A política de austeridade
prejudica os investimentos públicos e privados em infraestrutura e não estimula
o crescimento.
Antônio José Alves Júnior | Via
Plataforma Política Social / www.cartamaior.com.br
Ao contrário do que diz o senso
comum, o Brasil não é o único país carente de infraestrutura. Desde a eclosão
da crise, estudos de consultorias, governos e instituições multilaterais trazem
diagnósticos para o baixo crescimento global e concordam que a carência de
infraestrutura, na maioria dos países, é uma das principais causas..1
Consequentemente, o investimento em infraestrutura se apresenta como um dos
caminhos da retomada. O arranque para o crescimento é no período de construção,
com a criação de muitos empregos diretos e indiretos. E na medida em que os
novos projetos entram em operação, os ganhos de competitividade para os
usuários diretos da infraestrutura e para os demais beneficiados pelas
externalidades convertem-se em novo ciclo de investimentos e de crescimento.
Em quase todos os países, o
Estado é um dos agentes mais engajados nos financiamentos e investimentos em
infraestrutura. Mas quando o cerne da própria política de crescimento é a
austeridade fiscal, a promoção da infraestrutura se torna um desafio muito
árduo, senão impossível. O que se passa na Europa deveria ser tomado como um
aviso para a atual política econômica brasileira, que abraça a tese da promoção
da infraestrutura a partir do ajuste fiscal.
Promoção da Infraestrutura: o exemplo
europeu
A política de austeridade
europeia visa recuperar a confiança empresarial e induzir o crescimento a
partir da obtenção de resultados fiscais e do controle da dívida pública.
Contudo, ao menos no curto prazo, a maior parte dos governos não encontra
espaço fiscal para realizar ou financiar os investimentos em infraestrutura,
retardando o crescimento. A administração desse conflito se resume na crença
segundo a qual a própria política de austeridade fiscal, ao aumentar a
confiança, torne possível aos governos transferir o protagonismo na realização
dos investimentos e do financiamento da infraestrutura para o setor privado.
Ocorre que, diante da prorrogação
da estagnação econômica e da consolidação da incerteza – em grande medida, um
resultado das políticas de austeridade –, o setor privado não tem demonstrado o
ímpeto esperado pelos projetos na Europa. O último levantamento disponível
sobre a evolução de projetos de parceria público-privadas revela que o total de
contratos assinados no primeiro semestre de 2014 chegou à casa dos 9 bilhões de
euros, valor equivalente ao do primeiro semestre de 2005 e ainda bem inferior
aos 12 bilhões de euros do primeiro semestre de 2011.2
De acordo com a Comunidade
Econômica Europeia, a culpa pelos baixos investimentos não é da expectativa de
retorno dos projetos, uma vez que há evidente necessidade dos equipamentos, uma
simplificação oriunda da confusão entre necessidade e demanda efetiva. No
entanto, indicam precisamente que, além do suspeito usual, a regulação
inadequada, a estruturação dos financiamentos responde pela carência de
investimentos privados.
De fato, a despeito dos
baixíssimos juros praticados, o sistema financeiro privado europeu não parece
ter mais a mesma capacidade e/ou interesse no financiamento da infraestrutura.
O virtual desaparecimento da oferta de garantias financeiras, com a falência de
algumas seguradoras monolines, dificulta a alocação de riscos da estruturação
de projetos. Além disso, a “desalavancagem” bancária ainda em curso, a maior
preferência pela liquidez dos investidores institucionais e a evolução da
regulação financeira pós-crise, privilegiando a redução da exposição de
instituições financeiras ao risco de insolvência – Basileia III (bancos) e
Solvency II (seguradoras europeias) – se conjugam perversamente para escassear
a oferta de financiamento de longo prazo.
Diante dos desafios para acelerar
os investimentos em infraestrutura, reduzindo a participação do Estado em prol
dos empreendedores, investidores e financiadores privados, a Europa tem
desenvolvido instrumentos mitigadores de risco. De um lado, esses instrumentos
economizam recursos públicos, ao menos no presente, pois não implicam
desembolsos imediatos. De outro, estimulam o financiamento privado, ao
transferir riscos para o setor público. Assim, linhas de crédito contingentes,
empréstimos juniores para fortalecer o rating de debêntures de infraestrutura e
garantias feitas sob encomenda têm resumido os esforços para alavancar o
financiamento e o investimento privado.
Até o momento, os resultados
decepcionam. A própria Comissão Europeia reconhece os fracassos das tentativas
de retomada, afirmando ao Parlamento Europeu, que “A recuperação econômica, a
criação de emprego, o crescimento de longo prazo e a competitividade estão,
portanto, entravados”…e que é, portanto, “…urgente um Plano de Investimento
para a Europa”.3 Curiosamente, o Plano é um pouco mais do mesmo: a criação de
um Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos para ampliar a oferta de
garantias para a infraestrutura, sempre dentro do arcabouço da austeridade.
Investimento em infraestrutura no
Brasil: a experiência recente
Depois de duas décadas de baixos
investimentos em infraestrutura, a partir de 2004 houve uma série de
iniciativas para promovê-los. Dentre elas, destaca-se a Lei de Parcerias
Público-Privadas (PPP) e o Novo Modelo do Setor Elétrico, em 2004; o Projeto
Piloto de Investimentos (PPI), em 2005; o Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC) I, em 2007, e II, em 2011; e o Programa de Investimento em Logística
(PIL), de 2013.
Os investimentos em
infraestrutura expandiram-se aceleradamente. Dados da Associação Brasileira das
Indústrias de Base e Infraestrutura (ABDIB) revelam que, de 2003 até 2013, a
taxa linear de crescimento anual dos investimentos em infraestrutura situou-se
em torno de 11%.4 Estimativas preliminares a partir da consulta a várias
edições do “Perspectivas do Investimento”,5 do BNDES, indicam que os
investimentos em infraestrutura saíram de 1,6% do PIB, em 2003, até atingirem
2,5% do PIB, em 2013.
O segredo da aceleração dos
investimentos em infraestrutura não residiu nos superávits fiscais. O motor da
retomada desses investimentos foi a decisão política do governo federal de
empregar recursos financeiros, seja como investidor, seja como financiador, com
e sem parceria com o setor privado.
Claro que parte do financiamento
e do investimento público em infraestrutura obedeceu à lógica das políticas
anticíclicas. Mas desde o início do governo Lula havia orientação para ampliar
a infraestrutura. Dados do Ministério da Fazenda6 mostram que os investimentos
públicos federais, que eram de 1,4% do PIB em 2003, cresceram praticamente
todos os anos, chegando em 2014 à marca de 2,8% do PIB.
Estados e municípios investiram
mais, e um volume expressivo de projetos com parceiros privados foi levado
adiante. Mas parte relevante desses investimentos só ocorreram a partir de
financiamentos dos bancos públicos. Coube ao BNDES a maior fatia no
financiamento da infraestrutura. Seus desembolsos para esse segmento foram
ampliados, em termos reais, de R$ 14 bilhões em 2003, para R$ 51 bilhões em
2013, uma taxa de crescimento anual linearizada de 13,8%.
Infraestrutura e austeridade –
aqui será diferente?
A redução do resultado primário
do setor público, desde 2011, e os R$ 415 bilhões de aportes ao BNDES, de 2009
a 2014, foram apontados pela oposição a Dilma como os principais responsáveis
por uma suposta crise fiscal que, por sua vez, seria a causa da queda do
crescimento, da inflação e da reversão da balança comercial. Surpreendendo ao
menos parte da audiência, a resposta do governo, desde o final de 2014, foi a
enunciação, pelo Ministro Joaquim Levy, de uma correção na política econômica
com a adoção da austeridade fiscal. Tal como no caso europeu, o objetivo é reconquistar
a confiança empresarial a partir da obtenção de superávits primários de 1,2% do
PIB em 2015, e de pelo menos 1,9% do PIB em 2016 e 2017. Além dessas metas,
foram declarados encerrados os aportes para os bancos públicos.
A despeito desse anúncio, os
investimentos em infraestrutura se mantiveram na pauta, preservando seu lugar
na receita do crescimento. Para tanto, rompeu-se com o modelo bem-sucedido dos
dez últimos anos, em favor da adoção da linha europeia, cortando-se os recursos
públicos para a infraestrutura. De um lado, o contingenciamento de despesas
para 2015 deverá atingir os projetos do PAC. De outro, o BNDES deverá mudar o
seu papel no financiamento da infraestrutura, deixando de ser o principal
financiador, para se transformar em “estruturador”. Sua função será,
idealmente, a de dar sua chancela aos bons projetos, atraindo investidores e
financiadores privados, sejam eles nacionais ou estrangeiros.
Nos próximos dias, o governo
brasileiro anunciará um pacote de projetos de infraestrutura todo inspirado nas
novas diretrizes, colocando à prova o novo modelo. Ainda não se sabe qual o seu
conteúdo, mas dificilmente poderá ser ambicioso. O horizonte para investidores
e financiadores privados está muito prejudicado. Do lado internacional, a economia
americana não firma sua recuperação, a Europa não consegue se mover, e a Ásia,
ainda que bem das pernas, desacelera. Não é razoável, dessa forma, esperar uma
retomada estável para as exportações de manufaturados e de commodities
brasileiras, um fator que poderia inspirar novos projetos de infraestrutura
financiados pelos privados.7
No front financeiro, as políticas
monetárias americana e europeia, mesmo mantendo as taxas de juros em zero, não
têm sido capazes de mobilizar o financiamento de longo prazo em condições
adequadas em seus próprios países, tamanha a reticência com projetos de longo
prazo. Para piorar, de acordo com a Fitch,8 não há por que esperar que agentes
financeiros do exterior se interessem em financiar a infraestrutura brasileira,
haja vista os elevados custos de hedge cambial, além da incerteza sobre a
demanda pelos serviços de mais infraestrutura.
A Fitch também não acredita que
será fácil atrair bancos privados brasileiros e investidores institucionais
para o financiamento da infraestrutura local, tomando o espaço que será deixado
pelo BNDES. E não é apenas porque o sistema financeiro local não tenha uma
história comprometida com o financiamento de longo prazo. Os juros brasileiros,
ao contrário dos europeus, são muito elevados e voláteis. A taxa Selic, que dá
o piso da estrutura de juros, acabou de ser fixada em 13,25% a.a., depois de
subir 6 pontos percentuais em dois anos. Não é de admirar que o custo
financeiro ajustado ao risco para projetos de infraestrutura, se estabeleça em
patamar muito elevado.
Apenas projetos que comportem
tarifas muito elevadas para compensar os custos do hedge cambial do
financiamento em moeda estrangeira, ou dos juros ajustados ao risco, em moeda
local, terão chance de sair do papel. Além disso, haverá, ainda, um prêmio a
ser cobrado para compensar as incertezas acerca da demanda pelos serviços de
infraestrutura, seja por causa do nível instável da renda doméstica, seja por
causa da incerteza acerca da demanda de commodities.
Por construção, os investimentos
em infraestrutura, em tempos de austeridade, serão bem menores do que seriam
com o investimento público e com o financiamento em condições mais favorecidas.
Apenas poucos projetos poderão compensar os custos financeiros exigidos pelo
setor privado. Os investimentos serão baixos, resultando, no curto prazo, em
pequena mobilização de empregos. No longo prazo, o seu efeito não será mais do
que uma contribuição modesta para o aumento da competitividade, seja pela
escassez de equipamentos, seja pelo custo elevado dos serviços de
infraestrutura.
Cabe ainda uma especulação
preocupante: muito provavelmente, a modicidade tarifária e a universalização do
acesso, que orientaram a lógica do investimento em infraestrutura, venham a ser
substituídas pela licitação de projetos com outorga onerosa,9 encarecendo um
pouco mais as tarifas. O foco na arrecadação, para o erário, e na melhoria da
rentabilidade, para atrair investidores, ao lado de um rebaixamento no ideal da
universalização do acesso, muda radicalmente a lógica do modelo de
investimentos em infraestrutura que, de 2003 a 2014, contribuiu com as bases
materiais do modelo de desenvolvimento inclusivo.
A solução das atuais dificuldades
da economia brasileira não é trivial. Mas, tal como no caso europeu, a
combinação entre austeridade fiscal e investimento em infraestrutura, para
construir um novo ciclo de crescimento, não deverá ser mais do que esperança,
pois encerra uma contradição. A política de austeridade prejudica os
investimentos públicos e privados em infraestrutura, não estimula o crescimento
e pode ser um obstáculo para a continuidade da distribuição de renda. Aí, a
esperança é que, em vista da renovação dos apelos por mais austeridade, que
virão na esteira dos maus resultados econômicos, seja possível trilhar uma
outra direção de política econômica, antes que as condições materiais e
políticas para a retomada se tornem ainda mais escassas.
Antônio José Alves Júnior é
Professor do Departamento de Ciências Econômicas da UFRRJ.
NOTAS
1 Alguns exemplos do material recente produzido por consultorias privadas são “Infrastructure 2013 – Global priorities, global insights”, da Ernst & Young e Urban Land Institute (2013); “Infrastructure productivity: how to save $1 trillion a year”, da McKinsey (2014)). Das instituições multilaterais, “Is it time for na infrastructure push? The macroeconomic effects of public investment”, no World Economic Outlook, FMI, Outubro de 2014 e o recente “Um plano de investimento para a Europa”, de novembro de 2014, comunicado da Comissão Europeia sobre a necessidade de acelerar os investimentos em infraestrutura na Europa.
2 Levantamento realizado pelo European PPP Expertise Centre, “Market Update Review of the European PPP Market First half of 2014”, disponível em http://www.eib.org/epec/resources/epec_market_update_2014_h1_en.pdf.
3 “Um plano de investimento para a Europa”, comunicado da Comissão Europeia, de novembro de 2014, disponível emhttp://www.europarl.europa.eu/meetdocs/2014_2019/documents/com/com_com(2014)0903_/com_com(2014)0903_pt.pdf
4 Relatório ABDIB, diversos números disponível em http://www.abdib.org.br/index/index.cfm?CFID=870415&CFTOKEN=52473669
5 As várias edições do Perspectiva de Investimento podem ser consultadas em http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Publicacoes/Consulta_Expressa/Tipo/Perspectivas_do_Investimento/
6 Anuário Estatístico, disponível em https://www1.fazenda.gov.br/spe/novo_site/home/anuario_estatistico.html
7 Em 19 de maio, os chineses se comprometeram formalmente a investir/financiar cerca de R$ 53 bilhões de dólares no Brasil, boa parte em infraestrutura. É sintomático que essa declaração firme de interesse em investimentos, provavelmente a mais importante para o Brasil neste ano, reflita um acordo político e não o livre jogo das forças de mercado.
8 “Para Fitch, BNDES menor abre espaço para bancos”, Valor Econômico, 28.04.2015, p. C 14
9 Em 25.04.2015, reportagem de O Globo sobre uma reunião de ministros para definir novo pacote de concessões menciona a renovação das concessões de infraestrutura com cobrança de outorga, na contramão da lógica que governou a antecipação da renovação de contratos de energia elétrica e do leilão recente da concessão da Ponte Rio-Niterói. Conferir: http://oglobo.globo.com/economia/reuniao-de-dilma-com-ministros-sobre-infraestrutura-termina-sem-anuncio-de-medidas-15973019
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