Greve geral desta quarta-feira estampa massivo repúdio à
política neoliberal do presidente Cartes
Por Leonardo Severo
http://www.brasildefato.com.br/ Leonardo Severo
Jogando a toalha diante da magnitude da greve geral que
paralisou o Paraguai na ultima quarta-feira (26), o vice-presidente Juan Afara
declarou que o governo do presidente Horacio Cartes “não é absolutamente
privatista” e que “está aberto para conversar” com os movimentos sindical e
social. Na prática, a inflexão verbal dos entreguistas já havia sido
manifestada por Cartes no dia anterior, quando nomeou Afara para coordenar as
“mesas de diálogo” – até então inexistentes - numa tentativa desesperada de quebrar
a crescente adesão ao protesto contra a política neoliberal.
Esbanjando bom humor, em ritmo de samba, os manifestantes
entoaram “Use e abuse, mas de vende-Pátria não me acuse”, ridicularizando as
recentes declarações de Cartes a empresários brasileiros para que “usem e
abusem”, pois “o Paraguai é fácil, uma mulher bonita”. À frente da principal
marcha em Assunção, a cabeça de Cartes foi simbolicamente servida numa bandeja,
arrancando aplausos por onde passava.
Liderando um dos muitos piquetes da capital, o presidente da
Central Unitária de Trabalhadores Autêntica (CUT-A), Bernardo Rojas, destacou
que esta é uma quarta-feira “extraordinária e histórica”, pois o movimento
social paraguaio conseguiu somar organizações camponesas, comunitárias e
estudantis, furando o cerco do governo e da mídia “e fazendo chegar as suas
propostas até a sociedade”. “Foi a intensidade desta pressão que obrigou o
governo a sentar na mesa. Agora é o momento de aprofundar a unidade e a
mobilização”, acrescentou.
APP VIOLA DEMOCRACIA E SOBERANIA
“Conseguimos a adesão de mais de 80% dos trabalhadores do
serviço público e privado em Assunção e de 90% em todo o país, o que faz da
greve um sucesso”, avaliou o secretário geral CUT-A, Victor Ferreira, também
dirigente do Sindicato dos Portuários de Assunção. De acordo com Victor, “a APP
implantada pelo governo fere de morte a democracia e a soberania, pois terão de
se passar dez anos para avaliar se as coisas estão saindo bem ou mal, uma
verdadeira loucura”. No total, recorda, os contratos são de 30 anos,
prorrogados por mais dez, o que daria às multinacionais o poder de administrar
setores estratégicos do Estado por até 40 anos. “Isso são dez governos. De um
canetaço, em dois meses, anulam estudos de anos sobre o tema. As eleições não
seriam mais necessárias já que parcela expressiva do patrimônio público passa a
ser gerido pelo capital transnacional. A administração estaria completamente
privatizada”, argumentou.
CAMPO E CIDADE UNIDOS
Reforçando a necessidade da reforma agrária e de que o
governo pare de se comportar como “capataz” dos plantadores de soja e eternos
latifundiários que mancham de sangue a terra guarani, cerca de 20 mil
camponeses ocuparam a frente do Congresso Nacional “contra os traidores da
nação” e se solidarizaram aos presos políticos de Curuguaty.
Ao mesmo tempo, estudantes secundaristas e universitários se
uniram a professores e funcionários contra o projeto de privatização da
educação e em defesa do “ensino público, gratuito e de qualidade”. No momento,
denunciam em manifesto, “não há as mínimas condições de infraestrutura”, “com
aulas sendo dadas embaixo de árvores e falta de educadores no interior”.
EDUCAÇÃO PRIVATIZADA
Conforme o secretário geral da Frente Estudantil pela
Educação, Arturo Carlo, o movimento cumpriu o desafio de forma exitosa, com as
Universidades Nacional e a Católica de Assunção exercendo grande protagonismo
na paralisação, ao lado da Universidade Nacional de Villa Rica. “Temos apenas
6% da juventude paraguaia dentro das universidades, 78% nas privadas. Das 52
universidades, somente oito são públicas. As APPs reforçam essa privatização. O
Estado deixa de investir, fortalecendo alianças com o setor privado, que passa
a ampliar seus lucros financiando o pagamento de mensalidades com créditos mais
brandos”, sublinhou Arturo.
APP É CRIME
Conforme as centrais, a lei deve ser suprimida “porque não
somente afeta os trabalhadores e seus benefícios, mas o país como tal, a sua
soberania e os demais poderes do Estado”. O documento unitário esclarece que as
APPs atingirão as fontes de trabalho e que “não se sabe e não se tem em conta
as condições salariais, laborais e de benefícios aos novos postos de trabalho
que serão criados, se é que serão criados”. As centrais denunciam que não houve
qualquer tipo de consulta, pois o governo, que “concentra todo o poder no
presidente Horacio Cartes”, “fez tudo entre quatro paredes”, excluindo o
Congresso Nacional, “um dos poderes do Estado”. Desta forma, “o modelo original
não foi só manuseado, mas violado, ultrajado e violentado”. Com as APPs,
enfatizam, “se perde a soberania judicial ao recorrer à arbitragem
internacional, deixando de lado o poder judiciário; as transnacionais serão as
donas de tudo e o Estado presenteia todos seus bens estratégicos por 30 anos ou
mais, colocando em risco seu orçamento”.
Como estampava um cartaz no Festival Popular que antecedeu a
greve: “com o neoliberalismo não se constrói uma Pátria, se destrói um país”.
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