grande Depressão da década de 1930 teria perdurado
para sempre se não tivesse havido uma guerra mundial?
Esse argumento foi contestado no
seminário do IIRE. Mas a crítica principal à minha comunicação foi por ser
demasiado esquemática e concentrar-se sobre a taxa de lucro como a causa
"única" de crises. E o que dizer de acontecimentos importantes como a
queda da União Soviética no fim da década de 1980, a ascensão da China e a
globalização e a mudança qualitativa no sector financeiro nos últimos 20 anos
de modo a que a trajectória do capitalismo é agora estabelecida por um sector
financeiro parasita e improdutivo nos países do imperialismo? A lei da
lucratividade de Marx é uma resposta demasiado didáctica. Bem, sim, mas como a
comunicação tentou argumentar, a lei da lucratividade de Marx está a um nível
de abstracção elevado tal como a lei da gravidade de Newton e não ao nível
superficial como contratos de tulipas ou instrumentos financeiros de destruição
em massa.
Estamos no 100º aniversário da
Grande Guerra de 1914-18. Podemos nós explicar a causa da guerra pelo assassínio
do Arquiduque Ferdinando, o herdeiro do império austro-húngaro, em Sarajevo
(como o colapso do banco Lehmans em 2008); ou por erros acidentais de
secretários de Negócios Estrangeiros nas suas negociações "de paz"
(ou pela desregulamentação financeira e o esmagamento do crédito em 2008); ou
deveríamos nós, ao invés, olhar para a crescente rivalidade imperialista entre
as principais potências capitalistas europeias para dividir e controlar o resto
do mundo como colónias após o fim da Longa Depressão (ou na Grande Recessão,
para a queda na lucratividade e a ascensão do capital fictício a partir de
1997)?
Certamente, a resposta dialéctica
é que há tanto causa(s) final(is) como próxima(s). Cada crise pode ser
diferente nas suas características, mas crises no capitalismo são recorrentes e
portanto precisam (e podem) ser explicadas pela mesma causa subjacente, assim
como a lei da gravidade explica porque cai uma maçã, muito embora a causa
imediata possa ser uma rajada de vento que a derrubou da árvore.
16/Fevereiro/2014
[*] Economista.
O original encontra-se em thenextrecession.wordpress.com/2014/02/16/tendencies-triggers-and-tulips/.Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/ .
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