
O discurso do presidente Javier Milei no encerramento da Cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu foi uma previsível repetição de slogans anarcocapitalistas. A primeira impressão que se tem ao ler suas palavras é o quão distante Milei está do mundo da economia real. Ele está tão absorto em seus pronunciamentos pseudolibertários que não percebe nenhuma contradição entre sua diatribe contra o protecionismo e as tarifas e as políticas protecionistas e tarifas brutalmente altas praticadas por seu protetor, chefe, patrono ou como quer que se queira chamá-lo: Donald Trump.
Seu discurso ignora o fato de que os Estados Unidos sempre foram protecionistas, desde seu primeiro Secretário do Tesouro, Alexander Hamilton (1789), e que a era do livre comércio, que só começou após o fim da Segunda Guerra Mundial e culminou com o primeiro governo Trump, foi uma exceção na história do país, não a regra. Agora, com Trump 2.0, o país retornou ao protecionismo extremo e beligerante, algo que parece passar despercebido na Casa Rosada (o palácio presidencial argentino) e ainda menos na residência presidencial de Olivos. Ele também parece ter notado um fato básico, que até mesmo aqueles com um conhecimento básico de economia conhecem muito bem: que vários países da União Europeia juraram repetidamente que jamais assinariam um acordo de livre comércio com o Mercosul porque tal acordo arruinaria seus agricultores. Se as negociações com os europeus se arrastaram por vinte anos, não foi por inflexibilidade do Mercosul, mas sim pela recusa sistemática de alguns países europeus. E o que Milei apresenta como um grande fracasso ignora que as políticas do Mercosul impulsionaram a industrialização de seus membros, especialmente Argentina e Brasil, e promoveram um salto muito significativo no comércio intrazonal, passando de cerca de 4 bilhões de dólares no início da década de 1990, logo após a assinatura do tratado constitutivo em Assunção, para cerca de 46 bilhões em 2022.
Além desses precedentes, ignorados no discurso de Milei, seu ataque inflamado ao presidente Nicolás Maduro é impressionante, repetindo, como um aluno disciplinado de Donald Trump, as calúnias e mentiras de seu protetor. Acusações como a de "narcoterrorista" são completamente infundadas. O tão falado Cartel dos Sóis não apareceu em nenhum dos documentos oficiais publicados pela DEA nos últimos anos, mas Milei segue à risca o roteiro ditado por Washington. Toda essa farsa é bem conhecida pelos estudiosos do assunto. Intensas campanhas para demonizar aqueles rotulados como inimigos pelos Estados Unidos são um componente crucial da guerra cognitiva. Basta ver o que a Casa Branca disse no início do século contra Saddam Hussein ("fabricando armas de destruição em massa"), algo que foi negado pelos próprios inspetores da ONU. Resumindo, Milei deveria ser mais cauteloso e não mencionar a corda na casa do carrasco, porque se estamos falando de "traficantes de drogas", seu círculo próximo e seus representantes políticos não parecem ter uma "ficha limpa" que os isente de se enquadrarem nessa categoria.
A história da América Latina raramente registra os níveis de subserviência e bajulação demonstrados por Milei em seu discurso. Dizer que “a Argentina acolhe a pressão dos Estados Unidos e de Donald Trump para libertar o povo venezuelano” é uma mentira colossal. Ele não fala pela Argentina, mas por seus comparsas, que estão destruindo o país. Nos Estados Unidos, a intervenção militar é desaprovada por 63% dos eleitores, e, em nível latino-americano, pesquisas que incluem a Argentina mostram um índice de desaprovação próximo a 80%. Além disso, Milei fala de um “experimento autoritário” na Venezuela, apesar de ser de conhecimento público que ele, Milei, não acredita na democracia. Ademais, seu estilo de governar, repleto de insultos, coerção, desrespeito à separação de poderes, compra descarada de votos no Congresso, ataques ao jornalismo independente e repressão a protestos sociais pacíficos, pinta o retrato de um autocrata delirante que mente constantemente, assim como Trump. Pequenas e médias empresas, assim como grandes corporações, estão falindo, o desemprego está aumentando, os preços dos serviços estão subindo, salários e aposentadorias estão caindo e o consumo está despencando. Apesar de tudo isso, o milagroso argentino afirma que estamos melhor do que nunca. Certamente, outros países lhe pedirão a receita para alcançar esses sucessos econômicos. Em suma, nosso presidente dificilmente parece a pessoa mais qualificada para criticar Nicolás Maduro, Lula, Claudia Sheinbaum, Gustavo Petro ou Xiomara Castro. Seu modelo é o magnata nova-iorquino e, agora, nazista como José Antonio Kast, que não só vem de uma família identificada com o Terceiro Reich, como também é um dos mais fervorosos defensores da ditadura assassina de Pinochet. Sua alusão ao “reconhecimento internacional da coragem de María Corina Machado, Prêmio Nobel da Paz de 2025” ignora o fato de que, ao premiar uma defensora do extremismo e da violência política, uma advogada da invasão de seu próprio país, com a destruição e as mortes que tal ato acarreta, provocaram a condenação internacional do Comitê Nobel. Além disso, Julian Assange entrou com um processo contra a Fundação Nobel pela premiação de María Corina Machado, e em nosso próprio país, um verdadeiro laureado com o Nobel, Adolfo Pérez Esquivel, expressou a mesma opinião.
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