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Crise Brasileira

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Os sentidos de luta, os sentidos de Lula

Ricardo Stuckert


Quem luta gosta de luta. Não a luta covarde e cheia de testosterona dos UFCs da vida. Mas a luta política, intelectual, espiritual, semântica, histórica, existencial - de querer mais que a mera sobrevivência. De querer a dignidade humana para todos e não só para meia dúzia.

Isso é luta.

E nessa luta, desculpe, não tem pra ninguém. Quem é embebido nos pressupostos civilizatórios da esquerda democrática vence com folga, mesmo que às vezes demore um pouco, mesmo que às vezes o juiz seja comprado, mesmo que às vezes a plateia esteja dopada, mesmo que o pânico dos futuros derrotados prenda o nosso maior guerreiro pela simples razão de que, com ele, não daria nem para o começo.

Luta não é golpe.

Ao ver a posse de um presidente tomada pelo ódio, pelo fanatismo, pelo ressentimento, pela ausência de discurso, pela truculência, pelo clima de velório, pelas bestialidades múltiplas inoculadas em parte do povo anos a fio por uma imprensa corporativista - que se vê agora experimentando o seu próprio veneno, humilhada naquilo que deveria se o piso sagrado da democracia e da liberdade de expressão, a vontade é simplesmente de lutar ainda mais para re-estabelecer a civilização e o respeito pelo outro.

Luta não é blefe.

O respeito pelo contraditório que marcou os 13 anos de governos democráticos começarão a ser lembrados com estranho saudosismo, até por aqueles que pouco entendem de cidadania. O fetiche em se amordaçar a si próprio é localizado e não dá conta de silenciar uma sociedade inteira. O bolsonarismo não é majoritário em nosso país, é apenas uma bolha de ódio prestes a explodir com o choque de realidade violenta-institucional que está por vir.

Luta não é medo.

E, para aqueles que se surpreendem e lamentam o fato de que tantas pessoas ainda agonizem na incompreensão confortável do momento gravíssimo - como o povo alemão subestimou o nazismo nos anos 30 - informo: as pessoas aderem ao poder porque elas têm de aderir a alguma coisa. Como não se criou no Brasil, uma alternativa democrática ao PT, aquilo que estiver disponível na aridez dos projetos de país, será adotado como autoafirmação residual de identidade.

Luta não é adesão.

Pode não parecer, mas a história está do lado da vida (porque a vida é que possibilita a existência da história). A única maneira de derrotar o bolsonarismo, esse racismo subdesenvolvido e avacalhado (porém, perigosíssimo), era justamente com sua ascensão ao poder. O poder desvirtua os fracos de caráter, os oportunistas e os traidores contumazes. A história nos deu esse presente - que tem o seu custo porque, afinal, como diria Guimarães Rosa, viver é perigoso.

Luta não é festa.

O nosso tecido de resistência e ação está mais do que dado: 2019 será o ano da reorganização profunda do nosso sistema partidário e da nossa cultura política - que será obrigada a se mover, sob o risco de ser aniquilada por um projeto de violência e arbítrio. Mas de nada vale a precisão, se os nossos corpos e mentes não estiverem devidamente alinhados com os nossos sonhos.

Luta não é prognóstico.

O show de horrores generalizado da posse de um fanático de extrema-direita é o estopim para fazer acordar, finalmente, a porção autodepreciada da população brasileira, deitada em pesadelo esplêndido desde a redemocratização. Óbvio que o que está por vir em termos de pacotes econômicos e de segurança será muito pior, o que só faz aumentar o sentimento de estelionato eleitoral como nunca antes na história infeliz deste país.

Luta não é marketing.

Os dados estão lançados. Ninguém poderia esperar que, depois de fazer a revolução mais inteligente da história das democracias - praticamente a eclosão de um novo país, com todas as suas dores do parto; afinal, foram 40 milhões de novos consumidores que emergiram quase que de maneira mágica e que agora voltaram às suas posições de extrema-pobreza -, Lula seria convocado para travar a luta mais delicada e extrema da nossa história: a resistência à boçalidade fanática e fascista. A história realmente gosta de quem luta e de quem sabe lutar.

Luta não é brincadeira.

É por isso que a frase "a luta está sempre só começando" não pode ser banalizada por preciosismos pequeno-burgueses. Ela é real, ela tem consistência semiótica (de um recomeço infinito), ela fura a agonia dos céticos, potenciais adesistas e potenciais vítimas do clima de covardia que se alastrou por boa parte das instituições brasileiras - com destaque para STF, o novo sinônimo, prestes à dicionarização, de pusilanimidade.

Luta não é jogo.

O Brasil é maior do que esse surto de párias sub intelectuais que ascenderam ao poder para brincar um pouquinho de dar ordens. É mais complexo, mais desafiador, mais vibrante, mais imprevisível. A imprevisibilidade da força democrática, que pode quebrar as sabotagens internas, é o doce gosto de viver perigosamente do lado certo da história.

Afinal, luta não é sangue. Luta é sentido.

Gustavo Conde

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