É preciso estar muito entregue ao sentimento de
vingança para não perceber certo sadismo na Lava Jato.
Jânio de Freitas - Folha de São Paulo / www.cartamaior.com.br
Em princípio, os vazamentos seriam uma transgressão
favorável à opinião pública ansiosa por um sistema policial/judicial sem as
impunidades tradicionais. Mas, com o jorro contínuo dos tais vazamentos, nos
desvãos do sensacionalismo não cessam os indícios que fazem a “nova Justiça” —
a dos juízes e procuradores/promotores da nova geração — um perigo equivalente
à velha Justiça acusada de discriminação social e inoperância judicial.
É preciso estar muito entregue ao sentimento de
vingança para não perceber um certo sadismo na Lava Jato. O exemplo mais
perceptível e menos importante: as prisões nas sextas-feiras, para um fim de
semana apenas de expectativa penosa do preso ainda sem culpa comprovada.
Depois, a distribuição de insinuações e informações a partir de mera menção por
um dos inescrupulosos delatores, do tipo “Fulano recebeu dinheiro da
Odebrecht”. Era dinheiro lícito ou provou-se ser ilícito? É certo que o
recebedor sabia da origem, no caso de ilícita?
A hipocrisia domina. São milhares os políticos que
receberam doações de empreiteiras e bancos desde que, por conveniência dos
candidatos e artimanha dos doadores, esse dinheiro pôde se mover, nas eleições,
sob o nome de empresas. Nos últimos 60 anos, todos os presidentes tiveram
relações próximas com empreiteiros. Alguns destes foram comensais da residência
presidencial em diferentes mandatos. Os mesmos e outros viajaram para
participar, convidados, de homenagens arranjadas no exterior para presidente
brasileiro. Banqueiros e empreiteiros doaram para os institutos de
ex-presidentes. Houve mesmo jantares de arrecadação no Alvorada e pagos pelos
cofres públicos. Ninguém na Lava Jato sabe disso?
Mas a imprensa é que faz o sensacionalismo. É. Com
o vazamento deformado e o incentivo deformante vindos da Lava Jato.
A partir de Juscelino, e incluídos todos os
generais-presidentes, só de Itamar Franco e Jânio Quadros nunca se soube que
tivessem relações próximas com empreiteiros e banqueiros. A íntima amizade de
José Sarney foi mal e muito comentada, sem que ficasse evidenciada, porém, mais
do que a relação pessoal. Benefícios recebidos, sob a forma de trabalhos feitos
pela Andrade Gutierrez, foram para outros.
Ocorre mesmo, com os vazamentos deformantes, o
deslocamento da suspeita. Não importa, no caso, o sentido com que o presidente
da Odebrecht usou a palavra “destruir”, referindo-se a um e-mail, em anotação
lida e divulgada pela Lava Jato. O episódio foi descrito como um bilhete que
Marcelo Odebrecht escreveu com instruções para o seu advogado, e cuja entrega
“pediu a um policial” que, no entanto, ao ver a palavra “destruir”, levou o
bilhete ao grupo da Lava Jato.
Muito inteligível. Até que alguém, talvez meio
distraído, ao contar o episódio acrescentasse que Marcelo, quando entregou o
bilhete e fez o pedido ao policial, já estava fora da cela e a caminho de
encontrar seu defensor.
Então por que pediria ao policial que entregasse o
bilhete a quem ele mesmo ia encontrar logo?
As partes da historinha não convivem bem. Não só
entre si. Também com a vedação à interferência na comunicação entre um acusado
e seu defensor, considerada cerceamento do pleno direito de defesa assegurado
pela Constituição.
Já objeto de providências da OAB, a apreensão de
material dos advogados de uma empreiteira, em suas salas na empresa, foi uma
transgressão à inviolabilidade legal da advocacia. Com esta explicação da Lava
Jato: só os documentos referentes ao tema da Lava Jato seriam recolhidos, mas,
dada a dificuldade de selecioná-los na própria empresa, entre 25 mil documentos,
foram apreendidos todos para coleta dos desejados e posterior devolução dos
demais.
Pior que uma, duas violações: a apreensão de
documentos invioláveis, porque seus detentores não são suspeitos de ilicitude,
e o exame violador de todos para identificar os desejados. Até documentos
secretos de natureza militar, referentes a trabalhos e negócios da Odebrecht na
área, podem estar vulneráveis.
Exemplos assim se sucedem. Em descompasso com uma
banalidade: condenar alguém em nome da legalidade e da ética pede, no mínimo,
permanentes legalidade e ética. Na “nova Justiça” como reclamado da “velha
Justiça”.
Créditos da foto: EBC
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