Luis Nassif // http://jornalggn.com.br/
O dia em que se fizer o
inventário da atuação do BC na gestão Alexandre Tombini, provavelmente se terá
o retrato de uma das mais desastradas gestões da história pós-estabilização, só
superada pela de Gustavo Loyolla e seus 45% de taxa básica ao ano.
Desde o primeiro governo Dilma,
avaliações incorretas do BC sobre a economia comprometeram a política econômica
e ajudaram a jogar a economia nesse buraco.
O erro fundamental foi a reversão
da política monetária em fins de 2012, voltando a subir a Selic justo em um
momento em que se iniciava um remanejamento dos investimentos - dos fundos de
pensão e dos grandes gestores de fortunas - em direção à infraestrutura e a
investimentos de longo prazo.
A reversão da Selic pegou todos
no contrapé, especialmente os gestores de fortuna que, entusiasmados com o
sucesso das políticas anticíclicas de 2008, convenceram seus clientes a apostar
no longo prazo.
Sabe-se lá qual cenário foi
soprado no pé de ouvido de Dilma para essa mudança de rota. Mas no início de
2013 fiz uma longa entrevista com ela para tentar entender seus motivos. A
explicação que a convenceu foi a de que o FED (o Banco Central norte-americano)
em breve iria começar a aumentar as taxas de juros, provocando uma fuga de
capitais externos do Brasil. A alta da Selic, portanto, seria preventiva.
O grande operador de mercado é o
que consegue intuir melhor a linha de médio prazo da economia real e
identificar os chamados fatores de volatilidade. Tendo clara essa linha, vai dando bicadas nos pontos fora da curva,
acentuados pelo superdimensionamento de eventos políticos ou econômicos,
sabendo que mais cedo ou mais tarde o mercado volta para a linha principal..
O quantitative easing teve o
mesmo papel para o mercado do “bug do milênio” para o setor de informática:
aumentar a volatilidade através do pânico para faturar em cima do medo,
ajudando a ampliar as oscilações.
Não havia nenhuma base séria para
se acreditar em mudança radical no FED. Dada a fragilidade da economia mundial
e norte-americana, as feridas ainda abertas dos mercados e do sistema bancário,
e aos enormes impactos das decisões do FED na economia mundial, nenhum analista
de fôlego apostaria em inflexões bruscas em sua política monetária. Mas o douto
Banco Central do Brasil preferiu acreditar nas marolas do mercado.
Conclusão: a política monetária
do BC brasileiro sofreu mudança brusca de rota, enquanto a política monetária
do FED até hoje segue sem alterações.
Os cenários pós-eleições
No pós-eleição, repetiu-se o
mesmo erro baseado em fantasias absurdas.
Para convencer Dilma a adotar
políticas fiscais pró-cíclicas, que obviamente aprofundariam a recessão, o ex-Ministro da Fazenda Joaquim
Levy apelou para estudos do Departamento Econômico do BC sustentando que seria
necessário um sacrifício mínimo do mercado de trabalho para se derrotar a
inflação.
Em março, na entrevista dada a
blogs, Dilma dizia que “o pior já passou”. Qualquer analista, com um mínimo de
experiência sobre os humores da economia interna, com um mínimo de informações
sobre a economia real, e de experiência histórica, sabia que a crise mal tinha
começado.
Depois do desastre consumado, o
BC divulgou novos trabalhos retificando as projeções otimistas.
O terceiro erro foi a manutenção
da política monetária, mesmo após a divulgação dos dados do PIB mostrando uma
economia desabando.
A carta formal de explicações
pelo fracasso no alcance das metas de inflação é um clássico contemporâneo dos
cabeças de planilha. Como justificar elevação – ou mesmo manutenção da Selic
nos atuais patamares – com a demanda desabando, o PIB caindo, o desemprego em
vias de explodir?
O relatório se valia dos dados
existentes (passado) para admitir a queda do PIB – mesmo porque eram fatos.
Para justificar a política de elevação da Selic, valia-se de suposições, meras
suposições - não alicerçadas em nenhum dado quantitativo, nenhum conjunto de
fundamentos consistentes – de que a economia iria melhorar.
A convicção era tão precária que,
mal saíram as projeções do FMI, Tombini jogou a toalha e endossou suas
previsões de que a recessão continuaria. E na véspera da reunião do Copom! Como
entender que uma instituição internacional, que tem por obrigação analisar a
economia de TODOS os países do globo, tenha mais convicção sobre a economia
brasileira do que o BC, com uma enorme equipe de PhDs dedicando-se
exclusivamente a estudar o Brasil?
As razões dos erros do BC
Vários fatores explicam essa
sucessão de erros.
O primeiro, o próprio
enfraquecimento da discussão macroeconômica brasileira, com os economistas de
mercado tornando-se o único referencial da mídia e do BC.
O segundo, no fato de se ter
entregue o BC à corporação
Em princípio, nada contra. Em
outros tempos, a Sumoc e, mais tarde, o BC, teve papel relevante em momentos
cruciais da história conduzida pela nata do funcionalismo público brasileiro da
época. Mas eram técnicos que transitavam por todos os setores da economia, até
por sua ligação original com o Banco do Brasil.
O BC atual foi vítima de um
conjunto de erros.
O mais relevante foi subordinar
toda a análise econômica a uma única linha de pensamento, cm interlocução
exclusiva com o mercado. Como resultado, tocavam a economia brasileira com o
manual de funcionamento da economia norte-americana. O FED mantém nas suas
agências estaduais e na central compartilhamento de informações com setores da
economia real discussões entre economistas de linhas econômicas diversas sobre
problemas reais.
O BC brasileiro regrediu,
tornou-se vítima de um vício de gestão já superado em empresas modernas, de
cada departamento definir metas para si independentemente dos resultados de sua
ação sobre a companhia como um todo. O BC age como se os efeitos da política
econômica sobre a dívida pública, o nível de atividade, a queda da arrecadação
não fossem problemas dele.
Além disso, a insegurança de
Tombini fê-lo focar todas as discussões exclusivamente no sistema de metas
inflacionárias – que ele ajudou a desenvolver – em si. Seu conhecimento
restringe-se à literatura econômica norte-americana. E a insegurança de Dilma
fê-la espanar o recurso à dúvida. Porque a dúvida exige compreensão, para
justificar a decisão.
A entropia do BC foi de tal ordem
que seus PhDs sequer se deram conta de uma correlação óbvia, brandida por eles
próprios:
1. Seundo eles, não se pode
reduzir os juros enquanto a parte fiscal não for equacionada.
2. Juros elevados derrubam a
arrecadação, inviabilizando qualquer possibilidade de ajuste fiscal.
3. Sem ajuste fiscal, os juros
têm que continuar aumentando.
E como é que se sai desse círculo
vicioso? Simplesmente admitindo que, com o PIB despencando, com a demanda
despencando, teria que rever a política monetária.
Precisou o alerta do FMI para o
BC começar a despertar.
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