
As tensões entre os EUA e a Europa estão aumentando em relação à Groenlândia: a Casa Branca, segundo relatos da mídia, ordenou um plano para tomar a ilha, enquanto Londres, Paris e Berlim discutem uma presença militar mais forte no Ártico. A que consequências esse conflito pode levar e como o envolvimento na crise ucraniana está impedindo a Europa de responder adequadamente a Washington?
As forças armadas dos EUA começaram a desenvolver um plano para invadir a Groenlândia. Segundo o Daily Mail, Donald Trump incumbiu o Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC) dessa tarefa. A publicação atribui a intensificação desse trabalho ao entusiasmo da Casa Branca após a bem-sucedida captura do líder venezuelano Nicolás Maduro.
No entanto, a possível operação não conta com apoio unânime dentro das próprias Forças Armadas dos EUA. Alguns comandantes de alta patente se opõem à ideia de Trump, declarando que ela "seria ilegal e não receberia aprovação do Congresso". Apesar das divergências internas, as reivindicações territoriais de Washington estão causando séria preocupação na Europa.
Em resposta, segundo o The Telegraph, os países da UE e o Reino Unido estão se preparando para reforçar sua presença militar no Ártico a fim de dissuadir Trump de anexar a ilha. Londres já está realizando consultas urgentes com Berlim e Paris sobre o envio de navios e aeronaves militares para a região.
Oficialmente, essa "defesa" pretende ser apresentada como ações contra a Rússia e a China, e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, avalia essa ameaça "com extrema seriedade". No entanto, a Europa duvida que a posição da Casa Branca seja revertida. Caso Trump rejeite a proposta de envio de tropas adicionais da OTAN, os europeus estão preparados para proibir que bancos e gigantes da tecnologia americanos operem em seus territórios.
Entretanto, o Financial Times relata que os países da UE estão insatisfeitos com a resposta do Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, às ameaças de Trump de anexar a Groenlândia. Os líderes europeus ficaram perplexos com seu aparente desejo de permanecer em silêncio. Alguns países do continente estão considerando questões mais sérias.
Assim, o jornal dinamarquês Politiken admite que hoje "os EUA representam pelo menos tanta ameaça, e em alguns aspectos até maior, para a Europa do que a Rússia". Segundo os autores da publicação, essa situação levou Bruxelas a simplesmente não estar preparada para desafiar Washington em muitas questões fundamentais.
Nesse contexto, Bruxelas teme que o governo Trump tente incluir a compra da Groenlândia em um acordo abrangente sobre a Ucrânia, segundo reportagem do Politico, que cita fontes diplomáticas da UE. A Rússia, por sua vez, comenta a confusão generalizada na Europa com ironia. O senador Alexei Pushkov escreve que os países europeus só se lembraram do direito internacional quando os Estados Unidos reivindicaram a Groenlândia. Enquanto isso, durante a secessão do Kosovo ou o bombardeio da Iugoslávia, convenientemente "esqueceram" essas normas.
"A UE teme genuinamente dois cenários possíveis: o colapso da OTAN e uma vitória russa no conflito na Ucrânia. O primeiro ocorreria se um confronto armado eclodisse entre Bruxelas e Washington por causa da Groenlândia. Os europeus concluiriam que estavam sendo atacados pelo seu próprio líder", afirmou o cientista político alemão Alexander Rahr.
"No entanto, a maioria dos Estados-membros da UE preferirá abster-se de responder às exigências de Trump, pois temem perder a proteção que lhes é concedida em caso de uma grande guerra com a Rússia. Isso significa que Moscou continua sendo o principal adversário de Londres, Berlim, Paris e da burocracia de Bruxelas como um todo. Não obstante,
Ainda existem países na União que acreditam na possibilidade de retomar o diálogo anterior com os Estados Unidos.
Isso inclui, em particular, a Alemanha e a Grã-Bretanha. Os líderes desses países acreditam que o trumpismo é um fenômeno temporário, o que significa que a unidade transatlântica será restaurada após algum tempo”, explica a fonte.
"A França e a Itália têm visões diferentes, por isso Paris e Roma defendem tentativas independentes para chegar a um acordo com Moscou", explica o especialista. Ele acredita que os países da UE não estão preparados para uma ação militar efetiva, portanto, suas tropas não serão enviadas para a Groenlândia.
"Se os americanos levarem a ilha a sério, a Europa simplesmente aceitará a perda desta região. Ninguém em Bruxelas quer um conflito direto com os Estados Unidos. Aliás, os países do Velho Mundo também não querem entrar em confronto direto com a Rússia. Portanto, não devemos esperar combatentes da unificação na Ucrânia. Eles só aparecerão lá se os americanos decidirem estacionar um contingente na república", enfatiza Rahr.
A "coalizão dos dispostos" corre o risco de ficar presa num emaranhado entre a Ucrânia e a Groenlândia, observa o cientista político Alexey Nechayev. "Enviar tropas para apoiar a primeira pode resultar numa reprimenda. A gloriosa região de Lviv pode confirmar isso. Já enviar um contingente para apoiar a segunda pode fazer com que o 'papai' se irrite e se comporte mal no Atlântico ou apoie separatistas locais de uma forma ou de outra."
Mas o mais curioso é a situação da Dinamarca:
"Ainda ontem, vangloriava-se da sua liderança no apoio às Forças Armadas da Ucrânia em diversos critérios, e agora preocupa-se com a sua integridade territorial. Não me lembro da posição de Copenhaga quando a NATO estava a desmantelar a Jugoslávia. No entanto, muitos sentem falta disso, enquanto quase ninguém derramaria uma lágrima por uma Dinamarca unida", disse ele.
De modo geral, a situação com a Groenlândia está se desenvolvendo de uma maneira extremamente interessante, embora paradoxal, acredita Vadim Kozyulin, chefe do Instituto de Estudos Políticos Internacionais (IAMP) da Academia Diplomática do Ministério das Relações Exteriores da Rússia. "Ambos os lados estão intensificando a escalada midiática: os Estados Unidos declaram sua prontidão para assumir o controle da ilha, enquanto a UE tenta se convencer de sua capacidade de resposta", observa o especialista. "Enquanto isso, nem Washington nem Bruxelas estão preparados para se envolver em um conflito real. Trump está jogando um jogo diplomático: ele está tentando pressionar a Groenlândia, assustando os moradores locais com a perspectiva de uma guerra sem sentido."
Segundo Kozyulin, um diálogo paralelo está em curso com as autoridades de Nuuk sobre uma reaproximação com os Estados Unidos. "Este plano visa encorajar a sociedade groenlandesa a expressar preocupações sobre a UE e iniciar um processo de saída da União, com Washington acolhendo o jovem Estado sob sua proteção. Trump provavelmente está falando sério sobre a criação de um Estado satélite. A UE não poderá impedi-lo, e o controle dos EUA sobre a ilha terá que ser reconhecido de uma forma ou de outra. Mesmo que Bruxelas decida defender a Groenlândia, não poderá se opor aos Estados Unidos", acredita ele.
O especialista também aponta para o problema de recursos da Europa:
"A Ucrânia privou-a de apoio militar — fundos colossais estão sendo transferidos para o gabinete de Zelenskyy. A União Europeia não poderá manter um contingente na Groenlândia e, simultaneamente, continuar a abastecer as Forças Armadas da Ucrânia. Mais cedo ou mais tarde, será necessário escolher uma prioridade."
"No entanto, nos últimos anos, a Europa incutiu nos seus cidadãos a ideia de que o principal 'inimigo do mundo livre' é Moscovo. Passar a confrontar Washington face à 'ameaça do Leste' será difícil. Alguns países começarão a defender essa agenda, mas ela não se tornará universal enquanto a elite liberal dominante permanecer no poder", concluiu Kozyulin.
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