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Por trás do bombardeio ao Irã está a obsessão norte-americana em barrar a desdolarização do comércio mundial, capitaneada pelos BRICS, e estrangular o principal adversário que ousa vender petróleo em outras moedas
1.
E, então, quais as verdadeiras razões para os EUA terem iniciado essa guerra? Muitos dizem que ele foi forçado por Israel a entrar nela, alguns alegando, infantilmente, até mesmo, chantagens de Benjamin Netanyahu sobre Donald Trump.
Na breve análise que se segue, constataremos que as razões são muito mais complexas.
É um fato inconteste que os EUA e Israel sempre desejaram dominar o Oriente Médio. Prova disso foram os conflitos com o Iraque, com a Libia, com a Síria, com o Iêmen, etc. Qualquer país na região que ameace a dominância dos EUA e o colonialismo israelense será implacavelmente combatido. E a razão por trás disso é clara: petróleo.
No Oriente Médio encontram-se as maiores reservas mundiais do produto. Arábia Saudita (2ª.), Irã (3ª.), Iraque (5ª.), Emirados Árabes Unidos (6ª.), Kuwait (7ª.), Libia (9ª.), Qatar (14ª.), Oman (23ª.), e por aí vai. E note-se que a razão da intervenção ocorrida recentemente na Venezuela também foi por causa de petróleo (1ª. reserva mundial). Controlar as reservas mundiais de petróleo dessa região é uma estratégia que foi claramente explicitada pelo Diretor Executivo Jared Aen, Diretor do Conselho Nacional de Dominância Energética, entidade recém criada por Donald Trump.
Mas, por que razão os EUA estão empenhados em dominar as reservas do Oriente Médio se eles mesmos são, de longe, os maiores produtores mundiais de petróleo? Ver tabela.

2.
A resposta é de uma clarividência solar: para manter o dólar dos EUA como a moeda de referencia do planeta! Para manter vivo o sistema de petrodólares que viabiliza a dominância do dólar no comércio e finanças mundiais. Para os desalinhados, imposição de sanções ilegais, majoritariamente na esfera do sistema financeiro internacional, dominado pelos EUA.
Como é sabido, de uns tempos para cá, começou no mundo um movimento de desdolarização do comércio internacional, primeiramente, capitaneado pela Rússia, por força das sanções a ela impostas pela guerra da Ucrânia e, posteriormente, como parte da agenda dos BRICS. Donald Trump, por diversas ocasiões, alertou aos países do BRICS que imporia tarifas de 100% sobre suas exportações para os EUA caso não mantivessem seu comercio 100% dolarizado.
O BRICS ganhou relevância e aumentou de tamanho com a adesão de inúmeros novos países além dos cinco fundadores (Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul). Irã foi o novo membro que, por força das sanções impostas a ele pelos EUA, impulsionou a desdolarização e a criação de uma nova moeda de reserva internacional, promovendo relevantes operações de comércio em moedas locais.
Temos, portanto, duas razões básicas para a obsessão dos EUA em dominar o Oriente Médio: petróleo (a commodity mais importante do planeta) e o dólar (como moeda de reserva global). O sistema de petrodólares criado em 1974 num acordo entre Arabia Saudita e EUA garantiu que todas as exportações de petróleo do Oriente Médio fossem pagas exclusivamente em dólares. Os excedentes seriam parqueados nos bancos, na bolsa e nos títulos do tesouro dos EUA, servindo para equilibrar o significativo déficit da economia americana com o resto do mundo. Em troca, os EUA forneceriam segurança militar (construção de bases militares) e equipamentos.
O dólar como reserva mundial e o sistema dos petrodólares tem favorecido por décadas as elites financeiras mundiais, que reciclam seus excedentes em dólares em ativos financeiros norte-americanos (ações, bonds, fundos imobiliários, opções, derivativos, hedge funds, etc.). Os europeus detêm USD 15 trilhões de ativos norte-americanos, os asiáticos detêm USD 10 trilhões de tais ativos e os países do continente americano detém USD 5 trilhões. Prova disso é que o mercado de ações norte-americano representa 60% do mercado de ações mundial. Nesse pujante mercado acionário dos EUA os 10% norte americanos mais ricos detêm 90% das ações.
Atualmente, 80% das exportações de petróleo são dolarizadas e apenas 20% exportados pela Rússia e Irã são pagos em outras moedas. Venezuela por vezes vendeu petróleo para a China pagos em yuan, mecanismo que foi suspenso.
Outro aspecto que ajuda a entender a obsessão norte-americana em dominar os países do Oriente Médio é o fato da China ser o maior importador de petróleo do mundo, com elevada dependência de importações de petróleo barato da Rússia, Irã e Venezuela. O fechamento das portas venezuelana e iraniana teria um impacto negativo no crescimento econômico chinês e, como sabemos, o bloqueio da China é outra, senão a maior, obsessão norte-americana.
Por fim, não deve ser subestimado o importante papel de resistência do Irã contra o imperialismo norte-americano e colonialismo israelense, inclusive apoiando o Hezbollah e Hamas. Os ataques do Irã a países vizinhos que hospedam bases militares norte-americanas podem descambar na regionalização do conflito, envolvendo até membros do BRICS (Irã e UAE).
Deve ficar claro que por décadas os EUA vêm gestando um conflito com o Irã, independentemente de Israel. Fica a dura lição: a dominância do dólar no mundo vale forte oposição, sanções e até mesmo invasões contra quem não se submeta.
*Marcos de Queiroz Grillo é economista e mestre em administração pela UFRJ.
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