EUA: espionagem incessante

techgadgetcentral/reproduçãoApesar dos protestos, os aliados e amigos de Washington parecem haver se resignado a viver sob a vigilância secreta estadunidense.

Editorial de La Jornada / www.cartamaior.com.br/

O presidente estadunidense Barack Obama telefonou ontem para o seu colega francês François Hollande, para assegurar que está disposto a “terminar com as práticas do passado, que são inaceitáveis entre aliados”, em referência à espionagem realizada pela Agência Nacional de Segurança (NSA, por suas siglas em inglês) dos Estados Unidos ao próprio Hollande e aos seus antecessores no cargo, Nicolas Sarkozy e Jacques Chirac. A informação foi revelada pelo Wikileaks a dois diários franceses, e divulgada na terça-feira passada (23/6).

Entre 2006 e 2012, a NSA interceptou ilegalmente as conversas telefônicas dos três mandatários, de vários ministros e conselheiros presidenciais, e também do embaixador da França em Washington, e transcreveu o conteúdo no expediente chamado Espionagem Eliseu (em referência à sede do Poder Executivo francês). Ironicamente, um dos assuntos tratados nessas conversas foi a preocupação de Hollande sobre a espionagem estadunidense sobre o seu governo.

Esta revelação do Wikileaks não se refere a uma prática desconhecida: simplesmente inclui Paris à lista dos governos que foram vítimas da intromissão de Washington. Desde setembro de 2013, o diário La Jornada deu a conhecer, baseado nos documentos filtrados por Edward Snowden, que a NSA havia grampeado os telefones da presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, e o do México, Enrique Peña Nieto, além de vários dos funcionários de ambos os governos, registrando conversas e mensagens de texto confidenciais (edição do La Jornada do dia 2/9/13). Um mês e meio depois, foi descoberto que a chanceler alemã Angela Merkel havia sido outra vítima dessa prática, a qual afetou também as missões diplomáticas da França em Washington e Nova York – como se soube mais tarde. Segundo informações do Bild am Sonnstag, Obama não só tinha conhecimento da espionagem telefônica a Merkel como ordenou a intensificação da vigilância sobre ela.

Diante dessas revelações, o governo mexicano se limitou a "pedir explicações" ao país vizinho. Dilma Rousseff cancelou um encontro de Estado que tinha programado com Obama, criticou com dureza a Casa Branca na Assembleia Geral da ONU e anunciou que seu governo modificaria a infraestrutura brasileira de telecomunicações, a fim de garantir maior segurança e privacidade dos seus cidadãos. Merkel, por sua parte, criticou energicamente o mandatário estadunidense, acusou seu governo de se comportar como a Stasi (em referência à temida polícia política da desaparecida Alemanha Oriental) e iniciou uma investigação judicial, que terminou arquivada, "por falta de provas", apesar de que as desculpas do próprio Obama eram prova suficiente de que a espionagem era real.

A verdade é que, apesar dos protestos, os aliados e amigos de Washington parecem haver se resignado a viver sob a vigilância secreta estadunidense, ainda que a espionagem da NSA signifique enormes riscos à soberania, à segurança nacional, à competitividade econômica e à governabilidade.

Em tais circunstâncias, o Palácio do Eliseu informou que a conversa telefônica entre Hollande e Obama se limitou a "estabelecer os princípios que devem reger as relações entre aliados em matéria de inteligência". Ou seja, a fixar níveis de espionagem aceitáveis entre dois governos que, por serem aliados geopolíticos, econômicos e militares muito próximos, não deveriam se espionar mutuamente.

Como afirmou Julian Assange, nesta mesma terça-feira, "o povo francês tem o direito a saber que seu governo foi vítima de uma vigilância hostil de um suposto aliado", e o mesmo se pode dizer das sociedades de outros países, cujos governos se encontram sob espionagem constante dos Estados Unidos. Entretanto, esse dado não serve de muito se essas sociedades não exigem maior firmeza dos seus governantes e se esses carecem de vontade política para preservar, diante de Washington, uma confidencialidade que esses próprios governos defendem ferreamente diante de seus próprios cidadãos, e não sempre de forma justificada.


Créditos da foto: techgadgetcentral/reprodução

Comentários