Quando a mina se esgota, resta ao
povo pilhas de rejeitos, contaminação do ar, solo, rios e lençóis freáticos,
além de doenças e decadência econômica.
Najar Tubino / www.cartamaior.com.br
O Centro de Tecnologia Mineral,
órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, publicou no ano passado o
livro “Recursos Minerais e comunidade – impactos humanos, socioambientais e
econômicos”, com 393 páginas e reúne 105 casos de extração mineral distribuídos
por 22 estados e cinco regiões – grátis e está disponível aqui. Os editores são
os pesquisadores Francisco Rego Fernandes, Renata de Carvalho Alamino e Eliana
Rocha Araújo. O objetivo do livro é mostrar que a atividade mineradora gera
riqueza e impactos negativos nas comunidades e no meio ambiente.
“- Não se pode deixar de
mencionar os grandes passivos ambientais cujo número exato em todo o país é
desconhecido, mas certamente ultrapassa as dezenas de milhares de minas e
garimpos, inativos e abandonados, produto de mineração pretérita, mas
ininterrupta, exercida no Brasil há mais de 500 anos. A mineração altera de
forma substancial o meio físico, provocando desmatamento, erosão, contaminação
de corpos hídricos, aumento da dispersão de metais pesados, alteração da
paisagem, solo, além de comprometer a fauna e a flora. Afeta o modo de viver e
a qualidade de vida das populações estabelecidas na área minerada e no seu
entorno”.
Extração mineral e concentração
de renda
No Brasil existem 3.354 minas em
funcionamento, a maioria de pequeno porte – dentro dos dados oficiais, é óbvio
- e 8.870 mineradoras registradas com licenciamento e lavra. Dos 105 casos
registrados 34 estão no Sudeste, porque Minas Gerais, onde está o quadrilátero
ferrífero – tem Itabira como centro – é o estado com maior atividade, não só de
ferro, mas manganês, fosfato, gemas e com 53 mil trabalhadores na atividade.
São 20 estudos sobre Minas Gerais. Em segundo lugar a região Norte, a nova
fronteira mineral com 29 casos, com destaque para o Pará com 15 estudos. Os
municípios de Parauapebas e Canaã dos Carajás, onde está localizada a maior
província mineral do planeta – 18 bilhões de toneladas, suficientes para 250
anos – recolheram R$600 milhões com a compensação financeira pela extração
mineral. Em Parauapebas os 20% mais ricos concentram 60% da riqueza e os 20%
mais pobres somente 3,5%, além de 15% da população permanecer na linha de
pobreza. O Pará é o antepenúltimo no ranking nacional medido pelo IDH com o
índice 0,646.
Os pesquisadores fizeram também
um resgate de casos de exploração mineral históricos, como a exploração de
manganês em Serra do Navio (AP), o amianto em Bom Jesus da Serra (BA), a lavra
de chumbo em Boquira (BA) e os 30 anos de garimpagem na bacia do rio Tapajós (PA).
São apenas exemplos onde “a mina se esgota, a empresa transfere suas atividades
para outra localidade e à população restam escavações abandonadas, pilhas de
rejeitos, contaminação do ar, solo, rios e lençóis freáticos, além de doenças,
decadência econômica e empobrecimento.” Cabe ao Estado reduzir os impactos
negativos, assegurar a legalidade, promover a resolução de conflitos e garantir
que as conquistas não sejam comprometidas, ponderam os pesquisadores.
Serra do Navio: a primeira
experiência
O Brasil é um país urbano e
litorâneo, onde a elite econômica está concentrada em três metrópoles e nada
mais. O que acontece no interior do país, principalmente em regiões distantes
como a Amazônia ou o interior do nordeste, não faz parte da versão histórica,
muito menos do conteúdo dos veículos de comunicação. A extração de minerais é
um grande negócio, comandado por poucas transnacionais e com destaque para a
Vale S/A, uma ex-estatal, privatizada que está nesse grupo – a empresa será o
tema do próximo texto. Então a divulgação dos empreendimentos sempre está
ligada aos números, aos volumes e a grandiosidade da operação. Por isso, a
importância de resgatar tais episódios, que ocuparam a história recente do
Brasil, como o caso da Icomi em Serra do Navio.
Foi a primeira exploração
empresarial de minerais na Amazônia e durou 40 anos – de 1957 a 1997. A cidade
de pouco mais de quatro mil habitantes herdou uma pilha de rejeitos com um
componente perigoso que é o arsênio, responsável por contaminar igarapés, rios
e o lençol freático. A mineração sempre envolve grande quantidade de rochas, e
a função dos extratores é separar o que interessa ao mercado e rejeitar o
restante. No caso do manganês, a empresa construiu uma usina de pelotização em
Porto Santana, a 20 km de Macapá, destino da ferrovia Serra do Navio, também
construída pela empresa. A logística da extração mineral é: custo baixo da mina
ao porto, normalmente envolve uma ferrovia, porque é o transporte mais barato.
Contrabando e exploração de
mineral radioativo
Na Vila Elesbão, em Santana,
ficaram as consequências da atividade econômica – a Icomi não retirou os
rejeitos da barragem de contenção – 150 mil toneladas – depositou no solo
coberto por plástico. Parte foi distribuído na cidade de Santana para ser usado
em concreto asfáltico, aterro em quintais e jardins e na construção de casas. A
Icomi, depois de 50 anos de concessão, se negou a entregar a infraestrutura do
projeto ao governo federal e até hoje ainda correm na justiça no Amapá
processos de indenizações aos moradores e ao governo estadual.
A disseminação de doenças como
câncer no pulmão – o pó dos minérios, ou flocos, como acontece com o amianto –
são relatos constantes em todos os 105 casos. Com agravantes como o arsênio
encontrado com o manganês e o cianeto e o mercúrio usado na extração do ouro.
Assim como a contaminação da água, do ar e do solo. Porém, tem um caso que é
escandaloso e é tratado pela burocracia brasileira como algo corriqueiro.
Trata-se da exploração ilegal, por garimpeiros de um mineral chamado torianita
– 70 a 76% de tório, elemento radioativo – e de 8 a 10% de urânio.
A Polícia Federal já fez
apreensões de até uma tonelada de torianita, que é um mineral granulado e muito
denso – custa US$300 o quilo no mercado internacional. Em uma delas encontraram
560 quilos na casa de um fiscal municipal em Porto Grande. A PF desde 2009 não
fez mais apreensões, pelo menos divulgadas, porque não conta com um local
apropriado para estocar torianita, um mineral radioativo. A Comissão Nacional de
Energia Nuclear levou o material apreendido para Poços de Caldas (MG). Em 2012,
o jornal Correio do Estado, do Mato Grosso do Sul noticiou que o Exército, na
operação Ágata VI estava procurando contrabandistas de mineral radioativo na
região de Corumbá, fronteira com a Bolívia. Os relatos dos pesquisadores do
Cetem mostram: “presume-se” que a exploração iniciou na década de 1990, em um garimpo
próximo ao rio Araguari.
Destruição gerada pelo garimpo de
ouro
Décadas de garimpagem de ouro na
bacia do rio Tapajós desde a década de 1950 deixaram um rastro de violência,
mortes e miséria nos municípios de Itaituba, Santarém, Aveiro e Rurópolis. A
partir da década de 1980, auge do garimpo, com a instalação de dragas nos rios
Tapajós, Crepori e Jamanxim a situação piorou. Foram registradas 432 pistas de
pouso, mais de dois mil pontos de garimpo e uma produção superior a 700
toneladas de ouro – grande parte contrabandeada. O cálculo estima uma população
de garimpeiros próxima de 100 mil. Em 1989 o Programa de Controle Ambiental da
Garimpagem do rio Tapajós – do governo estadual – divulgou a destruição na
região:
“- Destruição de nichos
ecológicos, assoreamento e recobrimento de várzeas, alteração de cursos d’água,
contaminação da biota, prejuízo à segurança alimentar e a subsistência das
populações ribeirinhas, aumento dos custos do tratamento da água, geração de
focos de doenças endêmicas e exposição da população à contaminação por
mercúrio”.
Mercúrio no garimpo do rio
Tapajós
Pesquisadores do Centro de
Tecnologia Mineral e do Instituto Evandro Chagas contabilizaram uma emissão de
1,1 toneladas de mercúrio por ano e depois analisaram a contaminação de 30
espécies de peixes consumidos pela população. Em 65% das amostras o índice de
contaminação era acima de 0,5% aceitável pela Organização Mundial de Saúde. Mas
em determinadas áreas o teor de mercúrio encontrado nos peixes chegava a 40
vezes maior que o estipulado pela OMS. Outro trecho do livro do Cetem:
“-Na realidade, a exploração de
ouro do Tapajós não tem conduzido ao desenvolvimento regional. Parte da riqueza
advinda da extração do metal tem sido gasta em atividades efêmeras, parte está
sendo utilizada para converter a floresta tropical em pastos e fazendas; o restante
vem sendo aplicado fora da região em investimentos financeiros. Somente uma
pequena parcela dos investimentos é direcionada à economia regional”.
Carvão amazônico para produzir
ferro gusa
A Amazônia brasileira produz o
melhor ferro gusa do mundo, usado principalmente na produção de peças
automotivas – veículos e máquinas agrícolas – atividade exercida por
siderúrgicas independentes, algumas de grupos econômicos nacionais como Queiroz
Galvão e Gerdau, e com base no funcionamento de 1,2 mil carvoarias nas regiões
de Açailândia (MA) e Marabá (PA). O ferro gusa, matéria prima do aço, é
produzido com carvão vegetal da mata nativa. Para cada 48 árvores corresponde
uma tonelada de gusa, ou exatamente, para cada tonelada de gusa são necessários
875 kg de carvão vegetal e 2.660 kg de madeira seca. Calcula-se que cinco
milhões de metros cúbicos de floresta Amazônia tenham sido derrubados para
sustentar os “rabos quentes”, como foram apelidados os fornos das carvoarias do
Polo Siderúrgico de Carajás. O minério é fornecido pela Vale, que também
garante a exportação do gusa, utilizando a logística da Estrada de Ferro
Carajás, mais o porto na Ponta da Madeira (MA).
O projeto de industrialização da
Amazônia Oriental é da ditadura militar. A verticalização da extração mineral.
Depois que a China invadiu o mundo com aços laminados e outros produtos
siderúrgicos, a geopolítica mudou totalmente. Somente os especialistas e
burocratas brasileiros não entenderam isso. O que ficou na região é miséria,
doença, destruição da floresta e poluição. O gusa amazônico tem alta qualidade
porque o carvão vegetal não tem enxofre, e na ponta final, produz um aço bem
cotado no mercado.
O amianto branco e a tragédia na
Bahia
A contabilidade trágica da
extração mineral não tem parâmetros definidos, é difícil identificar o que é
pior, em termos humanos, socioambientais e econômicos. O caso da extração de
amianto em Bom Jesus da Serra (BA) está inserido neste contexto. A primeira
mina de amianto brasileira começou a ser explorada em 1937, no distrito de
Poções no citado município do sudoeste da Bahia. As atividades foram encerradas
em 1967, mas a Mineração de Amianto S/A (SAMA), transferiu o aparato para outro
local, em Miniaçu, Goiás. A extração do amianto envolve de 5 a 10% das rochas,
o que significa grande quantidade de rejeitos contaminando o ambiente. O que
restou da mina localizada perto do ribeirão Bom Jesus, na bacia do rio de
Contas, que deságua no mar? Uma cratera com quatro quilômetros de extensão e
200 metros de altura, que permanece cheia o ano inteiro, se transformou em área
de lazer e, durante a seca, ainda abastece os carros pipa.
A SAMA é propriedade do Grupo
Eternit, fabrica telhas e caixas d’água, entre outros produtos, já foi sócio do
Grupo francês Saint Gobain, a marca Brasilit no Brasil. Este, por sua vez,
desde 1997 não trabalha mais com o amianto, porque ele foi banido da França – e
outros 51 países. No Brasil é permitida a exploração da crisotila, o amianto
branco, porque a empresa e seu séquito de especialistas, políticos e
seguidores, que é mais solúvel, o sistema respiratório elimina mais rápido.
O amianto, também chamado de
asbesto, provoca a asbestose, uma lesão no tecido pulmonar causado pelo acúmulo
de fibras no sistema respiratório – são flocos minúsculos desprendido da mina.
O amianto é muito procurado por ter baixo custo e ser resistente ao calor e ao
fogo.
A SAMA organizou uma tabela para
indenizar ex-trabalhadores: R$7 mil aos que contraíram a placa pleural, R$12
mil com asbestose e R$20 mil quem tiver tumor maligno. O professor Paulo Pena,
da Faculdade de Medicina, da Universidade Federal da Bahia, citado pelos
pesquisadores do Cetem, diz que a uma epidemia invisível de câncer no estado. O
Grupo Eternit manteve uma fábrica que produzia derivados do amianto em Simões
Filho, na região metropolitana de Salvador, com 2.500 funcionários. E, agora,
monitora a saúde de 11 mil trabalhadores e ex-funcionários em Miniaçu, a 504 km
de Goiânia, onde continua explorando o amianto branco, com todo o apoio da bancada
goiana e do governo estadual, que recolhe R$2,5 bilhões ao ano em
impostos.
A ditadura militar definiu a
ocupação da Amazônia
A tragédia e o sofrimento das
comunidades envolvidas na mineração é um roteiro que começa na ditadura
militar. Em 1965, os militares fizeram um convênio com a NASA e a Comissão
Nacional de Atividades Espaciais. Um funcionário do Ministério das Minas e Energia
fez um curso sobre radar, com tecnologia GEMS – Goodyear Eletronic Mapping
System. Posteriormente o funcionário – professor Luiz Henrique Aguiar de
Azevedo – sugeriu ao ministro da época usar a tecnologia para fazer um
levantamento aerofotográfico dos recursos naturais. A experiência começou pelo
quadrilátero ferrífero e depois se estendeu pela Amazônia e virou o Projeto
Radam – 38 volumes de informações sobre todos os recursos naturais da região.
Em 1974, a ditadura militar
lançou o Polamazônia, um programa para estabelecer polos agropecuários e
agrominerais em 15 áreas estabelecidas por importância econômica dos recursos.
Cinco delas no Pará, incluindo Carajás. Muitos anos depois, já durante a era
FHC, foi implantado o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), um contrato de
US$1,395 bilhão, pagos em 10 anos e financiado pelo EXIMBANK dos Estados
Unidos, um banco de fomento. Quem ganhou a licitação? O Grupo Rhayteon,
logicamente. Uma história até hoje mal contada. Isso para enfatizar uma
realidade em 2015: a ditadura militar estabeleceu a estratégia de ocupação da
Amazônia e os governos democráticos seguintes nunca alteraram esta lógica. A
democracia nunca chegou a estes lugares dos confins do Brasil, onde os grupos
econômicos nacionais ou estrangeiros fazem o que querem, com o apoio de
políticos locais e da elite de sempre.
Créditos da foto: Mídia Ninja
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