Segundo o deputado socialista Jean-Jacques Urvoas,
'os Estados Unidos não têm aliados, têm alvos ou vassalos'.
Por Amaelle Guiton, Alexandre Lechenet, Jean-Marc
Manach e Julian Assange, para o Libération / www.cartamaior.com.br
Diz um ditado popular na comunidade de inteligência
que, em matéria de espionagem, não existem aliados – ou, pelo menos, que eles
não são necessariamente amigos. "Não se espionam amigos", indignou-se
Angela Merkel ao descobrir, em outubro de 2013, através de revelações do
Spiegel, que a National Security Agency (NSA) havia grampeado seu celular. Uma
seleção de documentos publicados por Libération e Mediapart, em colaboração com
o WikiLeaks, revela que, na França, três presidentes sucessivos e alguns de seus
colaboradores foram espionados, desde, pelo menos, 2006, durante o segundo
mandato de Jacques Chirac, a maio de 2012, logo após a posse de François
Hollande.
Os documentos obtidos pelo WikiLeaks – e reunidos
numa sessão chamada "Espionagem Elysée" – consistem de cinco
relatórios com análises da NSA, intitulados "Global SIGINT
Highlights", ou seja, "destaques" das informações de origem
eletromagnética, ou comunicações interceptadas. Todos são classificados como
"Top Secret" e destinados aos responsáveis da NSA e da comunidade de
inteligência dos EUA; apenas dois deles, os mais antigos, deveriam ser
compartilhados com os "Five Eyes", a aliança das agências de
inteligência dos Estados Unidos, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Reino
Unido, enquanto os outros são de uso exclusivamente americano. De acordo com
especialistas entrevistados pelo WikiLeaks, estes relatórios são gerados por um
departamento identificado como Summary Services ("Serviços de
Síntese").
"Seletores"
Podemos ler, por exemplo, como Jacques Chirac, em
2006, forçou seu candidato para o cargo de Vice-Secretário-Geral ajunto das
Nações Unidas, e também que, de acordo com a NSA, o ministro das Relações
Exteriores da época, Philippe Douste-Blazy, tinha uma "propensão (...) a
dar declarações imprecisas ou inoportunas". Os relatórios também afirmam –
não surpreendentemente – que Nicolas Sarkozy se via, em 2008, como "o
único homem capaz de resolver a crise financeira”. E se queixou em 2010, do
"recuo de Washington sobre a sua proposta de acordo de cooperação
bilateral sobre informação", acordo que os dois interlocutores mencionados
na nota, o embaixador da França em Washington Pierre Vimont e o conselheiro
diplomático Jean-David Levitte, atribuíam precisamente ao "desejo dos
Estados Unidos de continuar espionando a França"...
O memorando mais recente data de 22 de maio de 2012
– depois do estabelecimento de um protocolo de troca de informações entre a
francesa Direção Geral da Segurança Externa (DGSE) e a NSA, que remontaria, de
acordo com o Le Monde, ao fim de 2011. Este memorando relata "reuniões
secretas" para discutir a possível saída da Grécia da zona do euro, mas
também mostra a preocupação de Jean-Marc Ayrault com a reação de Angela Merkel
se ela tomasse conhecimento de uma reunião entre o novo presidente e a oposição
alemã.
Na verdade, mesmo classificado como altamente
confidencial, o conteúdo das notas não revela segredos de Estado. Mostra, de
qualquer forma, o interesse demonstrado pela NSA pela França. Assim, o outro
tipo de documento obtido por WikiLeaks é igualmente surpreendente. Trata-se de
um trecho de um banco de dados da NSA que menciona uma série de números de
telefone, fixos e celulares, identificados como "seletores". Em
outras palavras, com base em uma coleta massiva de informações, a agência
identifica alvos que motivam consequentes investigações precisas de conteúdos.
Tudo em função de "necessidades de informação" formalizadas a partir
de 2002, sobre questões de política interna ou sobre assuntos econômicos.
"Novas possibilidades de coleta”
Nesta lista, que de acordo com verificações data de
2010, Libération pôde identificar os números de celulares de membros do
executivo – o presidente Nicolas Sarkozy, os Secretários de Estado para
Assuntos Europeus e para o Comércio Jean Pierre Jouyet e Pierre Lellouche – mas
também alvos mais amplos: o telefone geral do Ministério das Finanças e do
Ministério da Agricultura, assim como o posto no Palácio do Eliseu do Centro de
transmissões do governo, ligado à Secretaria Geral da Defesa e Segurança
Nacional (SGDSN). Este serviço é responsável especificamente pela proteção das
comunicações do executivo, assim como pelo serviço de ligações diretas do
governo, o "telefone vermelho". Não há indícios, no entanto, de que
as ligações protegidas tenham sido comprometidas.
Entre os outros nomes, a lista reflete uma
identificação bastante precisa dos interlocutores. Os telefones celulares de
conselheiros do Presidente, como o secretário-geral do Eliseu na época, Claude
Guéant, ou Jean-David Levitte, também estão listados. Contactados pela
reportagem, nenhum dos dois se diz surpreso. O primeiro julga o procedimento
"inadmissível". O segundo filosofa: "Sempre parti do princípio
de que era escutado, e não apenas por nossos amigos e parceiros americanos”.
Há também membros do gabinete e da administração do
Ministério das Relações Estrangeiras – como o porta-voz da época, Bernard
Valero, e Laurence Tubiana, funcionária do Ministério que foi responsável, em
2009, pelas negociações da Conferência do Clima em Copenhague. Ao contrário dos
outros, esta última não era alvo do setor responsável por interceptar as
comunicações europeias, o "S2C32" (já identificado no escândalo
Merkel), mas de um serviço encarregado especificamente de "melhorar o
acesso aos alvos", "aumentar os esforços de segmentação e
exploração" e "desenvolver novas possibilidades de coleta". Em
resumo, estudar como seria possível piratear seu telefone, ou mesmo instalar
programas espiões em seu computador.
Esta seleção de documentos revela apenas uma parte
das atividades da NSA de espionagem de líderes franceses: não há como saber a
quantidade de relatórios de escutas enviados aos dirigentes da NSA e os
presidentes também adotam precauções para abordar as questões mais delicadas –
reuniões bilaterais ou comunicações criptografadas. Mas os documentos
confirmam, em todo caso, a que ponto os Estados Unidos se interessam pelos
detalhes das comunicações de dirigentes de países aliados. Em outubro de 2013,
o deputado socialista Jean-Jacques Urvoas, relator do projeto de lei sobre a
informação, afirmou nas páginas do Le Monde que "os Estados Unidos não têm
aliados, têm alvos ou vassalos”.
Zona cinzenta
Resta agora saber se essas práticas continuaram
para além da data dos últimos documentos que publicamos em colaboração com o
WikiLeaks. Procurada por Libération e Mediapart, a assessoria de François
Hollande garante que, no momento da visita oficial do presidente em Washington,
em fevereiro de 2014, "houve o compromisso [por parte de Obama] de não
mais praticar escutas indiscriminadas de órgãos de estado de países
aliados". Igualmente procuradas, nem a NSA nem a Casa Branca haviam
respondido até terça à noite.
A espionagem de países estrangeiros é a última
"zona cinzenta" da informação e inteligência – na França, é, aliás, o
ponto cego o projeto de lei sobre a informação, que deve ser adotado esta
semana. Em abril, uma resolução da Assembleia parlamentar do Conselho Europeu
recomendava a criação de um "código de inteligência multilateral”. Algo
que parece ainda muito longe.
Tradução de Clarisse Meireles
Créditos da foto: reprodução
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