O processo de canonização de João
Paulo II, que passará à história como o Papa carrasco da modernidade e do
Concílio Vaticano II é uma vergonha.
Federico Fasano (*) – Carta Maior
Há poucos dias, o Papa Francisco,
furacão das mudanças estratégicas na segunda religião do planeta Terra, cometeu
seu primeiro erro histórico.
Deu aval à canonização simultânea
do “Papa bom”, como chamavam o Papa João XXIII, o Papa da mudança renovadora, o
dirigente pontífice que voltou às raízes se inspirando na Igreja primitiva das
primeiras centúrias; e a de João Paulo II, o Papa do status quo, artífice da
restauração termidoriana na Igreja dos pobres, aquela comunidade espiritual
fundada há dois mil anos por um humilde carpinteiro hebreu de Nazaré – a mesma
que Francisco pretende refundar com sagacidade e cautela, resgatando as
sementes igualitárias dos primeiros cristãos.
Ignoro o fato de isso talvez ter
sido uma concessão tática à poderosa burocracia do Vaticano, que já havia
decidido canonizar o principal baluarte dos conservadores muito antes da
eleição do cardeal Jorge Bergoglio para ocupar a cadeira de Pedro, o pescador
da Galileia.
Parece algo difícil de explicar e
de entender o fato de se colocar no mesmo pedestal Angelo Giuseppe Roncalli – o
renovador de Sotto Il Monte, arquiteto do edifício intelectual e filosófico
mais humanista da história da Igreja Católica do último milênio, que foi o
Concílio Vaticano II, de 21 de janeiro de 1959 – com Karol Wojtyla, a máquina
de demolição mais feroz desse Concílio, destruído peça por peça durante os 27
penosos anos de sua administração, a segunda mais duradoura desde a
crucificação do primeiro Papa, Pedro.
Mas Wojtyla, emergido no seio da
Igreja polaca, profundamente conservadora – que não titubeou ao apoiar as
formações políticas da ultradireita e racistas, como o PIS (Partido Lei e
Justiça) da Polônia –, não somente demoliu o Concílio da igualdade, como também
enterrou a revolucionária proposta de Medellín de 1968 (Segunda Conferência
Geral do Episcopado Latino-Americano), a Teologia da Libertação e a
colegialidade no governo do Vaticano, fortalecendo a tendência absolutista
restauradora do antigo sistema romano medieval, profundamente pré-conciliar.
Seu reinado foi autoritário, afastado de qualquer horizontalidade.
Bem o define o sólido teólogo
suíço Hans Kung ao analisar o legado de Wojtyla:
“Peço aos bispos que exijam um
novo Concílio, porque a Igreja Católica caminha para se transformar em uma
grande seita. O absolutismo de Roma não conseguiu sepultar o Concílio Vaticano
II, mas o traiu. O Papa deveria ser o servus servorum, o servidor dos servidores
e não o dominus dominorum homini”. Acrescentando algo que Francisco está
tentando fazer: “Devemos entender também os agnósticos e os que não têm nenhuma
religião. Não é possível mandar todos para o inferno, seria uma imensidão”.
Para os católicos, a canonização
não é uma condecoração, mas a constatação da santidade de um membro dessa fé
comum que une, capaz de realizar fatos sobrenaturais. Para os não crentes, é a
outorga da medalha mais valorizada obtida por um homem excepcional de um grupo
humano religioso. É, então, impossível, para os que não acreditam em milagre,
entender como a Igreja Católica pode dar tal condecoração a um homem que
defendeu o corrupto Banco Ambrosiano, que protegeu a pedofilia e os dois mais
eminentes abusadores de menores, os cardeais Bernard Law, dos Estados Unidos, e
Hans Hermann Groer, da Áustria. Isso sem nos esquecer de seu apoio ao sinistro
Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, sacerdote com duas mulheres
e vários filhos de quem abusou sexualmente; e do fato de ter prejudicado por
todos os lados os teólogos da libertação, negando-se a beatificar o bispo
mártir de El Salvador, Arnulfo Romero, porque esse gesto “seria
instrumentalizado pela esquerda”. E ainda teve a insolência quando o Monsenhor
Romero lhe entregou, no Vaticano, em 1979, poucos meses antes do assassinato do
religioso salvadorenho, as provas das violações dos direitos humanos em seu
país e as ameaças de morte que diariamente ele recebia do governo homicida,
respondendo, sem rubor: “Pois então se relacionem melhor com seu governo”. Este
é mesmo São Wojtyla, cúmplice das ditaduras latino-americanas. O mesmo que saiu
na varanda do Palácio La Moneda no Chile, em 1987, ao lado do tirano Pinochet,
ambos saudando o sofrido povo chileno sem pronunciar uma só palavra de proteção
àqueles que estavam submetidos ao ditador.
Os que creem poderão dizer que,
apesar de isso tudo estar correto, também é certo que foram comprovados
milagres, cumprindo as normas canônicas necessárias para a beatificação e santificação.
Mas isso tampouco está certo. Todas essas normas foram violadas para que São
Wojtyla tivesse um lugar na sancta santorum. Seriam necessários 30 anos depois
de morto para que fosse aberto o processo de beatificação. Eliminados 23 anos
em um só golpe, aos sete anos de falecimento de Wojtyla foi aberto esse
processo para o Papa viajante.
Entre outras questões, o processo
estava semigarantido pela instituição do “advogado do diabo”, uma espécie de
fiscal que colocava todo tipo de travas e obstáculos para evitar manobras ou
fraudes que desacreditassem a honra da santidade. Pois o cargo e a função foram
eliminados para facilitar a fraude. O advogado do diabo se transformou em
advogado de Deus. Os milagres também foram reduzidos a 2, porque não encontraram
3 e os 2 que afirmam terem encontrado são inverossímeis.
Esse processo de canonização de
João Paulo II, pontífice que passará à história como o Papa carrasco da
modernidade, da Igreja dos pobres e do Concílio Vaticano II, é uma vergonha
histórica.
Confiamos que o aval de Francisco
foi uma necessidade tática diante dos poderosos interesses burocráticos que o
rodeiam, tal como rodearam João Paulo I, que desapareceu do mundo dos vivos 33
dias após assumir. Tudo indica que seu pontificado será renovador, ao menos nas
suas folhas, e talvez em algumas raízes. É soldado de um exército espiritual,
inteligente e inovador, como os jesuítas, envolvidos em batalhas históricas,
expulsos pelos poderes conservadores de outrora de muitas comarcas do mundo por
sua valentia frente a poderes autoritários. Eles alcançam pela primeira vez uma
magistratura espiritual com jurisdição sobre 1,22 bilhão de seres humanos que
seguem os passos do hebreu crucificado por se opor à oligarquia religiosa de
sua época. Seu chefe foi um ser humano excepcional, Ignacio de Loyola, o mesmo
que há 300 anos, rodeado por seus seguidores nas portas do mesmo Vaticano, lhes
dizia enquanto serviam aos pobres dos bairros romanos: “Não será ainda mais
condizente com a vontade de Deus se nos esforçássemos para que os pobres de
Roma pudessem viver por si mesmos?”. Ele se adiantava a Mao Tse Tung, que
séculos mais tarde preferiu ensinar o povo a pescar em vez de lhes entregar o
peixe. Ou aos abolicionistas, que antes de brigar por um tratamento humano e
justo para os escravos, estavam decididos a lutar pela supressão da escravidão.
Acredito que o Papa Francisco
seja primo-irmão dessas ideias no campo social – não me refiro ao religioso –,
e ele também não teme o socialismo. Não se assustaria se lhe recordássemos, com
Nikolai Berdiaev, que o “comunismo não é outra coisa se não o dever não
cumprido pelos cristãos”.
É talvez a última oportunidade
para uma Igreja que se esqueceu de sua gênese igualitária.
(*) Federico Fasano Mertens,
advogado, jornalista e empresário uruguaio nascido na Argentina, é o fundador
(em 1988) e atual diretor do jornal La República, de Montevidéu.
Tradução: Daniella Cambaúva
Créditos da foto: Arquivo
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