
Presidente Lula durante entrevista coletiva à imprensa (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Os desafios do Brasil em 2026 diante do colapso da ordem internacional, da ofensiva imperial e da guerra híbrida contra a democracia
Reynaldo José Aragon Gonçalves
brasil247.com/
O sistema internacional entrou em uma fase que já não pode ser descrita como crise passageira, transição controlada ou simples rearranjo de poder. O que se observa, com crescente nitidez, é o colapso do mecanismo que por décadas sustentou a ordem global: o consenso. Quando o consenso deixa de ser possível, a hegemonia não desaparece. Ela muda de método. Em vez de persuadir, passa a coagir. Em vez de integrar, passa a punir. Em vez de estabilizar, passa a administrar o caos.
É esse deslocamento — do consenso para a coerção — que define o momento histórico atual. E é a partir dele que todos os desafios do Brasil em 2026 precisam ser compreendidos.
Durante a fase de hegemonia estabilizada, as regras internacionais funcionavam porque eram úteis à maioria dos atores relevantes, ou ao menos toleráveis. Tratados, organismos multilaterais, normas jurídicas e arranjos diplomáticos operavam como amortecedores de conflito. O custo de violar as regras era maior do que o custo de cumpri-las. Esse equilíbrio começou a ruir quando a capacidade de liderar pelo exemplo foi substituída pela necessidade de impor pela força.
Hoje, o que se vê não é o desaparecimento das regras, mas a sua aplicação seletiva. O direito internacional não é revogado; ele é relativizado. A legalidade não é negada; ela é reinterpretada conforme a conveniência do poder. A exceção deixa de ser exceção e passa a funcionar como método recorrente de governo global. É nesse terreno instável que a política internacional passa a operar.
A captura desse movimento exige atenção a um ponto central: a coerção contemporânea não se apresenta, na maioria das vezes, como guerra declarada. Ela se manifesta por meio de sanções econômicas, bloqueios financeiros, isolamento diplomático, operações jurídicas extraterritoriais, intervenções “cirúrgicas”, pressões informacionais e enquadramentos morais. A força é exercida, mas raramente nomeada como tal. O objetivo não é apenas derrotar adversários, mas produzir exemplos — demonstrar o custo da dissidência e disciplinar o sistema pela via do medo.
Nesse contexto, a violação das regras não é um desvio. É um teste. Cada ação excepcional mede a capacidade de reação do sistema, o grau de tolerância dos demais atores e o risco real de retaliação. Quando a resposta é fraca ou fragmentada, a exceção se consolida. Quando a reação é forte e coordenada, o avanço é contido. O mundo atual é, essencialmente, um laboratório contínuo de testes de limite.
É por isso que determinados episódios recentes não podem ser lidos como eventos isolados ou crises regionais. Eles são ensaios. São demonstrações de força política, jurídica e simbólica destinadas a redefinir o que é aceitável na prática internacional. O precedente, mais do que o resultado imediato, é o verdadeiro objetivo. Uma vez criado, ele passa a existir como possibilidade permanente, pronto para ser reativado em outros contextos, contra outros atores.
A erosão do consenso também altera profundamente a função dos organismos multilaterais. Instituições que deveriam operar como instâncias de mediação passam a funcionar como arenas de disputa narrativa. Resoluções são bloqueadas, princípios são invocados seletivamente, e o vocabulário jurídico é instrumentalizado para legitimar ações que, em outro contexto histórico, seriam consideradas inaceitáveis. O multilateralismo não desaparece, mas é esvaziado de sua função estabilizadora.
Esse processo tem uma consequência direta e muitas vezes subestimada: a revalorização da soberania. Quando as regras deixam de proteger de forma previsível, os Estados passam a depender cada vez mais de sua capacidade própria de defesa — política, econômica, informacional e institucional. A soberania deixa de ser um conceito abstrato ou retórico e volta a ser uma condição material de sobrevivência. Não por nacionalismo, mas por necessidade.
É nesse ponto que a disputa global se conecta diretamente aos países do Sul Global. Em um sistema baseado na coerção seletiva, Estados com menor poder militar ou financeiro tornam-se alvos preferenciais de experimentação. São territórios onde o custo político da exceção é menor e onde a reação internacional tende a ser mais fragmentada. A história recente mostra que esses países não são apenas vítimas colaterais da desordem global; eles são campos de teste ativos da nova lógica de poder.
A América Latina, em particular, volta a ocupar um lugar sensível nesse tabuleiro. Não por instabilidade intrínseca, mas por sua posição estratégica, seus recursos naturais, sua relevância energética e sua capacidade de articulação política autônoma. Quando a coerção substitui o consenso, regiões antes tratadas como periféricas passam a ser observadas com atenção redobrada. Não para integração, mas para contenção.
O que emerge desse cenário é uma ordem internacional menos previsível, mais volátil e estruturalmente mais violenta — ainda que muitas vezes essa violência seja exercida de forma indireta, simbólica ou econômica. O risco central deixa de ser a guerra aberta entre grandes potências e passa a ser a normalização de conflitos assimétricos, operações híbridas e estados permanentes de exceção.
É nesse mundo — um mundo onde as regras já não garantem proteção e onde a exceção virou método — que o Brasil entra em 2026. Não como observador distante, mas como ator inserido em uma disputa global que redefine os limites da democracia, da soberania e da autonomia política. Entender essa transformação não é exercício teórico. É condição básica para compreender por que o Brasil se tornou alvo, por que determinadas pressões se intensificam e por que as escolhas feitas a partir de agora terão efeitos muito além do calendário eleitoral.
O Brasil no centro do tabuleiro: por que a soberania voltou a ser intolerável
O Brasil não entrou no centro do tabuleiro global por acidente, tampouco por voluntarismo ideológico. Sua centralidade atual é produto direto de uma mudança material no sistema internacional e de uma escolha política concreta: a recusa em aceitar a condição de país funcionalmente subordinado em um mundo que voltou a operar por hierarquias duras. Quando o consenso colapsa e a coerção assume o comando, a soberania deixa de ser tolerável. Ela passa a ser um problema a ser neutralizado.
Durante décadas, o Brasil foi percebido como uma potência potencialmente relevante, mas politicamente previsível. Mesmo quando buscava maior autonomia, o fazia dentro de margens consideradas administráveis pelas grandes potências. Esse quadro se altera quando o país retoma uma política externa ativa, reposiciona-se no Sul Global, articula alternativas multilaterais fora do eixo atlântico e passa a tratar temas sensíveis — tecnologia, dados, energia, regulação e desenvolvimento — como questões de Estado, e não como variáveis de mercado.
Essa inflexão não transforma o Brasil em potência hegemônica, mas o retira da zona de conforto do sistema. Ele deixa de ser um ator passivo, reativo ou facilmente enquadrável. Passa a ser um ator que escolhe, negocia, resiste e, sobretudo, propõe. Em um mundo baseado na coerção, essa postura não é vista como legítima autonomia, mas como desvio. E desvios, nesse contexto, precisam ser corrigidos.
O incômodo não está em um gesto isolado, mas no conjunto. A reativação de alianças no Sul Global, a defesa explícita do multilateralismo, a valorização de mecanismos alternativos de financiamento e cooperação, a recusa em alinhar automaticamente a política externa a agendas de confrontação e a insistência em regular setores estratégicos da economia criam uma combinação particularmente sensível. O Brasil passa a operar fora do script esperado para uma potência média periférica.
Esse deslocamento se torna ainda mais relevante quando associado à figura de Lula. Não por carisma ou simbolismo abstrato, mas por capacidade concreta de articulação. Lula não representa apenas um governo nacional; ele encarna uma memória política de soberania possível, desenvolvimento com inclusão e autonomia negociada. Em um sistema internacional em regressão, essa memória é perigosa. Ela lembra que alternativas existiram — e podem voltar a existir.
É por isso que o Brasil não é tratado apenas como mais um país em disputa eleitoral. Ele passa a ser observado como um nó estratégico. Um país com peso demográfico, território, recursos naturais, capacidade industrial, centralidade energética e influência diplomática suficiente para afetar equilíbrios regionais e globais. Quando esse país decide não operar sob tutela, ele se torna alvo de pressão.
Essa pressão raramente se apresenta de forma explícita. Não há declarações abertas de hostilidade nem rupturas formais imediatas. O método é outro. A coerção contemporânea atua por acúmulo: instabilidade narrativa, questionamentos institucionais, ruído econômico, desgaste reputacional e crises sucessivas que, isoladamente, parecem administráveis, mas que, em conjunto, produzem exaustão. O objetivo não é derrubar o Estado, mas reduzir sua margem de manobra.
Nesse processo, a soberania passa a ser reinterpretada como obstáculo. O exercício autônomo da política externa é tratado como irresponsabilidade. A defesa da indústria nacional é enquadrada como protecionismo anacrônico. A regulação de plataformas digitais é apresentada como censura. A política social é acusada de desequilíbrio fiscal. A recusa em alinhar-se a conflitos externos é rotulada como ambiguidade moral. Cada gesto soberano recebe um rótulo negativo, cuidadosamente escolhido para corroer sua legitimidade.
O que se constrói é uma narrativa de intolerância à autonomia. Não se contesta apenas decisões específicas; contesta-se o direito de decidir. O Brasil é pressionado a justificar permanentemente suas escolhas, enquanto atores mais poderosos exercem exceções sem explicação. A assimetria não é jurídica; é política. E ela se manifesta na forma como crises são amplificadas, erros são superdimensionados e ambiguidades são exploradas.
Essa lógica ajuda a compreender por que determinadas questões ganham centralidade desproporcional no debate público. Não se trata apenas de fiscalizar ou criticar, mas de produzir um ambiente de suspeição contínua. Instituições são tensionadas, políticas são deslegitimadas antes de serem avaliadas e o governo é mantido em estado permanente de reação. A soberania, nesse contexto, não é atacada frontalmente; ela é desgastada até parecer inviável.
A centralidade do Brasil também decorre de sua posição estratégica na disputa tecnológica e informacional. Dados, infraestrutura digital, plataformas e inteligência artificial deixaram de ser setores econômicos comuns e passaram a integrar o núcleo duro da soberania contemporânea. Um país que pretende regular esse campo, proteger seus dados e definir seus próprios parâmetros de governança desafia interesses profundamente enraizados. Não por discurso, mas por prática.
Ao se posicionar nesse terreno, o Brasil toca em um dos nervos centrais da ordem atual. A economia digital é um dos poucos espaços onde o poder ainda se concentra de forma altamente assimétrica. Questionar essa assimetria é questionar a arquitetura de dominação do século XXI. É por isso que a reação tende a ser intensa, difusa e coordenada, mesmo quando não parece organizada.
O resultado desse conjunto de fatores é claro: o Brasil deixa de ser tratado como ator secundário e passa a ser percebido como risco político sistêmico. Não por sua força militar, mas por sua capacidade de articulação, exemplo e contágio. Em um mundo onde a coerção substitui o consenso, a soberania deixa de ser um direito reconhecido e passa a ser uma variável a ser controlada.
É nesse ponto que 2026 ganha sua densidade histórica. O que está em disputa não é apenas a continuidade de um governo, mas a possibilidade de o Brasil sustentar uma trajetória autônoma em um ambiente internacional cada vez menos tolerante à autonomia. A pressão não vem de um único vetor, nem se expressa de forma unificada. Ela se manifesta como cerco difuso, multifacetado, persistente.
Compreender essa centralidade é fundamental para não cair em leituras ingênuas ou fragmentadas. O Brasil não enfrenta crises desconectadas. Enfrenta uma disputa estrutural sobre seu lugar no mundo. E é exatamente por isso que as escolhas feitas agora — no campo institucional, econômico, informacional e político — terão efeitos duradouros, muito além de um ciclo eleitoral.
As bombas internas: crise permanente como método de desestabilização
Nenhum processo de coerção externa é eficaz sem ressonância interna. A desestabilização contemporânea não opera por choques únicos ou rupturas espetaculares, mas pela fabricação contínua de crises parciais, sucessivas e aparentemente desconectadas. O método não é a implosão imediata do Estado, mas a corrosão progressiva de sua capacidade de governar, decidir e comunicar. É isso que se entende por crise permanente — não um acidente do sistema, mas uma técnica de poder.
No Brasil, esse método assume uma forma específica: a transformação de episódios técnicos, administrativos ou institucionais em vetores de desgaste político contínuo. Cada crise isolada pode parecer administrável. O problema não está em nenhuma delas, tomada separadamente, mas na sua acumulação sincronizada. O efeito buscado não é a derrota direta do governo, mas a sua exaustão operacional e simbólica.
A lógica da crise permanente funciona como um campo minado. Não importa onde o governo pise, há sempre a possibilidade de detonação. Quando responde, é acusado de interferência; quando se cala, é acusado de omissão. Quando age tecnicamente, é acusado de falta de sensibilidade política; quando age politicamente, é acusado de irresponsabilidade técnica. A crise não precisa ter solução — ela precisa apenas continuar existindo.
É nesse contexto que determinados episódios ganham centralidade desproporcional. Casos financeiros complexos, disputas regulatórias, divergências institucionais e ruídos administrativos são rapidamente convertidos em narrativas de colapso, corrupção ou captura do Estado. O conteúdo técnico se dissolve, e o que permanece é a sensação difusa de instabilidade. O fato deixa de ser relevante; o clima passa a ser o protagonista.
Essa dinâmica é especialmente eficaz em ambientes institucionais fragmentados. Órgãos com competências distintas passam a operar sob pressão pública permanente, incentivados a se posicionar de forma defensiva ou reativa. A cooperação institucional dá lugar à autopreservação. O resultado não é necessariamente conflito aberto entre instituições, mas perda de coordenação, lentidão decisória e aumento do ruído público. A crise, mais uma vez, cumpre sua função.
O papel do Congresso nesse cenário não é secundário. Em contextos de crise permanente, a arena legislativa tende a se transformar em amplificador de instabilidade. Comissões, requerimentos, convocações e investigações deixam de ser instrumentos ordinários de fiscalização e passam a operar como mecanismos de produção contínua de manchetes. O objetivo não é esclarecer, mas manter o tema vivo, fragmentado e emocionalmente carregado.
Esse uso da institucionalidade como palco de desgaste tem efeitos profundos. Ele desloca o centro do debate da formulação de políticas para a disputa narrativa. O tempo político é consumido na defesa, não na construção. A agenda pública passa a ser ditada por reações, não por projetos. E, aos poucos, a capacidade do governo de impor sua própria pauta se esvai.
A crise permanente também se alimenta da espetacularização. Em um ecossistema informacional orientado por engajamento, o conflito constante é mais rentável do que a estabilidade. A exceção gera mais cliques do que a normalidade. A denúncia vaga mobiliza mais emoções do que a explicação técnica. Isso cria um incentivo estrutural para a amplificação do ruído, independentemente de sua substância.
Nesse ambiente, a verdade factual perde centralidade. O que importa é a persistência da dúvida. Não é necessário provar nada; basta insinuar continuamente. A repetição substitui a evidência. A suspeição passa a ser tratada como dado. A crise deixa de ser um evento e se transforma em atmosfera. É nesse ponto que a desestabilização deixa de ser episódica e se torna estrutural.
Há ainda um elemento crucial nessa arquitetura: a importação de métodos. A crise permanente não é uma invenção local, mas a adaptação de técnicas amplamente utilizadas em outros contextos de guerra política. Ela combina lawfare difuso, pressão midiática constante, instrumentalização institucional e saturação informacional. O resultado é um ambiente em que governar se torna progressivamente mais custoso, independentemente da correção ou legitimidade das decisões tomadas.
Esse método é particularmente eficaz contra governos que buscam reconstrução institucional após períodos de ruptura. Quanto mais esforço é dedicado à restauração de normas, procedimentos e equilíbrios, mais vulnerável o sistema se torna ao ataque por sobrecarga. A crise permanente funciona como sabotagem de longo prazo: não destrói a ponte, mas impede sua travessia contínua.
O efeito final desse processo não é apenas político, mas psicológico. A sociedade é induzida a perceber o Estado como permanentemente instável, incapaz de produzir segurança, previsibilidade ou horizonte. O cansaço substitui a indignação. A desconfiança substitui a esperança. E, nesse terreno, soluções autoritárias passam a parecer não apenas aceitáveis, mas desejáveis.
É fundamental compreender que essa dinâmica não surge espontaneamente. Ela é alimentada por interesses claros, internos e externos, que convergem na necessidade de reduzir a autonomia do Estado brasileiro. A crise permanente é o instrumento ideal para esse fim, porque opera sem ruptura explícita, sem responsabilização direta e sem necessidade de vitória formal.
Ao transformar a política em um campo de desgaste contínuo, o método da crise permanente prepara o terreno para dois desfechos possíveis: a capitulação por exaustão ou a substituição do projeto político por outro mais alinhado às expectativas externas. Em ambos os casos, a soberania é o que se perde primeiro.
Entender essa lógica é essencial para compreender por que 2026 não será decidido apenas nas urnas. Ele será decidido pela capacidade de romper esse ciclo, reconstituir a iniciativa política e recuperar o controle da agenda pública. Enquanto a crise permanente ditar o ritmo, a democracia operará em modo defensivo. E democracias defensivas, por definição, são democracias vulneráveis.
A guerra informacional: quando o controle da narrativa decide a democracia
Se a crise permanente é o método e a coerção é o contexto, a guerra informacional é o campo onde tudo se resolve. Não como metáfora, mas como realidade material. Em um ambiente político saturado por estímulos, a disputa central deixa de ser apenas por decisões institucionais e passa a ser pela percepção coletiva da realidade. O poder já não se exerce apenas sobre territórios ou economias, mas sobre o sentido dos acontecimentos.
A democracia contemporânea não colapsa, na maioria das vezes, por golpes clássicos ou rupturas abruptas. Ela se dissolve quando perde a capacidade de produzir consensos mínimos sobre o que é verdadeiro, legítimo e possível. A guerra informacional opera exatamente nesse intervalo: não precisa convencer, basta confundir; não precisa derrotar, basta desorganizar; não precisa impor uma narrativa única, basta fragmentar todas as outras.
O funcionamento desse mecanismo é estrutural, não conspiratório. Plataformas digitais organizadas por algoritmos de engajamento recompensam conteúdos emocionalmente extremos, simplificadores e polarizantes. A moderação perde valor econômico; a nuance se torna invisível. Nesse ambiente, a política racional é sistematicamente desvantajosa. A exceção viraliza; a normalidade não.
Esse modelo cria um campo de batalha assimétrico. A desinformação opera com velocidade, simplicidade e impacto emocional. A informação qualificada opera com cautela, verificação e complexidade. O resultado é previsível: a mentira chega primeiro, se espalha mais rápido e deixa resíduos mesmo quando desmentida. O objetivo não é fazer o público acreditar em algo específico, mas tornar tudo igualmente duvidoso.
Nesse contexto, o Estado perde progressivamente o monopólio legítimo da narrativa pública. Comunicados oficiais competem com influenciadores, boatos, recortes fora de contexto e campanhas coordenadas. A autoridade institucional se dilui no ruído. A palavra do governo passa a ser apenas mais uma entre milhares, frequentemente apresentada como suspeita por definição. A confiança deixa de ser pressuposto e passa a ser exceção.
A guerra informacional também altera a temporalidade da política. Decisões que exigiriam tempo para maturação passam a ser julgadas em ciclos de horas ou minutos. A pressão por resposta imediata substitui a deliberação. O erro de comunicação se torna mais grave do que o erro de política pública. Governar passa a significar reagir continuamente a estímulos externos, e não conduzir um projeto de longo prazo.
Essa lógica favorece atores que não precisam governar. Para quem está fora do poder, a guerra informacional é um ativo. Ela permite atacar sem assumir responsabilidade, destruir sem construir, acusar sem provar. A assimetria é evidente: enquanto o governo responde por cada palavra e cada ato, seus adversários operam em um regime de impunidade discursiva quase total.
A centralidade das plataformas nesse processo não é neutra. Grandes corporações digitais detêm controle sobre fluxos de informação, critérios de visibilidade e mecanismos de moderação. Suas decisões — opacas, privadas e orientadas por interesses econômicos — têm impacto direto sobre o debate público. Quando essas plataformas passam a ser tratadas como meros intermediários técnicos, ignora-se seu papel efetivo como atores políticos globais.
É nesse ponto que a soberania informacional se torna uma questão estratégica. Controlar dados, regular plataformas e definir parâmetros de responsabilidade não é censura; é defesa institucional. Em um mundo onde a informação se tornou infraestrutura crítica, abdicar desse controle equivale a terceirizar parte da governança democrática. Não por ideologia, mas por omissão.
A resistência a qualquer forma de regulação revela a dimensão do problema. Não se trata apenas de proteger modelos de negócio, mas de preservar uma arquitetura de poder baseada na assimetria informacional. Um Estado que regula passa a impor limites; um Estado que não regula aceita operar em terreno adverso. A disputa não é moral; é estrutural.
A guerra informacional também se conecta diretamente à produção do medo. Narrativas de insegurança, colapso institucional e ameaça permanente são amplificadas porque mobilizam emoções primárias. O medo paralisa, fragmenta e reduz a capacidade de análise. Em sociedades sob estresse informacional contínuo, soluções autoritárias passam a parecer simples, rápidas e eficazes. A democracia, por sua vez, passa a ser associada à lentidão e à ineficácia.
Esse processo não ocorre de forma espontânea. Ele é alimentado por redes organizadas, interesses econômicos e agendas políticas claras. A desinformação não é apenas ruído; é ferramenta. E como toda ferramenta, ela é usada com objetivos específicos: deslegitimar instituições, corroer lideranças, fragmentar a sociedade e criar um ambiente favorável à exceção.
No Brasil, esse campo de batalha assume características próprias. A desigualdade informacional, a fragilidade educacional em larga escala e a concentração midiática criam um terreno particularmente vulnerável. Ao mesmo tempo, a diversidade cultural, a capilaridade das redes e a politização crescente da sociedade tornam o país altamente sensível a estímulos narrativos. É uma combinação explosiva.
Diante desse cenário, a neutralidade informacional é uma ilusão perigosa. Não existe espaço público neutro quando a infraestrutura do debate é privada, opaca e orientada por lucro. Não existe liberdade plena quando a visibilidade é manipulada por critérios invisíveis. Defender a democracia exige reconhecer esse desequilíbrio e agir sobre ele.
A guerra informacional não se vence apenas com desmentidos ou campanhas pontuais. Ela exige estratégia, coordenação e visão de longo prazo. Exige que o Estado recupere a capacidade de comunicar com clareza, consistência e legitimidade. Exige que a sociedade compreenda que a disputa pelo sentido é tão importante quanto a disputa por políticas públicas.
Em 2026, essa dimensão será decisiva. Não porque determine automaticamente o resultado eleitoral, mas porque define o ambiente no qual a eleição ocorrerá. Uma democracia submetida à guerra informacional permanente vota sob pressão, medo e desinformação. Uma democracia que recupera o controle da narrativa vota com maior autonomia.
O desafio não é silenciar vozes, mas organizar o espaço público. Não é impor uma verdade oficial, mas garantir condições mínimas para que a verdade possa emergir. Enquanto o controle da narrativa permanecer fragmentado e capturado, a democracia continuará operando em terreno hostil. Recuperá-lo não é opção ideológica; é condição de sobrevivência institucional.
Lula como centro de gravidade: limites, acertos e erros diante do cerco
Em contextos de crise sistêmica, a política deixa de ser apenas disputa de projetos e passa a ser disputa de capacidade. Não basta ter razão, votos ou legitimidade formal; é preciso sustentar o peso do conflito sem que o sistema colapse. É nesse ponto que lideranças se tornam centros de gravidade. Não por carisma, mas porque concentram confiança, capacidade de articulação e poder de contenção. Em 2026, Lula ocupa esse lugar no Brasil — e, em muitos sentidos, além dele.
Lula não é o epicentro das tensões que atravessam o país; ele é o ponto em torno do qual essas tensões se organizam. O cerco não se constrói porque Lula existe, mas porque sua existência política impede a completa subordinação do Brasil em um momento de regressão global. Sua presença mantém abertas alternativas que, em outro cenário, já estariam encerradas. É isso que torna sua figura intolerável para determinados interesses — e indispensável para a preservação democrática.
Os acertos de Lula diante desse cenário são reais e mensuráveis. No plano externo, sua atuação foi decisiva para retirar o Brasil do isolamento e recolocá-lo como interlocutor relevante em um sistema fragmentado. A retomada de uma política externa ativa e altiva não foi retórica, mas operacional: reconstrução de canais diplomáticos, reposicionamento no Sul Global, diálogo com diferentes polos de poder e defesa consistente do multilateralismo. Em um mundo inclinado à coerção unilateral, essa postura funciona como mecanismo de contenção.
Internamente, Lula foi capaz de recompor o mínimo de normalidade institucional após um período de ruptura. A restauração do funcionamento básico do Estado, o respeito aos freios e contrapesos e a reconstrução de políticas públicas desmanteladas não são feitos menores. Em ambientes de crise permanente, a simples estabilização já é um ato político relevante. Governar sem provocar colapsos adicionais é, por si só, uma forma de resistência.
Há também um acerto estratégico menos visível, mas fundamental: a recusa em responder à provocação com simetria. Lula não entrou na lógica da escalada retórica, não transformou cada ataque em confronto aberto e não permitiu que o governo fosse arrastado para o terreno da exceção. Essa contenção não é passividade; é cálculo. Em um ambiente saturado de estímulos, reagir a tudo é uma forma de perder o controle.
No entanto, reconhecer os acertos não implica ignorar os limites — e eles são reais. O principal deles está na comunicação. O governo subestimou, em diversos momentos, a centralidade da guerra informacional. Tratou a comunicação como suporte, quando ela já havia se tornado infraestrutura. Em um cenário de crise permanente, a ausência de narrativa própria não cria neutralidade; cria vazio. E vazios informacionais são rapidamente ocupados por narrativas adversárias.
Outro limite importante está na antecipação. O governo frequentemente reagiu às crises depois que elas já haviam se instalado no debate público. A resposta técnica veio, mas tarde demais para neutralizar o impacto simbólico inicial. Em um ecossistema informacional acelerado, o primeiro enquadramento tende a ser o mais durável. Corrigir a narrativa depois é sempre mais custoso do que moldá-la desde o início.
Há também uma tensão não resolvida entre institucionalidade e mobilização. A aposta quase exclusiva na mediação institucional reduziu o conflito aberto, mas deixou setores da sociedade civil politicamente desarmados. Em um ambiente de guerra híbrida, a defesa da democracia não se sustenta apenas nos corredores do poder. Ela exige capilaridade social, engajamento organizado e capacidade de resposta fora das estruturas formais do Estado.
Esses limites não anulam a centralidade de Lula, mas definem o campo de risco. Em um sistema baseado na coerção, a liderança que concentra expectativas também concentra pressões. O desgaste não é apenas político; é psicológico e simbólico. O objetivo do cerco não é derrotar Lula em um confronto direto, mas torná-lo insuficiente — esvaziar sua capacidade de operar como centro de gravidade.
Ainda assim, é precisamente essa capacidade que mantém o sistema democrático em funcionamento. Sem Lula, o Brasil não enfrentaria menos tensões; enfrentaria tensões sem mediação. A alternativa ao centro de gravidade não é o equilíbrio automático, mas a fragmentação. Em contextos históricos semelhantes, a ausência de uma liderança capaz de conter conflitos costuma abrir espaço para soluções autoritárias ou tuteladas.
O papel de Lula, portanto, não é o de salvador, mas o de estabilizador em um sistema sob estresse extremo. Sua função histórica é ganhar tempo, preservar margens de decisão e impedir que o país seja arrastado para soluções irreversíveis. Isso não se faz apenas com habilidade política, mas com escolhas difíceis, renúncias estratégicas e administração cuidadosa do conflito.
Em 2026, esse papel se torna ainda mais exigente. A eleição não será apenas um teste de popularidade, mas um teste de resiliência. A pressão não diminuirá; ao contrário, tende a se intensificar à medida que se aproxima o momento de decisão. O cerco se fecha quando o tempo se esgota. E é nesse momento que os limites da liderança são colocados à prova.
Reconhecer esses limites não enfraquece o argumento; o fortalece. Um texto estratégico não se constrói sobre idealizações, mas sobre diagnósticos precisos. Lula é, ao mesmo tempo, o principal ativo democrático do Brasil e o principal alvo de desgaste. Sustentar essa contradição é a tarefa central do próximo período.
Compreender Lula como centro de gravidade — com acertos, erros e limites — é condição para pensar os caminhos possíveis. A questão não é se ele é suficiente por si só. Nenhuma liderança é. A questão é se o país será capaz de organizar, ao seu redor, uma estratégia que amplie sua capacidade de contenção e transforme a resistência defensiva em iniciativa política.
É a partir dessa resposta que 2026 deixará de ser apenas um risco e passará a ser uma escolha histórica.
Os caminhos possíveis: como atravessar 2026 sem perder a democracia
Depois de identificar o colapso do consenso global, a centralidade estratégica do Brasil, o método da crise permanente, a guerra informacional e o papel de Lula como centro de gravidade, resta enfrentar a pergunta decisiva: o que fazer. Não no plano ideal, mas no plano real. Não a partir do desejo, mas da correlação de forças concreta. Em 2026, não haverá espaço para soluções mágicas, gestos simbólicos vazios ou apostas voluntaristas. A travessia exigirá estratégia.
O primeiro caminho é romper o ciclo da reação permanente. Enquanto o governo operar exclusivamente em modo defensivo, respondendo a crises fabricadas, a agenda continuará sendo ditada por interesses externos ao projeto democrático. Isso não significa ignorar ataques, mas reordenar prioridades. Governar em ambiente de coerção exige recuperar a iniciativa política — definir temas, impor ritmos e estabelecer enquadramentos antes que o adversário o faça.
Essa iniciativa começa pela comunicação tratada como infraestrutura de Estado. Não como marketing, não como propaganda, mas como arquitetura estratégica. Em um cenário de guerra informacional, comunicar é governar. Isso exige clareza narrativa, coerência entre discurso e ação e capacidade de antecipação. O governo precisa falar antes que falem por ele, explicar antes que distorçam e enquadrar antes que rotulem. Não se trata de disputar cada boato, mas de construir uma narrativa suficientemente sólida para tornar o ruído menos eficaz.
O segundo caminho é fortalecer a soberania informacional como política pública estruturante. Dados, plataformas, inteligência artificial e infraestrutura digital não são temas setoriais; são pilares da autonomia contemporânea. Regulá-los não é censura, é defesa institucional. Um Estado que abdica desse controle aceita operar em terreno hostil, onde suas decisões podem ser sabotadas por arquiteturas privadas e opacas. A regulação precisa ser técnica, democrática e firme — e, sobretudo, apresentada à sociedade como o que ela é: proteção da democracia.
O terceiro caminho é recompor a relação entre institucionalidade e sociedade. A democracia não se sustenta apenas nos tribunais, nos ministérios ou nos parlamentos. Ela precisa de base social organizada, informada e capaz de compreender o que está em jogo. Em um ambiente de guerra híbrida, a sociedade civil não pode ser apenas espectadora; precisa ser parte ativa da defesa democrática. Isso implica investimento em educação política, transparência radical e canais permanentes de diálogo que não dependam exclusivamente do ciclo eleitoral.
O quarto caminho é aprofundar a articulação internacional sem ilusões. O multilateralismo continua sendo o melhor instrumento disponível para conter a coerção unilateral, mas ele opera hoje sob limites claros. Isso exige pragmatismo estratégico. O Brasil precisa ampliar alianças, diversificar parcerias e fortalecer o Sul Global sem transformar a política externa em gesto ideológico. A defesa da soberania se faz com coalizões, não com isolamento; com negociação dura, não com submissão.
Nesse campo, Lula desempenha papel insubstituível. Sua capacidade de diálogo, contenção e articulação internacional é um ativo estratégico do país. Preservar esse ativo exige protegê-lo do desgaste interno artificial e ampliar sua capacidade de operar. Isso não se faz apenas com decisões do Executivo, mas com coordenação institucional e apoio político organizado. Um centro de gravidade isolado perde força; um centro de gravidade sustentado amplia sua capacidade de estabilização.
O quinto caminho é tratar a economia não apenas como variável técnica, mas como campo político sensível. Em contextos de coerção, instabilidade econômica é rapidamente convertida em instrumento de deslegitimação. A previsibilidade fiscal, a defesa do desenvolvimento e a proteção social precisam caminhar juntas. Não há soberania sem base material, nem democracia sustentável sem redução de desigualdades. A economia do cotidiano é o terreno onde a disputa simbólica encontra a vida real.
Há também escolhas que precisam ser explicitamente recusadas. A tentação da exceção, da resposta autoritária ou da militarização do conflito político não fortalece a democracia; a enfraquece. Em ambientes de medo, soluções duras parecem eficazes, mas cobram um preço alto e duradouro. A história mostra que democracias que vencem guerras híbridas são aquelas que preservam suas regras mesmo sob pressão — não as que as suspendem em nome da urgência.
Por fim, é preciso reconhecer que atravessar 2026 exigirá maturidade coletiva. Não haverá vitória limpa, sem desgaste ou sem tensão. O desafio não é eliminar o conflito, mas administrá-lo sem que ele destrua as bases do sistema. Democracias não se preservam por pureza, mas por capacidade de adaptação sem renúncia a princípios fundamentais.
O Brasil tem condições objetivas de atravessar esse período. Tem instituições que resistiram, sociedade civil ativa, recursos estratégicos e uma liderança capaz de operar em ambiente hostil. O que não tem é margem para erro estratégico grave. Cada decisão tomada agora carrega efeitos cumulativos. Cada silêncio prolongado cria espaço para a narrativa adversária. Cada hesitação excessiva amplia o cerco.
2026 não será apenas um teste eleitoral. Será um teste de projeto nacional. Um teste sobre a capacidade do Brasil de decidir seu próprio destino em um mundo que voltou a punir a autonomia. A escolha não é entre conflito e harmonia, mas entre soberania e tutela, entre democracia imperfeita e exceção permanente.
A travessia é possível. Mas ela exige clareza, coragem e estratégia. Não como palavras de ordem, mas como prática cotidiana de governo e de sociedade. O futuro do Brasil não será concedido. Ele terá de ser sustentado.
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