"O capital não pode permanecer onde existe um conflito armado aberto. É precisamente isto o que situa Israel na fase final de sua existência histórica".
George Abdallah
entrevistado por Lisandro Brusco
resistir.info/
O valor de sua publicação não reside só na admirável firmeza que Abdallah demonstra após 41 anos de cárcere na França, mas também nos elementos que ele fornece para o exame da situação palestina, árabe e mundial. Parece particularmente valiosa sua análise sobre a importância de um polo tecnológico recentemente construído para o expansionismo sionista e a inviabilização de seu funcionamento – portanto, também do projeto do Grande Israel – pela operação militar de 7 de Outubro de 2023 e respectivos desdobramentos. Mas não só. A sobrevivência moral e intelectual de Abdallah foi possível, em grande medida, porque, como ele mesmo relata, um esforço de solidariedade militante – combinado, cabe acrescentar, a um contexto político propício – lhe assegurou acesso a um intenso fluxo de leitura e informação durante esses 41 anos. Isso mostra a importância de garantir aos revolucionários presos tal direito, hoje sob forte ameaça consubstanciada em regimes carcerários despersonalizadores. Doutro prisma, a origem desse polo tecnológico estratégico para o sionismo é também explicada por ele e reside noutro fato histórico, quase sempre ignorado por aqui: a gigantesca imigração, na década de 1980, da então União Soviética para a Palestina ocupada. Pari passu à incorporação dos judeus asquenazes à elite imperialista do Atlântico Norte, o sionismo, durante todo o século XX e particularmente em sua segunda metade, realizou – inclusive pelos meios que começam a vir à luz no caso Epstein – um eficientíssimo trabalho de infiltração em todas as instâncias de poder, influência e riqueza dos EUA e da Europa. Esse esforço ameaça perder toda utilidade com a irreversível decadência desses impérios. Na China, não há lobby sionista e nem mesmo comunidade judaica que lhe pudesse servir de terreno para uma infiltração que, ainda em tal caso, seria bem mais difícil e arriscada que no Ocidente. A única chance que Israel tem – ou acredita ter – de não ser tragado pela perda de poder dos EUA na Ásia Ocidental reside na influência que ainda pode exercer na Rússia, elo fraco do novo polo de poder que se ergue na Eurásia. Lá, não parece haver um lobby sionista tão profundamente enquistado nas estruturas de poder quanto nos EUA ou na Inglaterra; mas há, quando menos, o temor de qualquer governante a receber de volta – em caso de colapso de Israel – milhões de criminosos de guerra e de diversos outros tipos, que se tornariam, de imediato, um fator infernal de desestabilização interna e regional. Henrique Júdice |
Entrevistador: Para nós, sua trajetória é um exemplo: quarenta e um anos na prisão sem que esmorecessem suas ideias. Como conseguiu preservá-las?
Georges: Na realidade, eu fui um militante dentro da prisão. Nunca fui um prisioneiro que aspirava a se transformar em militante; sou militante e, como tal, luto inclusive em condições excepcionais, como são as do cativeiro. A questão central para mim sempre foi a luta; minha situação pessoal é secundária. Na medida em que minha situação permite afirmar o processo de luta, sinto-me numa posição adequada. Foi assim que aconteceu.
Minhas convicções mantiveram-se através de uma prática quotidiana, junto a companheiros e companheiras que acudiam de maneira constante ao longo de 41 anos. A solidariedade comigo foi entendida como um meio para se integrar na luta junto ao povo palestino e suas massas, e também como uma forma de expressar a posição das massas palestinas dentro do processo de luta na França. Quando os trabalhadores se mobilizam para exigir melhoras em suas condições ou para manifestar posições políticas, quem se solidariza comigo participa diretamente das mobilizações da CGT (Central Geral de Trabalhadores da França) e de outras organizações sindicais. De maneira regular — aproximadamente a cada mês, ou a cada 25 ou 20 dias— intervinha nessas mobilizações. Nas manifestações, alguns companheiros assumiam a tarefa de pronunciar discursos, e, assim, minha palavra como militante palestino e militante árabe encarcerado era lida por um deles. Desse modo, o tempo transcorria dentro de uma prática de luta, não à margem dela. Quando fui libertado, a decisão judicial se baseou num argumento jurídico fundamental: que minha permanência na prisão prejudicava a segurança nacional mais que minha liberdade. Sobre essa base, se decidiu minha soltura. Minha presença na prisão foi, portanto, uma presença militante. Relacionei-me com o cativeiro a partir das condições e fundamentos da luta, não como um fim em si mesmo. Não estive na prisão para reclamar melhorias pessoais, nem para exigir minha libertação, nem para proclamar minha inocência. Essa lógica não é aceitável para mim.
Diante dos tribunais, respondi à questão central, relativa às operações externas na França e na Europa. Não existe nenhuma prova que me incrimine. O que se condena é minha posição política. Afirmei que essas operações militares eram corretas e deviam continuar, não só na França como em todo o mundo, especialmente nas regiões que constituem o coração do sistema imperialista, o mesmo que trava uma guerra contra nosso povo. Não só hoje, mas já desde os anos oitenta. Hoje, essa realidade é ainda mais profunda.
Entrevistador: E o contato quando estava na prisão? As notícias políticas, a informação… Como era seu vínculo com o mundo exterior?
Georges: Como mencionei em minha primeira resposta, dentro da prisão eu era um militante. Quem vinha me visitar eram todas e todos militantes. Sua tarefa principal era trasladar meu ponto de vista ao exterior; a segunda, reforçar minha posição como militante. Por isso, se ocupavam de me garantir todos os meios necessários para o conhecimento: informação jornalística, cultural e política. Para dar um exemplo simples: eu não tinha problemas por excesso, e sim por falta de tempo. Não sofri por ter demasiado tempo livre; sofri por não ter tempo suficiente para ler tudo o que devia ler. E quando digo isto, não é uma metáfora literária, é uma realidade concreta. Cada semana, os companheiros me proporcionavam, só no plano jornalístico, cinco dossiês. Tudo o que se publicava em árabe, francês ou inglês no Líbano, Palestina e Egito. Cinco vezes por semana. Cada dossiê tinha umas 90 páginas. Isto é, ao redor de 450 páginas semanais, só de material informativo relacionado à causa palestina, à situação no Líbano, à resistência e aos protestos no Egito. Ademais, dispunha de toda a imprensa francesa: a imprensa dos partidos e a imprensa burguesa, como Le Monde, L’Humanité e outros veículos, assim como todas as publicações dos partidos de esquerda, em particular dos partidos menores. Nesse sentido, tinha uma visão completa de tudo o que estava disponível no plano cultural e informativo, inclusive mais ampla que a que tinham muitas pessoas fora da prisão.
Quanto à formação política, meu tempo estava estritamente organizado. Se me perguntam como começava meu dia: saía da cela às oito e meia da manhã e regressava às dez e quarenta e cinco. Durante esse tempo, fazia exercício físico para manter meu corpo apto para o combate, se assim se pode dizer.
- De 10:45 a 11:00: higiene e banho.
- De 11:00 às 16:00: leitura da correspondência. Necessitava muito tempo para ler as cartas e os materiais que me chegavam.
- De 16:00 a 19:00: leituras teóricas.
- À noite: correspondência relacionada a materiais teóricos e com o que se devia ou não fazer.
- Dormia quatro horas, motivo pelo qual despertava às quatro da manhã.
- De 4:00 a 7:00: respondia à correspondência pessoal, para preservar minha humanidade. Escrevia para meus familiares (filha, irmão) palavras simples, saudações, gestos que me permitiam continuar como um ser humano normal: alguém que sorri ao ver uma criança, que vê beleza numa flor, que reconhece as coisas simples da vida quotidiana.
- Às sete da manhã, chegava o guarda e começava oficialmente o dia de prisão. Deste modo, minha jornada estava completamente cheia.
Entrevistador: A situação no Líbano, os palestinos nos campos de refugiados… ¿como encontrou os palestinos nos acampamentos e qual é a sua leitura da situação política dentro deles e do próprio Líbano?
Georges: Os palestinos no Líbano fazem parte do componente árabe da identidade histórica libanesa. No Líbano, existe uma longa trajetória de luta palestino-libanesa. A torrente de sangue compartilhada entre palestinos e libaneses constitui, historicamente, a base fundamental de nossa identidade como militantes. Minha geração se formou a partir dos efeitos da revolução palestina e do movimento de resistência palestino. Como partidos de resistência, libaneses e palestinos, mantemos uma interação histórica profunda. O que encontrei nos acampamentos confirma que a Palestina continua sendo a alavanca histórica da revolução árabe. Como te dizia, sou palestino, sou libanês e sou árabe, mas também sou comunista e observo todas essas dinâmicas como parte de um processo que espera o fim da exploração geral.
A libertação da Palestina tem um valor histórico e um valor estratégico: é a alavanca histórica do processo da revolução árabe. Não se pode separar uma da outra. O acampamento — falando em termos antropológicos — é o espaço onde se formou, através de seu próprio devir, a identidade palestina mais íntima. A Palestina inteira é um conjunto de acampamentos. O que se vê na Palestina e o que se viu em Gaza é uma soma de acampamentos que configuraram essa identidade profunda do povo palestino. É preciso viver num acampamento, dormir durante uma semana numa dessas chamadas “casas”, para compreender como é a vida em seu interior. O que dizer, então, quando essa vida se prolonga durante décadas, desde 1947 e antes? Isso permite entender o que é o acampamento e por que existe essa sanha imperialista, sionista e reacionária árabe para destruí-lo. Destruir o acampamento é destruir a identidade palestina.
O acampamento continua sendo, até hoje, uma fortaleza impossível de erradicar. Destrói-se um acampamento aqui e o palestino se desloca para lá e constrói outro. Não se pode criar um novo acampamento fora dos marcos da destruição do acampamento anterior.
Não temos acampamentos por causa da desertificação, nem da fome, nem do desemprego. Temos acampamentos porque existe uma entidade que engoliu a terra onde viviam essas pessoas; suas aldeias foram destruídas e viram-se obrigadas a se refugiar em acampamentos.
E esses acampamentos não foram destruídos só uma vez. Não existe um acampamento na Palestina que não tenha sido destruído mais de uma vez. Por isso, os acampamentos no Líbano – respondendo à sua pergunta – transformaram-se no principal refúgio dos pobres do país. Na realidade, não são mais acampamentos “palestinos” num sentido estritamente demográfico. Se você for, por exemplo, a Shatila, verá que por volta de 20% são palestinos; o resto são pobres do Líbano: sírios, iraquianos e libaneses. O acampamento é um foco dessa transformação histórica, dentro do processo objetivo da revolução, por sua contradição real com a estratégia imperialista e sionista.
Encontrei um povo firme, apesar de todas as suas contradições. Como qualquer povo do mundo, não somos homogêneos: existem setores sociais que se inclinam à negociação e à capitulação. Mas existe uma ampla maioria de massas resistentes que se levantaram com alegria ao ver o soldado israelense chorar e ir embora derrotado, enquanto os regimes e exércitos árabes observavam passivamente.
Temos massas que buscam dirigentes e lhes exigem estar numa posição revolucionária. Pode ser que essas direções não estejam hoje nesse lugar, mas, no final, essas masas encontrarão suas direções efetivas, farão a revolução e se converterão no núcleo revolucionário que sacudirá o conjunto do mundo árabe.
O que está colocado hoje é que o Líbano é o único lugar do mundo árabe onde existe uma vontade revolucionária e onde existe uma força militar que não está completamente controlada pelos equilíbrios de poder. Por isso, estaremos submetidos a uma pressão enorme. Todo o sistema imperialista, todas as forças vinculadas a Israel e, em particular, as reações árabes, farão uso de todo seu arsenal de ódio para forçar-nos à rendição. Mas nosso povo não se renderá. Conservaremos essa força militar e seremos a fagulha que fará explodir esses sistemas oficiais que oprimem nossas massas no Egito, Jordânia e nos chamados protetorados do Golfo.
Isso é o que encontrei no Líbano: forças vivas. Fui recebido como se recebem os militantes, e surpreendeu-me profundamente a calidez dessa recepção. Estou profundamente agradecido a todos os líderes que me receberam, e sinto-me muito tranquilo ante o enorme grau de disposição das massas para dar tudo.
O que nosso povo demonstrou nesta etapa é que a energia das massas supera todas as estimativas. Quando se trata da autodefesa e do futuro, as massas de nossa nação árabe e, em particular, na Palestina e no Líbano, se encontram num de seus momentos mais altos.
Desempenharão seu papel histórico suportando a pressão, tal como o povo palestino assumiu historicamente a responsabilidade de enfrentar o assentamento sionista em todo o Mashreq árabe (Oriente árabe). Durante décadas, esse ônus recaiu fundamentalmente sobre o povo palestino. Hoje, cabe às massas libanesas e palestinas assumir as exigências desta etapa para que a situação árabe estoure e possamos nos livrar desses tiranos, dessa leva de governantes cujos interesses estão organicamente ligados ao capital global.
Entrevistador: Hoje, muitas pessoas salientam que a situação econômica e social é pior que anos atrás, mas, ao mesmo tempo, aparecem vozes que dizem que não se deve lutar, que a mudança deve limitar-se à dimensão institucional, a reformas democráticas e parlamentares, sem revolução. Escuta-se isto em distintos países – por exemplo, na Argentina.
George: Na escala global, a situação é a seguinte: vivemos condições explosivas em todo o mundo. O movimento do capital, o sistema capitalista em seu conjunto, atravessa uma crise profunda, uma crise estrutural. Esta crise leva as burguesias a se enfrentarem entre si. O que vemos com Trump, o que vemos na Europa, o que vemos na Rússia, indica que pela terceira vez em menos de um século, estamos à beira de uma guerra mundial como consequência direta da crise do capital. É a terceira vez em menos de cem anos, e isto é evidente para quem quer que observe a realidade. O que podemos esperar neste contexto? As massas populares enfrentam, cada vez mais, um processo de fascistização em escala global. Existe uma dinâmica clara de transformação rumo ao fascismo dentro do próprio sistema capitalista, que abandona progressivamente o que denominava democracia representativa. Hoje, cada vez mais, os principais partidos e governos expressam esta deriva: na Argentina, na Itália e com processos similares avançando na França, na Alemanha e nos Estados Unidos. Esta dinâmica conduz a um empobrecimento crescente das massas, e esse empobrecimento não fará senão se agravar. A questão central que se coloca é a seguinte: como se formarão as vanguardas revolucionárias capazes de agrupar forças para enfrentar o fascismo?
Dito de outro modo, a composição da classe trabalhadora atual não é a mesma que a do século XX. O que se denomina setores precarizados e marginalizados constitui hoje a maioria da população mundial, distribuída em escala global. A crise do sistema capitalista atinge-os em todos os continentes. A pergunta é como essas forças populares poderão se organizar dentro de marcos políticos dotados de um programa capaz de enfrentar o fascismo na Argentina, no Peru, na França e em outros lugares. Nossa resposta é clara: existe uma grande massa social que tem um interesse objetivo na mudança. Essa massa está composta por uma combinação de setores precarizados, trabalhadores e outros setores populares. Através da participação concreta nas lutas cotidianas, se vai construindo essa força popular. Em seu processo histórico — econômico, social, político e cultural — , essa masa se forma em meio a contradições, mas sob uma diretriz clara: juntos, e só juntos, venceremos; juntos, e só juntos, avançaremos; juntos, em todos os lugares, venceremos. Na Argentina como em Beirute, é necessário identificar os espaços comuns e fortalecê-los para construir uma identidade compartilhada. A solidariedade com a Venezuela, com a Palestina, com o povo Kanak na Nova Caledônia, com os povos do Caribe, faz parte de um mesmo processo. É uma solidariedade que forja a identidade histórica da massa popular frente a um capital global que não oferece nada mais que barbárie.
Essa barbárie, nós a vimos em Gaza, na Cisjordânia, na Argentina e nas periferias de pobreza e miséria; a vemos na África e no sudeste asiático. O capital não tem outra proposta: só barbárie. Na medida em que agimos coletivamente em torno de objetivos comuns, contribuímos para construir a personalidade histórica desta massa popular. A massa popular, sujeito da mudança, se forma através da luta, não fora dela. No processo de luta, se produz a diferenciação das forças burguesas conciliadoras e se constrói uma compreensão comum dos interesses reais das massas. Essas massas chegarão a compreender por si mesmas seus interesses imediatos e históricos. Serão elas que transformarão a realidade. O papel dos militantes revolucionários é contribuir para a construção desta massa popular sobre uma base clara: juntos, e só juntos, venceremos; juntos lutamos, juntos nos formamos. A constituição dessa massa popular lhe permite compreender seus interesses presentes, seus interesses históricos e, com isso, o movimento geral da história. Essa é a verdadeira libertação: uma libertação que se produz dentro deste processo, não à margem dele.
Entrevistador: A operação do 7 de Outubro, a Tempestade de Al-Aqsa… Como a viveu? Esperava uma operação dessa magnitude? Quais foram suas impressões nesse momento e quais são agora?
George: Sou árabe, palestino e libanês, e abordo esta questão como algo que concerne a qualquer ser humano desta grande pátria árabe. Ademais, sou comunista, e, dessa posição, analiso essa operação não só em sua dimensão local, mas a partir de seus efeitos em escala global e em relação com a dinâmica da luta revolucionária árabe e internacional.
Do ponto de vista estritamente militar, o 7 de Outubro foi uma operação relativamente limitada; não foi uma operação de grande envergadura em termos históricos. A revolução palestina tem mais de quarenta anos. Que grupos de combatentes — mil, mais ou menos — realizem uma ação deste tipo é algo natural, inclusive algo que se poderia ter repetido periodicamente. No entanto, o que ocorreu produziu uma série de efeitos que foram muito além do esperado.
No plano político e social, ao nível da reação popular imediata, a resposta foi espontânea. Como tantos outros filhos de nosso povo árabe, quando vimos um fedayín capturando um soldado israelense sobre um tanque, aplaudimos e explodimos de alegria. Essa foi uma reação natural, ao ver os combatentes agirem como cabe a combatentes. Mais tarde, ao analisar a operação em detalhes, é válido dizer que algumas coisas poderiam ter sido feitas de outro modo. Mas, em sua orientação geral, foi uma operação militar altamente bem sucedida.
Agora, vejam: houve efeitos que nem todos perceberam de imediato. Essa operação revelou uma realidade que não estava completamente visível. Quando Israel enfrentou a violência palestina, respondeu de maneira bárbara, como era previsível. Mas essa resposta transformou toda a região numa zona insegura para o capital global, e este é o ponto central. Para compreendê-lo, é preciso entender o que é Israel. Até a década de 1970, Israel não contava com grandes instituições financeiras privadas: bancos, sistemas de seguros e estruturas financeiras fundamentais continuavam sendo de caráter público. Nos anos oitenta, com a chegada de cerca de um milhão de colonos procedentes da União Soviética, chegaram também enormes quantidades de capital, muitas vezes por vias ilegais do ponto de vista do próprio capitalismo. Junto com esse capital, chegou uma massa humana altamente qualificada, formada cientificamente, o que permitiu a Israel dar um salto qualitativo e construir o que se conhece como seu “Vale do Silício”. O 7 de Outubro atingiu esse núcleo estratégico. Não porque o tivesse destruído fisicamente, mas porque o capital não pode permanecer onde existe um conflito armado aberto. Ninguém esperava esse efeito. E é precisamente isto o que situa Israel na fase final de sua existência histórica.
O projeto do chamado “Grande Israel” era viável enquanto esse Vale do Silício funcionasse. Não se tratava de uma ocupação militar clássica, mas de um domínio econômico e administrativo de toda a região, similar ao que se exerce sobre os chamados Estados do Golfo. O 7 de Outubro cancelou esse projeto, inclusive sem que aqueles que o levaram a cabo fossem necessariamente conscientes dessa dimensão estratégica.
Ademais, o 7 de Outubro impediu a normalização entre a Arábia Saudita e Israel. Não devemos esquecer que Gaza é uma enorme prisão, e que os planos consistiam em incrementar ainda mais esse confinamento. O 7 de Outubro foi a explosão dessa prisão, e essa explosão alterou todos os projetos regionais.
O Ocidente respondeu lançando mão de todo seu arsenal de barbárie e criminalidade, mas o povo palestino permaneceu em pé, com suas feridas e com suas crianças, sem se render. Ofereceu um exemplo de resistência que a humanidade não havia visto nem em Dien Bien Phu, nem em Stalingrado. Nunca um povo havia combatido dessa maneira em defesa de sua própria existência. Em escala mundial, o impacto foi imediato. Pela primeira vez na história do capitalismo ocidental, uma guerra de extermínio pôde ser observada em tempo real, hora a hora. O argentino, o boliviano, o paquistanês, puderam ver diariamente o genocídio se desenrolar ante seus olhos. Isso levou amplos setores da juventude a se levantar: primeiro, desde uma posição de solidariedade humana; depois, a partir de uma compreensão política mais profunda. Essa mobilização começou a adquirir um caráter claro de confronto com a “fascistização do extermínio”. Num contexto global marcado pela crise do capitalismo e pela possibilidade real de uma terceira guerra mundial, a causa palestina se tornou uma bandeira contra o avanço do fascismo na Europa e no mundo.
Por isso, quando começaram as manifestações na Europa nos Estados Unidos, os governos tentaram proibi-las e criminalizá-las. Ter uma cufia [lenço] ou uma bandeira palestina podia levar à prisão ou a ser acusado de antissemitismo. Hoje, no entanto, não há cidade no mundo onde não se levante a bandeira palestina e a cufia como símbolo não só de solidariedade, mas de resistência ao fascismo nos próprios países.
Netanyahu é uma expressão concreta do fascismo. Israel, como entidade, é uma extensão orgânica do imperialismo ocidental, que se formou historicamente através de guerras de extermínio. Estados Unidos, América Latina, Austrália: todos esses projetos estatais se construíram sobre genocídios massivos. Israel é a última expressão dessa lógica. A guerra de extermínio contra o povo palestino não começou em Gaza; começou em fins do século XIX. Em 1948, quando não chegava ao milhão de pessoas, o povo palestino resistiu. Hoje, supera os catorze milhões. Dentro da Palestina histórica, os palestinos já são mais numerosos que os colonos. Isso mostra que a guerra de extermínio fracassou.
O 7 de Outubro disse a esse projeto colonial: sua hora chegou. A violência desencadeada hoje em Gaza e no Líbano é a expressão desse último capítulo. Israel não pode mais se apresentar ante os povos do mundo como uma “democracia”. Revelou-se o que é: um símbolo absoluto de barbárie. Sem esse respaldo moral e político do Ocidente imperialista, Israel não se sustenta. Poderão continuar a enviar-lhe armas, mas as armas não mudam a história. São os povos que a fazem. E o povo palestino, com recursos rudimentares, demonstrou uma força superior a todo arsenal militar.
Durante mais de um século, o povo palestino resistiu a uma guerra de extermínio em nome de todo o Mashreq árabe. O projeto colonial não se dirigia só à Palestina, mas a toda a região. E foi o povo palestino, vanguarda desta nação, quem pagou o preço com o sangue de seus filhos e triunfou. Hoje, o mundo diz: não só resististe, venceste. E não só como palestino, mas como bandeira da luta contra o fascismo que avança em todas as partes.
Esses são os efeitos históricos do 7 de Outubro.
Entrevistador: Com o chamado cessar-fogo, viu-se uma certa desmobilização em escala mundial. Como analisa isto?
Georges: O que se denomina “cessar-fogo” é uma etapa dentro desse conflito, uma etapa importante. Mas é preciso analisar quais são seus fundamentos reais. O pano de fundo principal é o papel das reações árabes na tentativa de desarmar a resistência.
A preocupação central que sacode o imperialismo é que a luta armada na Palestina produziu um efeito global que não esperavam. O fedayin se transformou no representante do verdadeiro humanismo, o que tornou a cufia um símbolo universal de liberdade e de oposição ao fascismo. Por isso, recorrem a todos os meios possíveis para pôr fim a essa forma de luta. Isso é, na essência, o que está em jogo no chamado cessar-fogo. Dividiram esse processo em três ou quatro fases. A primeira fase consiste em dizer: “lhes permitiremos comer, não conseguimos exterminá-los”.
Logo, propõem uma segunda fase: que, sob cobertura religiosa ou regional, a reação árabe entre em Gaza. Mas para que entre, exigem a presença de forças internacionais destinadas a desarmar os chamados “terroristas”. Nós dizemos com clareza: esse exército não será desarmado. Esse exército é um símbolo de humanidade. Foi esse exército que permitiu que milhares e centenas de milhares de jovens saírem às ruas do mundo levantando a bandeira da liberdade representada pela cufia palestina.
Se essa reação árabe tentar entrar em Gaza, a esmagaremos. E se as forças imperialistas tentarem entrar em Gaza, as enfrentaremos e as destruiremos no pleno sentido da palavra.
As burguesias europeias e globais, sob a pressão das mobilizações populares na Europa, nos Estados Unidos e em escala mundial, começaram a fazer certas concessões no plano discursivo. Hoje, te dizem: podem se solidarizar com a “vítima palestina”, com o povo palestino faminto, assassinado, bombardeado. Isso está permitido. Mas não podem se solidarizar com quem é anti-imperialista.
Podes te solidarizar com a vítima enquanto vítima. Mas que essa vítima se transforme em sujeito histórico, em ator político, isso não: aí, passa a ser “terrorista”. Podes denunciar que um povo está sendo exterminado, podes afirmar que é uma vítima. Mas não tens direito — segundo eles — a solidarizar-te com quem luta com armas para defender esse povo. As forças imperialistas dizem claramente: o verdadeiro problema é que hoje se coloque o anti-imperialismo como uma posição política legítima, com presença real na luta. Essa é a questão que não os deixa dormir. Dizem-te: “Podes solidarizar-te humanitariamente com as crianças, com as mães… mas cuidado, muito cuidado com dizer que existe uma resistência anti-imperialista e que tu te solidarizas com ela. Isso é crime”.
Essa é sua posição. Nós dizemos o contrário. Estas condições históricas que converteram as crianças de Gaza num símbolo universal da liberdade não existiriam sem o 7 de Outubro. Não seriam um símbolo da liberdade se não existissem esses fedayins que carregaram uma bomba e a colocaram sobre um tanque. Só a posição fedayin encarna verdadeiramente o conteúdo do humanismo. Esse “humanismo” que hoje muitos dizem defender não é outra coisa senão a tradução prática do sacrifício desses combatentes que puseram sua vida e seu corpo frente à maquinaria militar.
Os imperialistas, em todas as suas variantes, repetem: “Solidariza-te com a vítima, mas cuidado… cuidado com solidarizar-te com os fedayins anti-imperialistas”.
E nós respondemos com clareza: somos anti-imperialistas porque somos fedayins. E representamos o verdadeiro humanismo porque somos fedayins que praticam a luta armada, na Palestina e fora da Palestina.
Entrevistador: Queremos enviar uma mensagem aos povos do mundo e também à América Latina.
George: A mensagem às e aos militantes da América Latina é clara: estamos numa mesma batalha. O grande temor do imperialismo é que a luta anti-imperialista deixe de ser uma consigna abstrata e se converta numa realidade concreta, legítima e assumida pelas massas. Esse é seu verdadeiro medo.
“Juntos, e só juntos, venceremos”. Nós, junto às e aos militantes da América Latina e de outros lugares do mundo. Isolados, não podemos vencer em lugar nenhum. Se nos fragmentamos, nenhum de nós vencerá. Quando as massas da América Latina se mobilizam por suas próprias reivindicações sob a bandeira palestina, o fazem como parte da luta contra o fascismo. Desse modo, expressam a forma mais concreta e efetiva de solidariedade com os presos da revolução palestina e com cada palestino que luta.
Este princípio não é só um lema. As massas argentinas, palestinas, egípcias, têm interesses comuns frente à barbárie do capital. Quando a massa social na Argentina se mobiliza contra seu próprio fascismo, está defendendo também a Palestina. Cada vitória ali é una vitória aqui. Qualquer triunfo em qualquer lugar do planeta é uma vitória para todos nós.
Cada passo adiante em qualquer ponto do mundo fortalece o conjunto das forças revolucionárias. Quando as filhas e os filhos do povo argentino avançam em suas lutas, esse avanço é também nosso. E cada vitória na Palestina é uma vitória para os povos da Argentina, do Peru e de outros lugares.
As direções reais da massa popular devem compreender que nossas lutas devem se coordenar. Temos que aprender a fazer isso. Cada batalha no Líbano deve ser pensada em relação com uma batalha na Argentina, na Europa ou em qualquer outro lugar. Devemos nos relacionar entre nós como o faz o capital em escala global, mas sem reproduzir suas contradições. “Juntos, e só juntos, venceremos”. Esse é nosso lema hoje, amanhã e depois de amanhã.
Assim construímos a massa popular com interesse histórico na mudança. Essa massa se constrói aqui e ali, e através dessa solidariedade se forja o que chamamos a internacional revolucionária. A defesa da Venezuela, a defesa da Argentina, a defesa da massa popular em qualquer lugar, é uma só e a mesma defesa. Cada vitória em Cuba, na Venezuela, na Rússia ou em qualquer outro ponto do mundo é uma vitória coletiva.
As direções revolucionárias devem levar isto em conta ao definir as prioridades da luta. Nosso inimigo é o capital global; nossos aliados são as massas populares. A massa popular não se constrói à margem da coordenação: se constrói dentro dela, e parte de sua identidade nasce desse processo. O nível de desenvolvimento da luta popular se reflete na natureza de suas direções. Quando predominam direções reformistas, reacionárias ou rendidas, isso constitui uma derrota também para outros povos. Quando há direções revolucionárias na Palestina, isso é uma vitória para a Argentina. Quando, na Argentina, há combatentes revolucionários, isso é uma vitória para a Palestina.
Essa interação é que permite construir uma massa popular global capaz de acabar com o sistema capitalista, um sistema em crise permanente que só pode ser superado mediante sua derrubada pelas massas organizadas. Mas isso não se consegue com discursos abstratos. A massa popular se constrói mediante a prática quotidiana do “juntos, e só juntos, venceremos”. Assim se constrói na Argentina e fora da Argentina. Enfrentá-los é nosso dever: na Palestina e em qualquer lugar. Cada passo aqui é um passo adiante ali. Cada passo ali é um passo adiante aqui. “Juntos, e só juntos, venceremos”.
Isto exige das direções revolucionárias uma posição clara. No plano prático, as vanguardas palestinas e libanesas devem identificar em cada país quem são os verdadeiros combatentes contra o capital e contra Israel, e aliar-se com eles. Não com os discursos vazios das burguesias, mas com os que entregam seu corpo à luta. Esses são nossos verdadeiros aliados, e sobre essa base devemos agir.
Transcrevem-se aqui as palavras do professor, dirigente das Frações Armadas Revolucionárias Libanesas (FARL) e ex-preso político Georges Abdallah. A entrevista traduzida foi realizada em 18 de dezembro de 2025, em Beirute, pelo jornalista argentino Lisandro Brusco e publicada pelo movimento Masar Badil na versão em espanhol de seu site.
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