Autor de Cidade de Deus e Desde que o Samba é Samba assume,
sem medo, que a saída da ditadura não mudou a situação do negro, fala da
inserção dos afro-brasileiros na
sociedade pela cultura e critica a polícia brasileira. “90% é corrupta, tudo
bandido”
por Igor Carvalho,
da Revista Fórum
Paulo Lins correu o mundo com seu filho mais ilustre, o
livro Cidade de Deus, de 1997. Por conta do filme homônimo, se tornou famoso
internacionalmente, fazendo cumprir a profecia de João Moreira Salles, que via
em sua obra um paradigma da cultura brasileira.
Com o passar do tempo, Lins reforçou sua preocupação com a
sua ancestralidade africana. Recentemente, lançou Desde que o Samba é Samba,
que congraça o encontro do samba e da umbanda na formação da identidade
cultural do brasileiro. O escritor, que se tornou referência no debate sobre
questões raciais e sociais no Brasil, tem um riso fácil e sempre disposto, que
só encontra adversário à altura quando o assunto é violência policial e o
genocídio da população negra e pobre no Brasil.
“A democracia não foi boa para o negro, vivemos em um Estado
policial, é guerra o tempo todo. Você falar que continuamos em uma ditadura é
politicamente incorreto, mas é verdade, a democracia no Brasil só é boa para a
classe média branca”, afirma o escritor, que acaba de lançar Era uma vez…Eu.
Fórum – Em Desde que o samba é samba, você fala da inserção
do negro na sociedade por meio da arte e da religião. Estes ainda são os meios
de o negro ascender socialmente, junto com o futebol?
Paulo Lins – O futebol é problema seu [risos]. O futebol é
esporte, não é a cultura de um povo. A cultura de um povo é você ter as
histórias e as crenças que seu bisavô tinha. A arte é a mãe da sociedade, de
qualquer sociedade, e quem fala isso é o Octávio Paz, não sou eu. As duas
coisas insubstituíveis na vida são a arte e os deuses. Se a gente resolver
jogar uma bomba naquela igreja católica ali, vamos arrumar uma confusão dos
diabos. Mas, por outro lado, o negro ainda é atacado por sua religião, no Brasil.
E a religião é algo que nos fortalece, por essa ligação com os nossos
antepassados.
Vamos voltar lá atrás, em uma época que os negros eram
arrancados de casa e trazidos para o Brasil, na condição de escravos. Estávamos
em guerra, a escravidão foi uma guerra. Nesse cenário, se o cara consegue minar
sua cultura, ele domina você. Os franceses conseguiram isso no Caribe. Em
Guadalupe, os negros ficaram sem seus deuses, não tem Oxalá, não tem batuque,
não tem a cultura africana e estão dominados, são discriminados e considerados
cidadãos de segunda classe. O Paz fala que tudo é substituível, menos a arte, a
casa substituiu a oca, o carro substituiu a carroça, a metralhadora substituiu
o tacape, mas a Ilíadanão substituiu a Odisseia, o Grande Sertão Veredas não
substituiu Macunaíma, assim como Deus não substituiu Oxalá e nem Ogum a São
Jorge. A cultura como sentimento de um povo, é disso que eu quero falar, um
povo que tem a cumplicidade de acreditar no mesmo Deus.
Fórum – O samba é, então, o elemento que colabora para a
afirmação da identidade do negro?
Lins – O samba, o maracatu, a capoeira e outros elementos
que conseguimos inserir aqui, que queriam nos tirar, mas resistimos. As escolas
de samba são a maior festa e o que traz mais turistas, a umbanda está no mundo
todo. Olha o samba, que é a festa de uma nação, de um povo, não tem samba na
Argentina, tem tangos lindos, mas samba é daqui, isso é o nosso sentimento. O
samba de toda uma cultura de uma raça… Ah, hoje não se fala mais raça, ficou
fora de uso, vai entender.
Olha o poder do samba. A política sempre negociou com os
líderes, ela tem que negociar com os líderes. Quando o negro começa a votar, os
políticos descobrem que precisam negociar com os líderes negros, que são
sambistas e mães-de-santo. A força política do voto negro se dá por meio do
samba e da religião. Tem uma lei de um deputado chamado Nicanor Nascimento, em
1935, acho, permitindo que o Candomblé funcione por conta da força política das
mães-de-santo.
Fórum – Por que tanta gente se incomodou quando você falou
da homossexualidade do Ismael Silva, no livro
Lins – Porque são homofóbicos.
Fórum – Você falou da perseguição ao samba. É possível
encontrar similaridade com o que é feito, hoje, com o funk e o rap?
Lins – A
discriminação é a mesma. O Brasil é um país racista e a aglomeração de negros
nunca é bem vinda por aqui. Veja bem, a favela é o resultado do encontro desses
negros, favelados, tem os bandidos, ali estão as pessoas mais sacrificadas da
sociedade e o resultado não poderia ser diferente do que uma música que agride.
Fórum – Você, Mano Brown, Sérgio Vaz, Ferréz, serão sempre
procurados para opinar sobre assuntos que vão para além da arte que produzem,
como violência, racismo, polícia… Isso o incomoda?
Lins – Não me
incomoda. Tenho que falar disso, quero falar disso, se nós não falarmos, quem
vai falar? O Ferréz tem problema com isso, não gosta de falar somente desse
assunto. Aliás, pode me perguntar, está demorando, eu quero responder [risos].
Fórum – Pergunto, então. Onde está a luta dos movimentos
negros, hoje?
Lins – Vivemos um tempo em que há uma inserção social do
negro no teatro e no cinema, sem falar necessariamente de violência. Nossas
causas estão nos livros, na internet, nos jornais, então isso mostra que os
negros seguem lutando. Vivemos, após a democracia, um compasso de espera,
porque a democracia seria uma panaceia, um remédio para todos os males. Quando
o [José] Sarney entrou [em 1985, assumiu a presidência da República], a
esquerda e os movimentos tiveram que parar e se pensar. Essa democracia teria
que nos trazer uma vida social e política equilibrada, mas não deu certo, não
mudou nada. Mudou a liberdade de expressão, isso sim. Mas isso é bom pra classe
média, porque pra gente continua a mesma coisa, os negros e pobres passando
fome e morrendo na mão da polícia, percebe que é a mesma coisa? Mudou o que a
democracia? ‘Ah, vivemos em um Estado livre’. Que nada, só quem pode qualquer
coisa nesse país é rico, é branco. A democracia não foi boa para o negro,
vivemos em um Estado policial, é guerra o tempo todo. Você falar que
continuamos em uma ditadura é politicamente incorreto, mas é verdade, a
democracia no Brasil só é boa para a classe média branca.
Fórum – Você está falando do óbvio descaso com a população
pobre e negra no Brasil. Qual sua opinião sobre programas sociais como o Bolsa
Família ou o Mais Médicos?
Lins – Existe uma questão de erradicar a fome. O Lula falou
isso. Houve avanços significativos na gestão dele, é inegável, muita gente
subiu de classe social e é isso que a esquerda quer. Acho que seria importante
termos algo mais unificado democrata, um socialismo, não esse capitalismo que
está aí. Vivemos o tempo dessa economia virtual, com fortunas concentradas em
bancos. Ninguém está feliz, você pode ter momentos de felicidade, mas a
sociedade está triste, está com medo, está pressionada. É manifestação,
porrada, a imprensa brigando, grupos querendo ganhar mais, políticos corruptos,
vivemos um modelo que não deu certo.
Fórum – E a polícia…
Lins – Aí é guerra. Vivemos em guerra o tempo todo, cara.
Nos anos 70, ainda na ditadura, teve a Guerra das Malvinas, o número de mortos
nem se compara com os nossos. Morre mais gente nas mãos da polícia do que em
guerras pelo mundo. É um genocídio, ninguém mata mais, no Brasil, do que a
polícia. O Estado é nosso maior assassino.
Fórum – Estava lendo uma declaração sua, de 2009…
Lins – Isso é uma merda, né? [risos] Tu fala uma coisa, lá
em 2009, nem lembra, em outro contexto e é cobrado por ela. Vai dar tudo certo,
se eu falei, é isso…
Fórum – Bom, você disse que a violência policial existe, mas
que não acredita em um poder paralelo, porque ele está dentro do poder. É isso?
Paulo Lins – Isso mesmo. Eu tinha razão [risos]. Nunca
existirá poder paralelo sem corrupção. 90% da polícia é corrupta, tudo bandido.
Aí vão me dizer que tem policial honesto… Tem nada, se não são, pecam por serem
corporativistas. É muita propina, para tudo, cara. Ninguém fala em tráfico de
armas nesse país, como uma arma produzida na Europa entra aqui? Como nossas
armas saem para a América do Sul? Então, o crime se alimenta da polícia.
Fórum – Manifestações. O que você pensa sobre os protestos
no Brasil?
Lins – Tenho que citar o Mano Brown, tem uma música dele,
que não lembro qual agora, em que ele fala que ninguém está feliz. O povo está
na rua porque não está feliz. A felicidade é muito complexa, né? Vivemos numa
sociedade desequilibrada que está tentando pedir as coisas mais necessárias,
como comer bem, ter saúde, educação, é básico. Mas tinha gente pedindo pena de
morte e redução da maioridade penal, cara. Não concordo, mas acho que faz parte
desse desequilíbrio, não posso questionar uma pessoa que perdeu um parente, um
amigo num assalto a mão armada. É muito doído, cara. Eu vivi a dor do [Marcelo]
Yuka, sei o que a família dele passou, e
isso é fruto dessa sociedade infeliz. Você não está na Alemanha, onde tem
problemas, mas a seguridade social existe.
Fórum – O que é a “neo-favela” de que você fala?
Lins - São, de certa forma, os conjuntos habitacionais que
começaram a ser construídos pelos militares. A Cidade de Deus, no Rio, em São
Paulo, a Cohab e o Cingapura. É um outro tipo de isolamento, que não funciona,
aqueles apartamentos mínimos. Sou a favor de que se urbanize, que se leve
asfalto, mas tem que ter estrutura, não qualquer coisa, de qualquer jeito. São
esses isolamentos que chamo de “neo-favela.”
Fórum – E a UPP?
Lins – UPP é coisa de playboyzinho, né cara? [risos]. É de
uma idiotice sem limites. A UPP, se vermos a ideia original, era interessante,
mas como foi aplicada é uma imbecilidade. Já vi o [José Maria] Beltrame
[secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro] falando umas baboseiras,
que a polícia não pode só ocupar, que tem que levar outros benefícios, mas não
tem nada disso. Falta saneamento básico, escola de qualidade, bibliotecas,
serviço médico competente, creches. Falta, também, treinamento decente, que
humanize o policial, não existe isso. Tô fora do Rio de Janeiro e agradeço, não
pelo governo de São Paulo, o governador aqui é um imbecil também. O governador
aqui é um imbecil também, pois no dia em que um garoto negro da favela matou
outro garoto branco de classe média aqui em Perdizes ele foi na televisão no
mesmo dia e disse que isso era por causa da impunidade, que tinha que aumentar
a idade penal. Todo mundo fica triste quando ocorre um crime desse, a sociedade
toda sofre, pois todo mundo tem família e amigos e, falando isso, ele tira toda
responsabilidade de sua gestão e todas que foram do PSDB aqui em São Paulo. O
garoto que atirou nasceu no governo deles, é fruto dessas administrações
capengas de seu partido no estado. A cidade está toda comovida e ele me vem com
essa, é claro que no calor da tristeza as pessoas pensam em até fazer justiça
com as próprias mãos. Aumentar a idade penal não vai suprir as deficiências do
PSDB com as causas sociais.Sei lá o que acontece. Poxa, se eu me candidato a um
cargo público, vou lá para ajudar, esses caras não estão preocupados em
resolver nada, ajudar ninguém, só querem poder e dinheiro.
Fórum – Você não vê exceções?
Lins - Nada. Quem governa hoje é marqueteiro, ele quem diz
como você vai se comportar, como ganhar mais pontos na pesquisa. Não temos mais
estadistas, acabou a era dos estadistas no Brasil, são todos submissos às
táticas do marketing.
Fórum – Como vê as gestões de Lula e FHC?
Lins – Era, no momento que ganharam, o melhor que tínhamos.
Já pensou, ao invés de Fernando Henrique Cardos, o Antônio Carlos Magalhães? E
se ao invés do Lula fosse o Alckmin? Nossa. E olha, no fim, PT e PSDB se
parecem muito. Ficam com esse poder fracassado, de fazer acordos absurdos para
compor maioria, que está condenado.
Fórum – Vamos falar de Cidade de Deus?
Lins – Vamos. Agora.
Fórum – Quando terminou e leu o livro, você em algum momento
achou que poderia ter a dimensão que teve?
Lins – Entreguei o livro na casa de uma editora, que tem uma
agência literária, em Ipanema, no Rio. Estava de frente para a praia e saí, mas
não sabia para onde ia. Fui parar na casa de uma amiga e parecia que tinha tido
um filho, uma moleza absurda, cara. Acreditava, naquela época, que era um livro
de consulta, voltado para a academia, que poderia ser usado em História,
Antropologia e Sociologia.
Um tempinho depois, o João Moreira Salles foi em casa para
gravar minha participação no documentário Notícias de uma guerra particular, e
ele olhou para mim e disse: “Cara, você vai ser conhecido no mundo inteiro por
causa desse livro”. Eu dei risada. “Esse cara usou droga pesada”, eu pensava
[risos]. Roberto Schwarz [crítico literário]
já tinha me falado, mas eu pensei só no mundo acadêmico. Bom, um dia
minha editora me liga e disse que o livro ia sair com 6 mil exemplares, mas
eram 3, antes. Daí, pulou para 10 mil, 50 mil e perdi o controle.
No carnaval de 1997, Caetano Veloso, Cacá Diegues, Zezé
Motta e Hermano Vianna vieram falar comigo no sambódromo, durante as filmagens
de “Orfeu da Conceição”, filme de Cacá, que eu ajudei no roteiro, aí eu tremi,
fiquei assustado. Comecei a achar que ficaria muito exposto, minha família
também não queria isso. Pouco tempo depois, toca meu telefone, era o Eduardo
Coutinho. “Paulo, quero ser seu amigo”. Aí eu entendi o que estava acontecendo.
Fórum – Quanto tempo você demorou para escrever?
Lins – Foram dez anos envolvido com o livro. Parei muitas
vezes. Todo fim de relacionamento eu parava, arrumava um novo amor e
continuava, nasce filho eu paro, enfim, fiquei dez anos.
Fórum – A migração para o cinema se deu em que momento?
Lins – Não foi o Fernando Meirelles quem me procurou, foi o
Heitor Dália. Lembro que ele foi em casa no dia em que o Tim Maia morreu, e eu
num puta baixa astral, indo para um churrasco na casa de um amigo. Bom, aí
vendi, mas não estava muito empolgado com esse negócio de cinema nacional, já
estávamos na retomada, mas não me empolgava.
Fórum – Você estava em Cannes, quando o filme passou lá?
Lins – Não, fui para o Oscar, me arrumaram um convite.
Fórum – E aí?
Paulo Lins – Ah, aquelas atrizes lindas, bebida de graça,
estava bom, né? Mas eu não peguei ninguém, hein! [risos]

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