Marcelo Justo – Carta Maior
Londres - A polêmica sobre o economista francês Thomas
Piketty se converteu em sinônimo de debate sobre a desigualdade. Com um
surpreendente terceiro lugar nas vendas da Amazon nos Estados Unidos após três
meses de lançamento, com uma segunda edição a caminho, apareceram críticas a
supostas incongruências nos dados de “O Capital no Século XXI” que buscam minar
a tese fundamental do livro: que a crescente desigualdade do capitalismo é
inerente ao sistema.
Segundo publicou na sexta-feira passada Chris Giles, editor
econômico do Financial Times, em texto publicado na capa do jornal, Piketty
comete erros nas projeções que faz para épocas nas quais não havia informação,
no método que usa para distintos países e no uso tendencioso das estatísticas
para provar sua tese central.
O artigo do Financial Times produziu uma avalanche de notas
e comentários nos principais jornais de direita do mundo anglo-saxão que
tomaram o veredito de Giles como a definitiva desclassificação do livro de
Piketty. A exceção ao coro foi um meio de comunicação de inquestionável
filiação capitalista: The Economist.
Segundo o semanário britânico, as críticas de Giles eram
questionáveis e muitos dos detratores do livro não tinham se dado o trabalho
sequer de lê-lo e ignoravam que a maioria dos dados vinha do World Top Income
Database, um índice que ninguém questiona. “Há um par de erros que parecem ser
de transcrição ou de ajustes de dados que requerem uma avaliação do
investigador”, diz o semanário britânico.
O fundamento para a tese principal do livro, sustentada com
um volumoso exame de dados dos últimos 300 anos, é que a riqueza aumentou a uma
velocidade maior que o crescimento econômico nestes três séculos e que isso
contribuiu para aumentar a desigualdade que, a seguir a tendência atual, será
neste século 21 semelhante a que existia no vitoriano século 19. A crítica mais
sólida feita a esta tese vem da esquerda e diz que, longe de exagerar o estado
das coisas, Piketty subestima a real dimensão da desigualdade.
Segundo James Henry, autor de “The price of offshore
revisited” e professor da Universidade de Columbia, o grande erro de Piketty é
o cálculo que faz sobre a riqueza oculta em paraísos fiscais. “Há cerca de US$
21 trilhões ocultos em paraísos fiscais. A metade dessa soma está nas mãos das
91 mil pessoas mais ricas do mundo, cerca de 0.,001% da população mundial, que
controla uma terça parte de toda a riqueza mundial. Piketty subestimou esta
cifra. Este é o questionamento que pode ser feito a ele. O resto é trivial”,
disse Henry à Carta Maior.
Na carta de resposta de Giles, publicada no mesmo Financial
Times, Piketty reconhece a necessidade de uma melhor contabilização dessa
riqueza oculta. “Na realidade, é muito possível que minhas próprias estimativas
não considerem plenamente a riqueza offshore ou guardada em paraísos fiscais,
algo que aprofundaria a desigualdade”, assinala o economista. Os dados de
Piketty provem de outro investigador da Paris School of Economics, Gabriel
Zucman, que estima em cerca de U$ 8 trilhões de dólares a riqueza oculta nos
paraísos fiscais, cálculo feito com base nos dados macroeconômicos disponíveis
(balança de pagamentos, por exemplo) e nos ativos financeiros, deixando fora
todo qualquer outro tipo de acumulação de riqueza (iates, obras de arte, etc.).
Somando-se à polêmica na edição do The Guardian, nesta
segunda-feira, Paul Mason, editor econômico do Channel 4 britânico, assinalou
que as críticas de Giles (e dos outros veículos de direita) se baseiam em
estatísticas oficiais erradas. “As conclusões do Financial Times apenas se
diferenciam das de Piketty na análise da Suécia e da França. Ele também trata
dos casos do Reino Unido e dos Estados Unidos. Desde tempos imemoriais os ricos
têm uma especial aversão a declarar sua riqueza. Com a reestruturação capitalista
de 1979, se promoveu a acumulação de riqueza oculta que obrigou Piketty a fazer
uma mescla de dados de herança e pesquisas junto a cálculos”, escreve Mason.
Nem sequer as cifras oficiais são congruentes. O HMCR,
agência de impostos do Reino Unido, estima que os 10% mais ricos tem 70% de
toda a riqueza o país. O Escritório Nacional de Estatísticas, em troca, estima
que só possuem 44%. O crescimento dos paraísos fiscais desde os anos 70 tornou
muito mais impreciso o cálculo da riqueza (patrimônio pessoal que inclui
depósitos, ações, imóveis, etc.). O cálculo das rendas é muito mais rastreável:
a diferença gera todo tipo de incongruência na compilação de dados.
Nos Estados Unidos, Sam Pizzigati, do Institute for Policy
Studies, de Washington, fala de um “paradoxo americano” para explicar essa
defasagem. “Entre os dados que temos sobre a desigualdade de renda e de riqueza
há uma profunda desconexão que equivale a um paradoxo. A análise da curva de
receitas nos diz que houve um enorme crescimento da desigualdade entre os mais
ricos e o resto. Mas quando analisamos a desigualdade de riqueza, vemos que a
diferença é ínfima. A explicação mais lógica desta diferença é a riqueza oculta
em paraísos fiscais. Se não, seria preciso pensar que esta gente gasta US$ 5
mil em jantas todas as noites do ano”, disse Pizzigati à Carta Maior.
O impacto desta defasagem nos níveis de desigualdade de uma
sociedade fica claro em um estudo específico sobre a Argentina, “Fuga de
Capitais III (2002-2012)”, que apontou um aumento do coeficiente Gini de 0,42
para 0,49 pontos uma vez que se corrijam as pesquisas oficiais para incluir as
rendas não declaradas e se contabilizem os fundos que vão para os paraísos
fiscais. “Se aceitamos que o volume de dinheiro nos paraísos fiscais alcança os
400 bilhões de dólares, valor equivalente a 15 vezes o nível de reservas do
Banco Central, o coeficiente de desigualdade salta então de 0,43 para 0,49.
Muitos pensam que, na verdade, a soma é ainda maior se levarmos em conta as
manipulações contábeis de empresas multinacionais e outros fatores. Mas mesmo
com essa cifra ‘conservadora’, vemos que o salto que dá a medição da
desigualdade neutraliza os avanços obtidos em uma melhor distribuição de renda
pelo crescimento econômico e as fortes políticas sociais do governo argentino
durante o período 2003-2010”, disse à Carta Maior um dos autores do informe,
Jorge Gaggero.
No momento em que, como se viu nas eleições europeias, está
se pagando um alto preço por não se prestar atenção nestas tendências
profundas, convém que o debate provocado com a publicação do livro de Piketty
não seja ignorado com argumentos débeis.
Tradução: Louise Antônia León
Créditos da foto: Arquivo
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