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Estamos na fase "Família Soprano" do imperialismo.

O ataque à Venezuela sinaliza uma mudança da hegemonia e da aquiescência para um imperialismo ao estilo dos Sopranos: um poder mafioso que não pede desculpas. (Molly Riley / The White House via Getty Images)

TRADUÇÃO: PEDRO PERUCCA

O ataque contra a Venezuela marca a chegada da era Soprano do imperialismo: a transformação da hegemonia estadunidense em extorsão descarada. Como na máfia, no fim das contas, os acordos podem ser quebrados à força.

 No primeiro episódio de Os Sopranos, Tony Soprano confessa à sua nova psicóloga, Dra. Jennifer Melfi, a quem consulta após sofrer um ataque de pânico, que "é bom estar envolvido em algo desde o início. Entrei nisso tarde demais, e sei disso. Mas ultimamente tenho a sensação de que cheguei por último. O melhor já passou." Embora o chefe da máfia de Nova Jersey esteja se referindo à máfia propriamente dita, a frase também funciona como uma metáfora para as ansiedades de um poder imperial americano em declínio, em um mundo onde sua hegemonia está claramente diminuindo. A ascensão, queda e retorno ao poder de Donald Trump são amplamente explicados por essa ansiedade, em suas diversas formas, assim como o estilo extorsivo de sua presidência neste segundo mandato. Nada ilustra isso melhor do que o recente sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

O episódio está longe de ser inédito. Desde 1989, os Estados Unidos sequestraram três presidentes em exercício, começando com a traição de George H.W. "Pappy" Bush ao seu antigo parceiro no tráfico de drogas contrarrevolucionário, Manuel Noriega, e continuando com o sequestro, por George W. "Dubya" Bush, do presidente democraticamente eleito do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, em 2004. Noriega foi deixado para definhar em uma cela de prisão americana, enquanto Aristide acabou recebendo asilo na África do Sul. Nos próximos meses, veremos se as justificativas patéticas para a remoção de Maduro do poder terão algum peso em um tribunal americano, embora haja poucos motivos para esperar um julgamento imparcial.

O que distingue a Venezuela é que ela não é um pequeno Estado dependente dos EUA, como o Panamá e o Haiti. Ela foi tratada como um dos inimigos oficiais de Washington, um alvo desde que Hugo Chávez chegou ao poder. Além disso, é um país grande, com uma população de 28 milhões de habitantes e forças armadas que, pelo menos em teoria, poderiam infligir danos significativos em caso de invasão.

O espetáculo da operação não apenas marcou o fim definitivo de qualquer noção remanescente de uma ordem internacional baseada na soberania estatal e no direito internacional; também sinalizou, como argumentei há alguns meses, “um retorno a uma concepção de soberania fundada na ideia de que ‘os fortes fazem o que querem’”. A afirmação de Trump de que os Estados Unidos, na prática, governam a Venezuela, coerente com sua guinada em direção à forma mais grosseira de imperialismo de recursos, fornece mais evidências nesse sentido. Diante da névoa da guerra, da arrogância desenfreada da máquina de propaganda MAGA e da dificuldade em avaliar as informações provenientes da Venezuela, qualquer avaliação confiável do futuro da política venezuelana ou do chavismo é prematura.

Hierarquia

Nesse sentido, o ataque contra a Venezuela marca a chegada da fase "Sopranos" do imperialismo: a transformação da hegemonia estadunidense em extorsão descarada, como argumentei na Jacobin em outubro passado:

A simplicidade da justificativa para uma guerra com a Venezuela reflete tanto o declínio do poder brando americano, particularmente após o desmantelamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), quanto a convicção do governo Trump de que não precisa mais empregar os mesmos esforços de propaganda de guerras anteriores. O Congresso faz o que lhe mandam, e o público não precisa mais ser convencido previamente; hoje, a opinião pública pode ser manipulada posteriormente por algoritmos.

O fato de Trump ter realizado uma operação bem-sucedida contra a Venezuela sem consultar o Congresso, baseado nas suposições mais preguiçosas e mentirosas dos últimos tempos, reforça ainda mais esse ponto:

Para os Estados Unidos, soberania agora significa o direito do soberano, Donald J. Trump, de exercer qualquer força, econômica ou militar, que ele julgue necessária com base no que ele dita como sendo o interesse do país: desde sancionar o Brasil por ousar processar um ex-presidente por tentativa de golpe até matar aqueles que provavelmente eram pescadores venezuelanos para dar a impressão de combater o narcotráfico.

Durante uma conversa telefônica grampeada, o subchefe da família Gambino, Aniello “Neil” Dellacroce, gritou para o futuro chefe John Gotti, então apenas um capo, e para o soldado Angelo “Quack Quack” Ruggiero que “La Cosa Nostra significa que o chefe é seu chefe”. A lição é simples: você fará o que lhe mandarem porque é assim que as coisas funcionam na Máfia. Ao contrário da família Gambino, porém, Trump não comanda algumas centenas de soldados. Ele comanda a máquina militar mais poderosa da história, que pode ser mobilizada para extorquir o mundo.

O escritor John Ganz traçou um paralelo útil entre o apelo populista de Gotti nos subúrbios e a ascensão política meteórica de Trump em seu livro When the Clock Broke. Na visão de Ganz, "Trump também, por muito tempo, considerou o papel de capo di tutti capi como uma aspiração".

Proteção como extorsão

Oataque à Venezuela demonstra que Trump, com Mar-a-Lago funcionando como o Bada Bing de sua administração, estabeleceu, em linhas gerais, o mesmo princípio em termos de soberania americana. Trump decide sozinho como o Estado deve agir e não precisa consultar ninguém. Como ele disse ao New York Times quando questionado se havia limites para seu poder internacional: “Sim, há uma coisa. Minha própria moral. Minha própria mente. Essa é a única coisa que pode me conter.”

O que Trump e seus comparsas, Stephen Miller e Marco Rubio, extraem disso é que podem e irão praticar extorsão imperial sem enfrentar qualquer censura do Congresso ou restrições políticas internas. O fato de a União Europeia e a OTAN, com a notável exceção da Espanha, terem efetivamente apoiado a operação, juntamente com o que resta da comunidade internacional na forma do Comitê do Prêmio Nobel da Paz, apenas reforça essa lição. Portanto, podemos esperar mais atos de agressão aberta na América Latina, provavelmente contra o México, a Colômbia, Cuba, a Nicarágua e outros países. O risco aumenta à medida que os índices de aprovação de Trump caem internamente, em meio à ocupação de cidades pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), à defesa, pelo regime e seus apoiadores, de uma agência federal que executou um cidadão americano e a uma série de aumentos acentuados no custo de vida.

Dada essa trajetória, é provavelmente apenas uma questão de tempo até que os Estados Unidos avancem sobre a Groenlândia, mais uma expressão da fase Soprano do imperialismo. A transformação do império americano, de uma hegemonia capaz de oferecer proteção legítima a seus aliados após a devastação da Segunda Guerra Mundial, a um preço tolerável, em uma mera rede de extorsão que mantém sua posição por meio da força militar em um contexto de declínio econômico, foi descrita por Giovanni Arrighi na New Left Review já em 2005: “Após uma década de crise crescente, o governo Reagan iniciou a transformação da proteção legítima em uma rede de proteção mafiosa”.

A fraqueza só encoraja aqueles no poder a apertarem ainda mais o cerco. Apesar do suposto código de honra, tanto os mafiosos fictícios de Os Sopranos — de Tony assassinando Chrissy a Paulie “Walnuts” Gualtieri vazando segredos para Nova York — quanto seus equivalentes na vida real provaram estar mais do que dispostos a trair seus aliados na primeira oportunidade, em busca de ganhos de curto prazo, autopreservação e pura arrogância. Em última análise, o que a Dinamarca e a Europa podem fazer a respeito? Até agora, a Europa apenas reforçou sua posição de vassalo extorquido. Trump foi bastante explícito sobre isso quando se gabou na Fox News: “Temos que fazer isso de novo. E podemos fazer isso de novo. Ninguém pode nos parar.”

Miami é a capital do futuro.

Oataque à Venezuela também serviu como o sinal mais claro até o momento do retorno da Doutrina Monroe, entendida aqui como o direito exclusivo dos Estados Unidos de extorquir o Hemisfério Ocidental. Ao fazer isso, uniu tanto a ala anticomunista fervorosa de Rubio dentro do MAGA quanto a ala nacionalista branca "América Primeiro" de Miller em torno de uma agenda compartilhada. Como escreveu Greg Grandin no Financial Times:

O slogan "América Primeiro" é frequentemente mal interpretado como isolacionista. Mas nunca o foi, visto que seus defensores mais fervorosos sempre celebraram a projeção do poder americano no Hemisfério Ocidental. É mais apropriado descrevê-lo como antiuniversalista: um nacionalismo tribal que rejeita o fardo da tutela global, enquanto se apega ferozmente à supremacia regional. A Doutrina Monroe ocupa um lugar especial nessa visão de mundo porque, na forma que assume sob Trump, promete uma dominação descomplicada. Invocando Monroe, os representantes de Trump demarcaram uma área do globo onde os Estados Unidos não precisam persuadir, integrar ou universalizar, mas apenas governar, por decreto.

O entusiasmo de Miller pela Doutrina Monroe se explica em grande parte pelo fato de que 

A guerra contra os narcoterroristas no exterior servirá cada vez mais — e de fato já serve — como justificativa para intensificar a repressão interna, enquanto o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) e a Guarda Nacional ocupam e aterrorizam grandes cidades e o governo Trump tenta fabricar uma ameaça terrorista de esquerda que lhe permita usar os poderes do governo federal contra toda a esquerda. “Neste momento, a Venezuela não está sendo tratada como uma questão de política externa”, disse Carrie Filipetti, que liderou a política para a Venezuela no Departamento de Estado durante o primeiro mandato de Trump. “Está sendo tratada como uma questão de segurança nacional, e com razão.”

Nesse contexto, o futuro imediato da América Latina parece sombrio e incerto. Miami, cidade construída por narcotraficantes contrarrevolucionários patrocinados pela CIA (incluindo a família Rubio) e hoje um refúgio para golpistas de criptomoedas, influenciadores de apostas esportivas , modelos do OnlyFans, streamers e outros diversos remanescentes da base MAGA, tornou-se efetivamente a nova capital do império estadunidense. Apoiada pelos setores mais reacionários das classes dominantes latino-americanas, o sul da Flórida agora funciona como um centro de coordenação para a elite reacionária hemisférica. Como disse o candidato presidencial colombiano de esquerda Iván Cepeda à revista Jacobin:

Miami e a Flórida se tornaram um centro da política internacional, coordenando os esforços da extrema-direita hemisférica. Por trás disso, estão poderosos conglomerados econômicos que recorrem a todos os tipos de métodos. Ao contrário da política praticada pela esquerda, as táticas sujas são comuns entre a extrema-direita. Essa ofensiva estratégica no continente desempenha um papel fundamental. Há também um fortalecimento da esquerda em certos países e mobilizações sociais em todo o continente.

O sul da Flórida também aparece em Os Sopranos como um destino para reinvenção e fuga. É para lá que Junior Soprano vai em busca de romance, onde Little Carmine sonha com uma carreira cinematográfica legítima e onde Tony e Paulie se escondem. Por quase um século, representou a fantasia mafiosa de uma vida fácil, longe do frio e da sujeira da Costa Leste e de Chicago. Adaptar-se ao estágio de imperialismo de Os Sopranos envolve reconhecer essa mudança de poder e o fato incontestável de que a única coisa que um gangster respeita é a força. Como María Corina Machado, entre outros, pode atestar, os afetos e os acordos de Trump sempre podem ser quebrados, às vezes sob a mira de uma arma.

BENJAMIN FOGEL
Historiador, ele contribui regularmente para as revistas Africa is a Country e Jacobin Magazine.

Chave: 61993185299


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