Numa sociedade democrática, o direito de expressar-se não
começa nem termina, simplesmente existe como fato. A rua deve ser profana, não
sagrada.
Marcelo Gruman - http://cartamaior.com.br/
A Praça São Salvador, no bairro carioca de Laranjeiras (há
quem diga que o CEP é do bairro do Flamengo) é, há alguns anos, ponto de
encontro das mais diferentes tribos da cidade. Depois de anos abandonada, reduto
de assaltantes e crianças de rua viciadas em cola e outras drogas, mal
iluminada, largada à própria sorte, vive momentos de glória. De segunda a
segunda, o movimento é constante. Artistas de rua, circenses, mães com seus
filhos de colo, senhoras acompanhadas de cuidadoras, skatistas, crianças
jogando bola ou simplesmente correndo em volta do histórico chafariz mais do
que centenário fincado no centro do terreno, grupos de amigos tomando cerveja,
tocando violão, pregadores religiosos, todos dividem democraticamente o espaço.
A revitalização começou em 2007, quando um grupo de amigos passou a tocar
clássicos do chorinho, gênero de musica popular e instrumental, nascida no Rio
de Janeiro em meados do século XIX, aboletados no coreto existente na ponta oposta
ao parquinho de areia destinado às crianças. A sessão de chorinho acontece
todos os domingos, acompanhada de uma feirinha de artesanato; aos sábados, é a
vez do samba de roda. A Praça foi reurbanizada, bares foram reformados e
abertos nos arredores, um pequeno supermercado também abriu suas portas por
ali, os imóveis dos prédios do entorno experimentaram uma valorização
expressiva. Ela é, por que não, a representação carioca da ágora ateniense,
local de manifestação da opinião pública, da expressão da cidadania, da vida
democrática, do embate entre diferentes e mesmo oponentes.
Eis que num final de tarde de um sábado recente estávamos
eu, minha esposa e nosso filho de cinco anos na Praça São Salvador,
acompanhados de uma amiga dele da escola e sua mãe. De repente, uma gritaria
chama-nos a atenção e, quando olhamos para trás, um grupo de ciclistas nus e
seminus, com os corpos pintados, com inscrições que não conseguimos ler,
chegava à Praça pela Rua São Salvador, escoltados por um carro da polícia, fazendo
barulho com apitos e gritando alguma coisa que não conseguimos compreender. No
dia seguinte, pelos jornais, soubemos do que se tratava. Era a versão local da
World Naked Bike Ride, traduzida por aqui como Pedalada Pelada. O objetivo da
manifestação é chamar a atenção para a situação de fragilidade e quase
invisibilidade do ciclista, tanto por parte dos motoristas como pelo poder
público. Segundo o blog Vá de bike, a nudez “representa a fragilidade do
ciclista em meio à agressividade do trânsito. Também é uma forma de chamar
atenção para a invisibilidade dos ciclistas nas ruas, que só passam a ser
notados por muitos motoristas, por parte da imprensa e especialmente pelo poder
público ao pedalar sem roupa”. Entretanto, a nudez não era pré-condição para participação,
uma vez que o princípio da WNBR é “o quão nu você ousar”. Em resumo, a
manifestação era pelo pleno exercício da cidadania.
Eu ri, achei graça, quando um dos ciclistas, nu, desceu de
sua bicicleta e correu para beijar uma moça que dava uma oficina de bambolê.
Aparentemente, eram namorados ou coisa que o valha. No fundo, acho que fiquei
um pouco invejoso daquele rapaz, seguro de seu corpo, despido (literalmente) da
repressão moral judaico-cristã tão presente em nossa sociedade, ainda. Isto
apesar de não sentir-me envergonhado de expor meu corpo quando tomo banho com
meu filho ou troco de roupa na sua frente ou, diferente de como fazem os
ortodoxos judeus, faça sexo com minha mulher com a luz acesa sem um pano que
cubra o seu corpo, exceto um pequeno buraco na região da genitália sem o qual,
pressupõe-se, o divertimento (ou dever de ofício, para o religioso)
dificilmente ocorrerá. Para meu filho, inclusive, a manifestação foi mais um
episódio pitoresco que qualquer outra coisa, afinal de contas, não é todo dia
que se vê um bando de gente andando de bicicleta com “pintos” e seios de fora.
Ele próprio estava apropriadamente vestido enquanto fazia suas manobras
radicais na sua bicicleta do Hot Wheels. A mãe de sua colega, por sua vez,
utilizando-se de argumentos legais, do tipo “atentado ao pudor” e “o direito do
outro termina quando o meu começa”, questionou o a manifestação dos peladões,
apenas para chocar, segundo ela.
Eis o ponto central da discussão, o direito de expressão a
todo e qualquer cidadão e grupo componente da sociedade. Numa sociedade
democrática multicultural, o direito de expressar-se não começa nem termina,
simplesmente existe como fato e deve ser protegido pelo poder público, como
aconteceu na manifestação dos ciclistas nus. A polícia, em vez de reprimir,
protegeu o direito da livre expressão daquele grupo de cidadãos, por mais que a
vista não fosse das mais agradáveis para paladares mais ortodoxos. Por mais que
me doa os ouvidos, defendo o direito do indivíduo que prega o Evangelho no
coreto da Praça para quem queira ouvir o que, para regozijo meu, pela
observação da reação de quem passa por ali, é batalha perdida. Defendo o
direito deste indivíduo de discordar da minha opinião, o que não significa,
obviamente, que eu deva me privar de criticá-lo, como a mãe da amiga de meu
filho fez, sob os argumentos que forem, ridicularizando ou não aquele dos quais
discordamos.
O multiculturalismo não significa aceitação acrítica, blasé,
daquilo que nos desagrada, mas a compreensão de que a diversidade cultural é
inerentemente conflitiva. A convivência pacífica e harmônica é uma utopia e,
como utopia, inatingível. E isto não é um problema. Manifestações a favor da
Dilma, sim. Manifestações contra a Dilma, sim. “Hay gobierno, soy contra”, sim
também. Por que golpismo? Por que peleguismo? Desqualificar não, ridicularizar
sim. Viva o ridículo, preferível à censura. A rua deve ser profana, não
sagrada.
Talvez a discussão deva se concentrar na definição de
limites para a bagunça, necessidade de organizá-la de alguma forma. Na cidade
do Rio de Janeiro, há, ao menos no papel, uma Secretaria Municipal de Ordem
Pública, responsável pela organização do espaço público em favor do cidadão,
garantindo-lhe o direito de ir e vir. Na prática, a teoria é outra. No Carnaval,
expressão pública por natureza, a Praça São Salvador sofre com a sujeira e a
depredação do patrimônio público tombado, mijões por todos os lados; durante o
ano, nos finais de semana, que começa a partir de quinta-feira, o barulho
inferniza a vida dos moradores dos prédios vizinhos que têm desrespeitado o
direito de dormir em paz, a Lei do Silêncio existe por algum motivo. Um casal
de conhecidos, moradores do segundo andar de um prédio de frente para a Praça,
acaba de vender o apartamento porque perdeu a guerra contra a insônia. Vê-se
que o problema não é a justa reivindicação dos amigos que querem desafogar as
pressões do trabalho com um copo de cerveja estupidamente gelada ou dos
artistas que brincam com seus malabares, mas a impossibilidade de convivência
pela total incompetência do poder público de regulamentar esta convivência, se
não harmônica, tácita.
A sacralização do espaço público é o sonho dos intolerantes,
apenas a eles interessa um ambiente asséptico. Cabe ao Estado proteger este
direito fundamental do cidadão, conforme a Constituição Federal, o de
manifestação e de associação, gostemos ou não do que vemos ou ouvimos. Não é
fácil, admito, e meu ethos antropológico tem limites, mas, caso contrário, o
feitiço, eventualmente, virará contra o feiticeiro e o golpe de 1964 parecerá
um passeio no parque.
Créditos da foto: eduardo green short / Flickr
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