A ruptura proposta por Francisco irrita os
representantes do establishment eclesiástico. E até por isso ela é necessária.
Mas aonde deve ir a Igreja?
Leonardo Boff / www.cartamaior.com.br/
Celebrando ainda a extraordinaria encíclica sobre
"o cuidado da Casa Comum", voltamos a refletir uma perspectiva
importante do Papa Francisco, um verdadeiro logotipo de sua compreensão de
Igreja: "uma Igreja em saída".
Essa formulação encerra uma velada crítica ao
modelo anterior de Igreja que era uma Igreja "sem saida" devido aos
diversos escândalos de ordem moral e financeira, o que forçou o Papa Bento XVI
a renunciar, uma Igreja que perdeu seu melhor capital: a moralidade e a
credibilidade dos cristãos e do mundo secular.
Mas o logotipo "Igreja em saída" possui
um significado mais profundo, tornado
possível porque veio de um Papa fora dos quadros institucionais da velha
e cansada cristandade européia. Esta havia encerrado a Igreja dentro de uma compreensão
que a tornava praticamente inaceitável pelos modernos, refém de tradições
fossilizadas e com uma mensagem que não mordia os problemas dos cristãos e do
mundo atual. A “Igreja em saída” quer marcar uma ruptura com aquele estado de
coisas. Esse palavra “ruptura” irrita os representantes do establishment
eclesiástico. Mas nem por isso deixa de ser verdadeira. E então se coloca a
pergunta: “saída" de onde para onde? Vejamos alguns passos:
- Saída de uma Igreja-fortaleza que protegia os
fiéis contra as liberdades modernas para uma Igreja-hospital de campanha que
atende a toda pessoa que a procura, pouco importa seu estado moral ou
ideológico.
- Saida de uma Igreja-instituição absolutista,
centrada em si mesma para uma Igreja-movimento, aberta ao diálogo universal,
com outras Igrejas, religiões e ideologias.
- Saída de uma Igreja-hierarquia, criadora de
desigualdades para uma Igreja-povo de Deus, fazendo de todos irmãos e irmãs:
uma imensa comunidade fraternal.
- Saída de uma Igreja-autoridade eclesiástica,
distanciada dos fiéis ou até de costas a eles, para uma Igreja-pastor que anda
no meio do povo, com cheiro de ovelha e misericordiosa.
- Saída de uma Igreja-Papa de todos os cristãos e
bispos que governa com o rígido direito canônico para uma Igreja-bispo de Roma,
que preside na caridade e só a partir daí se faz Papa da Igreja universal.
- Saída de uma Igreja-mestra de doutrinas e normas
para uma Igreja-de práticas surpreendentes e do encontro afetuoso com as
pessoas para além de sua inscrição religiosa, moral ou ideológica. As
periferias existenciais ganham centralidade.
- Saída de uma Igreja-de poder sagrado, das pompa e
circunstância, dos palácios pontifícios e titulaturas de nobreza renascentista
para uma Igreja-pobre e para os pobres, despojada de símbolos de honra,
servidora e porta-voz profética contra o sistema de acumulação de dinheiro, o
ídolo que produz sofrimento e miséria e mata as pessoas.
- Saída da Igreja-que fala dos pobres para uma Igreja-que
vai aos pobres, conversa com eles, abraça-os e os defende.
- Saída de uma Igreja-equidistante dos sistemas
polítcos e econômicos para uma Igreja-que toma partido em favor das vítimas e
que chama pelo nome os produtores das injustiças e convida a Roma
representantes dos movimentos sociais mundiais para discutir com eles como
buscar alternativas.
- Saída de uma Igreja-automagnificadora e acrítica
para uma Igreja-da verdade sobre si mesma contra cardeais, bispos e teólogos
zelosos de seu status mas com cara de “vinagre ou de sexta-feira santa”,
“tristes como se fossem ao próprio enterrro”, em fim, uma Igreja feita de
pessoas humanas.
- Saída de uma Igreja-da ordem e do rigorismo para
uma Igreja-da revolução da ternura, da misericórdia e do cuidado.
- Saída de uma Igreja-de devotos, como aqueles que
aparecem nos programas televisivos, com padres artistas do mercado religioso,
para uma Igreja-compromisso com a justiça social e com a libertação dos
oprimidos.
- Saída de uma Igreja-obediência e da reverência
para uma Igreja-alegria do evangelho e de esperança ainda para esse mundo.
- Saída de uma Igreja-sem o mundo que permitiu
surgir um mundo sem Igreja para uma Igreja-mundo, sensível ao problema da
ecologia e do futuro da Casa Comum, a mãe Terra.
Estas e outras saídas mostram que a Igreja não se
reduz apenas a uma missão religiosa, acantonada numa parte privada da
realidade. Ela possui além disso uma missão político-social no sentido maior
desta palavra, como fonte de inspiração para as transformações necessárias que
resgatem a humanidade para um tipo de civilização do amor e da compaixão, que
seja menos individualista, materialista, cínica e destituída de solidariedade.
Esta Igreja-em-saída devolveu alegria e esperança
aos cristãos e reconquistou o sentimento de ser um lar espiritual. Granjeou
pela simplicidade, despojamento e acolhida no amor e na ternura, a estima de
muitas pessoas de outras confissões ou de simples cidadãos do mundo e mesmo de
chefes de Estado que admiram a figura e as práticas surpreendentes do Papa
Francisco em favor da paz, do diálogo entre os povos e da renúncia a toda
violência e a guerra.
Mais que doutrinas e dogmas é a Tradição de Jesus,
feita de amor incondicional, de misericórdia e de compaixão que por ele se
atualiza e revela sua inesgotável energia humanizadora. Pois, entre outras
coisas, está é a mensagem central de Jesus, aceitável por todas as pessoas de
todos os quadrantes.
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Leonardo Boff é ecólogo e teólogo.
Créditos da foto: Benhur Arcayan/Malacañang Photo
Bureau
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