'Se existe um déficit você tem que equacioná-lo
buscando recursos onde há superávit. Quem tem sobra, as famílias assalariadas
ou os bancos e rentistas?'
Saul Leblon // www.cartamaior.com.br
O que faz um intelectual apaixonado pelo Brasil que
aos 80 anos, financeiramente resolvidos, convence-se de que seu caso de amor
mergulhou em ‘uma gosma’, como ele classifica a situação atual do país?
Talvez jogasse a toalha para desfrutar o conforto privado
e merecido.
Talvez, se o seu nome não fosse Carlos Francisco
Theodoro Machado Ribeiro de Lessa, ou Carlos Lessa, como é conhecido e
respeitado o economista em quem, mesmo adversários de ideias, reconhecem uma
das inteligências mais provocantes do país, ademais de um frasista demolidor.
Lessa está angustiado, aflito com o Brasil. ’Eu e
as torcidas de todos os brasões da nação’, começa.
Signatário de um manifesto encampado por alguns dos
principais intelectuais brasileiros contrários ao projeto do senador José
Serra, de engessamento fiscal do Estado, Lessa, a exemplo de Maria da Conceição
Tavares, foi tratado com desdém pelo tucano.
Entre outros vitupérios, o ex-governador de São
Paulo, classificou seus críticos de ‘desinformados e pseudo-marxistas’.
‘Mas foram seus professores’, protestou inutilmente
o senador petista Lindberg Farias, no dia 20/10, na Comissão de Assuntos
Econômicos do Senado --que voltará a
examinar o assunto dia 3 de novembro, em sessão decisiva e ainda mais tensa.
‘Serra não precisava se diminuir tanto’, fuzila o
professor emérito da UFRJ e ex-presidente do BNDES.
’Ofender pessoas com as quais ele teve reconhecida
proximidade intelectual no passado, é ofender a si próprio. Lamento que tenha
chegado a isso’.
No exílio chileno, nos anos 70, Serra conviveu
intimamente com a família Lessa. A residência do economista, agora fustigado
por ele, era um espaço da rotina do tucano, que então atribuía ao dono da casa
seu aprendizado em economia.
‘Elogio em boca própria é vitupério’, desconversa o
autor de ‘Quinze anos de política econômica’ (a industrialização do pós-guerra
aos anos 60)’, obra apontada como uma continuação proposital de outro clássico
–‘Formação Econômica do Brasil’, de Celso Furtado.
‘Mas desmerecer Conceição?’, indigna-se Lessa.
Uma das principais referências dos economistas
heterodoxos, ‘Conceição’ deu a Serra, inclusive
--lembra Lessa-- a parceria em um texto famoso. ‘Além da estagnação’,
obra de 1972, tornou-se um clássico, ao decifrar a perversidade intrínseca à
acumulação capitalista no Brasil, harmoniosamente integrada à concentração de
renda, contratada em 1964 à ditadura militar pelas elites golpistas de então.
‘Desfazer de Conceição?’, escande Lessa, como se
dissesse: ‘quanta indignidade’.
‘Ver o destino do país jogado nessa goma da qual o
projeto de Serra é um espessante, me aflige’, diz a voz grave.
O denominador comum da ‘gosma’, na visão do
economista, é a panaceia do ‘corte’.
‘Cortar é tudo o que o discurso pantanoso tem a
dizer sobre o nosso futuro, que assim deixa de existir’, desacorçoa.
Serra propõe 15 anos de retalhamentos.
‘O mais risível’, detona, ‘é que a esperteza quer
sempre cortar do outro, nunca de si mesmo. Chegamos a essa situação pegajosa,
na qual a nação chafurda e pode se perder’.
Cortar o quê, de quem, como e para quê?
Carlos Lessa cobra coerência nas respostas que não
enxerga em nenhuma das tesouras mobilizadas para esquartejar e salgar as
chances do desenvolvimento brasileiro.
‘Claro que eu também quero equilíbrio fiscal’,
fustiga em direção a Serra. ‘Ninguém quer ver o Brasil caminhar para o
encilhamento. Mas o que falta a Serra, e outros, é coragem para admitir o
óbvio’, observa agora de forma pausada e pedagógica.
‘Se existe um déficit você terá que equacioná-lo
buscando recursos onde há superávit. Estou certo?’, pede ajuda antes de uma
pausa para respirar.
Em seguida metralha sem piedade: ‘Quem,
afinal, é superavitário hoje no Brasil;
quem?’, esgrime a pergunta com repetidas estocadas. ‘Diga-me quem?’
Por certo não é a família assalariada, responde o
economista agora de forma compassiva. ‘Tampouco o investimento, que há anos
sequer resvala a mínima necessária ao crescimento sustentável, uma taxa da
ordem de 20% do PIB, pelo menos’.
Depois de descartar o arrocho sobre a dívida
pública – ‘uma ferramenta necessária, mas que no Brasil só cresce para pagar
juro, ‘não para investir’, Lessa chega ao ponto do qual acusa Serra e outros de
se afastarem covardemente.
‘Quem é superavitário nesta sociedade hoje, e há
muito, são os bancos e os rentistas. Essa gente precisa ter brio e admitir um
pacto, na forma de uma taxa, para
ajustar as contas fiscais, sem esmagar o emprego, o investimento público e os
direitos sociais. Ou então afundaremos na gosma’, arremata o conferencista
experiente, cujas frases hipnotizaram centenas de plateias acadêmicas e não
acadêmicas por todo o Brasil.
Nascido em uma família da elite carioca, mas num
tempo em que o futebol de rua conectava o berço rico à infância pobre da
favela, Carlos Lessa não se dispensa do que cobra dos endinheirados
institucionais.
‘Eu também acho que devo ter meus investimentos cortados
para que se possa baixar a despesa do Estado com juros; hoje elas só servem
para engordar a minoria e esmagar a capacidade fiscal do país’, sentencia sem
concessão à hipocrisia.
O professor emérito da UFRJ, porém, não é ingênuo.
Lessa sabe que a repactuação política para a
retomada do desenvolvimento não virá da generosidade dos detentores da riqueza
financeira.
‘Falta bom senso para o Brasil sair da gosma. A
legião do ajuste, na verdade, não se interessa pelo Brasil’, desfere para em
seguida adotar um tom grave: ‘Dilma sabe onde está o problema. Já demonstrou
isso. O que lhe falta é coragem. Um presidente precisa saber tomar paulada e
persistir: existem condições para cortar os juros. Mas é forçoso ir além da
esfera técnica’, observa agora em um tom de confidência: ’Um presidente precisa
abraçar a discussão política do problema, e assim abrir espaço ao protagonismo
da sociedade’.
O professor Carlos Lessa discorda dos que enxergam
no mercado mundial uma atalho para o Brasil voltar a crescer, à margem dos seus
interditos e impasses domésticos.
‘A globalização jaz em estado pantanoso’, avalia.
Disputas e pendências históricas, no seu entender, estão sendo acirradas pela
crise mundial. As tensões geopolíticas se avolumam. ‘O que vejo é a antessala
de acirramentos bélicos, em uma palavra: guerra’, pontua com palpável angústia
na voz.
O economista enxerga dois blocos em rota
conflitiva: de um lado, os EUA e seus acordos transpacífico e transatlântico;
de outro a China e sua diáspora de desembarques estratégicos em diferentes
pontos do planeta. ‘A recuperação norte-americana fraqueja e a Europa definha’,
acrescenta Lessa agregando peças ao seu painel de formações em marcha
conflitiva pelo globo. ‘A Rússia está viva e quer ser o elo entre a eurásia e a
Europa. Há um cheiro de pólvora no ar. Imigrantes são cerceados nas fronteiras;
a extrema direita acaba de vencer na Polônia, a sexta economia da Europa... O
Brasil pode se dar ao luxo de desperdiçar o mercado interno para se ancorar
nessa areia movediça traiçoeira e carregada de minas?’, argui com gravidade.
A voz grave evidencia cansaço; a conversa precisa
acabar. Não, porém, antes que esse brasileiro apaixonado pelo seu país, possa
sinalizar linhas de passagem que, no seu entender, ainda resgatariam a economia
da gosma espessada por ideias como as de Serra. ‘Nosso padrão de consumo
melhorou inequivocamente’, pondera, ‘mas a qualidade de vida se deteriora. O
país tem condições de escapar da gosma sufocante erguendo casas dignas para
milhões de famílias, civilizando uma urbanização que concentrou 50% da
população em 11 regiões metropolitanas conflagradas, erradicando de vez a fome
na vida de nossa gente’, lista com realismo para fincar a estaca de esperança
no meio da pasta disforme que desfigura seu sonho de Brasil: ‘Nada disso
pressiona as contas externas. Estou falando de melhorar a qualidade de vida,
gerar empregos e renda, mobilizando a única indústria realmente nacional que
restou: a da construção. É isso ou a gosma; eu prefiro apostar nas possibilidades
nacionais’, conclui e se despede agradecido, como se tivesse cumprido um dever:
’Obrigado’.
Créditos da foto: Geraldo Magela/Agência Senado
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