sábado, 8 de setembro de 2018

SÓCIOS DO GOLPE: EUA E LACAIOS BRASILEIROS






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https://alemdarena.blogspot.com/2016/05/anatomia-do-golpe-as-pegadas-americanas.html

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PESQUISADOR AMERICANO DIZ QUE EUA APOIARAM GOLPE CONTRA DILMA E EM OUTROS PAÍSES DA AMÉRICA LATINA



Em entrevista concedida ao jornalista Brian Mier, o economista norte-americano e co-diretor do Centro para Pesquisas Econômicas e de Políticas Públicas em Washington, Mark Weisbrot, diz que a "maré cor-de-rosa" vivenciada pela América Latina com a chegada da esquerda ao poder nos últimos anos tem chegado ao fim graças, em grande parte, à participação dos EUA em golpes institucionais , como o ocorrido no Brasil e que resultou no afastamento da presidente eleita Dilma Rousseff em 2016; ele também destaca a participação dos EUA na investigação da Lava Jato e ressalta que"a gente nem sabe o quanto eles fizeram ou o quanto se envolveram na armação do juiz Sergio Moro na prisão injusta de Lula"

247 - Em entrevista concedida ao jornalista Brian Mier, o economista norte-americano, colunista e co-diretor do Centro para Pesquisas Econômicas e de Políticas Públicas em Washington, Mark Weisbrot, diz que a "maré cor-de-rosa" vivenciada pela América Latina com a chegada da esquerda ao poder em diversos países da região resultou em avanços significativos à população, inclusive com a redução da pobreza, que caiu de 44% para 28% entre 2003 e 2013, por exemplo. Segundo ele, o fim da "maré cor-de-rosa" veio por meio da adoção de algumas políticas macroeconômicas errôneas e também pelo apoio dos Estados Unidos a diversos golpes em toda a América latina, incluindo o ocorrido no Brasil, que resultou no afastamento da presidente eleita Dilma Rousseff em 2016.

"No Brasil, os Estados Unidos desempenharam um papel mostrando sua aprovação ao impeachment de Dilma. Acho que isso foi importante, pois falou para as pessoas no Brasil, especialmente às pessoas que organizaram o golpe, que elas tinham o apoio do Estados Unidos", diz Weisbrot na entrevista. "Isso foi mostrado no nível mais importante no dia seguinte ao impeachment, enquanto o chefe do Comitê de Relações Exteriores do Senado, que era líder do movimento do impeachment no Senado (senador e atual chanceler Aloysio Nunes (PSDB)) veio para os Estados Unidos e falou com Tom Shannon, que naquele momento era o terceiro mais importante membro do Departamento de Estado dos Estados Unidos", destaca. Eles se encontraram e ele mostrou aprovação ao golpe naquele momento", completou Weisbrot.

Ele também ressalta que em agosto, o então secretário de Estado dos EUA, John Kerry, veio ao Brasil onde, ao lado de José Serra, que ocupava interinamente o cargo de ministro das Relações Exteriores, uma vez que Dilma ainda não tinha sido oficialmente deposta do cargo em função da votação do Senado ainda não ter acontecido, afirmou como as "relações seriam ótimas para o Brasil dali para a frente". "Isso também deixou claro para qualquer senador que tivesse dúvidas que os Estados Unidos iram apoiar fortemente a remoção da Dilma" emendou.

Weisbrot também destaca que o Departamento de Justiça norte-americano participou ativamente " de toda a investigação da Lava jato e de outras investigações sobre corrupção e a gente nem sabe o quanto eles fizeram ou o quanto se envolveram na armação do juiz Sergio Moro na prisão injusta de Lula

Assista a íntegra da entrevista na TV 247:



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Golpe no Brasil foi tramado nos EUA para toda a América Latina


RIBAMAR FONSECA
https://www.brasil247.com/

5 de Janeiro de 2018



Stuckert

A ação da Justiça destinada a eliminar Lula da vida pública, impedindo-o de voltar à Presidência da República, não é um ato isolado, instrumentalizado pelo juiz Sergio Moro, mas parte de um plano muito mais amplo, concebido nos gabinetes do Departamento de Justiça norte-americano, abrangendo toda a América Latina e cujos sinais são vistos, além do Brasil, na Argentina, no Chile, no Peru e na Venezuela.

A eleição de Macri, na Argentina, e de Piñera, no Chile, parte desse plano, revela claramente a onda direitista que assola a América do Sul e teve o seu ponto alto no golpe que destituiu a presidenta Dilma Roussef, mas prossegue com as tentativas para derrubar Maduro, na Venezuela, e o movimento no Peru para votar o impeachment do seu presidente, Pedro Pabllo Kuczynski. O golpe do Brasil, no entanto, ainda não foi concluído, o que só se dará quando o ex-presidente operário for considerado inelegível e ficar de fora das eleições presidenciais deste ano, pois esse é o objetivo para o qual foi minuciosamente planejado após as eleições de 2014.

O golpe, na verdade, foi o plano B dos seus promotores, pois eles imaginavam vencer aquele pleito com Aécio Neves, o plano A que os eleitores brasileiros frustraram. O mesmo aconteceria na Argentina se Macri não tivesse sido eleito, ou seja, lá, em terras portenhas, o plano A deu certo, mas já enfrenta grandes problemas de sustentação. Aqui no Brasil a derrubada de Dilma era fundamental para chegar-se ao alvo principal, Lula, mas desta vez não havia clima para um golpe militar, o que levou os seus responsáveis a procurar emprestar uma cara de legalidade ao movimento golpista, usando o impeachment, previsto na Constituição, com a cumplicidade do vice-presidente , do PMDB, do PSDB, de parte do Legislativo e do Judiciário, além de empresários e da mídia. Todos estavam conscientes da inexistência de crime de responsabilidade que justificasse o afastamento da Presidenta, mas todos deram a sua contribuição para oferecer um verniz de legalidade à conspiração, de modo a convencer o resto do mundo, em especial os países que mantém relações diplomáticas com o Brasil, sobre um suposto acerto da decisão.

A espionagem da presidenta Dilma Roussef e da Petrobrás, pela Agência de Segurança dos Estados Unidos, cuja descoberta provocou ligeiro estremecimento nas relações com os americanos, foi de vital importância para a montagem do plano de assalto ao Palácio do Planalto. Não foi por acaso, portanto, que a Petrobrás foi o ponto de partida para as investigações que já estavam programadas para chegar de qualquer maneira até Lula. Não houve acaso, também, na escolha do juiz Sergio Moro para comandar a Operação Lava-Jato, considerando suas ligações com os responsáveis naquele país pelo planejamento do golpe. Ele viaja com frequência a Washington para, oficialmente, proferir palestras, mas na verdade sua finalidade seria receber instruções, conforme suspeitam observadores. A escolha de Pedro Parente para presidir a empresa estatal, por indicação dos tucanos, igualmente não foi casual. Ele é tido como um dos brasileiros integrantes da equipe de governo de FHC que só nasceram no Brasil, mas escolheram os Estados Unidos como sua pátria de coração. E vem cumprindo fielmente a missão para a qual foi colocado na Petrobrás: entregar nosso petróleo para as empresas estrangeiras e promover a privatização da empresa petrolífera nacional, dando sequência à quebra do monopólio do Petróleo, realizada por FHC, e a abertura do pré-sal para o capital internacional, projeto de outro tucano, o senador José Serra.

O pré-sal, na realidade, foi um dos motivos do golpe, diante do interesse americano em abocanha-lo, pois a principal causa mesmo foi a aproximação do Brasil, promovida por Lula, com a Russia e a China. A criação do BRICS foi a gota dágua que disparou o gatilho para a execução do plano, gerado nas terras do Tio Sam, que destituiu Dilma e pretende impedir Lula de voltar ao Palácio do Planalto. Os americanos ficaram preocupados com o afastamento do Brasil da sua esfera de influência e sua consequente aproximação com os seus principais rivais, pois isso fatalmente levaria os demais países da América do Sul a trilharem o mesmo caminho. Então, elaboraram um plano que incluísse, além do Brasil, também todo o continente americano, de modo a reconduzir as nações deste continente de volta ao seu aprisco. Conseguiram chegar ao poder através de eleições na Argentina e no Chile, com Macri e Piñera, respectivamente, mas não obtiveram êxito na Venezuela, onde partiram para o golpe armado, frustrado pela mão firme de Nicolas Maduro. Não vai demorar muito, porém, para que consigam derrubar o presidente do Peru, utilizando o mesmo método empregado no Brasil, o que só ainda não aconteceu porque Kuczynski fez um acordo com Fujimori, obtendo maioria no Parlamento.

A participação dos Estados Unidos no golpe do Brasil e na perseguição a Lula foi confirmada pelo subprocurador geral daquele país, Kenneth A. Blanco, que dirigia a Divisão Penal do Departamento de Justiça, durante palestra em julho passado, sobre o tema "Lições do Brasil: Crise, corrupção e cooperação global", realizado em evento denominado Diálogo Interamericano. Na oportunidade, ele deu as boas vindas a seu amigo Rodrigo Janot, ex-Procurador Geral da República do Brasil e um dos seus principais colaboradores. A informação foi publicada pelo jornal "El Clarin", do Chile, acrescentando que Blanco se felicitou pelos "resultados extraordinários" alcançados graças à colaboração do Departamento de Justiça com a operação Lava-Jato. "A cooperação entre o Departamento de Justiça e o Ministério Público brasileiro – disse Blanco – levou a resultados extraordinários. Só em 2016, por exemplo, o FBI e a Lava-Jato estiveram cooperando e se coordenaram nas resoluções de quatro casos ligados à Embraer, Rolls Royce, Braskem e Odebrecht."

Em sua palestra Kenneth A. Blanco afirmou, também, que "é difícil imaginar, na história recente, uma melhor relação de cooperação do que esta entre o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e os procuradores brasileiros. Esta cooperação nos ajudou de forma substancial com uma série de temas públicos que agora estão resolvidos e continuamos juntos em uma série de investigações". E acrescentou, em tom de comemoração, que "os procuradores brasileiros conseguiram um veredito condenatório contra o ex-presidente Lula da Silva, acusado de receber subornos da empreiteira OAS em troca de contratos com a Petrobrás". A agenda norte-americana continua sendo cumprida com a anunciada venda da Embraer para a Boeing, a entrega da base espacial de Alcântara e a transformação de nossas Forças Armadas em polícia, um velho projeto do Tio Sam para deixar a segurança do continente com o seu exército. Os traidores da Pátria, entre eles Temer, FHC, Serra, Parente e Moro, estão concluindo, como marionetes manipulados de Washington, a tarefa iniciada no governo tucano: a entrega do Brasil aos Estados Unidos. Será que ainda existe alguma dúvida sobre a participação dos norte-americanos no golpe que derrubou Dilma Roussef, colocou Michel Temer no poder e quer impedir Lula de voltar ao Palácio do Planalto?

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Os EUA por trás do Golpe no Brasil

Como os americanos ganharam com a queda da Dilma

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Conversa Afiada reproduz artigo de Brian Mier, geógrafo norte-americano e editor da Brasil Wire (clique aqui para ler o texto original em inglês):

Os Estados Unidos e o Golpe de 2016
O que sabemos, o que não sabemos e o que podemos deduzir sobre o papel de hegemonia geopolítica no “golpe suave” que retirou a Presidenta Dilma Rousseff e seu governo.
Durante uma visita recente a Porto Alegre, o professor e escritor cubano Raúl Antonio Capote Fernandéz falou sobre o processo de 20 anos de recrutamento que resultou no Projeto Gênesis da CIA. O objetivo da CIA era de fomentar um “golpe suave” em Cuba, utilizando um aplicativo, parecido com Twitter, para gerar descontentamento com o governo cubano e, através do financiamento e capacitação para artistas, estudantes e professores (utilizando-se de ONG’s) criar um partido de oposição de falsa esquerda. Fernandéz falou que estratégias parecidas eram aplicadas na Venezuela, Irã e Líbia e continuavam a ser implementadas em muitos outros países no terceiro mundo. Ele falou, também, que uma estratégia-chave do “golpe suave” é solapar os pilares de um governo até que ele imploda, gerando caos. “Com o país em caos,” ele disse, “é possível recorrer a meios mais extremos.” Fernandéz relatou que o projeto Gênesis foi baseado nas teorias de Gene Sharp sobre o “golpe suave”. No caso cubano, o projeto da CIA enfraqueceu em 2006, quando Fidel Castro renunciou. De acordo com Fernandéz, os fatores que causaram o fracasso do plano em Cuba foram: 1) O Agente Darsi Ferrer desistiu dos seus planos de participar da geração de notícias falsas sobre o “caos em Cuba” que seriam espalhadas nas companhias de mídia americanas em 2006; 2) Os EUA subestimaram a inteligência do povo cubano; 3) a má compreensão sobre a revolução cubana, tida apenas como o culto à personalidade construído sobre Fidel Castro ao invés da expressão da vontade coletiva da grande maioria da população cubana; e 4) o fato de que a inteligência cubana sabia sobre o projeto o tempo todo e a CIA, inadvertidamente, contratou um agente duplo para gerenciar Projeto Gênesis.
Por uma questão retórica vou supor que Fernandéz está falando a verdade e vou procurar fazer alguns paralelos entre a tentativa de “golpe suave” fracassado em Cuba e o “golpe suave” brasileiro de 2016, com o intuito de lançar alguma luz sobre o possível envolvimento do estado norte americano em todo este processo. Quando eu me refiro ao estado norte americano, penso no que Buci-Glucksmann chama de o “estado expandido” - não apenas o governo e suas instituições, mas a mídia comercial, o setor empresarial, partidos políticos e instituições de ensino que suportam tal estado.
A primeira pergunta que farei é: Como os Estados Unidos podem se beneficiar de um golpe suave no Brasil? Algumas possíveis razões estão abaixo:
1) Petróleo. Brasil tem enormes depósitos de petróleo na bacia de Santos, o pré-sal, que antes do golpe de 2016 estavam nas mãos de uma empresa que, embora seja de capital misto, continuava 100% brasileira, a Petrobras. Depois do golpe, a Petrobras começou vender acesso aos seus depósitos de pré-sal para empresas estrangeiras por preços abaixo do valor de mercado. O envolvimento do José Serra, Ministério de Relações Exteriores pós-golpe, em articulações de longo prazo com a empresa Chevron e o Departamento de Estado dos Estados Unidos, encorajou a privatização e o abandono da lei do pré-sal, tudo documentado aqui.
2) Enfraquecimento dos BRICS. Antes do Brasil ser desestabilizado e as economias da China e Rússia diminuírem o crescimento pareceu que os BRICS estavam se transformando em um poderoso contrabalanço ao poder estadunidense no palco mundial. Neste momento, as economias das nações que compõem o BRICS, somadas, quase igualaram a norte americana, e o Brasil era seu segundo membro mais rico. Os Estados Unidos tradicionalmente preferem negociações bilaterais às negociações com blocos comerciais. Um argumento similar pode ser feito sobre o desejo de enfraquecer Mercosul.
3) Os Estados Unidos sempre intervieram em assuntos brasileiros. Em seu novo livro best-seller, O Quarto Poder, Paulo Henrique Amorim documenta os 70 anos de penetração norte-americana nos assuntos políticos e econômicos brasileiros. “US Penetration of Brazil”, de Jan Black, conta em detalhes o apoio e envolvimento estadunidense com a ditadura militar brasileira, incluindo treinamento em técnicas de interrogação e tortura para milhares de policiais e militares brasileiros, em lugares como a Escola das Américas. Apesar do fato de que China ultrapassou os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do Brasil em anos recentes, ainda serve aos interesses do setor empresarial norte-americano que os preços das commodities brasileiras se mantenham baixos e a produção industrial interna seja limitada para encorajar compras dos produtos norte-americanos.
4. Hegemonia. O governo petista foi caraterizado por uma economia política neo-desenvolvimentista. Enquanto Lula manteve o tripé macroeconômico neoliberal de FHC e a autonomia para o Banco Central (movimento livre de capital e politicais fiscais rígidas), ele também implementou uma série de medidas tradicionalmente desenvolvimentistas que se aprofundaram durante os primeiros 4 anos da presidência de Dilma Rousseff. Estas incluem aumentos anuais do salário mínimo acima do nível de inflação, bilhões de reais de estímulos para produção e consumo industrial interno, estabelecimento de um sistema de bem-estar social e vinculação das pensões do INSS ao salário mínimo. Essas medidas redistributivas criaram uma majoritária população de classe média, pela primeira vez na história do Brasil, além de retirar o Brasil do Mapa Mundial da Fome da ONU. Será que o fato de que o segundo maior país do hemisfério ocidental estava caminhando bem e em um sistema que não era 100% neoliberal foi uma pedra no sapato dos Estados Unidos? E se os norte-americanos começarem a exigir que, como no Brasil, as universidades fossem 100% gratuitas? E se eles demandarem que a comida das merendas escolares seja comprada exclusivamente dos pequenos agricultores, como é no programa brasileiro do PAA? O que aconteceria se eles exigissem que os pagamentos mínimos de pensão precisariam igualarem-se ao salário mínimo? O fato que o Brasil estava andando bem e não seguindo ao pé da letra a fórmula do FMI/Banco Mundial era uma tapa na cara do Consenso de Washington e seu dogma da TINA (Não há alternativa/There Is No Alternative) além de si.
Agora que motivos possíveis foram estabelecidos vou olhar áreas possíveis em que o estado norte-americano poderia ter “solapado os pilares” do governo brasileiro até que ele implodisse, em 2015, quando o maior parceiro da coalizão política governante, o PMDB, traiu Dilma Rousseff e fez o impeachment por uma infração que foi legalizada pelo Senado dois dias depois do afastamento da presidenta do cargo.
Apoio para novos partidos da “esquerda”
Fernandéz falou que uma das estratégias para solapar os pilares dos governos de esquerda é a criação de uma falsa “nova esquerda”. Será que atores do estado norte-americano apoiaram partidos políticos de uma falsa nova esquerda durante a preparação para o golpe no Brasil?
Pode ser que o Partido Verde tenha começado com boas motivações, mas ele foi imediatamente sequestrado pela família Sarney, que são responsáveis pelo desmatamento quase inteiro do estado do Maranhão. Com o Ministério do Meio Ambiente durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, Sarney Filho, filho do ex-presidente José Sarney, reduziu a percentagem de Mata Amazônica existente a ser protegida de 50% para 25% em cada propriedade. O PV tradicionalmente se alinha com a extrema-direita assim como o partido DEM apoia o conceito de “capitalismo verde”. A rejeição do “capitalismo verde” foi o objetivo principal dos ativistas do mundo inteiro que participaram do Fórum Alternativo ao Rio+20, ocorrido também no Rio de Janeiro em 2012. Entretanto, a traidora ambiental Marina Silva candidatou-se à presidência com uma pauta claramente de capitalismo verde em 2010, com apoio de um dos maiores bancos brasileiros, empresas de agroindústria e uma mídia internacional empolgada, com publicações como o New York Times Time a promovendo, quase até o status de uma deusa.
O partido Solidariedade, criado pelo Paulinho da Força em 2013, apresenta-se como uma nova alternativa para os trabalhadores organizados. Parece que depois das acusações de fraude contra Paulinho da Força, o partido está enfraquecendo, porém o fato dele compartilhar o nome com Solidarity (o mesmo do sindicato de Lech Walesa apoiado pela CIA em Polônia no fim da época da União Soviética) faz especular que, talvez, ele tenha sido criado para solapar o pilar sindicalista do governo petista.
Marina Silva, a queridinha da imprensa internacional liberal, tentou criar um partido político novo em 2013 chamado REDE. De acordo com Marina, este seria “nem esquerda nem direita”. Por conta de alegações de fraude na coleção das assinaturas ele foi impedido de legalmente formar-se antes das eleições presidenciais de 2014. Ela, então, foi convidada para ser vice-presidente com Eduardo Campos, numa plataforma ideologicamente incoerente com o PSB. Logo depois, Campos morreu num acidente de avião e Marina acabou candidatando-se a presidente de novo. De novo falou sobre capitalismo verde e de novo recebeu os aplausos da mídia norte americana. Depois que ela perdeu, a Rede conseguiu se legalizar e juntou-se com Marina napoio para o tecnicamente ilegal impeachment.
O PT nunca teve mais do que 22% da bancada no Congresso e foi obrigado para poder governar a uma coalizão com um grupo de partidos corruptos e conservadores, como o PMDB, legado de um dos dois partidos oficiais permitidos durante a ditadura militar. Esta coalizão forçou o PT a sacrificar muitos dos seus objetivos mais importantes, como acabar com a polícia militar, a reforma agrária e a reforma política, e acabou afundando o partido na lama de uma série de escândalos de corrupção, enquanto a mídia brasileira ignorava os principais culpados e colocava toda culpa no PT. Isso alienou a corrente interna da esquerda radical do partido, chamada “Socialismo ou Barbárie”. Liderada pela senadora Heloísa Helena, muitos deles saíram e formaram o Partido de Socialismo e Liberdade (PSOL). O PSOL foi uma força importante nas eleições presidenciais de 2006, quando Helena levou 7% dos votos no primeiro turno, forçando Lula para o segundo turno contra governador conservador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Em 2010 o candidato a presidente do PSOL (e lenda da reforma agrária), Plínio Arruda, não conseguiu mobilizar o apoio integral dos sindicatos e movimentos sociais recebendo menos de 1% dos votos. Em 2014, Luciana Genro melhorou um pouco, recebendo 1,5%, mas ela só ficou em quinto lugar nas eleições recentes para prefeito, em Porto Alegre. Se você escutasse vários acadêmicos da esquerda norte americana, imaginaria que PSOL era uma força crescente, representando a verdadeira esquerda brasileira e não o que Gramsci chamou um “partido de autoridade moral” sem plano sério de tomar o poder. Será que o PSOL recebeu apoio indireto dos Estados Unidos e suas instituições de estado, expandindo-se em sua apresentação como uma alternativa viável ao PT? Ele certamente é apoiado por vários (aparentemente) bem-intencionados acadêmicos e publicações de esquerda burguesa norte americana, que têm o costume de papagaiar sua propaganda partidária sem análise crítica.
Transformando a narrativa midiática para promover um senso de caos no Brasil
Em sua entrevista ao jornal Sul 21, Fernandéz explicou como a CIA planejou criar notícias falsas sobre “caos em Cuba” e espalhá-las pelas maiores companhias midiáticas americanas, “como eles fizeram na Líbia”. Começando em 2013, a cobertura mediática do Brasil transformou matérias geralmente positivas em calúnias. O New York Times publicou uma matéria enorme cheia de fotos branco e pretas de pessoas com rostos deprimidos e obras em construção inacabadas. As manifestações, inicialmente sobre aumentos de tarifas de ônibus e contra prefeitos e governadores, em 2013 foram quase totalmente transformadas em manifestações anti-Dilma e durante meses matérias apareceram insinuando que teriam enormes manifestações anti-governo durante a Copa do Mundo. Não aconteceram. Em uma das tentativas mais óbvias de criar caos às vésperas da Copa do Mundo, a produtora “Vice” dos Estados Unidos intitulou um documentário sobre greves de professores no Rio e em São Paulo, “Caos no Brasil, nas ruas na Copa do Mundo”.
Infiltração na Media Social
Como nos Estados Unidos, o bombardeamento de informações falsas na mídia social contribuiu para o ressurgimento da extrema-direita e seus ataques contra imigrantes, gays, mulheres, sindicatos e minorias étnicas. Em 2013, Aécio Neves contratou a empresa que foi gerenciada pelo ex-coordenador da campanha de Barack Obama, David Axelrod, para coordenar a sua campanha digital durante o período eleitoral. Neste período, várias páginas de extrema-direita apareceram no Facebook e Twitter, campanhas de difamação contra a Presidente Dilma Rousseff, Lula e seu filho (que processou várias companhias da mídia por falsas acusações de que ele era um bilionário e dono de Friboi). Duas destas páginas mais populares, Movimento Brasil Livre e Estudantes pela Liberdade, receberam financiamento dos bilionários petrolíferos da família Koch, que têm interesse na privatização do pré-sal, por exemplo.
Desestabilização econômica
Edward Boorstein, no seu livro “Allende's Chiledocumentou como o governo norte-americano e a empresa ITT causaram um boicote mundial ao cobre Chileno para desestabilizar a economia às vésperas do golpe que colocou Augusto Pinochet no poder. Durante o processo rumo ao golpe de 2016, o Juiz Sérgio Moro, que, de acordo com documentos vazado do departamento do Estado dos Estados Unidos, está recebendo apoio técnico do governo Americano para investigar crimes de lavagem do dinheiro como parte do “Projeto Pontes” desde, pelo menos, 2009, congelou operações das maiores companhias de construção civil no pais, causando uma queda de 6,7% no setor de construção civil e, segundo matéria da BBC, toda a lava à jato provocou uma queda de 2,5% no PIB do país . Apesar de ter várias razões para a desaceleração da economia brasileira, incluindo o erro do cálculo na taxa Selic feito pelo ex-Ministro de Fazenda Guido Mantega, a paralisação das indústrias de construção e petróleo feita por Moro foi um fator significante.
Apesar de talvez não haver provas concretas suficientes e disponíveis para fazer um argumento totalmente convincente sobre o envolvimento dos Estados Unidos no golpe de 2016 contra Dilma Rousseff, certamente existem provas suficientes para se especular sobre esta possibilidade. Será que os Estados Unidos se beneficiam com as novas políticas deste governo? Com certeza. Ele tem motivos para apoiar o golpe? Sim. Elementos do estado expandido norte-americano, como a imprensa burguesa, solaparam os pilares do governo Brasileiro? Sim. Será que o governo dos Estados Unidos foi diretamente envolvido nesta desestabilização? Neste momento as únicas provas concretas são as correspondências do Departamento de Estado dos EU implicando Sergio Moro, embora o nível deste envolvimento ainda não é claro. Entretanto, sob o risco de ser acusado de um teórico de conspiração, eu previno que com a passagem de tempo, como no caso do Golpe de 1964 no Brasil e do golpe de 1973 em Chile, mais e mais provas de envolvimento dos Estados Unidos na mudança de regime de 2016 vai subir até a superfície.
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Como os EUA constroem o apoio ao golpe no Brasil
















Publicado por Kiko Nogueira
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/
5 de março de 2018

Brian Winter, da revista Americas Quarterly, e Moro em evento da AS / COA em Nova York

Artigo publicado no Brasil Wire, de autoria de BRIAN MIER. 
O DCM deu anteriormente esta outra excelente matéria sobre a AS/COA

(tradução de Sônia Maia)
Quando Luis Inácio Lula da Silva assumiu a presidência em 2003, um de seus primeiros passos foi priorizar um software de código aberto para os sistemas do governo federal com o objetivo de reduzir custos, aumentar a concorrência, gerar empregos e desenvolver o conhecimento e a inteligência do país nessa área.
Embora nunca tenha sido amplamente adotado por todos os ministérios, até 2010 essa iniciativa representou uma economia de mais de R$ 500 milhões para os contribuintes. Em outubro de 2016, seis semanas depois de assumir o poder, enquanto reduzia de R$ 42 para R$ 16 milhões os fundos para programas à mulheres vítimas de violência doméstica sob a desculpa de que não havia como pagar, o presidente Michel Temer anunciava que o governo iria gastar R$ 140 milhões na migração dos sistemas de informática para produtos da Microsoft. A Microsoft não é a única empresa que se beneficiou do golpe de 2016 contra Dilma Rousseff.
A Boeing está em marcha na conquista de uma participação com poder de controle sobre o conglomerado aeroespacial de capital misto Embraer,  terceiro maior fabricante de aviões do mundo, considerado um orgulho nacional para os brasileiros. Depois de se reunir com os diretores da Monsanto em fevereiro de 2018, o governo de Temer anunciou planos para legalizar o uso do herbicida Glifosate, da Monsanto, recentemente proibido na Europa.
Em outubro de 2017, pouco depois de lançar o leilão de oito campos de petróleo em alto mar para corporações internacionais, como a Chevron e a Shell, Michel Temer assinou um decreto presidencial de redução de impostos para as companhias de petróleo estrangeiras que trabalham no Brasil, estimado em R$ 1 trilhão. Microsoft, Monsanto, Boeing, Chevron e Shell se beneficiaram financeiramente com a mudança de regime no Brasil.
O que mais essas empreas têm em comum? Todas são membros corporativos da Americas Society / Council of the Americas (AS/COA), o think tank que, sob o pretexto de cuidar do povo latinoamericano, vem apoiando políticas de austeridade e governos de direita na região desde sua fundação por David Rockefeller na década de 60.
A revista da AS/COA, a Americas Quarterly, está voltada para um público de elite, é distribuída em salões VIP de aeroportos em todo o continente e distribuída como bônus à associados, com custo de adesão individual a partir de 10 mil dólares ao ano.
Sua função principal, no entanto, parece ser a de relações públicas, alimentando notícias corporativas favoráveis na mídia de todo o hemisfério, incluindo frequentes aparições da equipe de AS/COA na CNN, NBC, Bloomberg, NPR (National Public Radio); agências de notícias como a Reuters e AP (Associated Press News); e em jornais que abrangem desde a região do famoso jornal Clarin, da Argentina, ao Los Angeles Times.
Os links para esses artigos, e aparições em TV e rádio, estão detalhados no site da AS/COA, e facilmente disponíveis para quem deseja quantificar essa direção oblíqua ou buscar padrões narrativos. Escolhi analisar os padrões narrativos dos feeds de mídia da AS/COA em dois períodos: de 24 de fevereiro de 2017 a 24 de fevereiro de 2018, e durante os três meses anteriores à remoção de Dilma Rousseff, que aconteu no dia 13 de maio de 2016.
As recentes prioridades da AS/COA
Entre 24 de fevereiro de 2017 e 24 de fevereiro de 2018, a equipe do AS/ COA apareceu ou foi citada em matérias da mídia norteamericana 102 vezes (excluindo temas como arte, que deixei fora dessa análise). Isso inclui 39 matérias sobre a Venezuela, 13 sobre o NAFTA (Tratado Norteamericano de Livre Comércio) e 7 sobre o Brasil.
As matérias sobre a Venezuela, o país com as maiores reservas de petróleo do mundo, podem ser classificadas como “propaganda para mudança de regime”. Não há tentativa alguma de fornecer uma cobertura equilibrada em qualquer dos artigos assinados pela equipe do AS/COA, como, por exemplo, falar com qualquer cidadão da classe trabalhadora venezuelana, cuja maioria ainda apoia o regime de Maduro.
A linguagem é semelhante à usada para descrever países como a Líbia antes das operações militares dos EUA. A Venezuela está em estado catastrófico, a democracia desabou, o país está em crise. Como Eric Farnsworth, da AS/COA, diz à CNN: “Há pessoas na Venezuela que estão literalmente famintas. O quadro é apocalíptico. Chamaria a Venezuela de um estado falido”.
Embora a fome seja um fenômeno terrível, está presente em todas as nações das Américas. De acordo com o WHES – World Hunger Education Service (Serviço Mundial de Educação Contra a Fome), em 2015, 6,3 milhões de famílias americanas sofreram níveis extremamente baixos de segurança alimentar. É altamente duvidoso que qualquer pessoa da AS/COA cite esta estatística para chamar os EUA de um estado falido.
As treze matérias sobre o NAFTA são exemplares, pois ilustram um objetivo de longo prazo do AS/COA e seu fundador e ex-diretor David Rockefeller para reforçar os acordos neoliberais de livre comércio. Rockefeller influenciou a criação do NAFTA e da fracassada FTAA, e a AS/COA está entre os maiores líderes apoiadores desses polêmicos acordos.
Embora o NAFTA não tenha cumprido suas promessas sobre os benefícios para a classe trabalhadora, pela linguagem dos artigos, a AS/COA e seus patrocinadores corporativos visivelmente apoiam a continuação do NAFTA e estão preocupados que Donald Trump esteja prejudicando o acordo.
Sete matérias sobre o Brasil que apareceram na mídia norteamericana no ano passado incluem conteúdos da AS/COA. Duas mostram uma estratégia contínua para tratar a polêmica e partidária equipe da Lava Jato como super-heróis, começando pela capa da Americas Quarterlyde 2016, que mostra Sergio Moro travestido de “Caça-Fantasmas” (como no famoso filme Ghostbusters).
Moro tem sido amplamente criticado no Brasil e no exterior por passar por cima da lei ao divulgar para a TV Globo conversas telefônicas gravadas ilegalmente entre Lula e Dilma. Tem sido criticado por não processar qualquer membro do PSDB, incluindo nomes de peso como José Serra e Aécio Neves, envolvidos em uma série de subornos envolvendo milhões de dólares, além de escândalos sobre financiamentos ilegais de campanhas.
Sergio Moro tem concentrado a maior parte de seus esforços no que parece ser uma tentativa de evitar que o ex-presidente Lula concorra à presidência em 2018, com base em acusações sem provas físicas de que Lula teria feito reformas ilegais em um apartamento em frente à praia, inteiramente ancoradas no testemunho de um empresário corrupto, que mudou sua história inicial para implicar Lula, em troca de redução de sentença.
Sergio Moro foi também acusado de conflito de interesses, porque sua esposa, Rosângela Wolff de Quadros Moro, era advogada de Flávio Arns, durante sua gestão como vice-governador do Paraná pelo PSDB. Em dezembro de 2017, o advogado da Odebrecht, Tacla Duran, denunciou a equipe da Lava Jato de administrar uma indústria de redução de sentenças através do escritório de advocacia de Rosângela, a Zucolotto Associados. Sergio vem sendo acusado de pressionar empresários a mudar suas alegações para implicar Lula.
Vem sendo acusado, ainda, de adulterar registros financeiros da Odebrecht. Foi acusado de comportamento sádico depois de ordenar, em 22 de setembro de 2016, que a polícia prendesse o ex-Ministro da Fazenda, Guido Mantega, dentro do hospital Albert Einstein durante a sessão de quimioterapia da esposa, a psicanalista Eliane Berger, que faleceu no ano seguinte.
Foi acusado, em um artigo compartilhado no site do Exército brasileiro, de destruir cinco discos rígidos de evidências físicas de suborno entregues pela Odebrecht, uma ação amplamente interpretada como um movimento para proteger políticos do PSDB.
Moro foi recentemente acusado de violações éticas ao descobrirem que reside em um apartamento de luxo de 256 m2, cujos aluguéis são pagos via subsídio judicial. Foi acusado de perseguir legalmente seus críticos, como quando ordenou que a polícia invadisse a casa do estudioso de Direito, Rafael Valim, que organizou um seminário com o advogado da Comissão de Direitos Humanos da ONU, Geoffrey Robertson, no qual a equipe da Lava Jato era criticada por fazer uso de lawfare (guerra jurídica).
E, o mais importante, foi acusado de sabotar a economia paralisando as maiores empresas de construção do Brasil em 2015, em vez de tratá-las como “grandes demais para caírem”, em um movimento que causou 500 mil demissões no setor de construção e, de acordo com um estudo citado pela BBC, uma queda de 2,5% no PIB brasileiro. Mesmo assim, nenhum desses eventos resultou em qualquer dúvida por parte da AS/COA sobre a ética e agenda de Sergio Moro. Em recente artigo na Foreign Policy, o vice-presidente da AS/COA, Brian Winter, apresenta Moro como o Teddy Roosevelt do Brasil.
O candidato da eleição presidencial de 2014, Aécio Neves (PSDB), teve cinco acusações de recebimento de suborno da ordem de R$ 3 a 50 milhões. Em suma, todas essas acusações são muito mais graves do que alegadamente receber reformas em um apartamento, o que resultou em uma pena de prisão contra Lula de 9,5 anos.
Em um de seus últimos movimentos antes de demitir-se como Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot pediu à Suprema Corte que retirasse todas as acusações contra Aécio Neves. A AS/COA ignorou esse fato, usando o New York Times para prestar uma homenagem a Janot, comparando-o a um soldado em luta na construção de um Estado de Direito.
Tanto Janot como Moro escreveram para a Americas Quarterly e a AS/ COA regularmente patrocina suas idas à Nova York para conversas. Ambos foram homenageados em um evento da Americas Society/Council of Americas em Nova York em 2 de março último.
AS/COA durante a manipulação do golpe
No livro Merchants of Doubt (Os Mercadores da Dúvida), Naomi Oreskes e Erick M. Conway documentam como think tanks e fundações financiadas por corporações têm trabalhado, nos últimos 50 anos,  para confundir deliberadamente o público sobre a questão das mudanças climáticas, a fim de enfraquecer o apoio à regulamentação das emissões de CO2. Uma estratégia comum usada por essas instituições e seus fantoches é desacreditar a ciência, espalhar confusão e promover a dúvida.
Ao analisar a influência da AS/COA na mídia durante o período de 3 meses antes de Dilma Rousseff ter sido forçada a deixar a presidência, ficou claro tratar-se de uma tática para confundir o público norteamericano sobre se estava acontecendo um golpe de Estado. Além disso, essa campanha estilo “tráfico da dúvida”, promovida pela AS/COA na mídia, via Americas Quarterly e seus funcionários no Twitter, conseguiu moldar a narrativa dominante das publicações nortamericanas sobre o golpe, reproduzidas mesmo em publicações ostensivamente liberais, como o inglês The Guardian, que mencionou a palavra golpe apenas entre aspas.
De acordo com a narrativa da AS/COA sobre o impeachment, Dilma Rousseff não foi derrubada por ter praticado pedaladas fiscais: 1) ela foi posteriormente exonerada; 2) é prática comum no Brasil em áreas dos governos municipais, estaduais e federais; e 3) a prática foi legalizada uma semana depois de Dilma ter sido expulsa do cargo. De acordo com o vice-presidente da AS/COA e editor da Americas Quarterly, Brian Winter, que não é economista, Dilma caiu por manipular a economia.
Não soa confuso alguém argumentar, ao mesmo tempo, que não foi um golpe, enquanto afirma que a razão oficial para o impeachment é inválida? Durante o período dos três meses anteriores ao 13 de maio de 2016, quando Dilma foi atirada fora da presidência, o AS/COA alimentou 29 matérias na mídia norteamericana. Quatorze delas eram sobre o Brasil. As três principais mensagens da organização nesses artigos são: 1) Não foi um golpe; 2) As instituições democráticas do Brasil estão funcionando; e 3) O impeachment é positivo para o Brasil.
Em 3 de maio de 2016, Brian Winter enfatizou todos esses três pontos durante uma participação sobre o tema na rádio NPR (National Public Radio) junto com outros três comentaristas neoliberais. A votação do impeachment ainda estava por acontecer. O arquiteto do impeachment, Eduardo Cunha, ainda não tinha sido preso por ter recebido US$ 1,5 milhão em subornos e lavagem de dinheiro. As informações de que um proeminente corretor de ações subornou membros do Congresso para votarem a favor do impeachment ainda não tinham sido divulgadas nos meios de comunicação.
Mesmo assim, um loquaz e otimista Brian Winter  já explicava que não era um golpe. “É um golpe?”, ele disse. “Não, não acho que seja um golpe”, continuou, enquanto levantava a dúvida: “Seria mesmo um caso frágil para um impeachment, especialmente quando você tem toda essa corrupção como pano de fundo? Isso é discutível”.
Enquanto o Congresso brasileiro, cuja maioria dos membros enfrentava, por si, acusações de corrupção, se preparava para expulsar a primeira mulher presidente do Brasil por um tecnicismo que ela não cometeu, Winter dizia: “É realmente um progresso, porque é resultado de um poder judicial independente e outras instituições, como a mídia. E até mesmo o maligno Congresso, trabalhando mais ou menos como deveria “.
Como em outras aparições na mídia durante o início do golpe, Winter expressou confiança no processo “frágil” de impeachment, dizendo: “Não está claro como isso vai acabar no Brasil. O sucesso não é garantido. Mas, no momento, parece uma coisa positiva “. Duas semanas antes, Brian falou ainda mais positivamente sobre o impeachment ao Christian Science Monitor, dizendo que o Brasil estava “à beira de uma mudança de maré na política “.
Parte do trabalho para confundir o público envolveu reprimir os temores de que o Brasil esteja à beira de um retorno à ditadura. Como Michel Temer passou a segurança do Estado do Rio de Janeiro para os militares, que estão cometendo abusos de direitos humanos contra uma população principalmente negra e pobre, e como o general Walter Braga Netto diz que o Rio é um projeto piloto para o resto do Brasil, há de se perguntar por que um porta-voz do AS/COA entraria na Rádio Pública Nacional para dizer: “Em meio a todo esse caos e todas essas coisas inacreditáveis que aconteceram no ano passado, sempre digo às pessoas que a única coisa que absolutamente não acontecerá no Brasil é um golpe militar “.
Enquanto uma classe de intermediários, marionetes dos EUA, vendem os recursos naturais e o patrimônio tecnológico brasileiro para corporações internacionais, as empresas que financiam o AS/COA estão preparando seus bolsos. Muitas dessas companhias são grandes anunciantes das maiores empresas de mídia.
São elas confiáveis na produção de jornalismo objetivo sobre o Brasil?
Como disse uma vez Noam Chomsky, “se você abandonar a arena política, alguém estará lá. As empresas não irão pra casa pra se juntarem à Associação de Pais e Mestres. Vão comandar as coisas.”

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'Governo invisível' dos EUA trabalha no golpe em marcha no Brasil

Vazamento de informações pelo Wikileaks, financiamento de movimentos golpistas por entidades americanas e outros indícios mostram que país de Barack Obama trabalha para derrubar Dilma

por Eduardo Maretti, da RBA 
publicado 21/04/2016
FLICKR/CC
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Iniciativas desenvolvidas pelos últimos governos brasileiros, nos planos econômico, político e militar, atingiram frontalmente os interesses dos Estados Unidos na América Latina
São Paulo – O golpe em marcha contra o governo Dilma Rousseff tem por trás de si a mão do imperialismo? Os Estados Unidos estão por trás das táticas e estratégias que, principalmente no segundo mandato da atual chefe de Estado brasileiro, vêm cercando e minando todas as possibilidades políticas, jurídicas e econômicas de a gestão petista se tornar viável? Segundo analistas ouvidos pela RBA, embora não haja como "provar" que sim, os dados e as relações políticas e históricas evidenciam que, nesse campo, nada acontece por acaso.
"Evidências realmente concretas nós não temos. Mas temos ações que indicam o interesse muito claro em uma mudança de poder no Brasil. Já um tempo atrás, as pessoas acabam esquecendo, houve denúncias que vazaram pelo Wikileaks sobre espionagem em uma das principais empresas brasileiras, que é a Petrobras. Logo em seguida, inicia-se um processo de denúncias em torno das atividades dentro da empresa e o próprio monitoramento da presidente da República", lembra Analúcia Danilevicz Pereira, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
"Ou seja, os Estados Unidos têm o que a gente pode entender como uma espécie de governo invisível. Estão presentes em diferentes países das mais diferentes formas. Seja através da utilização de alta tecnologia, que permite espionagem, seja através de figuras que de fato atuam dentro do Brasil e tentam se aproximar do governo. Isso pode acontecer por meio de organizações não governamentais, por exemplo", analisa a professora da UFRGS. "A igreja evangélica norte-americana tem um poder financeiro e de atuação internacional muito grande. Não é à toa que a igreja evangélica no Brasil foi ganhando terreno político. São ações que não são facilmente confirmadas, concretamente, mas sabemos que existem."
Armando Boito, professor de Ciência Política da Universidade de Campinas (Unicamp), cita a participação, segundo ele, clara, de entidades norte-americanas no atual processo brasileiro. "Por exemplo, os irmãos Koch, com suas diferentes fundações, que formam lideranças, financiam o movimento Estudantes pela Liberdade e o Movimento Brasil Livre (MBL). Isso já está provado, é um fato notório." Ele se refere aos irmãos Charles e David Koch, do Charles Koch Institute, que possuem uma fortuna de U$ 43 bilhões, segundo a Forbes. "Já o quanto as instituições do Estado norte-americano, propriamente dito, estão envolvidas nisso a gente ainda não sabe, mas que tem a mão do capital imperialista na mobilização contra Dilma, tem. E os Estados Unidos teriam muitos motivos para preferir o fim dos mandatos dos governos do PT", diz Boito.
Analúcia cita políticas desenvolvidas pelos governos do PT nos últimos anos claramente incômodas aos Estados Unidos. Como a autonomia em relação à produção de petróleo ou a questão relacionada ao pagamento da dívida externa.
Para Boito, é possível enumerar uma série de iniciativas e políticas desenvolvidas pelos últimos governos brasileiros, nos planos econômico, político e militar, que, por si só, atingem frontalmente os interesses do país mais poderoso da Terra em seu próprio continente e são motivos mais do que suficientes para se desconfiar de que não é o acaso que está por trás da poderosa conjunção de forças aliadas contra Dilma.
No plano econômico, Boito lembra que os EUA deixaram de ser o principal parceiro econômico do Brasil, "posto que ocuparam por 80 anos", e hoje é ocupado pela China. No plano econômico-diplomático, o Brasil foi um dos principais responsáveis pela criação do G-20. E foi peça importantíssima nos Brics e na criação do Banco dos Brics. "São iniciativas que retiram dos Estados Unidos a hegemonia absoluta em escala internacional. Eu considero a iniciativa do Banco dos Brics uma das mais importantes dos últimos anos", diz.
E não é só. O Brasil fez representação na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a produção de algodão dos Estados Unidos, por exemplo, além de etanol. "Atritos de natureza econômica não faltaram", afirma o professor da Unicamp.
No plano político, o Estado brasileiro se aliou aos regimes do Hugo Chávez na Venezuela, de Raul e Fidel Castro em Cuba, de Evo Morales na Bolívia, "o que destoava da política estadunidense para a América Latina". "O Marcelo Odebrecht (hoje preso pela Operação Lava Jato) deu entrevistas seguidas à imprensa defendendo o governo Chávez."
O Porto de Mariel, em Cuba, inaugurado em janeiro de 2014, com a presença da presidenta Dilma Rousseff, e tornado viável graças a financiamento do BNDES, é outra iniciativa brasileira fora dos padrões até então conhecidos no continente.
E, no plano militar, lembra Boito, o governo Lula engavetou o projeto de lei herdado do governo Fernando Henrique Cardoso de ceder a base de Alcântara para o controle dos Estados Unidos. Fora isso, o Brasil assinou acordos militares com a França para a construção de submarino nuclear e optou por caças de fabricação Sueca, em 2014, em vez dos F-15 estadunidenses, por exemplo, o que trouxe benefícios ao Brasil, já que a Suécia ofereceu transferência de tecnologia na negociação.

Nada é por acaso

Na análise da professora da UFRGS, não é por acaso que a oposição, que desencadeia um bombardeio incessante desde o primeiro dia após a reeleição de Dilma, tenha conseguido "virar o jogo", que estava completamente a favor do governo até antes das manifestações de 2013. Assim como não é por acaso que Bernie Sanders, pré-candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, tenha afirmado, ontem, que seu país precisa parar de "derrubar" governos na América Latina. "Sim, este interesse (de que o governo Dilma chegue ao fim) existe. Abriu-se espaço para que a oposição, que estava extremamente fragilizada, conseguisse rapidamente um espaço de atuação. Se considerarmos o momento em que todas essas coisas acontecem, mais claramente a partir de 2013, em três anos a oposição virou o jogo no Brasil", diz Analúcia.
A oposição sente-se tão à vontade que, segundo o site Brasil 247, hoje (20), liderada pelo Solidariedade, chegou a pedir à Justiça Federal para impedir Dilma de viajar aos Estados Unidos para participar de um evento na Organização das Nações Unidas (ONU), na sexta-feira (22), onde, espera-se, ela fará um discurso denunciando o golpe no país.
Nesse contexto, para Analúcia, também não é coincidência que o senador Aloysio Nunes Ferreira tenha ido aos Estados Unidos um dia após a votação da Câmara dos Deputados que aprovou no domingo (17) a admissibilidade do impeachment. "Não tem nenhuma coincidência. Eu não acredito em coincidências. Tudo é um grande jogo político. O próprio juiz Sérgio Moro tem instrução norte-americana. Moro estudou e teve contato muito próximo com o Departamento de Estado norte-americano", diz. "O problema é que as coisas acabam acontecendo muito nos bastidores e a mídia divulga aquilo que interessa."
Na mesma linha, Armando Boito avalia: "Muitos dizem que não é possível que Sérgio Moro tenha se apropriado de tanta informação sobre a Petrobras em tão pouco tempo, a não ser que algum espião tenha entregado alguma coisa para ele". "Os Estados Unidos espionavam Dilma e a Petrobras, isso o Wikileaks mostrou. E sabemos que a Chevron quer mudar o regime de partilha, e que o José Serra, do PSDB, se comprometeu a mudar o regime de partilha, caso vencesse as eleições em 2010. O Wikileaks revelou isso."
Finalmente, há os indicadores históricos irrefutáveis. Se, hoje, como diz Analúcia, não temos "evidências mais concretas" da interferência de Washington, apesar de essas evidências serem quase cristalinas a partir das próprias revelações do Wikileaks, é muito provável que no futuro os dados hoje "supostos" sejam reconhecidos como fatos.
"Existe um fato histórico, que consiste no seguinte: o imperialismo conspira, sim", diz Armando Boito. "Não conspirou no golpe no Chile, em 1973? Não conspirou no golpe no Brasil, em 1964? Basta ver o filme O Dia que Durou 21 anos. O imperialismo e a classe dominante conspiram e existe conspiração na história", afirma Boito.
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EUA: assim se constrói o apoio ao golpe no Brasil



“Estou dizendo que é por aqui”: Trump e Temer na reunião do G-20, na Alemanha, em julho de 2017

Microsoft. Boeing. Monsanto. Shell. Diretamente beneficiadas pelas políticas pós-2016, mega-empresas financiam agência empenhada em sustentar que mudança de regime “foi boa para o país”
Por Brian Mier, publicado originalmente em BrasilWire | Tradução:Rejane Carolina Hoeveler // https://outraspalavras.net/
– ON 07/03/2018
Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência em 2003, um de seus primeiros movimentos foi priorizar o uso de software livre para os sistemas de informática do governo federal, tanto para reduzir custos, como para aumentar a competição, criar empregos e desenvolver o conhecimento e a inteligência do país nessa área. Embora nunca tenha sido adotada por todos os ministérios, esta política, em 2010, já havia poupado dos contribuintes mais de 500 milhões de reais. Seis semanas após tomar o poder, em outubro de 2016, enquanto cortava o financiamento para mulheres vítimas de violência doméstica, de R$42 milhões para R$ 16 milhões, sob o pretexto de que não poderia arcar com este gasto, o presidente Michel Temer anunciou que o governo gastaria R$140 milhões para realizar a migração dos sistemas de computação para os produtos da Microsoft.
A Microsoft não é a única corporação que se beneficiou do golpe de 2016 contra Dilma Rousseff. A Boeing está prestes a tomar o controle acionário da Embraer, conglomerado aeroespacial de capital misto, terceiro maior fabricante de aviões do mundo e uma questão de orgulho nacional para os brasileiros. Após um encontro com diretores da Monsanto em fevereiro de 2018, a administração Temer anunciou planos de legalizar o uso do pesticida Glifosato, da Monsanto, que fora recentemente proibido na Europa. Logo após leiloar oito campos de petróleo offshore para corporações petroleiras internacionais tais como Chevron e Shell em outubro de 2017, Michel Temer providenciou um decreto presidencial com cerca de R$1 trilhão em abatimento de impostos para companhias petrolíferas estrangeiras atuantes no Brasil. Microsoft, Monsanto, Boeing, Chevron e Shell, todas se beneficiaram da mudança de regime no Brasil. O que mais elas têm em comum? São todas membros corporativos da Americas Society/Council of the Americasthink tank que apoia políticas de austeridade e governos de direita na América Latina desde sua fundação por David Rockefeller nos anos 1960.
A revista da AS-COA, Americas Quarterly, é dirigida a um público de elite, distribuída em salas VIPs de aeroportos pelo continente, e dada como bônus aos membros da entidade, cuja taxa para se tornar membro começa em 10 mil dólares por ano. Sua principal função, entretanto, parece ser de relações públicas, alimentando reportagens benéficas para as corporações em mídias por todo o hemisfério, com comentaristas da AS-COA aparecendo frequentemente na CNN, NBC, Bloomberg, NPR, em agências de notícias como Reuters e AP, e em jornais por toda a região, do Clarín argentino ao Los Angeles Times. Links para esses artigos, aparições na TV e no rádio estão detalhados no site da AS/COA e facilmente acessíveis para qualquer um que queira verificar seu viés ou pesquisar seus padrões narrativos. Eu escolhi observar os padrões narrativos nos feeds de mídia na AS/COA por dois períodos, do ano passado (de 24 de fevereiro de 2017 a 24 de fevereiro de 2018) e durante os três meses anteriores à saída de Dilma Rousseff da presidência, em 13 de maio de 2016.
As prioridades recentes do AS/COA
Entre 24 de fevereiro de 2017 e 24 de fevereiro de 2018, o staff da AS/COA apareceu ou foi citado em reportagens da mídia de língua inglesa 102 vezes (excluindo aquelas sobre arte, que estou deixando de fora da análise). Isso inclui 39 sobre Venezuela, 13 sobre o NAFTA e 7 sobre Brasil.
As reportagens sobre a Venezuela, o país com as maiores reservas de petróleo do mundo, podem ser perfeitamente classificadas como propaganda pró mudança de regime. Não existe nenhum esforço em prover uma cobertura equilibrada em qualquer dos artigos aos quais o staff da AS/COA contribui, com alguma entrevista, por exemplo, com qualquer pessoa da classe trabalhadora venezuelana, cuja maioria ainda apoia o regime de Maduro. A linguagem utilizada é similar àquela usada para descrever países como a Líbia antes das operações militares estadunidenses. A Venezuela é um país em estado de catástrofe, a democracia colapsou, o país mergulhou em crise permanente. Conforme Eric Farnsworth, da AS/COA, disse à CNN, “existem pessoas na Venezuela que estão literalmente passando fome. Isso e algo apocaliptico. Eu chamaria a Venezuela de Estado falido”. Embora a fome seja um terrível fenômeno, está presente em todas as nações nas Américas. De acordo com o World Hunger Education Service, em 2015, 6,3 milhões de famílias norte-americanas sofreram de níveis extremamente baixos de segurança alimentar. Mas é altamente improvável que qualquer um na AS/COA venha a citar essa estatística para chamar os EUA de Estado falido.
As 13 reportagens sobre o NAFTA são exemplares porque ilustram um objetivo de longo prazo da AS/COA e de seu fundador e ex-diretor David Rockefeller em fomentar acordos neoliberais de “livre” comércio. Rockefeller foi influente em criar tanto o NAFTA quanto a falida ALCA, e a AS/COA sempre esteve entre os maiores entusiastas desses controversos acordos. Embora os benefícios do NAFTA para a classe trabalhadora não tenham aparecido, os artigos da AS/COA e seus financiadores corporativos apoiam a continuidade do NAFTA e estão preocupados que Donald Trump possa estar arruinando o acordo.
Sete reportagens sobre o Brasil que apareceram na mídia anglo-saxã no último ano incluem conteúdo da AS/COA. Duas dessas aparições midiáticas representam uma estratégia continua de tratar a equipe de juízes da Operação Lava Jato — controversa e partidarizada — como super-heróis. Começou com uma matéria de capa da revista Americas Quarterly, apresentando o juiz Sergio Moro como um dos caça fantasmas.
Moro tem sido largamente criticado tanto nacional quanto internacionalmente por violar a lei brasileira, quando  vazou ilegalmente conversas telefônicas entre Lula e Dilma Rousseff para a Rede Globo. Ele tem sido criticado por não investigar ninguém do PSDB, cujos líderes José Serra e Aécio Neves estão envolvidos em uma série de escândalos de propinas de milhões de dólares e de financiamento ilegal de campanha, enquanto foca a maior parte de seus esforços naquilo que parece ser uma tentativa de impedir que o ex-presidente Lula seja candidato nas eleições de 2018, baseado em acusações sem provas fisicas de que ele seria proprietário de um apartamento à beira-mar, totalmente baseada em delações premiadas de um empresário corrupto que modificou sua história inicial para implicar Lula em troca de redução de sentença.
Moro também foi acusado de conflito de interesse, pois sua esposa trabalhou como assessora legal do vice-governador tucano do Paraná, Flavio Arns. Em dezembro de 2017, um advogado da Odebrecht, Tacla Duran, acusou os juizes da Lava-jato de dirigir uma verdadeira indústria de redução de sentença através do escritório de advocacia da esposa de Moro. Moro tem sido acusado de pressionar empresários a modificar seus acordos para implicar Lula e de  adulterar os registros financeiros da Odebrecht. Foi acusado de comportamento sádico após ordenar a prisão do ex-ministro das Finanças Guido Mantega, durante um sessão de quimioterapia  de sua esposa. Foi acusado, em um artigo compartilhado no site do Exercito brasileiro, de destruir cinco discos rídigos repletos de evidências físicas de propinas pagas pela Odebrecht, em um movimento que foi largamente percebido como feito para proteger os políticos do PSDB. Foi recentemente acusado de violações éticas quando descobiu-se que ele morava em um apartamento de luxo, de 256 m², pertencente a ele próprio em Curitiba enquanto recebia uma bolsa aluguel. Tem sido acusado de assediar seus críticos, como no caso em que ordenou à polícia fazer uma incursão na casa do jurista Rafael Valim, que organizou um seminário com o advogado Geoffrey Robertson, da Comissão de Direitos Humanos da ONU, criticando a Lava-Jato por uso de Lawfare.[i] E, mais importante, tem sido acusado de sabotar a economia ao paralisar as maiores construtoras em 2015, ao invés de tratá-las como grandes demais para falir, em um movimento que causou 500 mil demissões imediatas no setor de construção e, de acordo com um estudo citado pela BBC, uma queda de 2,5% do PIB. Nenhum desses eventos resultou em questionamento a Sérgio Moro dentro da AS/COA, entretanto. Em um artigo recente na Foreign Policy, seu vice-presidente Brian Winter celebrou Moro como o “Teddy Roosevelt do Brasil”.
O candidato derrotado nas eleições de 2014, Aécio Neves, do PSDB, foi acusado cinco vezes de receber propinas variando entre R$3 milhões e R$50 milhões. Em suma, todas essas acusações são mais sérias do que do tríplex do Guarujá, quer resultaram em uma sentença de 9 anos e meio de prisão. Em um de seus últimos movimentos antes de sair do cargo, o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, solicitou à Suprema Corte o cancelamento de todas as acusações contra Neves. A AS/COA ignorou isso em uma homenagem a Janot, comparando-o a um soldado em luta para construir o Estado de Direito.
Tanto Janot como Moro escreveram para a Americas Quarterly e a AS/COA regularmente os convida para palestras em Nova York. Ambos foram homenageados em um evento da AS/COA em Nova York em 2 de março.
A AS/COA durante o golpe
No livro Merchants of Doubt, Naomi Oreskes e Erick M. Conway mostram como, por pelo menos 50 anos, think tanks e fundações patrocinados por corporações trabalharam para confundir deliberadamente o público na questão da mudança climática, visando enfraquecer o apoio ao combate à poluição do ar. Uma estratégia comum usada por essas instituições e seus consortes é desacreditar a ciência, espalhar a confusão e semear a dúvida. Quando olhamos para a influência da AS/COA na mídia durante o período de três meses anteriores à saída forçada de Dilma Roussef da presidência, fica claro que esta foi a tática usada para levar o público norte-americano a duvidar se o que estava ocorrendo era mesmo um golpe.
Mais do que isso, essa campanha, levada a cabo pelos feeds da AS/COA para a mídia, na Americas Quarterly e por seus funcionários no twitter, obteve sucesso em moldar a narrativa dominante da mídia de língua inglesa sobre o golpe, reproduzida mesmo por publicações ostensivamente liberais como o The Guardian, o qual só menciona a palavra golpe entre aspas. De acordo com a narrativa da AS/COA sobre o impeachment, Dilma Rousseff não foi retirada do poder por causa das infrações fiscais das quais: 1) ela foi inocentada; 2) é uma prática comum nos ramos municipal, estatal e federal de governo no Brasil; e 3) foram legalizadas uma semana depois que ela saiu do posto. De acordo com o vice-presidente da AS/COA e editor da Americas Quarterly Brian Winter, que não é um economista, ela foi tirada do cargo por causa de seu manejo da economia. Soa confuso ouvir alguém simultaneamente argumentar que não foi um golpe, enquanto afirma que a razão oficial para o impeachment é inválida? Isto é o objetivo. Durante o período de 3 meses antes de 13 de maio de 2016, quando Rousseff foi retirada do posto, a AS/COA participou de 29 matérias na mídia de língua inglesa. 14 delas foram sobre Brasil. As três mensagens centrais nesses artigos foram: 1) Não foi um golpe; 2) as instituições democráticas brasileiras estão funcionando; e 3) O impeachment foi uma coisa positiva para o Brasil.
Em 3 de maio de 2016, Brian Winter enfatizou todos esses três pontos em um debate na Rádio Publica Nacional dos Estados Unidos (NPR) com três outros comentaristas neoliberais. A votação do impeachmentainda não tinha acontecido. O arquiteto do impeachment, Eduardo Cunha, ainda seria preso por receber 1,5 milhões de dólares em propinas e lavagem de dinheiro. A informação de que um proeminente corretor de ações subornou deputados federais para votar a favor do impeachment ainda não tinha sido vazada para a mídia. Entretanto, um assertivo e otimista Brian Winter já estava explicando que não era um golpe. “É um golpe?”, ele disse, “Não, eu não penso que seja um golpe. É um caso frágil pelo qual fazer um impeachment, especialmente quando você tem toda essa corrupção acontecendo ao fundo? Isso é discutível.”
No momento em que o Congresso brasileiro, em sua maioria enfrentando acusações de corrupção, preparava-se para derrubar a primeira mulher presidente por uma tecnicalidade que ela não cometeu, Winter disse que “é na verdade um progresso porque é o produto de um Judiciário independente e outras instituições como a mídia, como até mesmo o maligno Congresso, trabalhando mais ou menos como eles devem”.
Bem como em outras aparições midiáticas durante o decurso do golpe, Winter expressou confiança no “frágil” processo de impeachment, dizendo que “não está claro exatamente como isso vai terminar no Brasil. O sucesso não está garantido. Mas conforme encontra-se agora, parece uma coisa positiva”. Duas semanas antes, ele falou ainda mais positivamente sobre o impeachment para o Christian Science Monitordizendo que o Brasil estava “à beira de uma mudança drástica na política”.
Parte do trabalho de confundir o público implicou sufocar o receio de que o Brasil estivesse à beira de um retorno a uma ditadura. Enquanto Michel Temer entregava o aparato de segurança do estado do Rio de Janeiro ao Exército, causando abusos a direitos humanos, primordialmente contra a população pobre e negra, e enquanto o general Walter Braga Netto dizia que o Rio é um projeto piloto para o resto do Brasil, um representante da AS/COA ia para a NPR e dizia “dentro de todo esse caos e dessas coisas inacreditáveis que aconteceram no último ano, eu sempre digo às pessoas que uma coisa que definitivamente não acontecerá no Brasil é um golpe militar”.
Enquanto uma classe rentista de fantoches dos Estados Unidos vende os recursos naturais e o patrimônio tecnológico brasileiro para as corporações internacionais, as companhias que financiam a AS/COA estão forrando seus bolsos. A maioria dessas companhias são também grandes anunciantes nas maiores companhias de mídia da América. Podemos confiar nelas para proverem um jornalismo objetivo sobre o Brasil?
Como disse certa vez Noam Chomsky, “se você abandona a arena política alguém irá ocupá-la. As corporações não irão pra casa… Elas vão dirigir as coisas”.
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[i] Lawfare, termo que pode ser traduzido literalmente como “guerra jurídica”, é a prática de usar a lei como uma forma de guerra assimétrica , com o emprego sistemático de manobras jurídico-legais para derrotar o adversário.
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DOCUMENTANDO OS ESTADOS UNIDOS NO GOLPE DE 2016 – PARTE 1


O presente faz parte de uma série de três artigos sobre documentos secretos vazados ou documentos públicos que indicam uma presença cada vez mais forte dos Estados Unidos no cenário político brasileiro após o anúncio das reservas de petróleo na camada pré-sal pela Petrobras em 2007.
Por mais que estes artigos se assemelhem a teoria da conspiração, eles não são. Pois não vêm de suposições ou imaginação do autor. Documentos antigos e nem tão antigos, demonstram que no passado os Estados Unidos da América participaram de diversos golpes ao redor do mundo. Incluindo o apoio a ditaduras sanguinárias para manter os seus interesses geopolíticos.
O exemplo mais prático e clássico vem da abertura pública de documentos antigos da CIA e de outros departamentos dos EUA que atestam a participação do governo Lyndon Johnson no Golpe Militar de 1964. Estes documentos desclassificados estão na página do Arquivo Nacional de Segurança dos Estados Unidos (em inglês):
Ali são listados alguns telegramas entre Johnson, CIA e o embaixador estadunidense no Brasil, Lincoln Gordon. Num deles, datado de 27 de março de 1964, Gordon textualmente diz:
“Se a nossa influência deve ser usada para ajudar a evitar um grande desastre aqui – o que poderia fazer do Brasil a China dos anos 1960 – é aqui que tanto eu como todos os meus assessores seniores acreditamos que nosso apoio deve ser colocado, (…) que medidas sejam tomadas o mais rapidamente possível para se preparar para uma entrega clandestina de armas de origem não americana, a ser disponibilizada aos apoiadores de Castello Branco em São Paulo.”
(Telegrama de Lincoln Gordon, embaixador dos EUA no Brasil, à Casa Branca e à CIA, 27/03/1964)
A operação acima descrita foi denominada “Operação Brother Sam” e contou com apoio logístico e militar por parte dos EUA para que o golpe de 1964 fosse bem sucedido.
Do ponto de vista de comunicação diplomática ou mesmo secreta, os telegramas são um dos principais meios de contato entre os diversos atores que compõem um diálogo internacional.
Nos dias de hoje é correto afirmar que não é preciso esperar décadas até a desclassificação de documentos diplomáticos secretos. Atualmente há uma organização que se encarrega de vazar milhares de telegramas confidenciais a partir de fontes governamentais anônimas. Essa organização se chama WikiLeaks. Não é à toa que seu fundador, Julian Assange, está escondido na Embaixada do Equador em Londres, na iminência de ser preso por autoridades do mundo ocidental, sob alegações claramente falsas criadas com o único propósito de extraditá-lo para os EUA.
Assim, uma ótima medida para entender o papel dos EUA no Golpe de 2016, é juntar as peças do quebra-cabeça a partir de telegramas confidenciais.
Abaixo, a primeira parte de uma lista de documentos, incluindo os telegramas acima mencionados, que podem ser acessados por qualquer pessoa e que oferecem pistas sobre o que levou os EUA a mais uma vez se intrometer criticamente no cenário político brasileiro. Esse é um recorte particular de algo muito mais amplo e portanto os leitores podem investigar o problema atacando a partir de outros documentos além dos expostos abaixo.
Documento no 1: Petrobras anuncia campos de pré-sal (2007)
Documento público da Petrobras enviado à Bovespa:
A primeira descoberta de petróleo na camada de pré-sal ocorreu em território brasileiro, em área oceânica considerada zona econômica exclusiva do Brasil. Pesquisas da Petrobras neste tema ocorrem desde a década de 1970. Em 2006, a Petrobras revela ter encontrado fortes indícios de petróleo na camada pré-sal, e entre 2007 e 2008 ela consegue recolher pequenas quantidades de petróleo leve na chamada camada sub-sal.
O documento acima, datado de 08 de novembro de 2007, assinado por Almir Guilherme Barbassa, Diretor Financeiro da Petrobras, expõe a descoberta de grande quantidade de petróleo no campo de pré-sal de Tupi. Segundo o texto,
“uma companhia brasileira de energia com atuação internacional, comunica que concluiu a análise dos testes de formação do segundo poço (1-RJS-646) na área denominada Tupi, no bloco BM-S-11, localizado na bacia de Santos, e estima o volume recuperável de óleo leve de 28º API, em 5 a 8 bilhões de barris de petróleo e gás natural. A Petrobras é operadora da área e detém 65%, a empresa britânica BG Group detém 25% e a portuguesa Petrogal – Galp Energia, 10%.”
Em 2008, a Petrobras começa a extrair petróleo de boa qualidade em quantidades consideráveis, o que torna a empresa extremamente rentável. Note que nenhuma empresa dos Estados Unidos operava em Tupi à época da descoberta.
Documento no 2: Sérgio Moro realiza treinamento no Departamento de Estado dos EUA (2007)
Documento público – Curriculum Lattes do CNPq informado pelo próprio Sérgio Moro:
Ao contrário do que muitos acreditam, não há indícios documentais de que o juiz Sérgio Moro tenha recebido treinamento direto da CIA. No entanto, houve algo quase equivalente. Ele por duas vezes fez sim cursos nos Estados Unidos em grandes institutos. No primeiro deles, em 1997, Moro realizou um treinamento por 30 dias na Harvard Law School. Um pouco depois, se tornou o principal juiz no bilionário caso de desvios e lavagem de dinheiro que envolveu o banco Banestado (Paraná).
O treinamento mais importante, no entanto, ocorreu em 2007, quando Moro foi bolsista no Departamento de Estado dos Estados Unidos. Ali, ele participou como convidado do renomado “International Visitor Leadership Program”, programa de intercâmbio dos EUA dedicado à iniciação de líderes estrangeiros sobre cultura, diplomacia e interesses geopolíticos dos Estados Unidos. O programa foi fundado por Nelson Rockfeller em 1940 (vide a página oficial aqui: https://eca.state.gov/ivlp). Lê-se no Currículo Lattes do juiz Moro:
“Sergio Fernando Moro, Juiz Federal da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba/PR, especializada em crimes financeiros, de lavagem de dinheiro e praticados por grupos criminosos organizados. (…) Participou do International Visitors Program organizado em 2007 pelo Departamento de Estado norte-americano com visitas a agências e instituições dos EUA encarregadas da prevenção e do combate à lavagem de dinheiro.”
Ao que parece, o treinamento acima rendeu ótimos frutos, já que Moro se transformou da noite para o dia em uma espécie de referência para os americanos no combate a crimes financeiros. Vide, por exemplo, o que Lisa Kubiske, diplomata assistente da Embaixada dos EUA em Brasília em 2009, relatou em telegrama vazado pelo WikiLeaks sobre o juiz. No telegrama (datado de 30 de outubro de 2009), ela expõe que Moro se envolveu como um dos instrutores principais de uma conferência/curso promovido pelo Departamento de Estado dos EUA no Rio de Janeiro (a conferência foi uma das ações do chamado “Projeto PONTES”). Kubiske relata que um dos focos do curso foi promover técnicas de interrogatório e delação premiada, deixando claro que um dos principais objetivos era naturalizar o conceito de que a luta contra a corrupção deveria ser encarada como “guerra ao terrorismo”.
Documento sensível – íntegra do telegrama vazado pelo WikiLeaks (em inglês):
A ideia de tratar operações financeiras ilícitas como “terrorismo” é calculadamente repetida no telegrama. Ali Kubiske começa resumindo o treinamento da seguinte forma:
“Os participantes [juízes e procuradores] elogiaram o fato de que o treinamento era multijurisdicional, prático e incluía demonstrações reais (por exemplo, como preparar uma testemunha para testemunhar e o exame direto de testemunhas). O treinamento futuro deve se basear em áreas como forças-tarefa contra crimes financeiros, que podem ser a melhor maneira de combater o terrorismo no Brasil.”

A atuação de Moro é assim relatada por Kubiske:

“O coordenador de contraterrorismo do Departamento de Estado [dos EUA], Shari Villarossa, abriu a conferência com uma nota endereçada à relação entre crimes financeiros e terrorismo. (…) Em seguida, a conferência prosseguiu com uma apresentação do (…) juiz federal brasileiro Sergio Moro que discutiu as 15 questões mais comuns vistas por ele em casos de lavagem de dinheiro em tribunais brasileiros. (…) Ao final (…) uma hora foi destinada a cada apresentador para responder perguntas adicionais ou deixar que os participantes levantassem tópicos relevantes. Essa parte do curso foi particularmente animada, resultando em discussões sobre uma miríade de tópicos assim como sugestões dos brasileiros de como trabalhar melhor com os Estados Unidos.”
(Uma pequena observação: após deixar a Embaixada dos EUA no Brasil, Lisa Kubiske se tornou Embaixadora dos EUA em Honduras, praticamente concomitantemente ao golpe contra o presidente Manuel Zelaya, época em que Hillary Clinton era Secretária de Estado do Governo Barack Obama.)
Documento no 3: Estados Unidos reativam a 4a Frota (2008)
Documento público da Marinha dos EUA (em inglês):
 Isso por si só nada indica. No entanto, os diplomatas e autoridades brasileiras foram surpreendidos com a reativação, em 2008, da chamada “4a Frota”, que é um comando naval encarregado do Caribe, América Central e América do Sul. Anteriormente, o comando havia terminado suas operações em 1950. Em 24 de abril de 2008, o então chefe de Operações Navais (CNO), Almirante Gary Roughead, anunciou o restabelecimento da 4a Frota. Quase três meses depois, em 12 de julho de 2008, ela foi oficialmente restabelecida durante uma cerimônia na Estação Naval de Mayport, na Flórida.
Uma longa discussão sobre o assunto ocorreu no Senado brasileiro e em encontros do Mercosul durante aquele ano, em que o próprio Presidente Lula aponta o anúncio da Frota como uma ameaça à soberania nacional. Em particular, o Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, questionou o Embaixador americano sobre as reais intenções da Frota. Tudo isso é relatado pelo próprio Embaixador Clifford Sobel no seguinte telegrama confidencial endereçado à CIA (em inglês):
Diz Sobel explicitamente neste telegrama:
 “O presidente Lula sugeriu que a reativação [da 4a Frota] ocorreu devido às recentes descobertas brasileiras de petróleo no mar e afirmou que ele já havia instruído o chanceler Amorim a solicitar explicações da secretária Rice. (…) Em 03 de julho, o chanceler Amorim solicitou ao embaixador Sobel que se reunisse com ele para buscar esclarecimentos sobre a 4a Frota. Amorim disse que o presidente Lula pediu a ele que contatasse a secretária Rice, o que ele estava fazendo por intermédio do embaixador. Amorim ressaltou as preocupações do Brasil em relação à 4a Frota, examinando as sensibilidades do Brasil em relação às intrusões na soberania do país.”
Por mais que a 4a Frota possa não representar um perigo real, elencar sua reativação é importante elemento para entender o papel dos EUA no Golpe de 2016. Tanto porque o fato causou à época um certo frenesi diplomático entre Brasil e EUA (como visto no telegrama), quanto por cumprir o seu papel militar de intimidação pela força.
Documento no 4: José Serra se envolve em conversas sobre o pré-sal com a Chevron e outras petrolíferas internacionais (2009)
Telegrama confidencial vazado pelo WikiLeaks (em inglês):
Em 02 de dezembro de 2009, Dennis Hearne, do consulado americano no Rio de Janeiro, envia telegrama confidencial ao Secretário de Estado dos Estados Unidos. Hearne reporta que a executiva da Chevron responsável por relações governamentais, Patricia Pradal (também à frente do conselho do Instituto Brasileiro de Petróleo – IBP), estava extremamente preocupada com o anúncio sobre a lei de partilha do pré-sal, na qual a Petrobras entraria como majoritária na exploração do petróleo. Ao que parece, ela estava irritada com o PSDB por esperar que este partido fosse mais enérgico em se opor à aprovação da lei.
Hearne ainda descreve explicitamente a participação de José Serra, pré-candidato do PSDB à presidência da República, em conversas com a Chevron e outras petrolíferas estrangeiras, dando-lhes informações sobre a lei de partilha e sua provável queda futura. No telegrama, Hearne diz textualmente:
 “De acordo com Pradal, o provável candidato do PSDB à presidência em 2010, José Serra, se opôs à estrutura, mas parecia não ter senso de urgência sobre o assunto. Ela o citou dizendo aos representantes da indústria: ‘Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava… E nós mudaremos de volta’.”
Documento no 5: Chevron pressiona “Econoff” para que Thomas Shannon seja nomeado novo embaixador dos EUA no Brasil (2009)
Telegrama vazado pelo WikiLeaks (em inglês):
Uma vez que a Chevron não se deu por satisfeita com a iniciativa pouco convincente do governador José Serra, Dennis Hearne, no telegrama de 02 de dezembro de 2009 relata que não só a executiva da Chevron (Patricia Pradal), como também a executiva da Exxon Mobil (Carla Lacerda) fariam pressão no Congresso Brasileiro. De forma geral fica relativamente claro que a indicação de um novo nome para a Embaixada dos EUA no Brasil parece algo muito positivo. Nesse sentido, Thomas Shannon acabara de ser escolhido Embaixador dos EUA no Brasil. Assim relata Hearne:
 “Lacerda, da Exxon, também afirmou que a indústria planejava fazer uma ofensiva homem a homem no Senado [brasileiro], e para não dar sorte ao azar, a Exxon agirá por conta própria para realizar esforços de lobby. Pradal enfatizou as expectativas do IBP e da Chevron de que o embaixador designado Shannon poderia ter um impacto significativo nesse debate, e perguntou ao Econoff em várias ocasiões quando se daria a confirmação no Congresso [dos EUA].”
“Econoff” é uma designação recorrente em telegramas diplomáticos confidenciais, termo que descreve a relação de altos executivos da indústria com oficiais do alto staff do governo americano ou elementos da indústria que tenham alto peso nas decisões econômicas e na política exterior dos EUA. O termo veio a público de forma reincidente a partir dos anos 2008-2009, quando o WikiLeaks começou a divulgar uma grande quantidade de telegramas comprometedores das Embaixadas dos EUA (o caso ficou conhecido como CableGate). “Econoff” aparece frequentemente em conversas sobre recursos energéticos de países em desenvolvimento (como Irã, Venezuela e Brasil). Logicamente, “Econoff” deve ser uma redução da palavra “Economy Office” (escritório de economia) ou correlato.
Documento no 6: Thomas Shannon assume a Embaixada dos EUA no Brasil (2010)
Telegrama confidencial do Embaixador Shannon relatando sua posse (em inglês):
No documento, datado de 09 de fevereiro de 2010 e endereçado à Secretária de Estado Hillary Clinton, Shannon expressa que apresentou suas credenciais a Lula em 04 de fevereiro de 2010.
Thomas Shannon aparece em vários documentos do WikiLeaks. Nada indica, por exemplo, que tenha sido nem artífice e nem participante decisivo do Golpe de 2016. Entretanto, sua trajetória sui generis causa certa estranheza: entre 2005 e 2009 ele fez parte do alto staff do Departamento de Estado dos EUA (como Secretário Assistente) sob o governo Bush; após se licenciar, assumiu a Embaixada no Brasil entre fevereiro de 2010 e setembro de 2013 sob o governo Obama; logo depois voltou para os EUA para se tornar Conselheiro do Departamento de Estado (de outubro de 2013 a dezembro de 2016) sob Obama; e depois atuou em 2017 como Secretário de Estado já no governo Trump.
Pois bem, em 2009 Hillary Clinton assumiu como Secretária de Estado e enviou Shannon ao Brasil. A estranheza vem do fato de Obama e Hillary escolherem a dedo o seu Embaixador no Brasil dentre os componentes de alto staff do Departamento de Estado. Sem contar a já relatada pressão das petrolíferas sobre o assunto. Shannon voltou aos EUA no final de 2013 com assento garantido no Departamento de Estado como conselheiro especial.
Foi durante o seu ofício de Embaixador dos EUA no Brasil que estourou por exemplo o caso das escutas telefônicas reveladas por Edward Snowden. Em junho de 2013 (na mesma época em que ocorreram as famosas Marchas de Junho), Snowden entregou ao jornal britânico The Guardian documentos secretos da National Security Agency (NSA) que mostravam que o gabinete de Dilma Rousseff estava grampeado e que a Petrobras estava sendo vigiada (maiores detalhes sobre isso serão discutidos na Parte 3 do presente artigo).
Thomas Shannon, em sua trajetória diplomática, sempre aparece como uma figura carismática e apagador de incêndios. Por exemplo, antes de assumir a Embaixada dos EUA no Brasil, Shannon foi Secretário de Estado Assistente para Assuntos do Hemisfério Ocidental. Nessa época, se tornou relativamente bem visto pelos presidentes dos países da América do Sul. Aparece em visitas constantes ao Brasil, Bolívia e Venezuela, tendo boa interlocução com Lula, Morales e Chavez. Por outro lado, como já relatado, as corporações do petróleo queriam Shannon como embaixador no Brasil por acreditar que o mesmo poderia influir decisivamente na lei de partilha do pré-sal em favor das empresas americanas.
Documento no 7: Temer, Fortes, Jobim e Jucá, informantes dos Estados Unidos (2006-2010)
Os trechos dos telegramas confidenciais abaixo, enviados por diplomatas ou embaixadores dos Estados Unidos, falam por si mesmos.
Michel Temer:
Telegrama 1 de conteúdo sensível vazado pelo WikiLeaks, datado de 11/01/2006:
Telegrama 2 de conteúdo sensível vazado pelo WikiLeaks, datado de 21/06/2006:
Nos dois casos acima, Michel Temer, à época deputado federal e presidente do PMDB, relata informações privilegiadas sobre o contexto político do Brasil ao Cônsul Geral dos EUA em São Paulo, Christopher McMullen. No telegrama de junho de 2006, endereçado à Secretária de Estado, Condoleezza Rice, é dito textualmente por McMullen que:
“Ele [Michel Temer] confirmou que seu próprio partido não terá candidato a presidente e não se aliará ao Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula ou ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), pelo menos não antes do segundo turno. No entanto, o PMDB vencerá as eleições para governador em pelo menos dez e possivelmente em até quinze estados, e terá novamente o maior bloco no Senado e na Câmara dos Deputados, de modo que [diz Temer] ‘quem ganhar a eleição presidencial terá que vir até nós para fazer qualquer coisa’.”
É bem conhecido de todos que Michel Temer, como cacique do PMDB, tinha relações estreitas com o Deputado Eduardo Cunha, Presidente da Câmara entre 2015 e 2016. Quando Dilma Rousseff assumiu o seu segundo mandato frente à presidência em 2015, Michel Temer era o seu vice, Eduardo Cunha paralisou as atividades do congresso e colocou em pauta, no fim daquele mesmo ano, o impeachment de Dilma baseado nas duvidosas “pedaladas fiscais”. Uma vez consolidado o impeachment em 2016, Michel Temer assume a presidência do Brasil.
O próprio marketeiro pessoal de Michel Temer, Elsinho Mouco, revelou, em 2017, em entrevista ao Estadão, que dinheiro de doação da JBS (via Joesley Batista) foi usado por Michel Temer para derrubar Dilma Rousseff. Na entrevista, Elsinho diz que
“no auge do movimento ‘Fora Dilma’, Joesley se ofereceu para pagar por um serviço de monitoramento de redes sociais que nortearia a estratégia do PMDB de blindagem a Temer. Na ocasião, foi incisivo: ‘Vamos derrubar essa mulher’.”
A entrevista completa encontra-se aqui:
Heráclito Fortes, Nelson Jobim e o G-8 do impeachment:
Documento: Telegrama confidencial enviado à Secretária de Estado vazado pelo WikiLeaks:
Entre 2007 e 2008, o senador Heráclito Fortes aparece frequentemente em telegramas confidenciais dando informações à Embaixada dos EUA em Brasília. Por exemplo, em telegrama confidencial datado de 18 de abril de 2008, endereçado à Secretária de Estado, Condoleezza Rice, o Embaixador Clifford Sobel relata uma conversa com Fortes sobre possíveis forças terroristas de esquerda no Brasil:
“O presidente do Comitê de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, Heraclito Fortes (estritamente protegido) (Partido Democratas, oposição; do Piauí) disse ao embaixador Sobel em 28 de março que ele está profundamente preocupado com os sinais de terroristas no Brasil. (…) Fortes faz parte de um número modesto de legisladores que estão prestando atenção ao que consideram ameaças emergentes à segurança brasileira.”
Note que Sobel frisa que o nome “Heraclito Fortes” deve ser “estritamente protegido”.
Outro nome que surge em muitos documentos é o de Nelson Jobim. Jobim foi Ministro da Defesa tanto no governo Lula (2007-2010) quanto no primeiro governo Dilma (2011). Neste último caso, são bem conhecidos os atritos entre Jobim e Dilma que levaram à sua demissão do cargo.
Na verdade, a carreira pregressa de Jobim, sempre filiado ao PMDB, é extensa. Atuou como Ministro da Justiça de FHC, foi indicado ao STF e ali se aposentou como Presidente em 2006.
A partir de 2007, como Ministro da Defesa, Jobim surge como um personagem-chave. O Embaixador Clifford Sobel (no Brasil entre 2006 e 2009) constantemente relata em seus telegramas que, durante o governo Lula, o Itamaraty estava infestado de diplomatas nacionalistas que não facilitavam os interesses norte-americanos. Sobel viu, no entanto, em Jobim uma janela. Fica claro nos documentos que Jobim se esforça em defender os interesses militares do Brasil. O telegrama é confidencial e datado de 31 de março de 2008:
Um telegrama enviado pela diplomata encarregada da Embaixada, Lisa Kubiske, à Secretária Hillary Clinton é o que tem um conteúdo mais revelador, em que Jobim revela os planos do Ministério da Defesa sobre a fronteira brasileira com a Colômbia e a Venezuela. Abaixo vai um trecho:
 “Falando sobre questões de segurança regional, Jobim reconheceu que há a presença das FARC na Venezuela e sugeriu a construção da confiança Colômbia-Equador ao longo de suas fronteiras e um possível acordo de monitoramento de fronteira para combater o fluxo de drogas entre a Colômbia e o Brasil. (…) A declaração pública do assessor presidencial de política externa, Marco Aurelio Garcia, apenas dois dias depois, para monitorar as atividades de fronteira como forma de reduzir as tensões entre a Colômbia e a Venezuela, mostra a influência de Jobim.”
O telegrama completo encontra-se aqui:
Os telegramas acima expostos servem como pano de fundo internacional para as manobras internas construídas por Heráclito Fortes para derrubar Dilma Rousseff em 2016. Heráclito deu uma entrevista ao Estadão em 16 de abril de 2016, revelando que durante um ano promoveu jantares em sua casa, com o intuito de planejar o impeachment de Dilma Rousseff.
Nos jantares, Nelson Jobim ofereceu uma espécie de curso sobre impeachment, revelando quais as melhores estratégias para alcançar a retirada de Dilma. Fortes falou ao Estadão que os jantares estavam sempre cheios, com a presença frequente do senador José Serra. A lista de participantes do jantar coincide com a lista de políticos nomeados por Michel Temer para compor o seu Ministério.
A entrevista completa de Heráclito Fortes ao Estadão encontra-se aqui:
Romero Jucá
Documento: Telegrama confidencial vazado pelo Wikileaks:
O telegrama acima revela que Romero Jucá foi outro elemento-chave que manteve constante contato com a Embaixada dos EUA. O telegrama confidencial, enviado por Kubiske à Secretária Hillary Clinton em 10 de setembro de 2009, revela os planos de Jucá e do PMDB em relação às eleições de 2010. Eis aqui um trecho:
 “O senador Juca, respondendo pelo PMDB, disse que o PT e o PMDB vão cooperar em nível nacional com Dilma, mesmo que os acordos não sejam alcançados em nível estadual. Ele passou cinco minutos reclamando da fraqueza de Dilma como candidata. O senador Juca admitiu com mais franqueza que seu partido estava dividido entre a lealdade a Dilma, a Serra e a seu favorito pessoal, Aécio Neves do PSDB, que ele gostaria de atrair para o PMDB como candidato à presidência.”
Nunca é demais relembrar que Romero Jucá foi um dos grandes “profetas” do impeachment. Sua conversa vazada com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, se tornou praticamente um hit do golpismo à brasileira:
MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].
JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.
MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.
JUCÁ – É. Delimitava onde está, pront
Carlos H. Coimbra-Araújo é professor e pesquisador da Universidade Federal do Paraná na área de física e aproveitamento de energia. Autor, entre outros, do artigo “Energy-Environmental Implications Of Shale Gas Exploration In Paraná Hydrological Basin, Brazil” (Renewable and Sustainable Energy Reviews), publicado pela Editora Elsevier.


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PEPE ESCOBAR: BARRAR LULA PODE SER O XEQUE-MATE DA GUERRA HÍBRIDA



O jornalista Pepe Escobar considera que, ao apoiar o candidato Jair Bolsonaro e minar juridicamente a chapa do PT, setores imperialistas que promovem a guerra híbrida só conseguirão seu exito no Brasil com a aniquilação de Lula nas eleições presidenciais; "É única forma deles terem o xeque-mate", ressalta o jornalista; assista a íntegra da análise geopolítica de Pepe Escobar 

TV 247 - O jornalista Pepe Escobar avaliou na TV 247 nesta semana como os grupos imperialistas se organizam para desestabilizar moedas e governos que lhe convêm, incluindo o Brasil, vítima da ingerência ingerência estadunidense no golpe de Estado de 2016 e nas eleições de 2018. "Barrar Lula pode ser o xeque-mate da guerra híbrida", avalia. 
Ao analisar o governo Trump, Pepe observa que os Estados Unidos, assim como no período em que George W. Bush foi presidente, voltou a usar a prática do porrete para exercer sua hegemonia global, tendo como objetivo central fragmentar a união euro-asiática. 
"Há setores internos do governo que tentam convencer Donald Trump de impedir qualquer acomodação com os russos, envolvendo principalmente o Síria e a Ucrânia, pois ambos os países estão ligados em termos de cortar a união euro-asiática e as áreas de influência da Rússia", afirma.
Ao discorrer sobre a guerra híbrida, Pepe observa as movimentações do grupo "Deep State" (Estado profundo), composto por anglo-americano sionistas, e afirma que tal força tem como objetivo defender os interesses de Israel e dos EUA, provocando instabilidade político-econômica nos países que convém. 
"Há uma intensa ofensiva cambial para desestabilizar a moeda de três países membros do Brics: Brasil, África do Sul e Índia. Outros dois países são aspirantes a Brics e também sofrem ataques: a Turquia e Indonésia", expõe. 
O jornalista explica que, a longo prazo, um Brics forte poderá denunciar ao mundo o regime de Apartheid que os sionistas promovem contra os palestinos. "Eles possuem muito medo de tornar Israel um escândalo internacional, como foi a África do Sul, e temem isso", elucida. 
Em relação à ingerência do Deep State em terras brasileiras, Pepe afirma que o grupo já percebeu que Geraldo Alckmin não irá decolar, apostando suas fichas em Jair Bolsonaro.
Ele considera que, ao apoiar a extrema-direita brasileira e minar juridicamente a chapa do PT, a guerra híbrida só poderá ter um exito no Brasil com a aniquilação de Lula nas eleições presidenciais. "É a única forma de eles terem seu xaque-mate", conclui. 
Inscreva-se na TV 247 e confira a análise com Pepe Escobar:



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Temer confessa golpe nos EUA


Juremir Machado da Silva
http://www.correiodopovo.com.br/



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Xadrez da influência dos EUA no golpe, por Luís Nassif




20/08/2017

A cada dia que passa fica mais nítida a participação de forças dos Estados Unidos no golpe do impeachment. Trata-se de tema polêmico, contra o qual invariavelmente se lança a acusação de ser teoria conspiratória. O ceticismo decorre do pouco conhecimento sobre o tema e da dificuldade óbvia de se identificar as ações e seus protagonistas. Imaginam-se cenas de filmes de suspense e de vilões, com todos os protagonistas  orientados por um comitê central.
Obviamente não é assim.
Um golpe sempre é fruto da articulação das forças internas de um país, não necessariamente homogêneas, e, em muito, da maneira como o governo atacado reage. No decorrer do golpe, montam-se alianças temporárias, em torno do objetivo maior de derrubar o governo. Há interesses diversos em jogo, que provocam atritos e se acentuam depois, na divisão do butim.
A participação gringa se dá na consultoria especializada e no know-how da estratégia geral.
E aí entram os princípios básicos, copiados das estratégias de guerra:
Etapa 1 - Ataques da artilharia: a guerra de desgaste, de exaurir antecipadamente o inimigo por meio de ataques diuturnos de artilharia.
Etapa 2 – a guerra psicológica, visando conquistar corações e mentes das populações dos países adversários contra suas tropas.
Etapa 3 – a primeira ofensiva, juntando o avanço dos tanques de guerra com ações táticas de Infantaria, visando impedir o inimigo de realizar determinadas operações
Etapa 4 – simultaneamente à Etapa 3, táticas de dividir as forças adversárias para ataca-las uma de cada vez.
Etapa 5 - Vencida a guerra, ocupar o país com um governo local que, ante um quadro de destruição ampla, ganhará legitimidade inicial com suas propostas de reconstrução. Por isso a destruição tem papel central na conquista do território, seja no decorrer da guerra ou no desmonte posterior.
Etapa 6 – a batalha decisiva. A aceitação ou não, da população do país, do modelo imposto pela guerra.
Vamos, agora, analisar o Caso Brasil.

Etapa 1 – os ataques de artilharia

Tem a função de fustigar os inimigos diuturnamente, de maneira a tirar seu fôlego e preparar o terreno para o início da batalha e o avanço da infantaria.
Quem acompanha as sutilezas do jornalismo pátrio percebeu nítida mudança no estilo editorial a partir do advento do Instituto Millenium que ajudou a definir um tipo de jornalismo de guerra mais sofisticado, e ser o ponto de convergência dos jornalistas que atendiam à demanda dos grupos jornalísticos por guerreiros.
Até então, a mídia atuava atabalhoadamente com factoides inverossímeis, dentro do que ficou conhecida como a era do jornalismo de esgoto.
A partir de determinado momento – e, especialmente, das notícias geradas pela AP 470, do mensalão – os ataques mudam de enfoque. Em vez do linguajar agressivo, cobertura intensiva do material fornecido pelo Ministério Público Federal e pelo relator Joaquim Barbosa, em linguagem aparentemente neutra, mas sempre incluindo frases-padrão. Em qualquer matéria, mesmo sem ligação alguma com a AP 470, qualquer menção ao PT era acompanhada de frases–padrão, tipo “partido que foi acusado de corrupção pelo STF”, e outros termos similares, repetidos exaustivamente. Instituiu-se método na campanha midiática.

Etapa 2 – a conquista de corações e mentes

Nas manifestações de junho de 2013 ocorreu a primeira explicitação do mal-estar coletivo com o início da crise. Antes, houve um trabalho crescente dos grupos de ultradireita nas redes sociais, se sobrepondo à jovem militância de esquerda que ficou rendida, sem informações e sem argumentos do lado de um governo, incapaz de articular um discurso político.
Factoides de apagão, de epidemias, ataques ao Enem, à organização  Copa do Mundo, tudo ficava sem resposta, sem informações do governo, deixando o campo aberto para o golpismo.
Os primeiros organizadores de encontros, jovens de extração de esquerda, foram jogados ao mar pela própria esquerda.
Sem competidores, os movimentos estimulados pelo exterior ganharam fôlego e o comando das ruas passou para grupos, como o MBL (Movimento Brasil Livre) e o Vem prá Rua, bancados financeiramente e com know-how de grupos empresariais norte-americanos, como os irmãos Koch, e brasileiros, como Jorge Paulo Lehman.
O know-how consistia na habilidade em criar agentes políticos do nada, valendo-se apenas das novas formas de comunicação e organização das redes sociais. Pelo extremo baixo nível das lideranças, percebe-se a enorme facilidade em se criar protagonistas para conduzir os movimentos de manada nas redes sociais
A Rede Globo levou dois dias para perceber que os aliados tinham assumido a iniciativa. Imediatamente seus comentaristas se alinharam em defesa das manifestações, depois de a terem desancado impiedosamente no início.
Nos links abaixo, algumas matérias explicativas desses movimentos de bilionários organizando a militância:
É movimento que repete o fenômeno da direita empresarial norte-americana nos anos 60, com grupos como o W.R.Grace, de irlandeses católicos fundamentalistas, investindo em cruzadas em países da América Latina.
Leia aqui sobre os Grace e sua Campanha Pelo Rearmamento Moral:

Etapa 3 – o ataque com tanques e infantaria

A conquista de corações e mentes foi relativamente simples. Havia o dado concreto do mal-estar econômico. Bastou forçar nas relações de causalidade com Dilma e o PT, trabalho facilitado pela incapacidade de ambos de entender o momento e enfrentar o jogo tanto no campo político quanto da comunicação.
As manifestações de rua acionaram a bomba de efeito retardado, que catapultou a guerra para a etapa decisiva.
As ações que permitiram transformar um pequeno processo de Curitiba em um escândalo do Rio de Janeiro, capaz de derrubar um governo em Brasília, foram alimentadas pelo DHS, o poderoso Departamento do governo dos EUA, que surge a partir dos atentados às Torres Gêmeas, organizando as ações de 23 departamentos internos na luta contra o terrorismo e as organizações criminosas. Quando os EUA definem o combate à corrupção como ponto central de sua nova geopolítica, o DHS assimila o novo pacto comn o mundo corporativo dos EUA.
Ele se torna o ponto de contato com Ministérios Públicos em todo mundo, no modelo da cooperação internacional, ao mesmo tempo em que novas leis anticorrupção são aprovadas por organismos internacionais. A primeira aproximação com o Brasil foi no caso Banestado. A partir daquele episódio, estreitam-se as relações do DHS com o juiz Sérgio Moro e o grupo de procuradores que assume a Lava Jato.
Leia aqui sobre o DHS.:

Provavelmente vem do DHS o know-how de estratégias político-midiáticas da Lava Jato, a organização das informações em sites, a criação de perfis de procuradores e, mais à frente, a utilização política dos vazamentos. Antes disso, a seleção de procuradores e delegados que atuaram de forma harmônica.
Junto com o bombardeiro de tanques, ocorreram também operações táticas de infantarias, com a divulgação de conversas gravadas da presidente e a sincronização da agenda policial com a agenda política do impeachment.

Etapa 4 – a divisão das forças inimigas

A corrupção política contaminou todos os partidos, sem exceção. As delações dos executivos de empreiteiras forneceram um amplo arsenal para a Lava Jato, podendo selecionar os alvos a serem atingidos.
A atuação da Lava Jato visou três objetivos centrais, todos diretamente relacionados com os interesses norte-americanos, dificultando radicalmente o retorno ao modelo combatido:
·       Inviabilizar rapidamente as multinacionais brasileiras que competiam com grupos norte-americanos no exterior;
·       Derrubar o governo Dilma e, com ele, a legislação do pré-sal;
·       Inabilitar Lula politicamente.
Para que nada se interpusesse no caminho, tratou de poupar Michel Temer, principal personagem do escândalo da Eletronuclear, assim como Eduardo Cunha, que só foi preso depois de consumado o impeachment. E foi por isso que a maioria absoluta dos delatores conseguiu a libertação bastando, para tanto, as palavrinhas mágicas: Lula ou Dilma sabia.
Agora, uma checagem minuciosa mostra um trabalho relapso, muito mais focado na quantidade que na qualidade das delações. Mas obedecia à estratégia de comunicação, de não dar um minuto de folga aos inimigos (PT e Lula). Cada declaração, mesmo vazia e sem provas, alimentava o noticiário diário, insuflava o clamor das ruas e atraía adesões do Judiciário.

Etapa 5 – a ocupação do território inimigo

A estratégia pós-impeachment consistiu em implementar rapidamente um conjunto radical de medidas visando fazer terra arrasada do modelo econômico vigente. Antes mesmo do impeachment já haviam sido fincadas as bases do acordo com os coronéis do PMDB, em torno da tal Ponte Para o Futuro. A ponto do próprio Temer, em evento nos EUA, afirmar que Dilma caiu por não ter aderido aos pontos da tal Ponte.
É evidente que havia um documento, que foi entregue pessoalmente aos líderes do PMDB por representantes do tal do mercado.
Provavelmente, a cabeça por trás da Ponte para o Futuro, e do trabalho de demolição do orçamento, foi Marcos Lisboa, espécie de menino de ouro do liberalismo pátrio e ponto de contato entre os grupos de mercado, os políticos do PMDB re a alta burocracia pública, graças ao contatos desenvolvidos em seu tempo de assessor do ex-Ministro Antônio Pallocci.
Nas eleições de 2002, foi indicado para Jorge Paulo Lehman pelo economista brasileiro Alexandre Scheinkman, diretor do prestigioso departamento de macroeconomia da Universidade de Chicago. Lehman tentou enganchá-lo na campanha de Ciro Gomes. Com a eleição de Lula, Lisboa acabou indo para a equipe de Antônio Palocci onde, saliente-se, realizou um belo trabalho de reformas microeconômicas.
No discurso que fez no evento do Jota-Insper, na sexta passada, há todas as impressões digitais das principais maldades em tramitação na Câmara, inclusive a que obriga o devedor inadimplente que devolve o bem a continuar devedor. Para Lisboa, economia saudável é que a permite ao banco tirar a máquina do empresário inadimplente, ainda que uma máquina parada seja menos eficaz para a economia que uma empresa produzindo; que permite ao banco punir o mutuário inadimplente. Para ele, a inadimplência é um ato de vontade do devedor, não contingências da economia. É um autêntico defensor da eugenia social e corporativa.
Todo o estoque de projetos, a começar da PEC do Teto e, a partir dela,  o desmonte de todas as políticas sociais e a ocupação de todos os territórios do Estado, do aparelhamento da Funai à Eletronuclear, do Inmetro ao TSE (Tribunal Superior eleitoral) o.Simultaneamente, lança  um conjunto de medidas estruturais, que destroem o modelo anterior de Estado, para que a Nova Ordem possa ser a única alternativa visível.
A contribuição externa  se deu no aconselhamento da estratégia da Ponte para o Futuro e do conjunto de leis atuais.

O papel da mídia

A exemplo da estratégia pós-millenium, o papel da mídia é vocalizar um conjunto de slogans vazios:
A equipe econômica é brilhante. A frase é repetida por Ministros do Supremo, empresários etc. A maioria absoluta dos quais jamais tinha ouvido falar antes, ou depois, dos membros da equipe econômica.
Se reformar a Previdência, o país sai da crise. Não há nenhuma relação de causalidade. Para chegar a esse ponto de terra arrasada – parte da estratégia de desmonte do Estado anterior – acabaram com a demanda, criaram enorme capacidade instalada, aumentaram as taxas reais de juros, todas medidas pró-cíclicas.
Sobre essa retórica, prepararei um artigo à parte.

Etapa 6 – a batalha decisiva

O teste final serão as eleições de 2018. E, aí, há uma ampla confusão e disputa entre os diversos grupos hegemônicos que dependem de três balas de prata para enfrentar Lula.
A primeira dificudade é a identificação de um candidato competitivo, capaz de levar adiante o desmonte.
O clube dos bilionários do golpe abriu os olhos para o risco de confundir sua imagem com a da organização comandada por Michel Temer. E entendeu que a aprovação de reformas, sob o jugo de Temer, tirará grande parte da sua legitimidade. Além de comprometer qualquer tentativa futura de protagonismo político.
Aí entram em cena os conflitos de interesse.
Os caciques do PSDB continuarão sendo escandalosamente blindados pelo algoritmo do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas, politicamente, estão liquidados.
Tasso Jereissatti pretendeu tirar o PSDB dessa rota suicida. Mas passou a enfrentar a pressão da banda fisiológica do partido, liderada pelo chanceler Aloysio Nunes. Sem financiamento empresarial e sem governo, parte relevante das atuais lideranças tucanas será varrida do mapa. Daí a insistência em permanecer no barco de Temer  
Por outro lado, o clube não dispõe de um nome competitivo para 2018. Marina Silva não tem fôlego. E Geraldo Alckmin não representa novidade alguma no panorama político.
Por tudo isso, o clube – mais a ala mercadista do PSDB, puxada por FHC – provavelmente jogará suas fichas na candidatura de João Dória Jr, apesar das imensas ressalvas que manifestam em relação a ele. Será uma novidade, mas dificilmente será competitivo.
Com o definhamento do PSDB, o antipetismo se tornou totalmente invertebrado.

O distrital misto

Sem uma liderança minimamente esclarecida, tenta-se, agora, esse aborto do modelo político ditrital misto  como última tentativa de sobrevida à atual bancada de deputados. E aí sobressai uma ameaça cada vez mais presente na política atual: a entrada de várias organizações criminosas no jogo.
O narcotráfico mostrou um poder assustador no episódio da helicoca, no qual a Polícia Federal e o Ministério Público Federal não moveram uma palha para apurar as ligações do dono do helicóptero, senador José Perrela, com o tráfico. O helicóptero foi devolvido dias depois para o dono, em outra atitude inédita.
Por outro lado, a extraordinária influência da Fenatran – a suspeitíssima federação de transporte urbano do Rio de Janeiro – no STF, através do Ministro Gilmar Mendes, acende outra luz amarela.
Finalmente, a tentativa de legalizar novamente o bingo abrirá nova frente de influência para o crime organizado.
O México é aqui e, ao contrário das suspeitas iniciais, o que mais se assemelha ao PRI mexicano não é o PT, mas esse amálgama que sai do golpe, com os primeiros indicios de parceria com o crime organizado.
O PSDB acena com o parlamentarismo, caso consiga o poder. É mais fácil Gilmar Mendes declarar suspeição em qualquer processo, do que a bandeira do parlamentarismo eleger um presidente.
O próximo presidente será eleito denunciando o saco de maldades produzido pelo atual governo, em parceria com o PSDB e com o mercado.
Por todos esses condicionantes, mais que nunca dependerão de ações no Judiciário para inviabilizar a oposição. Afinal, por mais que seja estreita a colaboração com os EUA, não poderão contar com a 7a Cavalaria contra os índios de Lula.


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ARMANDO BOITO: COM APOIO DA CLASSE MÉDIA, LAVA JATO ATENDEU AOS EUA




O cientista político, professor e escritor Armando Boito Junior expôs em entrevista à TV 247 fragmentos da sua recém-lançada obra "Reforma e Crise Política no Brasil, os Conflitos de Classe nos governos do PT"; no livro, ele analisa os governos petistas em suas múltiplas dimensões e o desmembramento da crise política; "Com o apoio da classe média, Lava Jato atendeu aos EUA", denuncia; assista


TV 247 - O cientista político, professor da Unicamp e escritor Armando Boito Junior expôs fragmentos da sua recém-lançada obra "Reforma e Crise Política no Brasil, os Conflitos de Classe nos governos do PT", em entrevista concedida à TV 247. Na conversa com o jornalista Paulo Moreira Leite, ele analisa os governos petistas em suas múltiplas dimensões e o desmembramento da crise política.
O sociólogo diz que há pistas para entender a reduzida resistência contra o golpe de 2016. "A ex-presidente Dilma subestimou o perigo das manifestações pró-golpe durante um bom tempo, confiando a mobilização da defesa do governo nas mãos do sistema jurídico. Outro fator da desestruturação do governo foi o forte ajuste fiscal implementando em sua gestão", relembra.
Esmiuçando a questão golpe de Estado, Boito afirma que o primeiro setor que foi derrubado com a operação Lava Jato foi a da construção pesada. "Este segmento foi jogado para escanteio logo no início da crise, existia corrupção sim com as construturas, mas as investigações foram seletivas, não punindo esquemas nas multinacionais responsáveis pelas obras de trens e metrôs", observa.  
Ele afirma que a Lava Jato promoveu uma instrumentalização política do combate à corrupção. "A operação apoiou-se na classe média, mas atendeu aos interesses do capital externo. A Lava Jato foi subsidiada pelo departamento de justiça dos EUA", expõe. 
Oportunismo
Boito afirma que o início do cerco contra o PT começou com a Ação Penal 470, também conhecido como 'Mensalão', e expõe as contradições no discurso do empresariado brasileiro. 
"Em 2005, Paulo Skaf, que já era presidente da Fiesp, disse que o Mensalão deveria ser superado pela agenda de desenvolvimento. Dez anos depois, o mesmo Skaf diz que o central da questão era o combate à corrupção, sendo um dos personagens principais do impeachment", compara. 
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