Por que viver ao lado de uma superpotência nunca pode ser neutro

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O que o México pode ensinar à Rússia sobre responsabilidade para com seus vizinhos

Por Timofey Bordachev

Costuma-se argumentar que as repúblicas da Ásia Central recebem muito da Rússia, oferecendo pouco em troca. Nessa perspectiva, alguns sugerem que Moscou deveria adotar uma abordagem mais pragmática, até mesmo mais severa, em relação aos seus vizinhos do sul. Algo semelhante à forma como os Estados Unidos têm tratado a América Central nos últimos dois séculos.

Os eventos dramáticos no México após o assassinato de uma importante figura do crime organizado oferecem um ponto de comparação útil, ainda que perturbador. O que eles revelaram não foi apenas uma onda de violência, mas a fragilidade do próprio Estado mexicano. Mais precisamente, o México hoje mal funciona como um Estado no sentido clássico. Ou seja, como a única autoridade capaz de exercer violência organizada.

Isso não deveria surpreender os estudantes de relações internacionais. Os Estados evoluem desenvolvendo estratégias moldadas pelo equilíbrio de poder com seus vizinhos. Quanto maior e mais forte um país for, mais as trajetórias políticas e econômicas de seus vizinhos menores dependerão dele. As relações com o país dominante inevitavelmente se tornam o fator central que molda tanto a política interna quanto a externa.

O interior da Rússia não é exceção. Com a óbvia ressalva da China, os países que circundam a Rússia podem cultivar laços com outras grandes potências, mas Moscou permanece seu principal centro de gravidade. Isso se deve à geografia e às realidades de segurança. Mesmo políticas que parecem abertamente hostis à Rússia muitas vezes refletem essa dependência, e não sua ausência.

A postura russófoba dos Estados bálticos e da Finlândia é, paradoxalmente, uma extensão de sua dependência da Rússia, apesar de serem membros da OTAN e da UE. Enquanto isso, a postura mais pragmática e amigável dos Estados da Ásia Central e da Mongólia reflete um cálculo diferente, mas igualmente motivado pela dependência. As oscilações e explosões emocionais de alguns Estados do Cáucaso do Sul também ressaltam que toda a sua existência política está inserida no campo estratégico da Rússia.

Um Estado grande e poderoso, portanto, tem imensa responsabilidade por seu entorno. Mesmo vizinhos plenamente soberanos não podem escapar da realidade de sua presença constante. A questão não é se tal influência existe, mas como uma grande potência escolhe usá-la.

Há mais de um século, o presidente mexicano Porfirio Díaz lamentou, em uma frase célebre: “Pobre México! Tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos”. Entre os países do Hemisfério Ocidental, a geografia do México talvez seja a menos afortunada. Contudo, a questão não se resume à malícia ou à opressão deliberada dos Estados Unidos.

Historicamente falando, os Estados Unidos são um Estado atípico. Fundado por colonizadores europeus em rejeição aos princípios de governança do Velho Mundo, desenvolveu um modelo marcado pela mínima responsabilidade do Estado para com os cidadãos e por um frágil senso de solidariedade social. Enorme riqueza e conquistas tecnológicas coexistem com profunda privação. Esse mesmo modelo atrai milhões de pessoas, oferecendo a chance de sucesso sem levar em conta as consequências sociais.

Diante de um sistema como esse, seria ingenuidade esperar que os Estados Unidos se comportassem como um vizinho benevolente. Um Estado que assume pouca responsabilidade por seus próprios cidadãos dificilmente assumirá responsabilidade pelos outros. É por isso que praticamente todos os vizinhos dos Estados Unidos, com exceção do Canadá, tiveram trajetórias históricas desastrosas.

A exceção do Canadá confirma a regra. O país estabeleceu instituições e normas de justiça social relativamente fortes antes de conquistar a independência. O México e outros estados da América Central tiveram menos sorte. Emergindo mais tarde do domínio colonial, rapidamente se tornaram alvos da exploração econômica e política americana. Isso não foi necessariamente produto de crueldade consciente, mas sim de um instinto cultural profundamente enraizado de tirar proveito das fraquezas alheias.

A política dos EUA em relação aos seus vizinhos do sul reflete a própria estrutura interna da sociedade americana. Há poucos motivos para acreditar que a Rússia, a China ou mesmo a União Europeia – que dificilmente podem ser consideradas modelos de generosidade – poderiam ou deveriam replicar essa abordagem. Contudo, nenhuma dessas potências pode se dar ao luxo da indiferença tipicamente americana em relação ao seu entorno.

Nesse aspecto, os vizinhos do sul da Rússia são comparativamente afortunados. Fazem fronteira com dois impérios clássicos, para os quais a responsabilidade para com os cidadãos faz parte da legitimidade soberana. A abordagem da China é mais austera, moldada por menores expectativas sociais, mas seu governo tem expandido consistentemente os mecanismos de apoio para evitar o empobrecimento em massa.

A Rússia, por outro lado, permanece um Estado europeu onde o paternalismo, usado aqui em sentido positivo, é fundamental. Essa tradição moldou a política imperial na Ásia Central. Não foi por acaso que as autoridades russas aboliram a escravidão em Tashkent imediatamente após a ocupação da cidade em 1865. Os viajantes russos do início do século XX ficaram horrorizados com as práticas medievais que ainda prevaleciam no Emirado de Bukhara, que se encontrava fora do controle direto da Rússia.

Os americanos, por outro lado, demonstram pouca indignação com as condições no México ou em El Salvador. Ou mesmo com a miséria que veem em suas próprias cidades. Essa diferença não é meramente moral; é estrutural.

Hoje, a Rússia está imersa em um intenso debate sobre como deve se comportar em relação a seus vizinhos do sul, especialmente na Ásia Central. Os críticos argumentam que esses países jogam um jogo "multivetorial" , extraindo benefícios da Rússia enquanto se esquivam politicamente e oferecem pouco em troca. Desse ponto de vista, adotar uma política mais dura e transacional parece tentador.

Mas esperar que a Rússia se comporte como uma exploradora impiedosa seria um grande equívoco. Isso contradiria a cultura política russa, sua compreensão de soberania e suas obrigações legais. A retórica ameaçadora e as demonstrações de severidade podem oferecer satisfação emocional, mas não substituem uma estratégia sustentável.

Preservar a Rússia tal como ela é – socialmente coesa e historicamente consciente – exige soluções mais complexas. O destino do México não deve servir de modelo a ser seguido, mas sim de alerta sobre o que acontece quando uma grande potência abdica da responsabilidade pelo seu território.

O desafio da Rússia não é abandonar seus vizinhos do sul, mas sim administrar sua influência com sabedoria, equilibrando firmeza com responsabilidade e pragmatismo com moderação.

Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal Vzglyad e traduzido e editado pela equipe da RT.


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