
Lula e Trump se reúnem na Malásia 26/10/2025 REUTERS/Evelyn Hockstein (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)
A lógica silenciosa da guerra híbrida contra o Brasil num mundo em rearranjo
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Quando o ataque é direto, a soberania unifica. Quando o conflito se disfarça de cordialidade, o desgaste opera por dentro. Trump sabe disso. Por isso evita o confronto com Lula, desloca a pressão para instituições, economia e narrativas e transforma a "boa relação" em instrumento de contenção. Nada é acaso. Tudo é método.
Quando Donald Trump afirma ter boas relações com Vladimir Putin, Xi Jinping, Recep Tayyip Erdogan ou Narendra Modi, ninguém sério entende isso como ausência de conflito. Ao contrário. Trump elogia, respeita e conversa, enquanto sanciona, tarifa, cerca militarmente, bloqueia tecnologia e pressiona aliados. A cordialidade verbal nunca foi sinônimo de conciliação. Sempre foi forma de conduzir o conflito. O erro é tomar o tom pela substância.
Esse padrão é recorrente e verificável. Trump não rompe relações para atacar. Ele mantém canais abertos enquanto age por outros vetores. A guerra comercial contra a China não impediu elogios públicos a Xi. As sanções contra a Rússia coexistiram com declarações amistosas sobre Putin. A pressão sobre a Turquia veio acompanhada de gestos pessoais a Erdogan. A lógica é simples: o conflito não precisa ser anunciado para ser exercido. Ele opera melhor quando não se apresenta como guerra.
É nesse padrão que o caso brasileiro precisa ser lido. Não como exceção, mas como variação. Trump não evita confrontar Lula por simpatia, nem por fraqueza. Evita o confronto direto porque ele sabe exatamente o que o confronto produz quando o adversário ocupa uma posição específica no tabuleiro global. E Lula, hoje, ocupa essa posição.
Aqui está a diferença central. Ao contrário de outros líderes, Lula não aceita o jogo do conflito silencioso. Ele expõe. Ele nomeia. Ele fala em público, nos fóruns certos, diante das audiências certas. Ele chama a falta dentro da grande área, com o estádio cheio e o juiz olhando. Denuncia assimetrias, cobra responsabilidade das potências centrais, defende autonomia e recusa a naturalização da tutela. Isso muda a equação.
Quando Lula confronta, ele não o faz por bravata. Ele faz porque sabe que a disputa central é política, simbólica e estrutural. E sabe que, nesse plano, o silêncio favorece sempre o lado mais forte. O incômodo nasce daí. Não do conteúdo isolado de uma fala, mas do efeito acumulado de expor o jogo diante do mundo.
Trump percebe isso. E não cai. Não transforma o embate em duelo pessoal. Não responde na mesma moeda. Não eleva o conflito ao plano simbólico direto, onde Lula ganha densidade, visibilidade e capacidade de articulação internacional. Ao contrário. Ele absorve o ataque, mantém cordialidade pública e desloca a disputa para onde ela rende mais e custa menos.
Esse deslocamento tem método. O primeiro vetor é institucional. A pressão deixa de mirar o presidente e passa a incidir sobre a arquitetura do Estado. Questiona-se a legitimidade das decisões, constrói-se a narrativa do abuso, acusa-se a Justiça de extrapolar limites. Não é uma divergência jurídica. É uma tentativa de corroer a capacidade soberana de decidir, regular e punir.
O segundo vetor é econômico. Tarifas, ameaças comerciais e instabilidade induzida aparecem como respostas técnicas, não políticas. Esse enquadramento é deliberado. Ele oculta o conteúdo coercitivo sob a linguagem da economia e dificulta a mobilização social. O custo é imposto sem barulho, sem bandeira, sem inimigo visível. Funciona como disciplina material.
O terceiro vetor é narrativo. Ao deslocar o conflito para temas como liberdade de expressão, plataformas digitais e regulação, cria-se uma inversão eficaz. O Estado que regula passa a ser retratado como agressor. A potência que pressiona se apresenta como defensora de princípios universais. Não é necessário convencer a maioria. Basta gerar confusão suficiente para paralisar a reação.
Esses vetores operam juntos. A pressão institucional fragiliza a autoridade do Estado. A pressão econômica desgasta por dentro. A pressão narrativa fornece justificativa moral para ambas. O resultado é um conflito permanente, porém difuso. Sem choque, sem clímax, sem fechamento soberano. É nesse ponto que a normalização se torna mais eficaz do que o ataque aberto.
Por isso Trump mantém o discurso cordial. Não é contradição. É amortecedor. Ele reduz a percepção de agressão externa ao mesmo tempo em que a coerção segue operando nos pontos sensíveis. A ausência de confronto direto não sinaliza recuo. Sinaliza sofisticação. O conflito não diminuiu. Ele apenas se tornou menos visível e mais difícil de enfrentar.
Lula incomoda porque rompe essa lógica. Porque insiste em tornar o conflito legível. Porque expõe o caráter político do que se vende como técnico. Porque recoloca o Brasil como ator, não como variável. Em um mundo em rearranjo, onde a multipolaridade deixa de ser abstração e passa a ser disputa concreta, isso tem peso real.
Transformar Lula em antagonista direto seria um erro estratégico. Isso ampliaria sua estatura, facilitaria a construção de solidariedades e reforçaria sua imagem como liderança capaz de desafiar assimetrias. Trump sabe disso. Por isso evita o duelo. Prefere conter sem personalizar, pressionar sem confrontar, desgastar sem provocar fechamento.
O alerta é simples e urgente. Quando o conflito parece diminuir, ele pode estar apenas mudando de forma. Quando a retórica amacia, a pressão pode estar se reorganizando. Normalização não é paz. Muitas vezes, é a etapa mais perigosa da disputa. Entender isso não é exercício acadêmico. É condição para não ser derrotado sem perceber que a guerra continua.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
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