
Nicolás Maduro e Donald Trump (Foto: Reuters | Reprodução)
Começamos 2026 com a grave ameaça de uma intervenção militar dos EUA na Venezuel
brasil247.com/
Não há dúvida de que 2025 foi um ano bastante difícil, de rápido colapso da antiga ordem mundial “baseada em regras”, criada pelos EUA.
O segundo governo Trump se encarregou de destruí-la, colocando no lugar uma geoestratégia baseada no uso desabrido e cru da força. Força financeira e comercial, força geopolítica, força militar e força comunicacional, a força das Big Techs dos EUA.
A nova estratégia dos EUA, concebida, entre outros, pelos autores do Projeto 2025 da Heritage Foundation, por Elbridge A. Colby (neto do diretor da CIA da era Nixon, William E. Colby, e amigo de J.D. Vance desde 2015), por Dan Caldwell, por Marco Rubio etc. colocou nossa região, com o “corolário Trump da Doutrina Monroe”, no centro da grande disputa geopolítica mundial, tornando-a uma espécie fortaleza geográfica do Império.
Por isso, começamos 2026 com a grave ameaça de uma intervenção militar dos EUA na Venezuela. Provavelmente não uma invasão terrestre tout court, mas sim intervenções aéreas pontuais contra objetivos estratégicos, com a finalidade evidente de derrubar o regime de Maduro. De qualquer forma, um desastre para toda a região e para o protagonismo do Brasil.
Contudo, 2026 começa também com vários outros conflitos perigosos para todo o planeta.
O conflito no Oriente Médio (ou no Oeste da Ásia, como preferem alguns) continua e pode se agravar rapidamente. O morticínio em Gaza persiste, embora tenha arrefecido um pouco. Líbano e Irã continuam com ameaça de intervenções, por parte do governo de Netanyahu e dos EUA.
O Irã, em particular, que atravessa uma conjuntura econômica de inflação (principalmente de alimentos), ocasionada, em grande parte, pelas pressões econômicas das inúmeras sanções a que está submetido, e por período de seca prolongada, acabou de ser ameaçado diretamente de intervenção militar por Trump.
O Irã, recorde-se, por ter pouca terra arável e água, importa muitos alimentos. Só as importações de cereais respondem por quase 30% do total das importações iranianas. No entanto, se o Irã não estivesse submetido a tantas sanções, poderia lidar com essa restrição com facilidade, dado ao fato de ter reservas abundantes de petróleo e gás.
A Síria, por sua vez, continua conflituosa, dividida e problemática, governada por um ex-membro da Al-Qaeda, apoiado pelo hipócrita Ocidente.
No Pacífico, as tensões relativas à “política de contenção à China” de Trump, que inclui o maldisfarçado incentivo ao separatismo de Taiwan, ponto extremamente sensível e inegociável para Beijing, estão se avolumando, de forma extremamente perigosa. A nova classe de super encouraçados que Trump pretende construir está sendo pensada para projetar o poder imperial naval estadunidense no Pacífico.
Não obstante, o conflito atual mais perigoso, com potencial evidente de se expandir pela Eurásia e de, inclusive, se nuclearizar, é o da Ucrânia.
Tudo porque Zelensky (um “idiota”, segundo o próprio Trump) e a fraca Europa se recusam a reconhecer o fato básico, irreversível, de que a guerra está perdida para Kiev.
Até Elbridge A. Colby já vinha dizendo, bem antes do segundo governo Trump começar, que o dinheiro que os EUA estavam gastando na Ucrânia seria “muito mais bem empregado no Pacífico”, para conter a China, um objetivo geopoliticamente mais importante. Ademais, desde aquela época, sabia-se que a maior parte do dinheiro da ajuda era desviado pela corrupção.
Desde o início do segundo governo Trump, que a estratégia do EUA têm sido, com algumas dissensões na CIA e entre alguns militares, a de pressionar Zelensky (um “motherfucker”, de acordo com Trump) a desistir de sua luta perdida.
Isso ficou claro quando o Grupo de Contato de Defesa da Ucrânia, uma aliança europeia que apoia o esforço de guerra, reuniu-se em Bruxelas em fevereiro de 2025.
Já naquela ocasião, conforme o NYT, Hegseth, o Secretário de Defesa (ou da Guerra, como queiram), expôs as posições do governo Trump sobre esse conflito.
“Devemos começar reconhecendo que retornar às fronteiras da Ucrânia anteriores a 2014 é um objetivo irrealista”, começou dizendo Hegseth, para surpresa dos europeus.
Em seguida, afirmou: “os Estados Unidos não acreditam que a adesão da Ucrânia à Otan seja um resultado realista de um acordo negociado.”
Por fim, Hegseth, segundo testemunhas, teria também dito que “as tropas americanas não se juntariam a uma força de paz, após um acordo para encerrar a guerra”.
Enfim, os EUA de Trump não continuariam a apoiar os esforços irrealistas de Zelensky e da Europa.
Boris Pistorius, o Ministro da Defesa da Alemanha, teria reagido de forma furiosa, segundo as testemunhas consultadas pelo “The NYT”.
“Não acho sensato descartar a adesão da Ucrânia à Otan e fazer concessões territoriais aos russos antes mesmo do início das negociações”, afirmou, iracundo, o Ministro da Defesa, Boris Pistorius.
Em vão. A posição dos EUA foi mantida.
Ainda segundo o The New York Times, houve uma reunião entre estadunidenses e ucranianos em Jeddah, Arábia Saudita, em março de 2025.
Marco Rubio, nessa ocasião, teria estendido um grande mapa da Ucrânia sobre uma mesa. O mapa mostrava a linha de contato entre os dois exércitos — a linha que divide o país entre os territórios controlados pela Ucrânia e pela Rússia.
“Quero saber quais são suas condições mínimas; o que vocês precisam para sobreviver como país?”, teria perguntado Rubio aos ucranianos.
Mike Waltz, então Conselheiro para Segurança Nacional de Trump, teria entregado a Rustem Umerov, o Ministro da Defesa da Ucrânia, um marcador azul escuro e dito: “Comece a desenhar”.
Umerov, ainda segundo as testemunhas consultadas pelo The New York Times, “traçou a fronteira norte da Ucrânia com a Rússia e a Bielorrússia, depois seguiu a linha de contato através das regiões de Kharkiv, Luhansk, Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson”.
“Em seguida, circulou a usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa. De acordo com uma autoridade ucraniana, o Sr. Umerov alertou que os ocupantes russos estavam deixando de fazer a manutenção da usina, arriscando um “desastre nuclear”. A Ucrânia queria recuperá-la”.
Por último, “ele apontou para Kinburn Spit, uma faixa de praia e prado salgado que se projeta no Mar Negro. Recuperar o controle da faixa, explicou ele, permitiria que os navios ucranianos entrassem e saíssem dos estaleiros de Mykolaiv.”
Em outras palavras, os ucranianos bem sabiam, desde aquela época, que para negociar a paz, teriam de estar dispostos a renunciar a cerca de, pelo menos, 20% do seu antigo território e de desistirem também de entrar para a Otan.
De lá para cá, essas condições, que enfraquecem a posição de Zelensky e dos seus apoiadores europeus, não se alteraram, em substância. Na realidade, se tornaram até mais rígidas, em alguns casos. O domínio de todo o Donbass por Moscou, mesmo as áreas que ainda não foram ainda conquistados pelos russos, já teria sido aceito como fato, pelos EUA.
E, à medida que o tempo passa, a Rússia vai avançando sobre o território ucraniano e os exércitos ucranianos sofrem mais perdas, que não podem mais ser repostas. O tempo joga contra a Ucrânia.
Zelensky e a Europa, que tem delírios sobre a suposta vontade de Putin de estabelecer um domínio sobre todo o continente, numa tentativa de reerguer o “antigo Império Russo”, estão desesperados.
A tentativa de assassinar Putin com um enxame de drones demonstra isso. Saliente-se que, em 2023, houve um outro ataque de drones contra a residência de Putin no Kremlin.
A resposta de Putin foi implacável: a Rússia ativou o sistema de mísseis hipersônicos Oreshnik em Belarus, os quais têm capacidade nuclear. A Europa simplesmente não tem como se defender de um ataque desses mísseis.
A teimosia no impasse está levando o mundo a uma maior proximidade de um conflito mais intenso e extenso. Um conflito que poderia ter consequências imprevisíveis.
Poderia, inclusive, no limite, abrir passo para uma nova guerra mundial.
Manter Zelensky e seu governo corrupto, bem como ceder aos delírios europeus, não vale um risco como esse.
Mas o fato mais amplo e definitivo é o de que o cenário de 2026 começa com um colapso evidente da antiga Ordem Ocidental.
Uma ordem mundial estável só poderá ser reconstruída, a partir do Sul Global e da refundação das instituições multilaterais, com base nos interesses da maioria da humanidade.
Do Império estadunidense, só se pode esperar força bruta desgovernada, agressões e protecionismo brutal, sob a batuta disruptiva, caótica, contraditória e ignorante do novo Nero. Da Europa, fluem delírios paranoicos, fraqueza, sonhos saudosos de antiga glória e a pretensão de uma suposta superioridade ética e civilizacional.
De onde menos se espera, daí que não sairá nada mesmo.
Os adultos na sala estão no sul geopolítico.
Comentários
Postar um comentário
12