Epstein 'não trabalhava para Israel'? Netanyahu mira em Barak enquanto novos arquivos ampliam a rede.
O ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak e Jeffrey Epstein. (Design: Palestine Chronicle)
Principais conclusões
- Netanyahu negou que Epstein tivesse ligações com Israel e acusou Barak de minar o governo.
- Novos documentos dos EUA colocaram novamente Barak entre os contatos políticos globais de Epstein.
- Outras revelações mostraram Epstein interagindo com figuras ocidentais alinhadas a Israel.
- O debate mudou o foco das ligações com os serviços de inteligência para as redes de influência mais amplas das elites.
O que Netanyahu realmente disse?
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, aproveitou o renovado foco nos arquivos de Epstein para atacar o ex-premiê Ehud Barak, ao mesmo tempo em que rejeitou as alegações de qualquer ligação de Israel com Jeffrey Epstein.
Em seu primeiro comentário público sobre a divulgação dos documentos mais recentes, Netanyahu escreveu que Epstein “não trabalhava para Israel” e argumentou que a “relação incomumente próxima de Epstein com Ehud Barak não sugere que Epstein trabalhava para Israel. Pelo contrário, prova exatamente o contrário”.
A publicação de Netanyahu então se transformou em uma ampla acusação política: ele disse que Barak estava "preso à sua derrota eleitoral de mais de duas décadas atrás" e que "durante anos, tentou obsessivamente minar a democracia israelense, trabalhando com a esquerda radical antissionista em tentativas fracassadas de derrubar o governo israelense eleito".
Ele foi além, acusando Barak de agir “publicamente e nos bastidores para minar o governo de Israel, incluindo alimentar movimentos de protesto em massa, fomentar a agitação e disseminar narrativas falsas na mídia”.
Por que Barak é fundamental nesta rodada?
A cobertura jornalística israelense e internacional voltou a destacar a proximidade documentada de Barak com Epstein, incluindo encontros repetidos anos após a primeira condenação de Epstein e fotografias amplamente divulgadas de Barak entrando na residência de Epstein em Manhattan.
As últimas divulgações do Departamento de Justiça — parte de um processo contínuo de transparência — continuaram a listar nomes de alto perfil ligados ao universo social e político de Epstein. As reportagens enfatizaram que ser citado não significa ter cometido um delito, mas também que a dimensão da rede é justamente o que mantém a história viva.
O que mudou com a divulgação do novo documento dos EUA?
O Departamento de Justiça dos EUA descreveu o recente lote de documentos como uma divulgação massiva que cumpre os requisitos legais da Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, com o vice-procurador-geral Todd Blanche sendo publicamente associado ao anúncio da divulgação de milhões de páginas.
Ao mesmo tempo, a divulgação dos dados tem sido contestada: os principais veículos de comunicação relataram disputas contínuas sobre o que ainda está faltando, o que foi fortemente censurado e por que questões-chave permanecem sem resposta mesmo após a maior divulgação de dados até o momento.
O que se perde quando Netanyahu diz: "Isso prova o contrário"?
A principal alegação de Netanyahu não é simplesmente que "não há provas" nesses arquivos que liguem Epstein à inteligência israelense — um argumento também repetido por comentaristas israelenses que rebatem as especulações online.
Sua estratégia mais contundente é retórica: ele argumenta que a proximidade de Epstein com Barak é, por si só, prova de que Epstein não “trabalhava para Israel”. Essa conclusão não se sustenta nos registros públicos. Mesmo que nenhuma ligação com informações de inteligência seja estabelecida, as revelações e as reportagens relacionadas mostram Epstein interagindo repetidamente com a vida política israelense e com redes de influência ocidentais alinhadas a Israel — o que significa que a questão não pode ser reduzida, de forma convincente, a um único “relacionamento” com um rival como justificativa decisiva para sua exoneração.
Uma das razões é estrutural: a rede de Epstein, como refletido nas reportagens da imprensa sobre os arquivos, abrange múltiplos governos, partidos e centros de poder, incluindo contatos próximos de Israel nos EUA e no Reino Unido — figuras cujos nomes e relações continuam a reaparecer no ciclo de notícias impulsionado por documentos.
Quem mais na órbita de Israel aparece nessa rede mais ampla?
Divulgações separadas, relacionadas à mesma onda de documentos, ampliaram o escrutínio das redes político-financeiras de Tony Blair e de seu papel no Oriente Médio, após a divulgação de uma gravação de áudio na qual Epstein e Barak discutiam o que descreveram como somas "gigantescas" de consultoria ligadas a Blair.
Isso é importante porque Blair não é uma figura incidental: ele é um ator político ocidental de longa data, profundamente associado à política intervencionista no Oriente Médio e que ressurgiu em iniciativas de governança em Gaza apoiadas pelos EUA — precisamente o tipo de "reciclagem" de figuras de poder ocidentais que, segundo os críticos, marginaliza a autonomia palestina.
Em outras palavras, mesmo que Netanyahu queira transformar a história de Epstein em uma disputa interna — Barak contra “o governo eleito” — as revelações continuam a direcioná-la para uma questão maior: como a influência se propaga pelos corredores compartilhados da política israelense e pelos parceiros ocidentais mais próximos de Israel.
Então, qual é a conclusão analítica?
A afirmação de Netanyahu de que o relacionamento de Barak "prova o contrário" deve ser interpretada como uma mensagem política, não como evidência. A apuração mais ampla, baseada em documentos, demonstra continuamente que o acesso de Epstein se dava por meio de redes de elite transnacionais que incluem líderes israelenses e figuras ocidentais alinhadas a Israel.
Essa realidade faz com que a tentativa de Netanyahu de encerrar a questão culpando Barak pareça menos um esclarecimento e mais uma fuga: reduzir um escândalo sistêmico a uma luta partidária para proteger a estrutura mais ampla das relações da fiscalização.
(Anadolu, PC, AJA, AJE, Axios, AP, ABC News, WaPo, mídia israelense)
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