POR FERNANDO BRITO // http://tijolaco.com.br/
Janio de Freitas, que conhece como nenhum de nós a história deste país, escreve hoje na Folha um artigo tão didático quanto vigoroso, que merece ser lido por todas as pessoas de convicção democrática, que aprendemos, na prática, que a perda da institucionalidade é o primeiro passo para a perda dos direitos individuais e sociais.
Quem viveu uma ditadura deve lembrar-se disso e do quanto custa sair de uma delas.
Jânio só não vai ser entendido pelas mentes primárias, dominadas pelo ódio, a maioria delas apenas massa de manobra de outros interesses.
A democracia arrombada
Janio de Freitas, na Folha
Crise, crise mesmo —
não os quaisquer embaraços que os jornalistas brasileiros logo chamam de
crises— desde o fim da ditadura tivemos apenas a que encerrou o governo Collor.
Direta ao objetivo, exposta como se nua, escandalosa e inutilmente previsível,
começou e se encerrou em cinco meses e dias. Estava reafirmado, provava-se vivo
e são, o mau caráter histórico do Brasil.
Mas, aos quatro
anos, a Constituição resistiu e respondeu aos safanões, não muitos nem tão
graves. Não se deu o mesmo com a crise em que fiz minha estreia como jornalista
profissional. Aos oito anos em 1954, a primeira Constituição democrática do
Brasil, em quase 450 anos de história, não pôde sequer esperar que um golpe
militar e um revólver matassem Getúlio. As tantas transgressões que sofreu
desde a posse do Getúlio eleito já eram o esfacelamento da Constituição
democrática, com o desregramento político, legal, ético e jornalístico da
disputa de poder que ensandecia o país.
O Brasil deixara de
ser democracia bem antes do golpe que o revólver de Getúlio deixou inconcluído
como ação, não como objetivo. Reduzido o regime de constituição democrática a
mera farsa, em poucos meses seguiram-se o impedimento do vice de Getúlio, a
derrubada do terceiro na linha de sucessão, que era o presidente da Câmara, e a
entrega da presidência ao quarto até a posse do novo presidente eleito. Estes
foram golpes militares do lado até então perdedor, antecipando-se aos golpes
que o lacerdismo e seus subsidiários prepararam, com os militares de sempre,
para impedir a posse do eleito Juscelino.
Em termos políticos,
a vigência da Constituição democrática foi restaurada por Juscelino. Lacerda,
seus seguidores e aliados fizeram mais para derrubá-lo, e por longos cinco
anos, do que haviam feito contra Getúlio. Dois levantes de militares
ultralacerdistas (o primeiro delatado ao governo pelo próprio Lacerda, temeroso
de represália). Mas os desmandos administrativos, ainda que acompanhados de
grandes realizações, corromperam a vigência plena da Constituição.
A Constituição que
Jânio Quadros encontra é desacreditada, e por isso frágil. Seus princípios são
democráticos, mas, dada a sua fraqueza, o regime não é de democracia de fato.
Um incentivo a aventuras inconstitucionais, portanto. Primeiro, a que se
frustrou na indiferença ante a renúncia presidencial. Depois, o levante militar
contra a posse do vice. Não foi a Constituição democrática que impediu a guerra
civil entre seus violadores e seus defensores. Foi um acordo que nem por ser
sensato deixava ele próprio de segui-la.
O Brasil do período
em que se deu o governo Jango está por ser contado. As liberdades vicejaram, o
que deu certos ares de regime constitucional democrático. Mas os desregramentos
de todos os lados e o golpismo tanto negaram a constitucionalidade como a
democracia. As eleições para o Congresso estavam viciadas por dinheiro
norte-americano e brasileiro, grande parte do Congresso seguia ordens de um tal
Ibad, que era uma agência da CIA, a agitação governista e oposicionista criava
um ambiente caótico e imprevisível mesmo no dia a dia. As liberdades não
bastavam para configurar uma democracia, propriamente, por insuficiência
generalizada do pressuposto democrático.
Passados os 21 anos
de serviço ostensivo dos militares brasileiros aos interesses estratégicos e
econômicos dos Estados Unidos, a Constituição de 1988 apenas embasou e
aprimorou a democratização instituída com a volta do poder aos seus
destinatários por definição e direito – os civis, em tese, os agentes de
civilização. De lá até há pouco, o que houve no governo Collor foi como um
mal-estar. Não afetou as instituições e sua prioridade democrática.
Não se pode dizer o
mesmo do Brasil atual. Há dez meses o país está ingovernável. À parte ser
promissor ou não o plano econômico do governo, o Legislativo não permite sua
aplicação. E não porque tenha uma alternativa preferida, o que seria
admissível. São propósitos torpes que movem sua ação corrosiva, entre o golpismo
sem pejo de aliar-se à imoralidade e os interesses grupais, de ordem material,
dos chantagistas. Até o obrigatório exame dos vetos presidenciais é relegado,
como evidência a mais dos propósitos ilegais que dominam o Congresso. A Câmara
em particular, infestada, além do mais, por uma praga que associa a
criminalidade material à criminalidade institucional do golpe.
A ingovernabilidade
e, sinal a considerar-se, o pronunciamento político contra a figura
presidencial, pelo comandante do Exército da Região Sul, são claros: se ainda
temos regime constitucional, já não estamos sob legítimo Estado de Direito. A
democracia institucional desaparece. Como indicado no percurso histórico,
sempre que assim ocorreu e não foi contido em tempo, o rombo alargou-se. E devorou-nos,
com nossa teimosa e incipiente democracia.
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