Democracia, organização popular e produtividade compõem a
alternativa à agenda de arrocho e desemprego preconizada pelo conservadorismo.
por: Saul Leblon – Carta Maior
O entusiasmo do ex-presidente Lula com um programa de
fomento tecnológico a ser anunciado pelo governo --Plataformas do Conhecimento,
cuja existência ele antecipou em palestra a empresários, nesta 3ª feira -
reflete a ansiedade do campo progressista
diante de uma corrida contra o tempo
que pode decidir o futuro
brasileiro.
‘Há dois modelos em jogo, um prega a volta ao passado, com
arrocho salarial e a alienação do patrimônio. Nós propomos maior distribuição
de renda', resumiu a Presidenta Dilma em discurso quase simultâneo ao de
Lula, na mesma 3ª feira.
Ele em São Paulo, ela em Brasília, ambos falavam sobre o
mesmo tema: a disjuntiva por trás dos dois projetos de país em disputa nas
urnas de outubro.
A encruzilhada do
desenvolvimento brasileiro é real.
A dimensão dos
conflitos acirrados pela crise internacional – marcada pela anemia da demanda,
a canibalização de mercados e a voragem por mais-valia - induz o
conservadorismo brasileiro a abraçar uma versão ainda mais radical do seu
projeto para o país.
Não importa o que diz
a oratória dissimulada de seus candidatos de sorriso fácil: eles cavalgam uma
lógica imiscível com os avanços econômicos e sociais registrados desde 2002 .
Nos salões do dinheiro grosso, seus formuladores despem a
dissimulação e adiantam que será preciso
baixar a ordem unida do desemprego para ajustar a economia à taxa de exploração
compatível com a voragem conservadora
global.
Competitividade para eles é isso.
A continuidade do
projeto progressista, no entanto, requer igualmente uma inflexão de densidade
que não pode ser subestimada.
Ela só vingará com um enorme esforço político
desdobrado em uma alavanca de três pontos de apoio: organização popular, democracia participativa
e salto tecnológico sistêmico, que irradie a produtividade necessária para
atender à demanda por direitos e
qualidade de vida.
Não é uma operação de
natureza contábil.
Trata-se de deslocar a
correlação de forças para uma nova hegemonia capaz de definir o rosto de um
Brasil onde palavras como igualdade, cidadania e democracia participativa não sejam mero adorno do futuro.
Mais democracia, mais organização popular e mais
produtividade.
As três pontas do
tripé se equivalem em importância.
Mas o salto de produtividade é o lubrificante estratégico
para contrapor o ganho tecnológico ao lacto purga conservador feito
de arrocho salarial & desemprego.
‘São dois modelos em
jogo e nós propomos maior distribuição de renda’, disse-o bem a Presidenta da
República.
Essa é a nervura política por trás do programa Plataformas
do Conhecimento, que entusiasma Lula.
E o entusiasma por vislumbrar aí o espaço para a construção
de uma democracia social negociada,
condizente com uma mudança progressiva na correlação de forças não
apenas no país, mas na geopolítica mundial.
Para dizê-lo de modo muito grosseiro: o Brasil precisa de
mais uma década para o pré-sal maturar e os Brics se consolidarem como um polo
alternativo à truculenta hegemonia do capital financeiro mundial.
A confrontação direta, nas condições atuais, teria poucas
chances de êxito.
Nas palavras de Maria da Conceição Tavares: ‘é preciso
resistir para avançar’ (leia sua entrevista nesta página).
Não uma resistência passiva. Mas feita de prioridades
pactuadas, o que inclui setores onde
fincar as estacas fundadoras do passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.
Maria da Conceição Tavares, na entrevista citada, admitia
que o Brasil talvez não possa mais recuperar integralmente o espaço perdido pela
sua indústria para a concorrência
internacional.
Mas preconizava uma revitalização em novas bases, injetando
fôlego tecnológico adicional em setores
em que o país já detém certa
vantagem competitiva.
É o que visa o programa antecipado por Lula, que tem entre
os seu salvos a agropecuária, o petróleo
(a cadeia do pré-sal) e a aeronáutica.
Os dois primeiros são
de pertinência reconhecida.
Mas é justamente no
menos óbvio –a aeronáutica—que se
evidencia, de forma exemplar, o papel de
uma política pública de fomento tecnológico, capaz de catalisar
potencialidades que de outra
forma seriam desperdiçadas pelo país.
Em março último, Carta Maior relatou um caso exemplar nessa
fronteira entre o desperdício e o salto para o futuro.
Reportagens publicadas então na Exame e na revista on line,
‘Defesa Aérea e Naval’, chamaram a
atenção de Carta Maior.
As matérias davam conta de que a Polaris, empresa de
ex-engenheiros do CTA/ITA , de São José dos Campos (SP), havia
desenvolvido uma micro turbina , com
densidade tecnológica suficiente para
credenciar o Brasil no seleto clube dos fabricantes mundiais de grandes
turbinas aeronáuticas, dominado por um número muito reduzido de corporações.
A oportunidade, porém, estava ameaçada de se perder – ou
‘migrar’ para centros de desenvolvimento em países ricos - por falta de apoio
de políticas públicas.
O caso da Polaris remetia, ademais, à contraposição de projetos antagônicos, destinados a resgatar a eficiência e a
competitividade da industrialização
brasileira no século XXI.
Falta uma peça na engrenagem de uma nação que tem 8,8 milhões de pequenos empresários,
mas não
possui uma estrutura favorável à
emergência de startups mundiais , como as credenciadas na famosa lista do Wall
Street Journal, avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares cada uma.
A Polaris poderia ser uma delas, se há vinte anos o Brasil
tivesse criado uma plataforma de fomento semelhante a essa que tanto entusiasma
Lula.
Avançar de uma
economia de renda média, como a brasileira,
para um padrão de renda alta, capaz de associar eficiência produtiva,
bons empregos e qualidade de vida implica
não mais desperdiçar essas oportunidades.
A questão é: quem comandará o desbaste dos gargalos? Que
forças podem e devem impulsioná-lo? Que diferença faz a escolha de um ou de
outro protagonista?
A pedra de toque do tabuleiro conservador, a redução do
‘Custo Brasil’, mal disfarça o propósito de quebrar a espinha dorsal dos
assalariados, com uma purga de arrocho nos holerites e cortes de direitos sociais expandidos desde 2003.
O arrocho , ademais da funcionalidade econômica, tem sentido
político.
O objetivo é lubrificar a adesão das empresas à derrubada drástica das tarifas de
importação, compensando-as duplamente, com o corte nas folhas de pagamento, e o
ajuste no câmbio que deprime o poder de compra real dos trabalhadores.
Substituir a carta branca
delegada aos mercados pela negociação política de um novo pacto para o desenvolvimento é a
alternativa progressista.
Nele, a alavanca da produtividade ocupa o espaço reservado à marretada do
arrocho.
Que destino amargaria
uma empresa brasileira como a Polaris, em um governo embarcado na lógica da marreta?
E quantas outras
milhares de startups de potencial
equivalente não teriam o mesmo destino
sombrio?
O engenheiro Alberto Carlos Pereira Filho, presidente da
Polaris, explica, por exemplo, que o
processo de desenvolvimento e certificação internacional de uma turbina para
aviões comerciais custa dezenas de milhões de dólares.
O percurso do laboratório ao mercado leva anos: é impensável sem um apoio efetivo do setor
estatal.
Foi por isso que a Polaris
optou, inicialmente, por uma
versão de menor complexidade, com investimentos de R$ 4,5 milhões, via Finep
(Financiadora de Estudos e Projetos).
Vencida a barreira do conhecimento e, com dois anos de
testes, a TJ200 é a primeira turbina aeronáutica de pequeno porte
a entrar em produção num mundo cada vez mais receptivo ao seu uso civil.
’A disseminação de
drones para serviços de correio’, exemplifica Luis Klein, diretor
comercial da empresa, ‘vai acelerar a adequação desses equipamentos -- a exemplo do que deve ocorrer também na
agricultura, nas operações de pulverização e controle’.
Daí para disputar o
mercado de aviões comerciais configura um salto que está nas mãos do governo,
diz ele.
As oportunidades não são tão remotas quanto se imagina.
‘Recentemente’, exemplifica,
‘o Brasil assinou um contrato para o primeiro avião a ser fabricado 100%
dentro da Unasul; a turbina prevista é de origem russa’.
‘Poderíamos ter acoplado ao projeto o desenvolvimento de uma
tecnologia própria’, lamenta: ‘São apenas dois exemplos de oportunidades à
espera de uma política estratégica de Estado’.
O Programa de Plataformas
do Conhecimento a ser anunciado
por Dilma pode ser um sinal de que esses equívocos começam a ser retificados
pela necessidade de se oferecer uma
resposta crível à estratégia conservadora do arrocho.
Se for assim, será uma auspiciosa ruptura com a lógica
embutida nos planos da candidatura conservadora.
Mas não com a receita de adensamento tecnológico adotada pelas maiores economias industriais
do planeta.
Caso dos EUA, por exemplo, cuja bilionária política de encomendas do setor
militar constitui a principal alavanca
de impulsão tecnológica do país.
Ainda hoje, o
orçamento militar norte-americano figura como o maior sistema de encomendas
públicas e de incentivo à inovação do mundo.
A tal ponto que
Estado autoriza margens de preferência de até 50% nas compras do
Exército --ou seja, as compras bilionárias das Forças Armadas dos EUA privilegiam empresas locais, mesmo que o seu preço seja
até 50% superior ao similar importado.
Pelo menos até a crise de 2008, mais de 30% dos gastos dos
EUA com
pesquisas correspondiam a
recursos canalizados a empresas inovadoras .
É assim que a maior economia capitalista do planeta fomenta
novas tecnologias, garantindo-lhes uma
escala de compras compatível com a sua sustentação comercial.
Uma dessas linhas de fomento, a Small Business Innovation
Research Program, foi a estufa onde floresceu a Microsoft.
A centralidade de uma
política industrial soberana, portanto,
não é um mero fetiche da esquerda. Tampouco um anacronismo ideológico da Unicamp , como
quer a soberba tucana.
Trata-se de um trunfo indispensável à irradiação da
produtividade sistêmica, sem a qual não haverá
excedente econômico capaz de
ampliar direitos sociais, empregos de qualidade e salários dignos.
A indução estatal desse processo não esgota o duplo desafio
de conciliar a construção de uma democracia social no Brasil com a inserção de
sua economia nas grandes cadeias globais.
Mas figura, por assim dizer, como a chave-mestra das
escolhas fundadoras de um novo ciclo.
Elas vão decidir se o país logrará se reposicionar no século
XXI como uma economia dotada de turbinas próprias, ou como figurante
caudatário, a turbinar interesses antagônicos aos do seu povo.
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