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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Paulo Narvai: O ‘nosso dinheiro’ não pode ir para ditadura comunista de Cuba, mas vir da chinesa, tudo bem?!

Paulo Narvai: O ‘nosso dinheiro’ não pode ir para ditadura comunista de Cuba, mas vir da chinesa, tudo bem?!

Ditaduras, médicos cubanos e o nosso dinheiro

por Paulo Capel Narvai*, especial para o Viomundo

No começo, era a formação.

“Não são médicos”, gritavam profissionais brasileiros em suposta defesa do que consideravam postos de trabalho exclusivos.

A defesa corporativista se misturava com notória repulsa ideológica.

Com o passar do tempo, as duas coisas se mesclaram.

E, assim, prosseguem, como se viu, em 14 de novembro, quando o governo de Cuba anunciou a saída de seus 8.500 médicos do Programa Mais Médicos do Brasil.

Insistentemente o presidente eleito declarou:”não sabemos nem se são mesmo médicos”.

Na nota oficial de 14 de novembro, o governo cubano afirmou:

“o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, com referências diretas, depreciativas e ameaçadoras à presença de nossos médicos, declarou e reiterou que modificará os termos e condições do Programa Mais Médicos, desrespeitando a Organização Pan-americana de Saúde (OPAS)”.

O governo cubano enfatizou ainda que médicos cubanos atualmente prestam serviços em 67 países.

Também que, em 55 anos, 600 mil missões internacionalistas foram realizadas em 164 países, envolvendo mais de 400 mil trabalhadores de saúde, muitos dos quais cumpriram a honrosa tarefa em mais de uma ocasião.

Destacam-se a luta contra o ebola na África, a cegueira na América Latina e no Caribe, a cólera no Haiti e a participação de 26 brigadas do Contingente Internacional de Médicos Especializados em Desastres e Grandes Epidemias ‘Henry Reeve’ no Paquistão, Indonésia, México, Equador, Peru, Chile e Venezuela, entre outros países.

“Na esmagadora maioria das missões concluídas, as despesas foram assumidas pelo governo cubano”, diz a nota oficial.

Ou seja, não houve pagamentos para Cuba.

Além disso, como expressão da sua solidariedade e vocação internacionalista, Cuba recebeu e treinou gratuitamente “35.613 profissionais de saúde de 138 países”.

No período em que permaneceram no Brasil, os médicos cubanos atuaram em todos os cantos do País, incluindo localidades rejeitadas pelos colegas brasileiros, como aldeias indígenas.

Só que, em vez de receberem receberem manifestações de apreço e gratidão por essa disponibilidade, os médicos cubanos foram alvo o tempo todo de grosserias e hostilidades de vários segmentos profissionais e políticos.

Ingratidão, diga-se de passagem, atenuada pelo carinho dos brasileiros cuidados e pelo respeito dos que com eles trabalharam nas equipes de saúde da família.

As hostilidades, aliás, não cessaram nem mesmo com a saída dos cubanos do Brasil.

O argumento final é de que tudo não passou de “uma armação do PT para colocar nosso dinheiro financiando uma ditadura comunista”.

Ufa! O argumento vem acompanhado de cifras!

O relevante nele é a ideia de que “nosso dinheiro” não deve estar envolvido com ditaduras.

Estima-se que Cuba deixará de contar com cerca de R$ 1,1 bilhão por ano.

Seria este, portanto, o montante do “nosso dinheiro” que daria entrada, anualmente, nos cofres da ditadura “comunista”.

Coloquei deliberadamente entre aspas a expressão “nosso dinheiro” e o termo “comunista”, pois é disso que me ocuparei a seguir.

Mantive ditadura sem aspas, pois Cuba é uma ditadura, segundo os padrões políticos aceitos contemporaneamente.

“Comunista”

Neste período histórico aberto pela queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética, eventos que puseram fim à Guerra Fria, o termo “comunista” encontra-se esvaziado de significado filosófico ou, para quem preferir, epistemológico.

O termo “comunista”, para muitos que o utilizam, se transformou em mero xingamento para ofender desafetos.

Atualmente, um derivativo é “petista” ou “petralha” por referência generalizada ao que seriam “comunistas” corruptos.

Para isso, pouco importando que o Partido dos Trabalhadores, desde sua fundação em 1980, tenha sempre rejeitado qualquer vínculo com a União Soviética ou com o que se entende por “comunismo”.

Todos esses termos, contudo, têm o mesmo significado para esses usuários tão simplórios quanto filosoficamente néscios.

Resulta, portanto, de pouca utilidade utilizar esse qualificativo para qualquer análise sobre o tema deste artigo.

“Nosso Dinheiro”

Tendo em vista a escassez de médicos brasileiros com disponibilidade para trabalhar em certas áreas do território nacional, o governo brasileiro decidiu contratar os médicos cubanos, levando em conta a reconhecida competência profissional deles para o perfil de atividades requerido na atenção básica do Sistema Único de Saúde (SUS).

E contratou-os com a intermediação da OPAS, pagando por esses serviços com o “nosso dinheiro”,

Ou seja, com o dinheiro do orçamento da União, mais especificamente do SUS, cuja origem de receitas está na arrecadação tributária e nas contribuições sociais e nos orçamentos dos Estados e Municípios.

Assim, o “nosso dinheiro” que contribui para o pagamento dos profissionais brasileiros e estrangeiros que trabalham nas ações do SUS depende do desempenho do conjunto da economia brasileira, que, por sua vez, depende fortemente dos diversos itens que compõem a nossa pauta de exportações.

Em 2017, os principais itens das exportações brasileiras (soja em grão, minério de ferro, açúcar em bruto, petróleo em bruto, carne de frango, celulose, farelo de soja, carne bovina, café em grão e automóveis) registraram US$ 217,74 bilhões.

Os principais países compradores dos produtos brasileiros são China — em 2017, comprou cerca de US$ 50 bilhões –, Estados Unidos — comprou menos da metade do que adquiriu a China –, Argentina –ficou em US$ 13,6 bilhões –, Holanda e Alemanha.

Por essa razão, pode-se afirmar, sem receio de que, nos últimos anos, a ditadura “comunista” da China está no DNA do “nosso dinheiro”.

Portanto, é recomendável pensar antes de repetir tolices disseminadas em mídias sociais.

Globalização e Saúde

Nossa economia está plenamente integrada ao mundo globalizado, ainda que o fortalecimento do mercado interno nos governos de Lula tenha sido abortado pelo Golpe de 2016 e pelo ultraliberalismo em curso, vitorioso nas urnas em 2018.

Nesse contexto econômico e com um cenário interno em que a formação de médicos compatível às nossas necessidades foi irresponsavelmente tolhida pelo corporativismo médico, a saída foi buscar profissionais no mercado global para atender às demandas de Estados e Municípios.

Assim, a globalização, além de envolver equipamentos, instalações e medicamentos, passou a atingir o também o setor de pessoal no Brasil.

Inútil, portanto, gritar, ameaçar, ideologizar e tentar partidarizar a presença de “médicos cubanos” no Programa Mais Médicos e ver “comunistas embaixo da cama”, em um mundo pós-Guerra Fria.

Soa apenas ridículo e hipócrita, revelando sobretudo a ignorância de quem agride.

É que o tal “nosso dinheiro”, que supostamente não poderia ser utilizado para honrar contratos com uma “ditadura comunista”, vem, via exportações, em boa parte justamente de uma…ditadura comunista. Chinesa, mas ditadura.

O desafio agora é cuidar dos que estão desassistidos e encontrar um jeito de fazer os médicos brasileiros trabalharem onde não querem estar a trabalho.

Vai ser preciso falar grosso, ser enérgico. Mas sem perder a nossa democracia. Desigual e injusta, mas democracia.

*Paulo Capel Narvai é sanitarista e professor titular de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

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