Seminário Internacional:
O Golpe de 1964 e a onda autoritária na América Latina
São Paulo, 26-março-2014.
As conexões repressivas do Brasil com as ditaduras no Cone
Sul.
Luiz Cláudio Cunha
A plateia bem comportada que tomava as poltronas de veludo
vermelho do centenário Teatro Solís, no centro de Montevidéu, irrompeu em
aplausos entusiasmados quando ouviu o refrão final de Disculpe, o grande
sucesso de Los Nocheros, o grupo folclórico patrioteiro que fazia sucesso com a
música que a ultradireita do Uruguai assumiu como seu hino anticomunista.
Disculpe si no me entiende
Disculpe si no lo entiendo
Usted habla por la boca de otra gente y yo,
Y yo soy solo el eco de mi pueblo
O público daquela noite, 25 de agosto de 1975, não podia ser
mais fiel: eram generais, oficiais de inteligência e agregados da elite militar
de 15 países reunidos nos preparativos da 11º Conferência dos Exércitos
Americanos (CEA), que seria aberta dois meses depois. E a atração musical no
palco não podia ser mais confiável.
O quarteto de Los Nocheros — três guitarras e um bumbo —
teve o seu disco patrocinado pela DINARP, o organismo de propaganda criado logo
após o golpe militar civil-militar de 1973. Dois músicos do grupo eram ligados
à DNII, a Dirección Nacional de Información y Inteligência, a polícia política
patrocinada com recursos da CIA e inspirada no ‘Esquadrão da Morte’ do delegado
brasileiro Sérgio Fleury. O quarteto almoçava com frequência com o comandante
da secreta Compañia de Contrainformaciones, o braço repressivo do Exército. E
Los Nocheros chegaram a cantar na festa de aniversário da unidade militar,
instalada num quartel na esquina da calle Colorado e bulevar Artigas, dois
quilômetros ao norte do Obelisco, marco turístico de Montevidéu.
Em 20 de outubro, enfim, abriu-se a 11ª CEA, que reuniu por
cinco dias os comandantes da repressão mais louvados pelos nocheros do
continente. O anfitrião da CEA, general Julio César Vadora, comandante do
Exército uruguaio, expôs a ideia fixa daquele distinto público: “No campo de
batalha da sedição, deve haver um estreito enlace entre os Exércitos [...]“. O
representante do Chile era o general Gustavo Álvarez Águila, chefe do
Estado-Maior do Exército, que amanheceu já no dia 11 de setembro no regimento
de Peñalolén onde o general Augusto Pinochet instalou o QG do golpe contra
Allende em 1973. O general Álvarez ecoou o mantra de seu líder: “O mundo se
encontra em guerra. Uma guerra [...] de ações solapadas em que não se distingue
vanguarda e retaguarda [...]“. O general uruguaio Luís Vicente Queirolo,
secretário-geral da conferência, foi mais claro: “Existe uma coordenação entre
os exércitos do continente para combater e impedir a infiltração marxista [...]“.
A estrela principal da reunião acabou sendo o chefe da
delegação argentina, nomeado há menos de dois meses pela presidente Isabelita
Perón para o comando do Exército. O tenente-general Jorge Rafael Videla ganhou
as manchetes dos jornais ao antecipar o futuro em Montevidéu: “Se for preciso,
deverão morrer na Argentina todas as pessoas necessárias para alcançar a
segurança do país…”, avisou Videla, seis meses antes de liderar o golpe que
matou e fez desaparecer 30 mil pessoas
que ‘ameaçavam’ a segurança nacional.
O líder da comitiva brasileira, mais discreto, era o general
Fritz Azevedo Manso, chefe do Estado-Maior do Exército, que derrubou João
Goulart duas vezes no espaço de uma década. Em 1954, como tenente-coronel,
Fritz assinou o manifesto de 82 oficiais que levou à queda do então ministro do
Trabalho de Getúlio Vargas. Em 1964, como coronel, Fritz conspirou no golpe que
depôs o presidente da República. Na conferência do Uruguai, o general
brasileiro, mais atento à infiltração comunista nos quartéis, mostrou-se
preocupado com uma declaração atribuída ao ex-governador Miguel Arraes, sobre
“a necessidade de destruir as Forças Armadas por dentro” .
O espírito que sobrevoava Montevidéu aterrissou no mês
seguinte, novembro de 1975, em Santiago do Chile, com a criação formal da
Operação Condor.
O Exército do general Fritz estava lá.
O Exército do Brasil estava lá, no parto que deu à luz a
treva da Condor.
Dissimulada como sempre, cínica como nunca, a ditadura do
general Ernesto Geisel ainda assim tentava se manter oculta na reunião secreta
dos cinco regimes militares do Cone Sul
reunidos em torno da anfitriã, a Dirección Nacional de Inteligência, a polícia
política de Pinochet.
Semanas antes, o diretor da DINA, coronel Manuel Contreras,
despachou ao exterior o seu braço-direito, coronel da Força Aérea Mário Jahn,
para entregar pessoalmente os convites para a I Reunião de Trabalho de
Inteligência Nacional.
O freio de Geisel
Jahn confirmaria depois que os destinatários eram os chefes
da repressão na Bolívia, Paraguai, Uruguai, Argentina e Brasil, mas lembrou de
um único nome: o do convidado que visitou em Brasília, o general João Baptista
Figueiredo, chefe do SNI e amigo de Contreras.
Geisel precisou conter o entusiasmo de seu general, pronto para embarcar
ao Chile. Contrariando o pedido de Contreras, Geisel mandou rebaixar a comitiva
brasileira de três para dois representantes, com ordens estritas para ouvir
mais do que falar.
Geisel não queria envolver o Brasil em ações coletivas de
repressão, mas desejava preservar o espaço para ações bilaterais, caso a caso,
quando necessárias. Figueiredo recebeu uma última ordem do presidente: reduzir
a participação brasileira à condição de observador, sem autorização para firmar
nenhum documento. O Planalto corrigiu
ainda um erro de origem no convite da DINA. O convidado não devia ser o SNI,
por definição apenas um órgão de informação do presidente. A missão em Santiago
cabia, por dever de ofício, ao CIE, o Centro de Informações do Exército, o
braço operacional no combate à luta armada. Dois oficiais do serviço secreto do
Exército foram selecionados, com a aprovação do general Confúcio Danton de
Paula Avelino, chefe do CIE, e do general Sylvio Frota, ministro do Exército de
Geisel.
Os dois parteiros do Brasil no berço da Condor eram o
coronel de Cavalaria Flávio de Marco e o major de Infantaria Thaumaturgo Sotero
Vaz.
Eram dois veteranos de ação decisiva no combate à Guerrilha
do Araguaia (1972-1974), o mais importante foco de guerrilha rural no país, que
mobilizou em três campanhas militares um número estimado entre 5 mil e 8 mil
homens para o combate a cerca de 70 guerrilheiros ocultos na selva amazônica,
no sul do Pará.
Numa única operação de guerra interna, o Exército brasileiro
executou em três anos, com êxito, o propósito que tinha a Operação Condor nas
três fases com que assombraria o Cone Sul, na segunda metade da década de 1970:
a coleta de informações na Fase Um, a caçada e a tortura em operações conjuntas
na Fase Dois, o assassinato e o desaparecimento dos prisioneiros na Fase Três.
De Marco desembarcou no Araguaia em outubro de 1973, quando
os guerrilheiros estavam reduzidos a 56. Mandava e desmandava na ‘Casa Azul’,
sede em Marabá do Estado-Maior do CIE, onde o coronel dispunha de duas equipes
de matadores – códigos ‘Zebra’ e ‘Jiboia’ -, cada uma com seis homens,
integradas por um capitão, um suboficial, dois sargentos e dois cabos. No
total, os dois bandos mataram 19 guerrilheiros, nenhum deles em combate. O grupo original de 56 guerrilheiros estava
dizimado, reduzido a 10 combatentes, quando o coronel deixou o Araguaia, em
outubro de 1974. Um ano depois, em novembro de 1975, com a autoridade de um
veterano na doutrina hunter-killer de contra-insurgência , De Marco estava em Santiago do Chile
representando o Brasil no berço da Condor.
Ao seu lado estava o major paraquedista Thaumaturgo, um
especialista em guerra na selva com curso na Escola das Américas, que
desembarcou no Araguaia liderando 36 ‘boinas-pretas’ da tropa de elite do
Destacamento das Forças Especiais do Exército, do Rio de Janeiro. Dez anos
depois, em 1984, Thaumaturgo assumiu o comando em Manaus do Centro de Instrução
de Guerra na Selva (CIGS), unidade de excelência nesse tipo de combate,
frequentado por 103 oficiais estrangeiros entre 1966 e 1985, período mais
crítico do combate às guerrilhas no Cone Sul. Alguns deles eram agentes da
DINA, como reconheceu o próprio Manuel Contreras, revelando que a cada dois
meses mandava oficiais para treinar na Escola Nacional de Informações (ESNI),
em Brasília, complementando depois o curso no CIGS. O chefe da DINA não tinha o que reclamar do
currículo, focado em interrogatório e tortura, mas ficou chateado com o calor
sufocante da Amazônia: “Não era muito agradável para os que vinham do Chile ou
da Argentina, porque o clima de Manaus é muito ruim”, criticou Contreras.
Copa e cozinha
De Marco e Thaumaturgo não eram figuras acidentais na
fundação da Condor. Foram escolhas diretas dos dois generais mais importantes
da ditadura — o presidente Geisel e seu sucessor, Figueiredo —, o que define
bem a hierarquia do envolvimento do Brasil com o bando criminoso que nascia no
Chile. Ainda major, De Marco serviu com o coronel Figueiredo quando ele
comandava o Regimento de Cavalaria de Guarda, no Rio de Janeiro. Tinha linha
direta no Araguaia com o general Milton Tavares de Souza, o chefe mais temido
do duríssimo CIE do Governo Médici. Voltou a trabalhar com Figueiredo quando
ele assumiu a chefia do SNI, no Governo Geisel, e chegou a diretor
administrativo do Palácio do Planalto no Governo Figueiredo. O coronel da
Condor era da copa e cozinha no mais alto escalão da ditadura brasileira.
O major Thaumaturgo foi cadete na Academia Militar das
Agulhas Negras e aluno do capitão Danilo Venturini. À época da fundação da
Condor Venturini já era coronel em Brasília, comandante do Batalhão da Guarda
Presidencial, que fazia a escolta do Planalto do general Geisel. Três anos depois,
promovido a general, Venturini era o diretor da ESNI, a escola de informações
do SNI, frequentada pelos rapazes da DINA do coronel Contreras. Durante todo o
Governo Figueiredo, o instrutor de Thaumaturgo foi o ministro-chefe do Gabinete
Militar. Foi Venturini quem recebeu em primeira mão, em dezembro de 1975, a
notícia do major recém-chegado do berçário da Condor: “Coronel, foi fundada uma
organização – a Condor – para integrar os exércitos da região no combate ao
terrorismo e à subversão”, contou Thaumaturgo a Venturini.
O Brasil pegou logo o espírito da coisa. O entrosamento da
irmandade da Condor era tão fluido que, menos de um ano depois, chamou a
atenção da DIA, a Agência de Inteligência da Defesa, o braço de espionagem mais
importante do Pentágono. Em setembro de 1976, agentes da DIA em Buenos Aires
transmitiram a Washington um quadro mais claro da integração repressiva do
Brasil com a Argentina e o Uruguai. O telegrama secreto de 22 de setembro do
DIA, repassado à Casa Branca, Pentágono, Departamento de Estado, NSA e CIA,
resume com clareza inédita o nível de coordenação, apesar dos trechos
censurados. O documento relata a
presença de três homens, em trajes civis, embarcando no setor militar do
Aeroparque, o aeroporto a dois quilômetros do coração de Buenos Aires. Diz o
telegrama:
Em 15 de setembro de 1976… Roberto Viola, chefe do
Estado-Maior do Exército, o general brigadeiro Suarez Masón, comandante do I
Corpo de Exército, e o coronel Juan Saa, Assistente G-2 do Exército [estavam] a
caminho de Montevidéu… Um veterano coronel de Exército responsável pela
Inteligência argentina… está viajando a Brasília em 17 de setembro de 1976 para
discutir assuntos de inteligência com as Forças Armadas brasileiras… [uma fonte
não identificada informa] que a missão era secreta e que o Exército argentino
estava trocando informações sobre subversão… ele sugeriu que este tipo de
coordenação não era nova, mas não estabeleceu qual era a extensão dessa
coordenação, além da troca de informações de inteligência.
[...] muito do sucesso desfrutado recentemente na batalha
contra a subversão pode ser atribuído à eficiência da organização e dos
procedimentos de inteligência…[segundo] três oficiais militares [...], um de
cada uma das Forças Armadas. Quando a informação de inteligência é recebida
pela polícia ela é rapidamente disseminada para o Exército, Marinha e Força
Aérea e vice-versa… [a fonte] descreveu a velocidade de disseminação dizendo
que a informação ‘literalmente voava’ de um quartel-general ao outro, assim, as
operações são montadas, algumas vezes em questão de horas, para explorar a
vantagem antes que os terroristas tenham tempo para reagir.
O comentário final do telegrama da agência militar de
inteligência americana é incisivo:
A visita do oficial do Exército ao Brasil fornece uma sólida
informação de que os argentinos estão coordenando ativamente com seus vizinhos
em temas de contra insurgência. Embora o propósito da viagem de Viola não seja
claro, ela pode ter sido para coordenar atividades antissubversivas. As
atividades diárias de Viola são usualmente cobertas pela imprensa, mas desta
vez não há menção à sua viagem.
Irmão mais velho
O documento da inteligência americana é apenas um, entre
muitos, que revela a forte presença brasileira na conexão repressiva no Cone
Sul. As penas brasileiras na Condor, ao contrário do que alguns pensam, não
minimiza o papel do Brasil na conexão repressiva multinacional, apesar do
descompasso de tempo. A Condor, alegam, nasceu no momento em que a esquerda
armada já estava dizimada no campo e nas cidades brasileiras: o Araguaia tinha
se transformado num cemitério clandestino e os sobreviventes da guerrilha
urbana gemiam nos porões do DOI-CODI.
Há um problema nesse raciocínio: imaginar que a ditadura
brasileira, só pela fatalidade do calendário, era um sócio menor da Condor é
conceder a mesma indulgência matemática da ‘ditabranda’, ancorada em
estatísticas de sangue que comparam as centenas de mortos no Brasil aos
milhares de vítimas na Argentina, como se esse relativismo insensato redimisse
a truculência institucional de duas décadas dos generais brasileiros.
Na irmandade da Condor, o Brasil não era um primo distante,
alheio, alienado.
O Brasil era apenas o irmão mais velho, mais forte, mais
influente — talvez o mais dissimulado, certamente o mais cínico —, que fez o
que era necessário fazer para organizar e sustentar a máquina de morte montada
pelas ditaduras irmãs do Cone Sul.
O Brasil não fez menos do que ninguém e, às vezes, fez
primeiro e fez pior. Com exceção do venerando Paraguai, a ditadura no Brasil é
mais antiga do que a dos vizinhos — nove anos mais precoce do que a do Uruguai
e do Chile, 12 anos mais velha do que a da Argentina. Com a maioridade de seus
21 anos, o regime militar brasileiro durou quatro anos mais que o chileno, nove
mais que o uruguaio, 14 mais que o argentino. E sem brandura.
O ‘Esquadrão da Morte’, que seria traço marcante da Condor,
estreou no Brasil em 1968. Meses depois, como nome mais temido do esquadrão
agregado à repressão política de São Paulo, o delegado do DOPS Sérgio Fleury
esteve em missão no Uruguai, pouco antes da criação da Dirección Nacional de
Información e Inteligencia (DNII), braço executor da polícia politica
financiada pelos Estados Unidos e por seu homem em Montevidéu, o americano Dan
Mitrione.
O esquadrão brasileiro ecoou em 1973 em Buenos Aires, quando
a extrema-direita peronista montou a Triple A, a aliança anticomunista argentina
que a Condor de Buenos Aires assumiu como método e prática no golpe que viria
três anos mais tarde.
O coronel de cavalaria Paulo Malhães, o Dr. Pablo do CIE,
integrava o time brasileiro que nos idos de setembro de 1973, sob as
arquibancadas do Estádio Nacional de Santiago do Chile, ensinava aos homens de
Pinochet o jogo duro do interrogatório aprendido na Escola das Américas.
A primeira Acta Institucional da ditadura uruguaia data de
junho de 1976, doze anos após o Brasil editar o Ato Institucional nº1 de abril
de 1964 , abrindo a série de 17 atos
institucionais que davam uma fachada legal ao poder deslocado do Congresso para
os quartéis. No Uruguai, o modelo brasileiro exigiu apenas nove atos
institucionais de força.
A Argentina tinha o Sheraton, o Brasil exibia o Hilton.
Mas, como sempre, os brasileiros chegaram primeiro. O mais
famoso centro de torturas do Brasil, o DOI-CODI do Exército em São Paulo, foi
instalado em 1970 na delegacia policial de uma esquina da rua Tutoia. Ali
passaram mais de 2.500 presos, pelo menos 52 morreram. “Agora você vai conhecer
o Tutoia Hilton”, diziam os agentes do DOI-CODI, brincando com a fama do
lugar.
Somente seis anos depois surgiu o ‘Sheraton’ argentino, que
tentava reproduzir o humor brasileiro logo após o golpe que derrubou Isabelita
Perón. Funcionava na pequena subcomissaria de polícia de Villa Insuperable, um
prédio de dois andares, com garagem no térreo e celas de tortura no piso
superior, na cidade de La Matanza, a mais populosa da Grande Buenos Aires.
O ‘Sheraton’ era apenas um dos 60 CCDs – ‘centros
clandestinos de detenção’ – montados só em Buenos Aires. Em 1976, ano do golpe
na Argentina, chegaram a funcionar 610 CCDs, espalhados em cinco zonas
militares. Só na área 232 da zona 2, que
abrangia seis províncias e 22 centros clandestinos para uma população de 6
milhões de argentinos, havia cinco CCDs — um deles, na cidade de Posadas,
abrigado numa escolinha para mudos.
Um serial-killer fardado
Era uma máquina de morte essencial para cumprir a promessa
do general Jorge Videla na conferência dos exércitos em Montevidéu: “Deverão
morrer na Argentina todas as pessoas necessárias para a segurança do
país…”. A gana matadora de Videla tinha
a adesão até da presidente que ele derrubaria seis meses depois: “Temos que
matar e aniquilar a todos os guerrilheiros”, bradou Isabelita Perón em 1975
diante das tropas da V Brigada de Infantaria de Montanha, em Tucumán, onde o
Exército combatia o foco guerrilheiro do grupo trotskista ERP. A cinco quadras
de onde falava a presidente, na saída oeste de Famaillá, cidade a 40 km da
capital da província, estava o prédio inacabado de uma escolinha rural onde o
Exército fincou o primeiro CCD do país, conhecido como La Escuelita. Ali
padeceram 1.507 pessoas, nas contas modestas do general Acdel Edgardo Vilas,
comandante do ‘Operativo Independencia’.
O Brasil, como sempre, chegou à frente.
Em 1969, seis anos antes da escolinha pioneira em Tucumán, o
CENIMAR, o serviço secreto da Marinha, instalou um CCD em uma casa abandonada
em São Conrado, bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro, vizinho à maior
favela do Brasil, a Rocinha. No final do
ano seguinte, 1970, o CIE instalou o CCD hoje mais famoso do país numa casa
emprestada ao pé do morro numa rua isolada de Petrópolis, na zona serrana do
Rio: a ‘Casa da Morte’.
Conhecida como ‘Codão’, superlativo de DOI-CODI, a casa
então clandestina era organizada pelo Dr. Pablo, o mesmo coronel do CIE que
interrogou brasileiros no golpe de Pinochet.
O CCD de Petrópolis era o modelo para outros nove centros clandestinos
de detenção espalhados pelo país.
Muitos presos entraram na casa, só um sobreviveu – a
guerrilheira Inês Etienne Romeu, após 96 dias de estupros e torturas. O
primeiro morto do lugar pode ter sido o sociólogo Carlos Alberto Soares de
Freitas, dirigente da VAR-Palmares, executado dias após ser preso em fevereiro
de 1971. Um mês antes, confirmando a transformação da tropa em esquadrão da
morte, o general Humberto de Souza Mello assumiu o comando do II Exército, em
São Paulo, dando ordem para executar os guerrilheiros.
Numa visita ao DOI-CODI da Tutoia, o general deixou a
diretriz ainda mais clara a um delegado da tropa: “Matem os terroristas, matem
os carteiros que entregam as cartas. [Matem] os familiares, os amigos, seja o
que for. Só não quero que morra nenhum de vocês”.
Aqui, mais uma vez, o Brasil chegou à frente da Argentina.
A frase de 1971 do general Souza Mello, confissão demente de
um serial-killer fardado e matriz do pensamento matador que contaminava o
Exército brasileiro, inspirou cinco anos depois uma boçalidade semelhante do
general argentino Ibérico Saint Jean, nomeado interventor na província de
Buenos Aires. Em maio de 1976, dois meses após o golpe de Videla, o general
Saint Jean trovejou: “Primeiro, mataremos todos os subversivos. Depois, seus
colaboradores. Mais tarde, os seus simpatizantes. Então, mataremos os que
permanecerem indiferentes. E, finalmente, vamos matar os indecisos…”
A intimidade nada retórica das ditaduras de Brasil e
Argentina, base para a conexão da Condor entre os dois mais fortes regimes do
Cone Sul, desmente a blandícia dos generais brasileiros e realça a face
sangrenta dos argentinos.
O mendigo dos generais
Dois nomes civis marcam bem a identidade e os métodos que
levam à conexão criminosa entre Brasília e Buenos Aires: o brasileiro Antônio e
o argentino José.
Antônio Delfim Neto era, no Brasil, o que José Alfredo
Martínez de Hoz era na Argentina.
Ambos poderosos ministros da Economia dos dois generais mais
duros (Médici e Videla) do ciclo militar, tinham a mão de ferro dos quartéis
para manter o garrote apertado sobre as fábricas, os sindicatos e os
trabalhadores.
O argentino, como sempre, chegou depois do brasileiro.
Em meados de 1969, o ministro brasileiro, mendigando em nome
das Forças Armadas, reuniu 15 grandes banqueiros num almoço em São Paulo e
passou o chapéu para financiar o combate à subversão pela coordenação
repressiva da Operação Bandeirantes, a OBAN, antecessora dos DOI-CODI. Quando
chegou a sobremesa, Delfim já tinha recolhido US$ 1,7 milhão para repassar ao
general Ernani Ayrosa, chefe do Estado-Maior do II Exército.
A partir dali, os rapapés com a repressão ficaram a cargo da
FIESP, a mais poderosa entidade industrial do país, que reunia a patota de
Delfim. Quem passava o chapéu entre os empresários era o dinamarquês
naturalizado brasileiro Henning Boilesen, presidente da Ultragaz, que
emprestava caminhões para ações da OBAN e tinha acesso franqueado ao porão do
DOI-CODI da Tutoia para se deliciar com sessões de tortura.
Boilesen foi executado a tiros numa rua de São Paulo, em
abril de 1971, por um comando guerrilheiro. Delfim Netto compareceu,
compungido, ao seu enterro.
Passados 42 anos do funeral, Delfim ainda hoje finge não
saber por que morreu metralhado o amigo dos porões. Antes ‘czar da economia’ da
ditadura, hoje ‘Professor Emérito’ da USP, agora conselheiro dos presidentes
Lula e Dilma Rousseff, guru do PT e colunista da imprensa de esquerda, Delfim
continua cínico como nunca.
O homem que coletou fundos para o DOI-CODI que torturou a
guerrilheira Dilma Rousseff no Governo Médici alega ainda hoje que não sabia
das torturas e, com candura ou caradura, diz que acreditava nas mentiras de
Médici. Jura Delfim: “A administração civil era absolutamente independente,
nunca houve qualquer interferência… Uma vez perguntei ao presidente se havia
[tortura], ele me respondeu que não havia nada. Acreditei. O Médici era mais
sério do que parece”.
O José argentino fez em 1975 o que o Antônio brasileiro já
fazia em 1969: estreitou seus laços com os militares.
Presidente da maior siderúrgica do país, a Acindar, José
Martínez de Hoz procurou o então chefe do Estado-Maior do Exército, general
Jorge Videla, para encerrar uma greve de 59 dias dos metalúrgicos na planta de
Villa Constituición. A tropa veio, prendeu, sequestrou e matou alguns dos
grevistas. Instalou-se ali o CCD da Acindar, um dos primeiros centros
clandestinos de detenção que assombrariam a Argentina. Quando Videla deu o
golpe, em março de 1976, Martínez de Hoz tornou-se o Delfim Netto da ditadura,
gerindo a economia pelos próximos cinco anos.
O José argentino, como o Antônio brasileiro, também
acreditava que o seu general era um homem sério.
Noite e névoa
A simbiose dos regimes militares na luta contra o inimigo
comum venceu desconfianças seculares na região. As fronteiras refletem isso. De
norte a leste, a divisa brasileira é líquida e arenosa, com o recorte dos 9.200
km de litoral banhado pelo Atlântico. De sul a oeste, os limites do país se
estendem por 16.800 km, boa parte encoberta pela floresta, outro tanto seguindo
o leito de rios, um pedaço menor escancarado pela fronteira seca, sem
obstáculos. Apenas 3.600 km compreendem a divisa com os três vizinhos do sul –
Uruguai, Argentina e Paraguai -, irmãos na ditadura e na Condor.
Não é por acaso que o mais poderoso grupamento militar do
país seja o III Exército — hoje Comando Militar do Sul, que reúne mais de 50
mil homens, ¼ da força terrestre brasileira, com 18 oficiais-generais, 160
organizações militares, 75% da artilharia e 90% dos 1.700 tanques de guerra do
país.
Foi pelas fronteiras guarnecidas pelas tropas sulistas que
transitaram os refugiados e insurgentes do Cone Sul, uns saindo em busca da
segurança do exílio na Europa, outros voltando do exterior para a resistência
no coração da ditadura.
Entre eles, na caça de uns e outros, além das fronteiras da
lei, estavam os homens sem farda e sem limites físicos e morais que agiam como
forças encobertas no breu da escuridão e na treva do terror do Estado. Seguiam
a lógica assassina do decreto de 1941 de Hitler, o Nacht und Nebel, a noite e a
névoa que ocultavam os esquadrões hunter-killer do nazismo na caçada e no desaparecimento
forçados dos dissidentes.
Uma operação metódica, um combate programado que permitia o
sumiço sem rastros, sem explicação, sem destino. No segundo semestre de 1978, o
Exército argentino reformou uma velha estação de ônibus em um bairro de classe
média, Floresta, a oeste de Buenos Aires. Instalou-se ali o CCD Olimpo, onde
700 pessoas foram torturadas. Só 50 sobreviveram. Perguntado sobre o paradeiro
final dos cadáveres que saíam do Olimpo para um aeroporto próximo, um
caminhoneiro respondeu com a poesia tétrica daqueles tempos: “Vão para a névoa
de nenhum lugar”.
No ambiente nebuloso do terror de Estado, a máquina de morte
só é eficaz quando ela age de forma coordenada, dentro e fora de suas
fronteiras. A interação interna entre as forças de segurança nacionais e a
conexão externa com os serviços de inteligência dos países vizinhos é que
permitem a ação transnacional da repressão no Cone Sul. É neste ninho que nasce
a Condor. Mas é a conexão que explica — antes, durante e depois da Condor — o ambiente
terrorista estatal que mergulhou os cinco maiores países do sul do continente
em quase um século acumulado de noite e névoa.
Os militares brasileiros estão conectados há muito tempo. Em
agosto de 1965, o chefe do Exército argentino, general Juan Carlos Onganía, que
derrubaria o presidente Arturo Illía menos de um ano depois, visitou em
Brasília o general Humberto Castelo Branco, que tinha derrubado o presidente
João Goulart, pouco mais de um ano antes. No QG do Exército brasileiro, Onganía
bradou contra o comunismo, “inimigo fluido, tenaz, sinuoso”, pregando “a
unidade dos exércitos, especialmente Argentina e Brasil, para combater o
inimigo comum, superando as fronteiras estatais para delimitar novas fronteiras
ideológicas”.
O fantasma da conexão que diluía limites nacionais surgiu em
1960, sob a assombração do comunismo materializado em Cuba com a revolução de
Fidel Castro. Sob influxo dos Estados Unidos, os chefes militares do continente
se juntaram na Conferência dos Exércitos Americanos (CEA), que iria coordenar a
frente militar anticomunista de onde nasceria a Condor. Os cinco primeiros
encontros, sintomaticamente, foram em território estadunidense.
Obsessão sem fronteiras
A partir de 1965, no Peru, o CEA se reuniu de forma
alternada e bienal, em anos ímpares, nos outros países da região. No espaço de
um quarto de século, entre a 4ª CEA (realizada nos Estados Unidos em 1963, um
ano antes do golpe no Brasil) e a 18ª CEA (reunida na Guatemala em 1989, ano da
queda do Muro de Berlim), os generais do continente tiveram 15 encontros de
cúpula — e em 14 deles estavam expressos no programa, como tema obrigatório, a
segurança interna, a guerra revolucionária e o combate à subversão
comunista.
Os comandantes brasileiros também só pensavam naquilo. No início
de setembro de 1973, uma semana antes do golpe de Pinochet, o general
brasileiro Breno Borges Fortes, chefe do Estado-Maior do Exército, pregou na
10ª CEA, na Venezuela: “Devemos ampliar a troca de experiências, de informações
e ajuda técnica entre os camaradas de armas na guerra ao comunismo”.
Na primeira semana de novembro de 1974, o general paraguaio
Rafael Guanes Serrano, chefe do Departamento de Inteligência do ditador Alfredo
Stroessner, passou cinco dias em Brasília liderando a terceira Conferência
Bilateral de Informações com a ditadura de Ernesto Geisel. Aluno da academia
brasileira das Agulhas Negras na década de 1950, Guanes perambulou, no
trepidante período de 1972 a 1981, em pelo menos 25 missões oficiais nos países
do Cone Sul.
A mais importante delas aconteceria em Santiago do Chile, um
ano depois da reunião de Brasília, quando firmaria pelo Paraguai o documento de
fundação da Condor.
Em 1975, na 11ª CEA de Montevidéu, o general Videla prometeu
matar todos os que ameaçassem a segurança nacional. Dois anos depois, em
Manágua, na 12ª CEA, o comandante do Exército argentino Roberto Viola reforçou:
“A guerra ideológica não respeita fronteiras”.
Na 13ª CEA, diante dos 18 exércitos presentes em Bogotá em
1979, Viola justificou o combate sem limitações geográficas: “O ponto de vista
comum da legalidade me parece ter perdido seu sentido, quando se refere à
agressão marxista”.
O chefe da delegação brasileira, general Francisco de Mattos
Jr., vice chefe do Estado-Maior do Exército, fez coro com Viola: “Estivemos de
acordo em quase tudo”. Ao lado do Uruguai, Chile, Paraguai e Argentina, com
quem fundara a Condor quatro anos antes, o Brasil da ‘abertura’ do general
Figueiredo foi um dos sete países linha-dura que prometeram apoio “profundo e
total” na guerra ao comunismo.
O comunismo se foi, mas ficou a paranoia.
Apesar da subversão dizimada, a guerra continuava em plena
democracia. No Governo Sarney, dois anos após a retirada do último general do
Palácio do Planalto, o Brasil mantinha o dedo no gatilho.
Na 17º CEA, que reuniu 15 exércitos do continente em
novembro de 1987 em Mar del Plata, Argentina, todos os protocolos assinados
eram sigilosos. O motivo de tanto segredo fica claro na leitura do último
documento, exatamente o ‘Acordo nº 15′, que previa ações dos Exércitos nos
“demais campos do poder”, além das medidas estritamente do campo militar, “para
a segurança e defesa do continente americano contra o MCI”, sigla do sinistro
Movimento Comunista Internacional.
No informe sobre a “subversão no Brasil”, o general de
brigada Paulo Neves de Aquino disparou na testa da Constituinte convocada pelo
presidente civil José Sarney, garantindo que, “dos 559 membros da Assembleia
Geral Constituinte, cerca de 30% são militantes ou simpatizantes das OS (organizações
subversivas)”. Outro protocolo secreto
mostrava que a garra da Condor, depenada pela queda das ditaduras no final da
década de 1980, continuava uma obsessão para os generais. O ‘Acordo nº 8′ fala
em “situação de inteligência combinada” a cargo de uma central supranacional de
inteligência. Era o velho bico da Condor, sob o pretexto de catar “informação e
inteligência” sobre o MCI para os quartéis do CEA. O oficial mais graduado do
Brasil em Mar del Plata era o general de divisão Carlos Tinoco Ribeiro Gomes,
vice chefe do Estado-Maior e, três anos depois, ministro do Exército na
presidência frenética de Fernando Collor.
A manopla e a luva
No auge da paranoia anticomunista, quando a Condor estava
ativa e operante, a repressão brasileira no exterior se amparava em dois braços
musculosos — um civil, outro militar, ambos camuflados no aparato da
diplomacia.
A mão militar usava a manopla dos agregados militares das
embaixadas, a Rede Agremil, onde os órgãos de inteligência infiltravam seus
agentes sob o disfarce de adidos militares.
A mão civil calçava as luvas de pelica do CIEx, o Centro de
Informações do Exterior, o serviço secreto que o Itamaraty infiltrou nas
embaixadas a partir de 1966, por obra e graça de seu criador, o ex-capitão de
cavalaria e diplomata Manoel Pio Correa. Em junho de 1964, três meses após o
golpe, como fiel suporte da CIA no Rio de Janeiro, Pio Correa foi transferido para
a embaixada brasileira em Montevidéu para ajudar na vigilância ao grupo de
exilados de João Goulart e Leonel Brizola.
Nas 20 mil páginas do arquivo secreto do CIEx de Pio Correa estão os
nomes de 64 dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos na ditadura, alguns
deles capturados pela Condor.
O CIEx do embaixador atuava em conúbio com os agentes
infiltrados nas embaixadas pelo CIE, CENIMAR, CISA e SNI — os serviços secretos
do Exército, Marinha, Aeronáutica e Palácio do Planalto —, que formavam o
abecedário letal do regime. Essa conexão produzia as informações e as decisões
que tornavam a Condor operacional e eficaz.
A cumplicidade de diplomatas e militares obrigou a Comissão
Nacional da Verdade (CNV) a criar dois grupos de trabalho com áreas fronteiriças:
o GT Operação Condor e o GT de Exilados e Estrangeiros. Um grupo de 34
diplomatas, de conselheiros a embaixadores, estava sob investigação no GT
Estrangeiros em 2013, enquanto o GT Condor filtrava uma relação do Itamaraty
com nomes de 194 adidos das Forças Armadas lotados em embaixadas brasileiras no
santuário da Condor: 54 na Argentina, 49 no Uruguai, 48 no Paraguai e 43 no
Chile.
Os diplomatas e adidos militares desses postos têm
conhecimento, ou envolvimento ou participação ativa em pelo menos 17 casos de
brasileiros desaparecidos no sul do continente (Argentina, Bolívia e Chile) em
ações coordenadas da repressão regional.
A intimidade da repressão brasileira com seus parceiros no
exterior está expressa numa circular secreta da Armada Argentina, de janeiro de
1976, dois meses antes do golpe de Videla, dando passe livre para operações
antissubversivas numa zona de Buenos Aires a sete agentes do SNI, lotados na
embaixada brasileira. São dois majores, dois capitães e três agentes, com
número de código e codinomes, como Trucha, Rayo, Puma, Rato, Luz. O oficial de
enlace do SNI era o capitão Mário Lagos, código 003, Letra C, codinome
Espina.
A conexão entre os militares dos dois países, base essencial
para pouso e decolagem da Condor, independia da ditadura. Em 19 de março de
1976, cinco dias antes do golpe que derrubou Isabelita, o adido naval da
embaixada brasileira em Buenos Aires, capitão de mar-e-guerra Lima Cardoso, foi
ao QG da Armada acertar os detalhes da visita iminente do ministro da Marinha do
Brasil, almirante Geraldo Azevedo Henning. Depois da conversa com o almirante
Emílio Massera, comandante da Armada, o adido voltou com um detalhe intrigante
que obrigou o embaixador João Baptista Pinheiro a enviar a Brasília um
telegrama secreto e urgente, às 20h35 daquela sexta-feira.
O adido naval, alertava o embaixador, notou que o almirante
Massera fez de próprio punho algumas correções no programa da visita. Onde se
lia “Audiência com a Senhora Presidente”, Massera risco e emendou: “Audiência
Presidencial.
Assim, com a sutileza de um porta-aviões, o almirante
Massera fez a emenda que antecipava aos brasileiros já na sexta-feira a radical
mudança de gênero e de regime que a Casa Rosada sofreria na quarta-feira com a
troca da presidente Isabelita Perón pela junta militar do almirante Massera, do
brigadeiro Agosti e do general Videla. Sete meses depois, a cumplicidade entre
as ditaduras de Geisel e Videla era total. Um grupo de agregados estrangeiros,
incluindo os adidos do Exército e da Marinha na embaixada brasileira, foram
convidados a visitar a zona de operações antiguerrilha em Tucumán, a noroeste
de Buenos Aires. Para disfarçar, avisaram que viagem tinha a direção oposta, a
sudeste da capital, num balneário em Mar del Plata. Para reforçar a camuflagem,
os adidos foram obrigados a vestir uniformes de campanha do Exército argentino.
Não adiantou nada: “Hoje pela manhã, no entanto, o noticiário radiofônico
anunciava a presença em Tucumán da comitiva de adidos”, lamentou-se no
telegrama o frustrado embaixador brasileiro.
Após o golpe, de um lado e outro da fronteira, a integração
repressiva ficou ainda menos sutil, com favores mútuos e mais explícitos. Em
maio de 1976, o III Exército, área de atuação central da Condor, distribuiu um
pedido de busca confidencial sobre 91 exilados brasileiros na Argentina,
localizados com a ajuda da repressão vizinha. Um dos nomes da lista era o do
ex-presidente João Goulart, identificado com o endereço de seu escritório na
avenida Corrientes, 319, sala 347, invadida por agentes argentinos semanas
depois. Em outubro de 1976, o Brasil
devolveria o favor, difundindo pelo CIE, o serviço secreto do Exército, uma
lista de 149 pessoas na mira da Condor argentina. A repressão brasileira determinava
a localização, vigilância e prisão imediata de quem fosse localizado. Da lista,
22 pessoas continuam desaparecidas até hoje. O chefe do Setor de Operações do
CIE, na época, era o coronel Brilhante Ustra, o homem do DOI-CODI da Tutoia.
A crônica de sangue e medo que marca a Operação Condor
afeta milhares de pessoas e suas
famílias no Cone Sul assombrado pela ação clandestina e terrorista da repressão
transnacional. O Brasil foi protagonista dessa história de horror ainda
impreciso, oculto pela névoa do sigilo, camuflado pela treva do desaparecimento
forçado.
Dentro e fora das suas fronteiras, caçando dissidentes ou
devolvendo refugiados pela fronteira do crime e da ilegalidade, a repressão
brasileira coordenou suas operações com as ditaduras vizinhas — e cumpriu assim
os requisitos bandoleiros da Condor —,antes, durante e após sua fundação no
Chile.
Três casos exemplares, ao longo de uma década, revelam o
engajamento visceral do Brasil numa empreendimento assassino que o país, como
sempre, não assume.
Buenos Aires, dezembro de 1970.
O ex-coronel de Cavalaria Jefferson Cardim de Alencar
Osório, exilado no Uruguai, foi o primeiro insurgente armado contra a ditadura.
Comandou em 1965 uma frustrada guerrilha de 23 guerrilheiros que durou 36
horas, no sul do país, até ser cercado e preso. Regressou ao exílio após
torturas em três quarteis. Voltou a ser preso na Argentina na tarde de
sexta-feira, 11 de dezembro, ao descer do ferry-boat que liga Montevidéu a
Buenos Aires. A operação mostra a coordenação repressiva do Brasil em três
países, antecipando o voo da Condor.
Jefferson ainda atravessava o Rio da Prata, junto com o filho de 18 anos
e um sobrinho, quando começou a se mover a engrenagem da repressão.
O adido na embaixada em Buenos Aires, coronel Nilo Caneppa
da Silva, informou sobre o trio de viajantes ao órgão de inteligência da
Polícia Federal argentina, a Direção de Coordenação Federal. Com o carro
cercado por quatro homens armados, Jefferson foi preso ao desembarcar, cena
acompanhada de longe pelo coronel Caneppa. Os detidos foram levados até o
gabinete do coronel Jorge Cáceres Monié, superintendente da inteligência, no
último andar de um prédio na avenida Belgrano, no centro da cidade. Dali, já algemados e encapuzados, os presos
desceram ao submundo do terror, no subsolo 4 do edifício. Lá, pai e filho
apanharam, levaram choques, foram torturados com vela derretida no ânus.
Cáceres ligou para a embaixada brasileira e pediu a presença de Caneppa, que
compareceu na companhia do adido da Força Aérea Brasileira (FAB) em Montevidéu,
coronel-aviador Leuzinger Marques Lima, justamente o homem que vigiava os
passos de Jefferson no Uruguai.
Na manhã de sábado, 12, Caneppa informou da prisão ao
embaixador brasileiro, Antônio Azeredo da Silveira, a quem pediu um avião para
levar os presos ao Brasil. Apenas 26 horas após a prisão, em pleno sábado, o
ditador de plantão, general Roberto Levingston — um presidente tampão entre os
generais Juan Carlos Onganía e Alejandro Lanusse — assinou o decreto de
expulsão. O embaixador descobriu em Buenos Aires, por acaso, um jatinho da FAB
que servia ao ministro do Trabalho de Médici, Júlio Barata. Um detalhe que salvou a vida de Jefferson e
seu filho: o ministro era sogro de um sobrinho do preso e muito amigo de Corina,
mãe do coronel. Assim que soube pelo ministro da prisão do filho, dona Corina
avisou muita gente – e a notícia foi divulgada pelo mais famoso colunista
social do país, Ibrahim Sued, que deu ‘bola branca’ para a prisão de Jefferson.
Prisão confirmada, o preso já não podia mais ser ‘desaparecido’.
Na noite de sábado, o adido aeronáutico em Buenos Aires,
coronel-aviador Miguel Cunha Lanna, avisou que o Ministério da Aeronáutica, em
Brasília, tinha autorizado o embarque de Jefferson e do filho no jato do
ministro. Às seis horas da manhã de domingo, 13, eles foram retirados da cela
e, ainda algemados, embarcaram num comboio de quatro carros que tomou o rumo da
base de El Palomar, sede da 1ª Brigada da Força Aérea, na zona oeste da
capital. Militares brasileiros e argentinos uniformizados aguardavam na pista,
ao lado do jatinho branco com o brasão da FAB. Mas eles só embarcaram após a
chegada do Mercedes-Benz preto, com chapa diplomática, de onde desceu o
embaixador Azeredo da Silveira.
O diplomata recebeu um documento, que leu e assinou. A
ditadura brasileira recebia os presos e passava o recibo. Jefferson e o filho
viajaram algemados, vigiados por dois funcionários da embaixada, dois sargentos
(armados com metralhadora INA e pistolas Colt 45) e o adido aeronáutico,
coronel Leuzinger. O jatinho foi recepcionado na pista da base aérea do Galeão,
no Rio de Janeiro, pelo comandante da 3ª Zona Aérea, João Paulo Moreira
Burnier, o brigadeiro mais radical da Aeronáutica brasileira. Jefferson e o
filho, de novo encapuzados, foram levados para tortura nas celas do CISA, o
serviço secreto da Força Aérea, comandado pelo brigadeiro Carlos Afonso
Dellamora. Jefferson ficou sete anos
preso. O filho ficou detido ainda dois meses, até ser libertado, de repente,
sem qualquer processo.
O sucesso do primeiro voo da Condor, ainda sem nome, fez
muito bem às carreiras de dois personagens centrais do sequestro em Buenos
Aires. O coronel Caneppa chegou a general e, em 1973, era o diretor da Polícia
Federal no Governo Médici, em Brasília. O embaixador Azeredo da Silva foi brindado
com o posto máximo da carreira, assumindo o Itamaraty como chanceler do Governo
Geisel, quando o Brasil ajudou a fundar a Condor no Chile.
Porto Alegre, novembro de 1978.
A prisão de dez militantes do clandestino Partido por la
Victoria del Pueblo (PVP) em Montevidéu, no início de novembro de 1978,
desencadeou uma sequência de eventos que levou ao mais retumbante fracasso da
Operação Condor, com ressonância internacional. As revelações das torturas
excitaram a repressão uruguaia, com a possibilidade de capturar o líder do PVP,
Hugo Cores, que vivia oculto no Brasil. A chave para isso era a localização em
Porto Alegre de um casal de uruguaios, Lilián Celiberti e Universindo Rodríguez
Diaz, que faziam a ponte entre os insurgentes de Montevidéu e os órgãos de
direitos humanos na Europa, com a mediação de Hugo Cores. O casal era a isca
perfeita para fisgar o peixe grande do PVP. A Condor tinha um alvo em Porto
Alegre.
Esta era uma missão para Rojo Maíz (Milho Vermelho), o
codinome de rádio do coronel Calixto de Armas, chefe do Departamento 2 do
Comando Geral do Exército. Acima dele havia apenas o general Manuel J. Nuñez,
chefe do Estado-Maior, e o supremo-comandante, general Gregório Goyo Álvarez.
Abaixo do coronel De Armas estava a máquina repressiva do Uruguai, que pairava
sobre as quatro divisões de Exército através do OCOA, sigla do temido Organismo
Coordinador de Operaciones Antisubversivas, e seu braço operacional, a Compañia
de Contrainformaciones, o esquadrão hunter-killer que fazia e acontecia no
país.
A dupla OCOA-Compañia correspondia ao DOI-CODI
brasileiro.
Quando De Armas assumiu o Departamento 2, em agosto de 1977,
o chefe do Setor de Operações do CIE em Brasília era um velho amigo: o coronel
Brilhante Ustra, o criador do DO-CODI da Tutoia. Em novembro de 1978, o
departamento de inteligência do Estado-Maior em Montevidéu entrou em contato
com o responsável pela DOI-CODI gaúcho, a chefia do Estado-Maior do III
Exército, em Porto Alegre, pedindo passe livre para a Condor uruguaia. O sucessor
de Ustra no destacamento de operações do CIE, nesta época, era o
tenente-coronel José Antônio Nogueira Belham — o mesmo Belham que em janeiro de
1971, como major, comandava o DOI-CODI do Rio de Janeiro que torturou, matou e
desapareceu com o corpo do deputado Rubens Paiva, segundo denúncia feita agora
pela Comissão Nacional da Verdade.
Consultado em Brasília, o chefe do CIE, general Edison
Boscacci Guedes, ex-adido militar na embaixada do México, autorizou o voo da
Condor uruguaia em Porto Alegre. A parte brasileira ficou a cargo do DOPS do
delegado Pedro Seelig, conhecido como o “Fleury do Sul”: só com sua tropa, o
policial havia dizimado a esquerda armada no sul, poupando ao DOI-CODI local o
serviço sujo que o Exército precisava fazer, sem intermediários, no Rio e em
São Paulo. Na primeira semana de novembro, a cúpula da elite repressiva
uruguaia desembarcou em Porto Alegre.
O comandante da Compañia de Contrainformaciones, major
Carlos Alberto Rossel, chegou com o subcomandante, major José Walter Bassani, e
o chefe da seção técnica, capitão Eduardo Ramos. Na segunda semana, foram
rendidos pelo capitão Glauco Yannone, chefe da seção administrativa, aluno do
‘curso de inteligência militar 0-11′ na Escola das Américas. Foi ele quem, ao
lado de Seelig, deteve Lilián Celiberti na Rodoviária de Porto Alegre na manhã
de domingo, 12 de novembro. Horas depois, localizado seu apartamento, prenderam
lá Universindo Rodríguez e os dois filhos de Lilián, Camilo (8 anos) e
Francesca (3).
Durante horas, o casal foi torturado na sede do DOPS, no
prédio da Secretaria de Segurança Pública. Universindo ficou pendurado até a
madrugada no pau-de-arara, golpeado incessantemente pelo capitão. Yannone bateu
tanto que ficou com o punho doído. De repente, sentou no chão, tirou o calçado
e continuou a golpear o preso, algemado, com o salto do sapato. Resumo da cena:
era um oficial de um Exército estrangeiro torturando um preso na masmorra da
polícia política local, no interior da sede da segurança pública, diante de
policiais e agentes públicos brasileiros, coniventes e cúmplices de uma ação
repressiva sem qualquer base legal ou moral.
Um absurdo que só a Condor permite, um crime que só o terror
de Estado explica.
Cinco dias depois, a Condor desabou, quando a ratonera
armada pela repressão para capturar Hugo Cores foi desmascarada no apartamento
de Lilian, mantida ali sob a guarda do DOPS e do capitão uruguaio Eduardo
Ferro, chefe do setor de operações da Compañia. Em vez do chefe do PVP, como
eles esperavam, quem bateu à porta foram dois jornalistas da sucursal da
revista Veja, alertados por um telefonema anônimo de Cores. A quebra do sigilo
obrigou a Compañia a abortar o sequestro, forçando os sequestradores à fuga
apressada para o Uruguai. Em 2007, numa entrevista em rede nacional de TV no
Uruguai, o próprio capitão Eduardo Ferro reconheceu: “Havia coordenação com os
Exércitos regionais. Eu fiz o translado das pessoas do Brasil para o Uruguai.
Elas foram presas pela polícia e pelo Exército do Brasil. É só o que posso
dizer”.
O sequestro de Porto Alegre virou um fiasco internacional, o
que impediu o desaparecimento de praxe dos sequestrados. Mesmo assim, Lilián e
Universindo foram condenados pela ditadura a cinco anos de prisão pela falsa
‘invasão’ do Uruguai. Preocupado com o vexame que expôs o governo brasileiro
diariamente no ocaso de seu mandato, o general Geisel resolveu reforçar a farsa
uruguaia. Convocou o general Figueiredo, já indicado como seu sucessor no
Planalto, e deu ordens para resolver o caso. O ex-chefe do SNI, que escalou o
time do Brasil na fundação da Condor, repassou o problema para o general que o
tinha substituído no SNI, Octávio Medeiros.
Na primeira semana de janeiro de 1979, o general
Medeiros desceu em Porto Alegre com o
chefe da Polícia Federal, coronel Moacyr Coelho, para uma reunião de cúpula da
segurança no QG do III Exército. Um dos presentes era o velho amigo do coronel
De Armas: o coronel Brilhante Ustra, então no comando de uma guarnição de
artilharia na Grande Porto Alegre. Nasceu dali uma história esdrúxula de outra
‘invasão’, desta vez colocando o casal uruguaio e as crianças a bordo de um
ônibus de linha que cruzava a fronteira. A farsa foi desmontada pela imprensa
em poucas horas.
O Brasil, mero observador na fundação da Condor, virou
personagem central do único fiasco público da Condor, irritando e constrangendo
os três generais mais importantes de Brasília: Geisel, o presidente,
Figueiredo, o futuro presidente, e Medeiros, o chefe do SNI que sonhava um dia
ser presidente.
Foi um vexame internacional, cometido em território
brasileiro, sob as asas da ditadura militar, deixando para trás dois
perseguidos políticos, duas crianças e dois jornalistas, todos vivos para
lembrar e para contar a história. A Condor jamais havia passado por uma
vergonha tão grande.
Rio de Janeiro, março de 1980.
Não é um Condor, mas é um monstrengo alado. Com o peso de
quase 1.000 homens corpulentos e a envergadura de um prédio de quase 15
andares, o Hércules C130-B é um caminhão voador, que nunca passa despercebido.
Seja pelo tamanho, seja pelo barulho de seus quatro turbo-propulsores
Rolls-Royce de 19.800 cavalos, uma potência equivalente aos motores combinados
de 275 carros Gol, o automóvel mais popular do país.
Pois um Hércules assim barulhento e grandalhão desceu na
base aérea do Galeão um pouco antes de 12 de março de 1980. Naquele dia,
aterrissou ali um avião da Varig, vindo de Caracas, no destino final de uma
viagem iniciada no México. Os passageiros foram recebidos ainda na pista por um
inusitado ‘corredor polonês’ de cerca de 30 homens mal-encarados, que pareciam
procurar alguém. Alguns falavam espanhol. Uma passageira percebeu a armadilha
e, quando um dos homens a segurou pelo braço, começou a gritar: “Somos Mónica
Binstock e Horácio Campiglia!” Repetiu o grito de desespero mais duas vezes,
até que se calou e sumiu, levada com o seu companheiro de viagem. Nunca mais
foram vistos com vida.
O casal era argentino e integrante dos Montoneros, o grupo
guerrilheiro da esquerda peronista. Campiglia era do comando militar e líder
das chamadas TEI, Tropas Especiais de Infantaria treinadas pela OLP no sul do
Líbano. Os Montoneros exilados executavam um arriscado plano de retorno ao
país, mas toparam com uma dura reação da ditadura argentina. O grupo de
recepção no Galeão era formado por agentes do Batalhão 601, a tropa de elite da
inteligência do Exército, braço operacional da Condor argentina no exterior.
Tinham desembarcado do Hércules C-130, da Força Aérea Argentina.
Os detalhes dessa operação foram revelados ao Governo
estadunidense, três semanas depois, num memorando confidencial do oficial de
inteligência da embaixada em Buenos Aires, James J. Blystone, ao seu
embaixador. Ali, o Brasil ficava definitivamente comprometido com a Condor, com
a revelação de que a repressão argentina pedira “ao seu colega da Inteligência
militar brasileira permissão para realizar uma operação no Rio”. O memorando
informa que a luz verde foi concedida para a equipe especial que voou ao Brasil
no Hércules da Força Aérea, comandado pelo tenente-coronel Román. “Ambos foram
capturados vivos e voltaram para a Argentina no C-130″, informa Blystone.
Fontes da repressão dizem que Mónica e Campiglia foram
enviados para El Campito, o CCD de Campo de Mayo, o maior quartel do país, a 30
km do centro de Buenos Aires, onde sobreviveram apenas 43 dos 5.000 presos que
passaram por lá. O casal do Galeão engrossou a lista de mortos.
Blystone ouviu que, nas duas semanas anteriores, as forças
de segurança tinham capturado na Argentina, ainda vivos, 12 integrantes TEI dos
Montoneros. Um deles, ex-instrutor num campo guerrilheiro da Líbia, tinha
mudado de lado para colaborar com a repressão. Quase 30 anos depois, a história
se confirmaria no Rio de Janeiro, pela voz autorizada do coronel Paulo Malhães,
o organizador da ‘Casa da Morte’ de Petrópolis e responsável em 1980 pelos
agentes infiltrados do CIE no Rio de Janeiro. Um certo ‘Gringo’, ex-Montonero
trazido por um coronel do Batalhão 601, agia como agente duplo no Brasil,
abastecendo de informações o CIE e o SNI e agindo infiltrado junto ao Alto
Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR). A Argentina bancava US$ 20 mil
dólares mensalmente para manter a ‘Operação Gringo’ no Rio de Janeiro.
Há dois anos a ditadura de Videla tinha instalado em
Brasília o homem certo para a função: o coronel Jorge Ezequiel Suárez Nelson
trocou a chefia da central de informações do Batalhão 601 para assumir no
Brasil o posto de adido militar na embaixada argentina, aonde chegou em 17 de
dezembro de 1978 — exatamente um mês após a aparição no apartamento de Lilián
Celiberti dos dois repórteres da revista Veja que acabaram frustrando o
sequestro da Condor em Porto Alegre.
Só em 1980 morreram vinte Montoneros que tentavam retornar à
Argentina. O desempenho de Suárez foi tão bom em Brasília que ele voltou a
Buenos Aires em 1981 como subsecretário da Secretaria de Inteligência do Estado
(SIDE). No final do ano Suárez virou general, lotado no Estado-Maior Conjunto.
A ‘Operação Morcego’, montada pelo Batalhão 601, estava contendo a ferro e fogo
o retorno da guerrilha peronista, cumprindo a ordem de executar o inimigo ainda
no exterior.
Apesar das dimensões superlativas da ação da Condor no
Galeão, o Brasil finge que não sabe de nada. Um avião de grandes proporções,
com uma tropa estrangeira armada a bordo, desce na mais importante base aérea
do país — e não há registros oficiais sobre isso. O plano de vôo do Hércules
que decolou da base de El Palomar previa gastar quase três horas e meia no
trajeto sem escalas de 2.020 km entre Buenos Aires e Rio, apenas na viagem de
ida. Só o raciocínio ordinário de uma ditadura, como a brasileira, ousaria
esconder o pouso e decolagem de uma aeronave militar estrangeira numa base da
Aeronáutica, sem exibir até hoje os documentos necessários para uma operação
dessa envergadura
Proposta indecente
É natural que uma ditadura seja cínica. Mas, não é aceitável
ver este comportamento numa democracia.
Desde sua criação, há quinze anos, o Ministério da Defesa
parece mais preocupado em defender os militares do que em exercer seu papel de
hegemonia civil sobre os quartéis. O atual ministro, Celso Amorim, adotou o
mesmo comportamento submisso de seus antecessores, negando sempre a existência
dos arquivos e documentos essenciais para resgatar a memória da ditadura e para
reconstruir a história deturpada pela violência e pela censura. “Não existem documentos”,
repete teimosamente Amorim, ecoando a ordem unida dos generais brasileiros, que
parecem ainda imersos na Guerra Fria.
Desta vez, a Argentina não imita o Brasil. Na sexta-feira,
21, três dias antes do aniversário do golpe de Videla, o ministro da Defesa
Agustín Rossi fez o que seu colega
brasileiro não faz: abriu na internet mais de 1.500 documentos com 280 atas
secretas da Junta Militar de 1976.
Aqui, um mês atrás, a Comissão Nacional da Verdade pegou o
Ministro da Defesa na mentira. Em audiência na sede da Defesa, no dia 18 de
fevereiro, os sete comissários da CNV levaram ao ministro Amorim um
requerimento contundente pedindo sindicância das Forças Armadas para apurar o
uso de bases e quartéis para a prática de torturas.
Com dados consistentes e fatos inquestionáveis, a CNV lista
sete unidades do Exército, Marinha e Aeronáutica, em quatro capitais
diferentes, onde prédios públicos foram usados ilicitamente para abusos contra
a pessoa humana, caracterizando um desvio de finalidade que demanda apuração,
responsabilização e reparação. Dois desses prédios são as sedes do DOI-CODI do
coronel Brilhante Ustra, em São Paulo, e do DOI-CODI do general Belham, no Rio
de Janeiro — onde morrera sob torturas, entre outros, o jornalista Vladimir
Herzog e o deputado Rubens Paiva.
O ministro Amorim, sem a escolta de nenhum general na
reunião, remexeu-se na cadeira, incomodado com o imprevisto requerimento da
CNV. E reagiu inesperadamente com uma proposta indecente: ofereceu a liberação
de documentos militares, em troca da garantia da CNV de que não haverá a temida
revisão da Lei de Autoanistia, que a ditadura se autoconcedeu em 1979, no
Governo Figueiredo — o general que se fez representar na fundação da Condor.
Com a altivez devida, os comissários da CNV rejeitaram na
hora a barganha imoral proposta pelo ministro Amorim. Se documentos existem,
eles devem aparecer, sem para isso espichar ainda mais o manto de impunidade
que protege os torturadores há meio século.
A oferta inusitada do Ministro da Defesa coloca duas novas
questões: os documentos afinal existem, desmentindo o que ele e seus generais
sempre dizem. E a revisão inevitável da Lei de Autoanistia, de fato, inquieta
os quartéis.
O ministro Celso Amorim e todos os seus generais,
subordinados de uma presidente que foi guerrilheira, presa e torturada no
regime militar, esquecem que, mais do que a sombra do passado que nos persegue,
temos pela frente o futuro que nos desafia diante de um presente que não pode nos
atemorizar.
O ministro da Defesa e os chefes militares deste Brasil
cínico e esquecido podem aprender muito com a sábias palavras do historiador
uruguaio Universindo Rodríguez Diaz, o sequestrado de Porto Alegre que
sobreviveu à Operação Condor, às torturas, às ditaduras aqui e lá e aos tempos
com dor do Cone Sul. Disse Universindo:
Somos também sobreviventes da repressão. Perdura em nós a
memória e estamos eticamente obrigados a defendê-la, a nos reencontrar com ela,
ainda que seja doloroso. Tive a possibilidade de sobreviver. Levo comigo a
obrigação de não esquecer.
Universindo morreu de câncer em setembro de 2012.
Cabe a nós assumir a obrigação moral que ele nos cobra: não
esquecer.
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